Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]

A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]

A Minha Mãe Queria que Eu Fosse Tão Elegante como o Meu Pai

A minha mãe olhava para mim e dizia Porque é que não és como o teu pai?, mas não para ser ele, ou ser parecido com ele, mas para ser mais como ele.
O meu pai era elegante. Sempre de fato. Calças, casaco, camisa, gravata e, às vezes, até colete. Usava botões-de-punho. Tinha vários diferentes, para as diferentes camisas e diferentes ocasiões. Eu poderia tentar explicar como é que determinado botão-de-punho era para determinada camisa. Mas não sei. É uma ciência que me transcende. O meu pai sabia. E tentou ensinar-me. Mas não tive ouvidos.
O meu pai fazia a barba todos os dias de manhã. Eu acordava, geralmente, com ele a fazer a barba. Fazia quase sempre com lâminas. Pincelava a espuma na cara e depois raspava. Quando estava com muita pressa fazia à máquina, mas não gostava. Dizia que Não fica como deve ficar. Depois massajava-se com after shave. Um dia ofereceu-me uma navalha para a barba. Nunca a utilizei. Não sei utilizar. Era raro que ele utilizasse mas, uma vez, fez-me a barba a mim, com a navalha. E depois colocou-me um pano quente sobre a cara acabada de ser escanhoada. Deve ter sido a última vez que a minha cara ficou livre de pelos.
Nunca vi o meu pai usar calças de ganga. Aquelas que até Primeiros-Ministros de países do Primeiro Mundo usam quando visitam países do Terceiro Mundo. Muito menos calções. Calções de banho, sim. Nas poucas vezes que foi à praia.
Também nunca vi o meu pai calçar sapatilhas. Muito menos ténis. Talvez tenha usado alpercatas nos tempos de mocidade, mas nem ele se devia lembrar de tal heresia.
De Inverno usava, geralmente, uma gabardina ou um sobretudo sobre o fato. Gabardina em dias de chuva ou de vento. Sobretudo em dias frios. Cheguei a roubar-lhe algumas gabardinas. Principalmente na minha fase urbano-depressivo. Gabardinas de três-quartos. Escuras. Cinzento escuro.
Nunca usou botas. Sempre sapatos. Sapatos de sola. Nunca de borracha e muito menos de plástico. O que me complicou a vida quando quis comprar umas Doc Martens.
De Verão usava calças mais leves, mas sempre impecavelmente vincadas pela minha mãe, e camisas leves de manga comprida. Não usava mangas curtas e, no Verão, prescindia da gravata. A não ser que usasse casaco por algum motivo e, então sim, usava gravata. Nessa altura usava uns sapatos mais leves, com uns furinhos em cima, no couro, a formar desenhos.
O meu pai usava óculos. Óculos de ver. E em toda a vida, deve ter mudado de armação, não mais de quatro vezes. É aqui que sou mais parecido com ele. Agora também uso óculos para ver que estou a ficar velho e os livros que fui lendo ao longo da vida gastaram-me a vista, mas sempre usei óculos de sol, que tenho uma vista com muita sensibilidade à luz. A iluminação branca, fluorescente, dá-me nervos e é capaz de me levar a cometer actos de loucura. E em toda a minha vida devo ter usado quatro ou cinco armações diferentes.
Em casa o meu pai usava roupão por cima do pijama. Eu nunca uso pijama. Já usei quando a minha mãe me obrigava. Quando deixou de me conseguir obrigar, deixei de usar. Gosto de boxers. E t-shirt. E, na hora de dormir, nem uso um pingo de Channel 5. E roupão, foi coisa que nunca usei na vida. Faz-se sentir preso. E eu não gosto de me sentir preso.
A última vez que entrei em casa da minha mãe ela perguntou És tu, menino?, e eu disse Sim, sou eu!, e ela perguntou-me se por acaso eu era algum menino. E disse-me Senti logo, pela falta do after shave, que não era o teu pai. E quando te vi assim, maltrapilho, nessas calças de ganga todas ruças, nessa camisola que já deve ter sido um dia, há muito anos, branca – quem é que te lava a roupa? podia por um bocadinho de lixívia para desencardir -, e com essas sapatilhas todas sujas e rotas – como é que consegues andar assim, meu Deus? – percebi logo que não era o teu pai. Que desgosto, filho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/21]