Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

Ainda Há Pessoas Normais

Estava num restaurante da baixa a jantar. Num daqueles restaurantes pequenos, com poucas mesas, e as poucas mesas existentes estão tão encavalitadas umas nas outras que duas pessoas que não se conhecem e que estão a jantar em mesas separadas parecem estar a jantar uma com a outra e a trocar segredos íntimos.
Mas é um restaurante de comida caseira, feita por uma senhora já de certa idade que de vez em quando espreita pela guarita da cozinha para ver o andamento da sala, e que tem a vantagem de ser barato.
Estava a jantar sozinho, como quase sempre, enquanto ia espreitando o telejornal que passava na televisão pendurada no alto da parede em frente.
Ao meu lado estava uma senhora a jantar com a filha e, nessa noite, a mesa do lado roubava-me a atenção e nem conseguia ligar à tragédia grega que estava a tombar sobre os arredores de Atenas.
A senhora andaria pelos quarenta anos. Ainda jovem. Bonita. Bastante atraente. A filha não teria mais que os doze, treze anos. Adolescente. Rebelde. E estavam em guerra.
A miúda pedia Oh, mãe, corta-me a carne, ao que a mãe respondia Corta tu. A miúda agarrou no bife com as duas mãos e começou a comer assim, com o bife nas mãos, a metê-lo na boca, a tentar rasgá-lo com os dentes mas a não conseguir grandes resultados. A carne tinha nervo. A comida era caseira mas às vezes não era grande coisa.
Quando a mãe viu a figura da filha à sua frente, de bife esticado entre os dentes e as mãos, deu uma palmada rápida e funcional na mão da miúda que deixou cair o bife no prato enquanto gritava um sonoro Ai!. Claro que não doeu nada que eu vi que a palmada foi mais um ligeiro toque que uma verdadeira palmada. Mas a miúda tinha de se fazer ouvir. Afinal era a vítima.
Olha a badalhoquice que estás a fazer!, disse a mãe enquanto olhava para mim a ver se eu não estava a ligar nada aos incidentes do lado. Eu não consigo cortar a carne, guinchava a miúda, embirrenta. Já tens idade para ir ao cinema com o teu namorado, também tens idade para cortar o bife, ou se fores jantar com ele também lhe pedes para te cortar a carne?, retorquiu a mãe. Como sopa!, respondeu certeira a filha.
Eu não consegui evitar uma gargalhada tão forte e imediata que acabei por cuspir um bocado de arroz que tinha na boca.
A mãe revirou a cara maldisposta para mim. Censurou-me.
Eu estava parvo, completamente hipnotizado pela conversa delas. Com pena da mãe. Mas a achar piada à filha. Já tinha esquecido a tragédia dos gregos.
A miúda lá voltou a pegar no talher. Mas ela agarrava ao contrário. A faca na mão esquerda. O garfo na mão direita.
E eu pensei Então, pá?
E a mãe disse Então, rapariga?
E a miúda disse Então?!
É que não me dá jeito de outra maneira, continuou. E a mãe disse Não vimos mais aqui jantar!. Depois esticou os braços e, com o seu talher, acabou por cortar o bife à filha.
Eu acabei de jantar. Bebi um café. Levantei-me e paguei ao balcão. Saí.
Já na rua pensei Nem sei o que pensar!. Mas sorri. E o sorriso tornou-se gargalhada.
Aquilo pôs-me bem disposto.
Afinal ainda há pessoas normais.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/24]

São Cinco da Manhã e Estou Acordado

Lá vou eu.
Cinco da manhã. Podia estar a sair de um dos quaisquer sítios fixe da noite. No caso, da noite leiriense.
Cinco da manhã e podia estar a sair da Stereogun, a nova casa nocturna que promete agitar a movida musical da cidade.
Cinco da manhã e, depois de um belo concerto dos Moonspell (não terei dúvidas quanto a isso!), abraçado a duas belas e roliças moças, estaria a arrancar a pé, para curar a bebedeira, subir a Avenida Vinte e Cinco de Abril, se não errar no nome, avenida que contorna o belo estaleiro futebolístico municipal desenhado pelo colorido Tomás Taveira para dois jogos do Europeu de Futebol de-já-não-sei-quando, para o qual nos prometeram mundos-e-fundos, todos foram a favor, da mesma forma que hoje todos foram contra, e que, depois disso, serviu para uns quantos jogos da União Desportiva de Leiria, a colectividade mais representativa da cidade, que o Leiria e Marrazes fica do outro lado do rio e por isso já não conta, isto até a colectividade ficar de candeias-às-avessas com a edilidade por questões fundamentais e pertinentes que se prendem com dinheiro, acho, e de ainda servir para alguns outros eventos de atletismo que até ajudam a colocar enormes telas plásticas pela cidade (não sei o que raio é que a cidade tem com a indústria das telas de plástico que elas andam por todo o lado!), o que a embeleza de sobremaneira e é mais barata que a estatuária, mas, como estava a dizer, estava eu a subir a Avenida Primeiro de Maio (é assim que se chama a avenida?) agarrado a dois matulões ainda mais bêbados que eu, para ir terminar a noite na primeira pastelaria a abrir madrugada fora na cidade (desculpem mas não me lembro do nome da pastelaria, estou a olhar para o letreiro mas vejo tudo desfocado): Ora, se faz favor, é uma sandes de fiambre, cortado fininho, com manteiga, e atenção, não quero margarina, e um galão de máquina, escuro e com leite frio, afinal transformado numa Bola de Berlim cheia de creme e açúcar e uma média, que acabei por ir vomitar à rua depois de me ter feito andar o estômago às voltas.
São cinco da manhã mas, afinal, estou sentado numa cama, bem quentinha por sinal, de novo acordado, não sei porquê, eu que passo os dias a dormir para recuperar o tempo perdido, e estou a olhar para a lombada do Ulisses. E penso: não, não te vou ler, não te li quando era novo, não te vou ler agora que começo a ficar velho, vou-te deixar para as novas intelectualidades da cidade que, com certeza, estarão com muito mais arcaboiço para mostrar serviço que eu.
São cinco da manhã, estou acordado, sinto a chuva lá fora, e só quero que não me chateiem.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/15]