Jesus Cristo no Tecto da Sala

O senhorio não quis renovar o contrato. Tenho de sair daqui de casa. É sempre estranho cada vez que tenho de sair de casa. Parece que estou a deixar bocados meus para trás. Afinal, a casa era minha. Era minha até ao final do contrato.
Tenho de voltar a encaixotar tudo outra vez. Cada vez mais sinto vontade de não o fazer. É um drama. Voltar a carregar os livros dentro de caixotes que se vão romper com o peso dos livros que vão cair no chão e dobrar capas, os cantos das folhas, eventualmente rasgar páginas. Vou carregar com caixotes para os quais não vou ter força. Por vezes apetece-me mandar os livros todos para o caralho.
Olho para o móvel onde estão ordenados. Olho para os caixotes vazios. As roupas é só enfiar nas malas. Os discos e os filmes já vão nos discos externos. Mas os livros!… Os livros são o cabo dos trabalhos para serem transportados ao longo de uma vida de saltimbanco. Nem quero pensar nos livros que já fui deixando para trás. Em todas as outras casas por onde passei. Até fico doente.
Acendo um cigarro. Deito-me no chão da sala. Olho o tecto. Descubro umas teias-de-aranha. Decido que já não tenho de me preocupar com estas limpezas.
Sinto comichão nas costas. Meto a mão debaixo de mim e coço-me. Sinto uma coisa a mexer. Agarro-a. Uma barata. Esmago-a com o polegar contra o chão. Ouço um barulho obsceno, um crack, enquanto a barata é esmagada. Ela desfaz-se numa pasta nojenta. O polegar fica sujo. Limpo-o às calças. Com o cigarro aceso, queimo as antenas da barata. Ela já está morta. As antenas vão-se queimando. Cheira-me a queimado. Não sei se o cheiro é do cigarro se das antenas da barata.
Apago o cigarro no chão da sala.
Tenho vontade de largar estes livros todos pela varanda abaixo.
Queria ser livre. Pular de casa em casa sem me preocupar com o que tenho de levar às costas. Foi isto o que a escola nunca me ensinou. Como viver uma vida de arrendamento em arrendamento? De aluguer em aluguer? Viver a vida ao pé-cochinho, ora assim, ora assado.
Vejo as lombadas dos livros. Há pequenas ilhas que identifico logo. Pela cor e pelo conjunto. Não, já não consigo ler nenhuma lombada daqui. Estou muito longe para conseguir ler. Os óculos que uso são para ler de perto. Mas identifico aquelas colecções. Ali, na quarta prateleira, mais para a direita, estão os livros do Philip Roth. Todos os livros que a Dom Quixote editou em Portugal. Pena que tenham andado sempre a mudar de capas. Há umas hardcover. Outras softcover. E nas softcover há géneros diferentes de capas. Cabrões do caralho! É só para me chatear! As capas que gosto mais são as coloridas. Capas softcover de cores vivas. Aquela vermelha do Casei com um Comunista é um mimo.
Acendo outro cigarro.
Naquela prateleira, do outro lado, vejo a colecção completa, mais uns livros especiais com capas desenhadas por outros artistas e dois volumes que compilam os trabalhos jornalísticos de Spider Jerusalem ao longo da série Transmetropolitan de Warren Ellis e Darick Robertson. Uma graphic novel fabulosa. Política. Agressiva. Muito violenta. Um pouco mais atrás a colecção completa do Sandman de Neil Gaiman.
É disto que me quero desfazer?
Não consigo. Vou ter de arrastar estes livros todos comigo até ao fim dos meus dias. E hei-de chorar todos os outros que fui deixando lá por onde passei. Espero que tenham servido a alguém. Espero que tenham sido lidos. Que tenham sido lidos como eu os li.
O borrão queimado do cigarro tomba sobre mim. Sobre o meu peito. Vejo-o queimar a camisola. Depois sinto-o queimar-me a mim. Mas não me queixo. Apago o cigarro no chão da sala, ao lado do outro.
Bom, vou levantar-me e começar a encher os caixotes.
Mas não me levanto.
Decidir é mais fácil que fazer. Eu decido muitas coisas. Tenho decidido muitas coisas ao longo da minha vida. E ainda ando para aqui. De casa em casa. À espera de parar. Como se acabassem as fichas dos carrinhos de choque. E eu tivesse de ficar dentro do carrinho à espera que me lá fossem buscar.
Fico deitado de costas no meio da sala. Cruzo as mãos atrás da cabeça. Olho de novo o tecto. Para além das teias-de-aranha, vejo umas rachas, umas manchas. Uma delas parece-me a cara de Jesus Cristo, exactamente como eu conheci no colégio das freiras. Rio-me. E penso que o senhorio vai ter de pintar a casa toda.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/03]

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Um Pau à Cabeceira da Cama

Acordo a meio da noite com o vento a fazer bater as portadas das janelas. Acordo assustado com todo este barulho. São quatro da manhã. O silêncio da casa e a hora tardia da madrugada tornam tudo muito mais assustador.
Abro os olhos e aguardo que se habituem à pouca luz. Tenho o quarto na penumbra, iluminado apenas com a pouca luz que chega da rua pelas janelas abertas. Não tenho persianas. Não tenho cortinados. Tenho portadas de madeira que esqueço sempre de prender. E o vento fá-las bater na parede da casa e nas janelas. Um som seco. Pam-Pam. Pam-Pam.
Os olhos habituam-se àquela penumbra que me chega da rua. Vejo as sombras que se deslocam pelas paredes e pelo tecto do quarto. Talvez uma deslocação de luzes no exterior. Talvez um movimento de alguém lá fora. Talvez o cão. Os gatos. Talvez lá ande mesmo alguém. Ou talvez esteja só a sonhar.
Levanto-me da cama. Esfrego os olhos. Estou nu. Descalço. Pego no pau que tenho à cabeceira da cama e vou até à janela do quarto. Olho lá para fora.
O vento está forte. As árvores parecem dobrar. As árvores parecem quase partir. As árvores parecem querer levantar voo.
As portadas continuam a bater.
Não me atrevo a abrir a janela.
Agarro com mais força no pau. Acho que vejo alguém a mover-se lá fora. Com o vento. Furtivamente. Tento focar os olhos no exterior. Mas é difícil.
Saio do quarto. Em silêncio. Nu. Descalço. Percorro toda a casa. Levo o pau na mão. À cautela.
As portadas de todas as janelas continuam a bater furiosamente. Pam-Pam. Pam-Pam. O barulho amedronta-me. Mas não o suficiente para me fazer abrir as janelas e prender as portadas.
Passo na casa-de-banho. Aproveito para urinar. O som da urina a cair no fundo da retrete é abafado pelo vento lá fora, na rua.
Regresso ao quarto. Sinto uns pingos de urina a caírem-me na perna enquanto caminho. Não me sacudi o suficiente. Estou sonolento. Quero dormir.
Enfio-me na cama. Tapo-me até ao pescoço com o edredão. Olho para o tecto. Vejo as sombras a passear por lá. Tento fechar os olhos mas não consigo. Estou cansado mas não consigo fechar os olhos. Acho que estou com medo. Estou sozinho em casa. No quarto. Na cama. E estou com medo. Sei que é estúpido, este medo. Sei que não há razão para estar com medo. Sei que não há ninguém lá fora. Só o vento. Só o vento e o barulho que o vento provoca. Mas estou deitado na cama com o pau na mão.
Sinto uma presença num canto do quarto. Tento espreitar. Reviro os olhos. Acho que vi um movimento. Talvez uma barata? Um rato?
O medo veio da rua para dentro do quarto. Agarro o pau com mais força.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/14]

Um Dia que Até Tinha Começado Muito Bem

Um ano depois volto a ter aspirador. Depois de tantos meses a varrer a casa. Depois de tantos meses a respirar o pó da casa. A engolir o cotão. A sobreviver a ataques de asma. Depois de tantos meses a maldizer o aspirador e as avarias que consomem os novos electrodomésticos construídos para serem substituídos ao fim de alguns meses, numa febre-Ikea. Depois de tudo isso. Depois de tanto azucrinar-me a cabeça. Depois de tanta Merda! e Caralho-Foda-se! que gritei. Depois de tudo isso descubro que, afinal, o aspirador estava entupido.
Estava para levá-lo para o lixo. Estava a ocupar a casa. Estava, feito mono, deitado no chão da dispensa que, na verdade, não o é. Estava lá, abandonado. Peguei-lhe. Espreitei pelo tubo, coisa que pensava já ter feito. Espreitei e não vi nada. Não vi nada do outro lado. Enfiei o cabo da vassoura. Prendeu. Forcei. Forcei mais. Rompeu do outro lado. Uma bola de pêlo. De pêlos e fios e cotão e nojo, tudo enrolado numa bola de pêlo.
Fiquei contente. Fui experimentar. Aspirei a casa. Aspirei a casa toda. Tapetes e carpetes. Casa-de-banho e cozinha. Até a varanda.
Estou a transpirar. Estou cheio de calor. Mas estou satisfeito. Tenho a casa limpa. Bom, limpa, limpa, não. Está aspirada. O que é melhor do que tem estado. Estou cansado. Sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Mas agarro num cinzeiro. Não quero borrões de cinza caídos numa casa acabada de aspirar.
Fiquei com fome. Decido. Acabo o cigarro e vou almoçar. Aqui em baixo. Há uma pequena tasca aqui em baixo. No rés-do-chão de casa. Comida caseira. Acho. Barata.
Acabo o cigarro. Apago-o no cinzeiro. Vou à casa-de-banho. Olho em volta e não vejo os pêlos da barba nem os cabelos em queda espalhados por lá. Também estou sem óculos, é certo. Lavo as mãos. Lavo as mãos e a cara. Espanto a transpiração com um sabonete da Ach. Brito. Gosto do cheiro que me deixam.
Desço ao rés-do-chão. Vou de elevador. Está a funcionar. Estão os dois a funcionar. Parece um dia de festa. Tenho de jogar no Euromilhões.
Entro na tasca. Hoje há bife de cebolada com puré de batata e petinga frita com arroz de tomate. Opto pela petinga. Mas arrependo-me. Afinal, a petinga está toda oleosa e mole. O arroz de tomate está empapado. Fico um desconsolo. Salva-se o vinho tinto. Uma zurrapa de pacote de cartão. Doce. Mas bate. É o que preciso. Que bata. E bate. Relaxo. Estou na esplanada. Na pequena esplanada debaixo de um corredor exterior de arcos. Gosto de sentir o frio. Já me passou a transpiração. E acabo por continuar a comer aquelas petingas oleosas e o arroz empapado. Não desperdiço comida.
E é então que ouço o craque. Primeiro ouço o craque e depois percebo que parti alguma coisa na boca. E percebo, logo, o que foi. Foda-se!-Caralho!, penso. Mas não digo. A placa. A placa dos dentes. A placa de baixo. Em cima não tenho placa. Ainda tenho os meus dentes. Ao trincar a cabeça de uma petinga mole e mal enjorcada, parti a porra da placa.
Olho para o relógio. Duas da tarde. Ainda não deve haver ninguém no dentista. Disfarçadamente, retiro a placa para o guardanapo de papel. Estou envergonhado. Muito envergonhado. Levanto-me e vou ao interior, ao balcão, pagar. Quanto devo?, pergunto. Com a mão a tapar a boca. Com a mão a disfarçar a falta de dentes na parte de baixo da boca. Tenho dificuldade em falar. Tenho dificuldade em soletrar as palavras. Pago e voo para casa.
Entro em casa e sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Penso Quanto custará arranjar isto? Olho de novo o relógio. Duas e cinco. Ainda é cedo para o dentista. Ou se calhar não. Posso telefonar para lá. E quanto é que me custará arranjar isto? Não. Prefiro lá ir. Directamente. E digo alto, para me ouvir, Quanto é que terei de pagar por esta merda?
O dia até que tinha começado muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/12]

É Drogado, Não É? Coitadito!

Regresso ao tédio de Domingo. Nada de fugir ao que conheço bem. Acordei tarde, já o sol estava lá no alto. Levantei-me ainda mais tarde. Arrastei-me para a casa-de-banho. Foi por ela que me levantei. Se não, teria ficado deitado, debaixo do edredão, tapado até às orelhas, só com os olhos de fora a olhar um bichinho que cruzava o tecto. Não sei que bicho era. Talvez uma aranha. Uma barata. Desapareceu enquanto fui à casa-de-banho.
Passei pela cozinha. Abri o frigorífico. Um cheiro insuportável. Um pacote de leite estragado. Não sei porque insisto em comprar leite e abrir os pacotes. Não bebo leite. Não gosto de leite. Depois lembro-me. O gato. Compro leite para o gato. E penso O gato? Onde anda o gato? Chamo-o Bsch, bsch, bsch! mas não aparece.
Agarro numa maçã. Está podre. Trinco num lado bom, mas está com cheiro a bafio. Deito-a no lixo. Olho à volta. Não tenho mais nada para comer. Na fruteira há um maço de cigarros. Acendo um. Vou até à varanda fumar o cigarro. Descubro lá o gato. Está morto. Deixei-o lá fechado há vários dias. Não tenho aberto as janelas. Nem a varanda. Tenho andado como tédio domingueiro durante a semana. Devo estar com algum problema. Devia ir ao médico. Ao psiquiatra. Talvez ao psicólogo. Preciso de falar com alguém. Ser interlocutor de mim mesmo já não está a funcionar. Agarro no gato pelo rabo e pergunto O que é que faço a isto? Olho para a varanda em frente. Estão no Algarve. Lanço para lá o gato. Ainda bateu com a cabeça no varandim. Porra! Mas acabou por cair lá para dentro. De qualquer forma já estava morto.
O cigarro morreu-me na boca sem eu ter percebido que estava a fumar. Deito a beata fora. Acendo outro. A ti vou-te saborear. E debruço-me no varandim a olhar a rua lá em baixo enquanto fumo o cigarro da manhã já perto da hora do lanche. O céu está a escurecer. Não gosto de acordar a estas horas e ver o dia a morrer. Deixa-me angustiado. Deprime-me. Acho melhor voltar para a cama. Deixar-me adormecer. Acordar de noite. Quando já não houver dia nem sol nem angústia pela luz mortiça para me entristecer.
Regresso à cama. Tapo-me com o edredão. Os olhos procuram o bichinho no tecto mas já não o encontro.
Agora não páro de pensar que tenho fome. Podia mandar vir uma pizza, mas estou sem crédito no telemóvel. Tenho de ir à rua. Tenho de sair. Oh, que merda!
Afasto o edredão de cima de mim. Calço umas calças de fato-de-treino. Enfio os chinelos nos pés. Ponho uma camisola com capuz na cabeça. Saio do quarto. De casa. Do prédio. Entro na rua. No café. E peço Quatro pães da avó! No café toda a gente olha para mim. Finalmente um pouco de atenção na minha vida.
Depois percebo que não trouxe dinheiro. A rapariga fia-me. Gosta de mim. Amanhã venho cá pagar, digo. Mas não sei se amanhã não é outra vez Domingo. A minha cabeça não anda bem. Ela acha que todos os dias são Domingo. O meu corpo obedece-lhe. Eu também. É um tédio que se instala por cá e não quer sair. Eu saio do café e percebo os olhos de toda a gente nas minhas costas. É drogado, não é? ouço alguém perguntar lá dentro. Coitadito.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/16]