Com Frio e sem Poder Entrar em Casa

Estou gelado. Estive duas horas sentado no café à espera dela. E não apareceu. Bem… Não sei. Pode ter aparecido depois de me ter vindo embora.
Ao chegar ao café, despi o casaco e sentei-me. Pedi uma bica e pus-me à espera.
Acabei por agarrar-me ao telemóvel e, entre Facebook, Instagram, Flickr, Pinterest, Tumblr, Twiter e Messenger, acabei por ficar sem bateria.
Pedi outro café.
Estalei os dedos das duas mãos.
Alisei as unhas das mãos utilizando os dentes como uma espécie de lima.
Comi as peles dos cantos dos dedos.
Revi, mentalmente, os vencedores dos Oscars de 2018. Ainda os tinha bastante presentes na memória.
Percebi que ela já não vinha.
Levantei-me. Larguei umas moedas na mesa e vesti o casaco. E foi quando vesti o casaco que percebi que estava cheio de frio. Estava gelado. Tremi. Tinha estado ali duas horas a acumular frio e agora percebia-o todo de uma vez.
Saí do café e pus-me a andar rápido para ver se aquecia.
A meio da rua parei. Para onde é que vou?, inquiri-me. E, por momentos, não sabia qual o meu destino. Depois lá percebi e disse, sonoro, Casa!
Recomecei a andar. Os dentes começaram a bater uns nos outros. Eu ouvia o barulho que eles faziam a bater uns nos outros. Senti um arrepio a subir pela coluna acima.
Começou a chover.
Puxei as golas do casaco para cima e disse uma asneira qualquer. E olhei para o céu com cara zangada.
Comecei a ficar encharcado.
Tentei correr, mas a perna direita estava machucada e não me permitia grandes saltos.
Os dentes continuavam a bater uns nos outros. Sentia-me gelado e, para me distrair do frio, comecei a programar os meus passos para quando abrisse a porta da rua e entrasse em casa.
Tirar o casaco e as botas; despir as calças e o resto da roupa; tomar um banho bem quente de duche; secar-me; vestir o pijama de flanela; acender a lareira; encher um copo de vinho tinto; levar uma bandeja com uns queijinhos e um naco de pão para a sala e assistir ao telejornal.
Depois levantei o braço para ver as horas e perceber se ainda ia a tempo de ver o telejornal.
E, de repente, parei debaixo de toda aquela chuva.
As chaves. Não tinha as chaves de casa. Era por isso que me ia encontrar com ela no café. Ela tinha umas chaves minhas e ia devolvê-las para eu poder entrar em casa.
Ela não tinha aparecido.
Eu não tinha chaves.
Não conseguia entrar em casa.
A chuva continuava a cair-me em cima. Sentia-me frio. Gelado. Parecia congelar.
E fiquei sem saber para onde ir. O que fazer.
Fiquei parado ali, no meio da rua, sem conseguir mexer-me, sem saber o que fazer.
E agora?, dizia para mim próprio.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/11]

Aconteceu de um Momento para o Outro

Caminho devagar por entre os carros que esperam ansiosos em cima do passeio.
Empurro com alguma dificuldade o meu carrinho de supermercado pelas pedras da calçada portuguesa.
As sapatilhas rotas sentem as pedras e a falta delas. Felizmente não está a chover e não molho os pés.
Gostava de tomar um banho quente. De me lavar como deve ser. De cortar o cabelo. De fazer a barba. De vestir roupa lavada. De sentir um cheiro agradável.
Não sei há quanto tempo ando por aqui assim. Aconteceu de um momento para o outro. Num momento estava bem e no outro estava mal. Num momento tinha casa e no outro deixei de conseguir pagar a renda. Foi um abrir e fechar de olhos até chegar à rua. No início foi difícil. Mais pela vergonha. Toda a gente me conhecia. Mas deixaram de me conhecer. Toda a gente me cumprimentava, sabia quem eu era. Agora não me vêm. Aconteceu tudo muito rápido. Quando dei por mim, estava sem nada. Nem trabalho tinha. E depois, depois de tudo começar a acontecer, as coisas só tendem a piorar. Descer é fácil e rápido. Subir é quase impossível.
Esqueci a família, os amigos. É verdade que também os evito. Não quero vê-los. Não quero que me vejam. Só queria que o tempo passasse rápido e a vida passasse rápido e a morte chegasse rápido. Não tenho objectivo. Não sei porque acordo a cada dia. Nada me move. Nada me motiva. E nada é nada. Porque tento esquecer. Enterrar bem fundo na memória as coisas que podem magoar.
Agora que se aproxima o Natal elas têm tendência para subir pela cabeça acima e fazer-me recordar coisas que me fazem doer e eu não quero. Por isso bebo. Enquanto estou entorpecido não me lembro do que quero esquecer.
Nestes últimos dias tem estado frio. Muito frio. E muita humidade. Este frio húmido parece facas a espetarem-se no meu corpo. Tenho procurado vãos de escada para não ficar na rua, mas os prédios tendem a ter as portas da rua fechadas por causa dos assaltos.
Ultimamente tenho conseguido coisas boas para comer nos caixotes de lixo do McDonald’s e do Pingo Doce. Ao início faz um bocado de confusão. Depois habituamos-nos. Não me faltam as proteínas.
Hoje vi um homem sentado à entrada do Pingo Doce com um cartaz onde pedia um trabalho qualquer. Mas ninguém lia o cartaz. Uma miúda ainda lá deixou cair uma moeda ao pé do cartaz, mas foi só. Eu passei por lá e deixei-lhe um iogurte que ainda não tinha passado muito tempo fora do prazo. Ele olhou para mim e os seus olhos agradeceram.
As pessoas andam atarefadas com a noite da consoada, com os jantares de família, com os presentes para os amigos e para os entes queridos e com o enorme trabalho que isso obriga. E não têm tempo.
Eu, eu podia vender-lhes um pouco de tempo. É o que tenho para vender. É o que me resta.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/22]