Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

Na Livraria

Houve uma época em que trabalhei numa livraria. Foi uma época de que gostei especialmente, não tanto pelo trabalho, mas por estar rodeado de livros.
Gostava de cheirá-los. Ler as contracapas, mesmo as dos livros que à partida não me interessavam. Folheá-lhos. Pegar neles e ser o primeiro a roubar-lhes a frescura da novidade.
Havia dias em que agarrava um livro, um livro qualquer, um livro que nem sabia o que era, mas que me agarrava, o livro agarrava-me a mim, e eu esquecia onde estava. Esquecia a loja, os outros livros, o trabalho, os clientes. Nem ouvia as pessoas entrar na loja e quando chegavam e me dirigiam a palavra, irritava-me com elas por me interromperem a leitura e chegava a mandá-las Para o caralho, pá! E depois pedia a um dos meus colegas que atendessem aquela, aquelas, pessoas, que eu estava num mundo de onde não podia ser arrancado assim, a frio, daquela maneira tão bruta e estúpida.
Ler era litúrgico.
Havia dias em que as noites eram passadas lá, na livraria. Saía à hora de sair. Jantava, normalmente um jantar leve. Comprava uma garrafa de vinho. Fumava logo dois ou três cigarros depois de jantar para não fumar na livraria, e regressava ao meu local de trabalho, com a garrafa de vinho, e lia o que apanhava à frente. Lia e bebia. Lia mais que bebia. Havia sempre mais que ler que beber. A garrafa era só uma. Normalmente despejava-se depressa. Mas os livros, os livros duravam a noite inteira. Intercalava-os. Misturava leituras. Romance. Banda-desenhada. Policiais. Poesia. Ensaios. Era assim que aguentava as noites sem adormecer. A saltar de um livro para outro. De uma história para outra.
Tinha muito cuidado com os livros que manuseava. No dia seguinte tinham de seguir intactos para as mãos dos novos donos que pensavam estar a adquirir um livro ainda virgem. Se soubessem… Se soubessem o que lhes acontecia durante as longas noites naquelas prateleiras onde navegavam mãos ávidas de agarrar estórias fantásticas escritas por mentes de deuses extraordinários…
Tudo isto terminou numa noite de Verão, está a fazer por esta altura uns bons anos, quando o dono da livraria, que não me conhecia, eu tinha sido contratado pelo gerente de loja, me encontrou, deitado no chão de um dos corredores da ficção internacional a ler o Aleph do Borges e, num acto heróico de uma novela da Corín Tellado, sacou de um canivete que usava para cortar os charutos, espetou-mo na barriga, abriu-me um rasgão que me fez verter sangue para cima da pilha de livros novos que tinha ali ao lado para ler, ainda me lembro que eram A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt, Todo-o-Mundo do Philip Roth, O Homem do Castelo Alto do Philip K. Dick, Histórias de Cronópios e de Famas do Julio Cortázar, Poemas Quotidianos do António Reis, Eliete da Dulce Maria Cardoso e o Homo Deus do israelita de quem esqueço sempre o nome, raios-me-partam a memória que já não é o que era, e sobre os quais acabei por cair, desmaiado, não pelo rasgão que não foi assim tão grande quanto isso, mas pelo sangue do qual nunca fui grande amigo e cada vez que o vejo fico agoniado, dá-me a volta ao estômago e à cabeça, normalmente vomito, naquela noite desmaiei.
O dono chamou a polícia. O INEM. Eu fui levado para o hospital. Guardado por um agente.
Fiquei dois dias internado. Sem nada para ler. Fiz o meu depoimento. O dono da livraria acabou por perceber que era meu patrão. Despediu-me logo de seguida. Nem direito a indemnização tive. Tens sorte que retire a queixa e não te faço pagar os livros que estragaste com o sangue, disse-me.
Quando saí do hospital, não sabia o que fazer. Estava sem trabalho, sem casa e sem dinheiro. E sem livros para ler.
Acabei por arranjar trabalho no Continente, como repositor de lineares. Mas evitava passar pela zona dos livros. Achava um crime a forma como os livros eram tratados no supermercado. Eram atirados para ali. Não havia ordem. Não havia amor. Estavam assim ao monte. Eram uma mera mercadoria. À espera de serem levados por gente que não ligava a livros. Gente que tinha prateleiras em casa para encher. O livro era um bibelot. E isso, isso eu não conseguia aguentar.
Depois disso deixei de ler livros. Nos últimos anos comecei a escrever e comecei a ler o que escrevo. Há dias, de noite, porque eu gosto muito de ler à noite, que me sinto Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/23]

Um Domingo de Páscoa Igual aos Outros

É Páscoa. Domingo de Páscoa.
É dia de folar. De amêndoas. De cabrito. Há quem leve com borrego. Uma espécie de gato por lebre.
É dia de padrinhos e de afilhados.
Tento lembrar-me dos meus padrinhos. Sei que os tive. Por ventura ainda os tenho. Mas já não os recordo. Não lhes consigo ver as caras. Não sei quem são. Desapareceram na minha infância. É ainda da minha infância a única memória que lhes pertence. Acho. O volume de banda-desenhada O Adivinho, da coleção do Astérix, o irredutível gaulês de Albert Uderzo e René Goscinny. Não sabia o que era. Quem era. Quem eram. Fiquei a conhecer por intermédio desse livro. Pelos meus padrinhos. Acho. Hoje não me recordo deles. Fiquei com o Astérix. Perdi os meus padrinhos. Porque é a memória tão fraca e selectiva, por vezes?
Volto a almoçar sozinho. Como ontem. Como antes-de-ontem. Como amanhã. Desci as escadas do prédio e fui ao restaurante no rés-do-chão. Estava cheio. Cheio de famílias. Crianças. Uma barulheira infernal. Criancinhas a correr por todo o lado aos berros e aos gritinhos. Os pais não têm mãos nestas crianças. Permitem-lhes tudo. Quando começam a querer comer descansados, ligam o tablet com desenhos-animados.
Como ao balcão. Sou a única pessoa a comer ao balcão. Como ao balcão, como sempre. Mas hoje estou sozinho. Hoje não tenho a companhia dos outros solitários. Hoje sou só eu. E o empregado avisa-me Não se esqueça que hoje à noite estamos fechados. Ainda avanço com a pergunta Porquê?, mas não recebo resposta. Talvez não tenha ouvido a minha pergunta. Eu estou mais inclinado para que me tenha ignorado. Porquê!?, deve ter perguntado a ele próprio. Porquê!? Oh que caralho! Sim, sou um chato. Acham que não percebo que as pessoas gostam de celebrar estes dias religiosos. A Páscoa. O Natal. O Corpo de Deus. E não, não percebo. Na verdade, para a maioria destas pessoas, este dia é só mais um dia de feriado. Não os vejo a rezar. A celebrar a morte e ressurreição de Jesus Cristo. É só um feriado. Vão à praia. Ao mar. Lotam as esplanadas. Despejam barris de cerveja. Devoram travessas de camarão. Pedem crédito ao banco para sustentar estes dias. Devia chover. Devia chover a potes para eles ficarem em casa. Eles e as criancinhas.
Mas não.
Está sol. Está calor.
Está um belo dia de praia. Não um dia de celebração de Cristo Aleluia. Está um dia de celebração da praia, das esplanadas, do mergulho no mar, de encher a pança de cerveja e decidir onde ir nas férias com o resto do crédito concedido pelo banco.
Aqui não. Aqui ao balcão está escuro. Sombrio. Só não tão escuro porque as horríveis lâmpadas fluorescentes brancas iluminam o prego no pão para onde espremo uma bisnaga de mostarda enquanto desfaço uma imperial de um só gole.
Pelo espelho à minha frente vejo as famílias em volta do cabrito. Comem de boca aberta. Sorriem com a carne presa nos dentes. Os fios verdes dos grelos que escapam dos garfos e caem para cima das camisas que já não são imaculadas tendem a fugir-lhes das gengivas. Empinam copos de tinto, do jarro que transporta o vinho dos pacote de cartão, com mais glamour e mais barato que as garrafas DOC.
Como um pudim flan. Dias-não-são-dias.
Bebo um café.
Uma Aliança Velha.
Fumava um cigarro mas vou ter de esperar até sair daqui. Vou ter de fumar em casa. Enquanto ligo a televisão nas notícias e aguardo que más novas é que o dia de hoje me traz. É que estes dias trazem sempre más novas. Já não espero outras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/21]

Assim-como-Assim

Ouço o vento assobiar lá fora. Vejo as árvores a dobrar. Os gatos fugiram para debaixo do carro e ainda lá estão. O carro abana. Não sei se aguenta. Não sei se os gatos estão a salvo. O cão enfiou-se dentro da casota, lá bem no fundo, e não lhe vejo focinho nem cauda.
A máquina do café parou de trabalhar. Vou buscar a chávena e volto para a janela. Acendo um cigarro. Não me atrevo a abrir a janela. O vento entrava-me cá em casa e dava cabo de mim.
Devia ir trabalhar. Sentar-me frente ao computador e escrever qualquer coisa. Nem que fosse só pela ginástica. Mental e manual. Mas não consigo largar a janela. Isto tudo fascina-me!
Estou na cozinha. Vejo o vento passear através da janela da cozinha. A mesa e as cadeiras de plástico desapareceram. O guarda-sol também. Estava fechado. Mas desapareceu. Voou. É uma arma. Tem ponta. Espeta. Espero que não aconteça nada. Nada pior do que o que está a acontecer.
Uma vez li uma estória de um gajo que viu uma vaca a voar. E depois matou a mulher. Também li que uma vez, uma vaca caiu do céu e matou um pescador no mar do Japão. Parece que é verdade. Um avião russo transportava vacas, houve um problema com a porta da carga e as vacas caíram no mar durante o voo. Uma delas caiu, por azar, na cabeça de um pobre pescador que estava em alto mar, num barco de pesca. Loustal fez uma banda-desenhada curta sobre esta pequena história. Uma preciosidade. Tenho-a para aí. Algures. Não sei onde. Talvez num caixote.
Como é que estará lá do outro lado da casa?
Saio da cozinha. Faço o corredor. Vou à janela da sala. Olho para fora. Para o alpendre. Para o quintal. Para a estrada lá ao fundo. As cadeiras do alpendre também desapareceram. As árvores perdem as folhas. Vou ter de limpar tudo. Não há um único carro a passar na estrada. Ninguém vai trabalhar, hoje. Está tudo em casa. A ver se aguenta. As famílias abraçadas. A tentar de sobreviver. A rezar. À espera de um milagre.
Tão melodramático que estou! Não tarda o vento pára. E a vida continua o seu curso normal. Mas isto também é o curso normal. Que raio de solilóquio, o meu. Não tenho mais nada que fazer? Bem, na realidade, não.
Espero. É o que tenho que fazer. Esperar.
Vou beber outro café. Fumar outro cigarro. Continuar a olhar o mundo a desfazer-se. Ver se os gatos aguentam. E o cão. Se calhar devia trazê-los cá para casa.
E a casa? Vai aguentar? E se não aguentar, o Loustal pode fazer uma banda-desenhada sobre o que acontecer a esta casa e a mim. A grafite. Com aquele traço rápido e sujo que ele usa quando trabalha a preto e branco. Como se fosse uma experimentação. Um croquis. Hum!…
Depois do café vou passar à aguardente. Assim-como-assim…

[escrito directamente no facebook em 2019/04/03]

El Eternauta

Chego a Buenos Aires. Estou de rastos. Cansado. Foi uma viagem longa e não consigo dormir no avião. Não consigo dormir com tanta gente desconhecida à minha volta. Nem consigo ir à casa-de-banho. Sinto-me desconfortável. Vi filmes. Ouvi música. Tentei ler um livro mas não consegui concentrar-me. Há sempre um ciciar de uma voz. Um pigarrear do catarro. Todos aqueles barulhinhos parecem ampliar dentro de mim tiram-me a atenção e desconcentram-me.
Coloco a máscara cirúrgica na cara. Estamos no auge do H1N1. Não quero arranjar problemas. Os aeroportos são grandes propagadores de gripe. De doenças transmissoras. Protejo-me. Não estou em casa e tenho de ter cuidado. Mas não gosto de andar com isto na cara.
Saio do avião. Recupero a mala. Apanho uma fila enorme para passar a fronteira e entrar no país. Depois vejo que há uma outra fila para mim. Mais pequena. Que anda rápido. Para cidadãos da União Europeia. Dou graças. Sinto-me um privilegiado. Mostro o passaporte. Sigo. Olho para trás. Para os outros em passo de caracol. Sou europeu. Tenho privilégios. Sinto-me bem. E, ao mesmo tempo, sinto-me mal. Estou cansado.
Peço um Táxi na ilha à saída do edifício do aeroporto.
Aí vou eu. Estrada fora.
Quilómetros e quilómetros a voar por cima das casas. Os subúrbios de Buenos Aires estão aos meus pés. Só vejo telhados. Terraços nos telhados. A ponta de arranha-céus. Estou nas nuvens. Numa auto-estrada que nunca mais acaba. Acima das casas.
Há quanto tempo estou na estrada?
Vejo muito trânsito parado lá mais à frente. Houve um acidente. Ou qualquer outra coisa esquisita. Há fogo. Há fumo da estrada. Mas o motorista parece não abrandar. Vamos a grande velocidade. O trânsito está parado. Há gente a fugir por todo o lado. Há gente a lançar-se dos viadutos abaixo. Estou assustado. Começo a gritar. Chego-me à frente no banco. Tento tocar no motorista. Alertá-lo. Ele não me liga. Continua a acelerar estrada fora. Como se a estrada estivesse livre. Eu grito. Salto para o banco da frente. Agarro no volante. O motorista ignora-me. Continua na sua corrida imparável. Dou-lhe dois murros. Mas ele nem pestanejou. Acho que nem me sentiu. Puxo o travão de mão. Puxo o travão de mão do carro com força. O carro bloqueia as rodas e começa a deslizar. Flui de lado. O motorista larga o volante. Deixa-o rodar à vontade. A carro vai livre. Eu estou em pânico. Agarro-me ao volante e tento bloqueá-lo, não sei bem para quê. Porque acho que é o que devo fazer. Aproximamos-nos dos carros parados a arder na auto-estrada. Mas o carro desliza por conta própria. Vai por onde quer. Leva de arrasto algumas pessoas. E vai direito aos rails de protecção. Vai a toda a velocidade. Bate nas protecções, quebra-as e voa. Faz-se silêncio, como no cinema. Só ouço a minha respiração. O carro voa por cima das casas dos subúrbios de Buenos Aires. Olho para baixo e só vejo telhas. Telhas vermelhas. Telhas laranjas. Um telhado verde. Terraços. O carro voa. Começa a perder velocidade. Até que pára. Pára no ar. Está uns micro-segundos parado do ar. E eu antecipo a queda. Ouço-me a respirar. Recomeça o som. O som dos caos. E ele cai. Cai do céu sobre Buenos Aires.
E eu acordo. Acordo na parte de trás do Táxi. O motorista debruçado sobre o banco. Está a olhar para mim. E diz, San Telmo.
Eu estou estremunhado. Arranco a máscara cirúrgica da cara. Tento falar, mas tenho a boca seca. Mastigo um pouco. Engulo em seco. Crio saliva. E consigo balbuciar, Bárbaro!
Fico aqui. Algures em San Telmo. Tenho uma morada no bolso das calças mas esqueci-me de a mostrar ao motorista do Táxi. Estou aqui e não sei que aqui é este. Estou ao pé de uma Bomba de Gasolina. Uma Bomba de Gasolina entre prédios. Não estou mesmo na Europa. Estou na Rua do Chile.
Ao lado da Bomba de Gasolina há um quiosque de jornais. Aproximo-me e vejo, pendurado, um livro que procuro há uma eternidade, El Eternauta.
Estou em San Telmo. Não sei para onde ir. Preciso de ajuda. E já comprei uma banda-desenhada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/21]

Chateei-me com a Cidade

Chateei-me com a cidade. Com as gentes da cidade. Com as manias da cidade. Com a arrogância da cidade.
Peguei numa mochila e saí. Fui passar uns dias ao campo. Fui para passar uns dias e ainda estou por cá. Respiro calma. Tenho tempo. Larguei os comprimidos. Bebo mais vinho. Garrafas sem rótulo. Directo do produtor para o meu prazer. Às vezes é muito agressivo. Às vezes arranha. Às vezes preciso de um Kompensan para matar a acidez que me inflama a garganta.
Tenho por companhia uns gatos sem nome. A gata-mãe. Os gatos filhos da gata-mãe. Um é preto. Outro amarelo. O outro é malhado. Se calhar são gatas, não sei. Chamo-lhes gatos, genericamente. Também tenho a companhia do piruças. O piruças é um cão e está preso a uma casota. A casa não tem muro e ele não pode andar por aí à solta. Os gatos andam soltos e não saem daqui. O cão, liberto-o de vez em quando. Ele sai disparado, está ausente por um bocado, visita os amigos da vizinhança, e depois regressa. Há por aqui, também, o Óscar. Mas não sei por onde anda. Deve estar hibernado. Já não o vejo desde o fim do Verão. O Óscar é um sardão, verde, bonito, arisco. Mas não liga nada a ninguém. É um solitário.
Quando vim da cidade trouxe poucos livros. Não esperava ficar cá muito tempo. Mas fiquei. Já li tudo o que trouxe. Mais que uma vez. Pus-me a vasculhar as gavetas aqui de casa. Encontrei umas edições das Selecções do Reader’s Digest. Umas revistas de banda-desenhada de cowboys, antigas, a preto e branco. E um livro do Raymond Carver. Catedral. Numa tradução do João Tordo. Uma edição relativamente recente, portanto. Fiquei admirado, mas foi assim como um raio de luz a entrar cá dentro. Cá dentro da alma. Iria ser um prazer relê-lo.
É Domingo.
Levantei-me cedo. Fui à missa. Aqui, às vezes vou à missa. É uma das minhas acções sociais. Depois passei pelo café da aldeia e bebi um Martini branco, com gelo e um bocado de gin. O gin era Bosford, o que não me trazia boas recordações. O fígado retraiu-se. Mas não havia outro. Não podia ser mariquinhas! Bebi aquele Martini e pedi outro. O fígado há-de habituar-se.
Regressei a casa e almocei galinha guisada. Com grelos. A vizinha que mora no início da rua, ao saber que um homem morava sozinho nesta casa, vem cá de vez em quando saber se preciso de alguma coisa. Traz-me sopa. Guisados. Fruta. Legumes. Uma ou outra garrafa de vinho do marido. São produtores para consumo próprio. Têm uma pequena vinha. O vinho é mau. Mas mata a bicharada que tenho dentro de mim. Às vezes também me lava a roupa. Mas tenho sempre pouca para lavar. Mudo menos de roupa, por aqui. Às vezes nem tomo banho. Ajuda com o frio. Ando dias inteiros sem me aproximar da banheira. Os dentes sim. Lavo-os três vezes por dia. Às vezes quatro.
Hoje dava o Benfica. Ia ver o jogo ao café. Mas era só ao final da tarde.
Aproveitei este tempo, entre o almoço e o jogo, para começar a ler a Catedral. E comecei:
“O marido de Sandy tinha estado sentado no sofá desde que fora despedido, três meses antes. Naquele dia, há três meses, chegou a casa pálido e assustado e com as suas coisas do trabalho dentro de uma caixa.”
Este cabrão do Carver! Tenho sempre a sensação que está a falar de mim. A expor a minha vida. A tecer considerações sobre as minhas opções. Sobre os vazios da minha vida. Sobre os meus erros. Que porra!
Ou então sou eu que ando a transformar-me numa personagem do Raymond Carver.
Fui buscar uma garrafa de vinho daquele meu vizinho que produz para consumo próprio. Um maço de cigarros. Sentei-me à lareira. Continuei a ler. A beber. A fumar. E esqueci o mundo.
Era já noite quando parei de ler. Tinha esquecido o jogo do Benfica. Os gatos miavam aqui à porta. O cão ladrava na casota. Queriam comer. Fui levar-lhes ração, que era o que tinha. Havia uns restos de ossos da galinha, mas ia dá-los ao cão só amanhã.
Gosto de estar por aqui. Ainda não fiz as pazes com a cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/06]

O Sítio Esteve Sempre Lá no Alto

Gosto de ir à praia no Inverno. Em dias de chuva. Em dias de sol.
Gosto de ir à praia no Inverno, em dias frios, mas com sol, fechar os olhos e deixar-me aquecer.
Gosto de ir à praia no Inverno e estar ali sozinho, com a praia só para mim. Com o mar só para mim. Com o som das ondas a baterem nas rochas, a baterem na areia, só para mim.
Gosto de ir à Nazaré no Inverno, em dias de sol.
Sento-me na marginal a olhar o mar lá ao fundo a pensar que já esteve aqui tão perto.
Sento-me na marginal e sinto o cheiro da maresia.
Sento-me na marginal e ouço passar, atrás de mim, os poucos carros que circulam por lá. Ouço a voz grossa das varinas que já não andam de cesto à cabeça a apregoar sardinha e carapau, mas casas, quartos, zimmers, rooms, chambres, habitaciones. Todo o santo ano.
Os sons embalam-me. O calor do sol conforta-me. O cheiro do mar recorda-me.
Abro os olhos e a imagem está sobre-exposta. Tudo branco. Tudo luz. O vazio. Mas um vazio calmo. Tranquilo.
Depois vai ganhando umas linhas. Vai ganhando dimensão. Cor. E vejo. Vejo muita gente. Muita gente em fato de banho. Gente que joga à bola. Raquetas. Gente estendida ao sol. Uma mulher apregoa Bolas de Berlim com creme. Bandos de miúdos correm atrás uns dos outros. Um rapaz lança um papagaio. Umas miúdas jogam ao elástico. Umas mulheres estão a fazer renda enquanto conversam. Um bebé dorme e transpira dentro de uma barraca de pano às riscas e tecto levantado em bico como uma seta em direcção ao céu. Junto ao mar, um pai constrói um castelo na areia com o filho, esforço inglório, sempre destruído pela fúria das ondas. Mas recomeçam.
Eu vejo-me na praia. No mar. Ao colo do meu pai. A tremer de medo. A ver as ondas correrem para mim. Eu. A ser largado nelas pelo meu pai. Nada! Nada! E eu nado. Eu aprendo a nadar assim. À força. Eu aprendo a nadar. Na água fria. Nas ondas furiosas. Naquele mar que aprendi a amar.
Levanto-me. Percorro a marginal. Estou quase só. Ignoro as gentes com que me cruzo. Decido ir à Batel comer uma sardinha cheia de creme e açúcar. Entro na Praça e reconheço os sítios. Os sítios que já lá não estão. Afasto aquelas marquises que galgam o passeio do olhar. Afasto aquelas marquises que protegem o turista das intempéries da Nazaré. E a Praça ganha dimensão. Respira. E eu vejo-me. Vejo-me com a minha mãe no quiosque a meio da Praça. Escolho umas revistas aos quadradinhos. Mais tarde já lhes chamo banda-desenhada. Alguns ainda os tenho. Kit Carson. Buffalo Bill. Mandrake. Fantasma. As minhas aventuras nocturnas. Tapado pelos cobertores, e de lanterna acesa, a mergulhar na madrugada sem os meus pais saberem que ia nas aventuras dos meus heróis.
Esta Praça já é outra Praça. Lá atrás, atrás daquelas casas, havia uma outra casa que os meus pais alugavam pelo mês de Agosto. Mas não vou lá. Tenho medo de lá ir. Do que já não vou encontrar.
Entro na Batel. Peço uma sardinha e venho a comê-la para a rua. Volto à marginal. Olho para o Sítio. Olha para o Sítio lá no alto. Quando era miúdo ouvia dizer que alguém se mandara de lá. Alguém que estava cansado. Mas não vi acontecer. Nunca vi ninguém a voar assim, desde lá de cima. E agora que penso nisso, ainda bem.
Gosto da sardinha. Lambo o açúcar dos dedos. E penso Foi ontem. Foi ontem que tudo isto aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/06]