É isto o Novo Normal?

Será isto então o novo normal? Ou será o mesmo normal de sempre?
Entro dentro do autocarro expresso. Meia-dúzia de gatos-pingados. Todos distantes uns dos outros. Todos de máscara na cara. Todos entretidos com os seus telemóveis a aproveitar a rede digital da rede de expressos.
Procuro a minha cochia.
Sento-me e sinto-me um gigante entre cadeiras montadas para a média do português que viveu nos anos cinquenta. Estamos na segunda década do século XXI e querem-nos com o mesmo tamanho, a mesma medida e, provavelmente, a mesma aceitação e respeitinho. O respeitinho é muito bonito.
O autocarro arranca. Há uns ecrãs de televisão a debitarem anúncios de filmes. Não passa nenhum filme. Só trailers. Penso no Herman José. Sorrio e penso como sou previsível.
Tiro, da mochila, uma banda desenhada para ler, mas não consigo. O autocarro faz estradas municipais. Expresso mas nem tanto. O normal é o mesmo de sempre.
Quando finalmente entro na auto-estrada, estou sonolento e não consigo ler. Deixo-me ir no embalo.
Talvez tenha adormecido. Sou acordado com alguém a falar ao telemóvel. Fala alto para o ouvirem bem lá do outro lado. Não entendo o que diz. Não fala português. Talvez seja árabe. Talvez seja outra coisa qualquer que me soe a árabe. Não sei árabe nem a que soa o árabe. É uma força de expressão. Acho que procuro o meu normal.
Trago sempre um carregamento de livros para as viagens de expresso e acabo sempre por não ler nenhum. Não me consigo concentrar. Não consigo focar as letras. Enjoo. Sinto vontade de vomitar. Ando há dois meses com um livro do Chomsky na mochila. Ainda não o abri. Ainda nem li a introdução. Mas queria. Ainda não houve oportunidade. Começo a não gostar do meu novo normal. Não é normal.
Começo a descer. Percebo que o expresso começa a descer por uma inclinação acentuada. Aproximo-me de Lisboa.
Tento despertar. Não é difícil. O pára-arranca não me deixa voltar a adormecer. Lisboa voltou ao que era antes da pandemia. Uma cidade cheia. Atarefada. Rápida. Barulhenta.
O autocarro chega à estação. Saio. Saio do autocarro. Saio da estação. Saio para a rua e sou abalroado por buzinas, sirenes, motores a cuspir fúria, rodas a patinar no asfalto, borracha a queimar e a entrar-me pelas narinas e gente a gritar.
Lisboa é uma cidade agressiva. Lisboa é uma cidade de psicopatas.
Tenho vontade de apanhar o expresso de regresso à monotonia da minha cidadezinha. Sei que não é possível. Acendo um cigarro. Vejo grupo de miúdos em alegres brincadeiras. Ninguém usa máscara. Já não há pandemia em Lisboa? Será isto o novo normal?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/22]

Um Tempo que Me Falha

Os dias passam vorazes por mim. Perco-me no tempo. Mal acordo e me levanto, já é noite, hora de jantar e ir para a cama. Não sei para onde vão os dias, as horas, os minutos. Não sei como fazer o que tenho para fazer no pouco tempo que os dias têm.
Penso que há menos tempo no tempo dos dias de hoje do que havia nos dias de ontem. Não é só uma sensação. É factual. As coisas que eu conseguia fazer ao longo do dia eram muito mais do que consigo fazer hoje. Os dias de antigamente eram enormes faixas de tempo onde cabiam inúmeros mundos. Hoje, essa faixa de tempo é uma ausência. Espirro e termina. Esvai-se num estalar de dedos.
Lembro-me dos dias de Verão da minha infância. As férias grandes, grandes porque eram de facto grandes, enormes. Quando chegávamos a Setembro tínhamos saudades da escola, dos amigos da escola, do cheiro dos livros novos, das folhas imaculadas dos cadernos novos, as novas canetas e as várias versões coloridas, azul, preto, vermelho e verde, eram Bic laranja e cristal. Naqueles Verões havia tempo para viver muitas vidas. Eu vivi muitas vidas. Muitas vidas num só dia. Acordava de manhã. Pequeno-almoço de uma fatia de pão saloio torrado e um copo de leite com Ovomaltine enquanto lia uma banda-desenhada da colecção Falcão ou alguma revista de cowboys da colecção Histórias do Faroeste ou do Buffalo Bill. Vestia-me e ia para a rua. Encontrava outros como eu. Íamos para o pinhal procurar os nossos Rochedos do Demónio em terra firme. Ou para um prédio em construção dar saltos do primeiro andar, ou do segundo, para o monte de areia que às vezes era rija e mais parecia rocha. Subíamos às nespereiras e às figueiras, as árvores mais imponentes da rua, para navegar em alto mar e encher o bandulho de fruta fresca nascida espontânea e sem químicos. Às vezes ia mesmo verde. Às vezes entrávamos dentro dos mares de silvas para apanhar as amoras. Eram pretas. Eram vermelhas. Eram agridoces e muito boas. Regressava a casa para almoçar. Era obrigatório dormir a sesta. E era o que fazíamos. Dormíamos a sesta. Eu deitava-me em cima da cama a ler uma banda-desenhada e deixava-me adormecer. Transpirava porque fazia sempre muito calor. Acordava e lanchava. Não podia sair de casa sem lanchar. E depois ia jogar à bola num dos pátios da rua. Ou um jogo de tabuleiro, normalmente o Monopólio, na garagem de algum de nós, ou íamos brincar para o pequeno riacho que lá passava perto, que não dava para mergulhar nem nadar mas dava para andar na brincadeira, molharmo-nos todos e chegarmos a casa e levarmos uma palmada ou um puxão de orelhas. A infância daquele tempo vinha com alguns castigos físicos, mas que compensavam a maluquice daqueles dias que nunca mais acabavam. E não! Não acabavam. Eram enormes. E ainda havia tempo para fazer asneiras como ir roubar na mercearia da rua ou entrar em casa de alguém que deixara a porta no trinco para roubar pacotes de batatas fritas Dora-Dora ou pacote de bolacha Maria torrada que barrávamos às mãos-cheias de manteiga Primor.
Agora sento-me em frente ao computador, depois de me levantar de manhã e beber uma caneca de café, e quando dou por mim tenho a página do Word em branco, não fiz nada, e a noite já cai lá fora.
Que porra de tempo este que me falha cada vez mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/16]

(Des)Concentração

Não consigo concentrar-me.
Descubro-me frente ao computador a olhar para um formulário, a tentar ler o que lá está escrito, a tentar perceber o que me é pedido, e parece que estou a olhar para uma página escrita nalguma linguagem desconhecida. Pronuncio as palavras alto para as ouvir e entender, mas não dá resultado. Esqueço-me do que acabei de falar. Esqueço-me do que acabei de ouvir.
Baixo a tampa do computador. Levanto-me e acendo um cigarro. Olho em volta. Noto que estou na cozinha. Trabalho muito na cozinha, digo em silêncio para mim.
Coço o rabo. Suspiro.
Abro a porta da rua, do alpendre. Os gatos vêm logo ter comigo a miar. Olho para as tigelas deles e vejo que têm comida e água. São uns pedinchões, vocês, ralho-lhes. Vejo o cão ao fundo, no quintal, parado a olhar para mim. Ela não vem ter comigo. Dá o espaço aos gatos.
Disparo a beata do cigarro para longe com um golpe do dedo médio como uma mola. Como se estivesse a jogar com berlindes nas traseiras do pavilhão de ginástica do colégio, quando ainda tinha idade para andar no colégio e jogar ao berlinde e ainda não tinha medo do futuro. Este futuro.
Entro em casa. Vou até à sala. Sento-me no sofá. A televisão desligada. A janela aberta. As persianas e os vidros. Gosto da aragem que entra em casa e me afaga. Sinto um certo conforto. Ao meu lado, pousado no sofá, um livro de banda-desenhada. Os Vampiros do Filipe Melo e Juan Cavia. Pego-lhe. Tem uma marca. Retomo a leitura na marca. Não sei o que estou a ler. Recuo duas páginas. Quatro páginas. Seis páginas. Não recordo aqueles desenhos. As pranchas parecem-me desconhecidas. Não me lembro daquela estória. Tento ler mas não consigo. A cabeça foge para outros lados. Não consigo concentrar-me.
A cabeça começa a doer-me.
Levanto-me e regresso à cozinha. Olho a mesa e o computador em cima da mesa. Penso que há qualquer coisa no computador que requer a minha atenção. Não consigo lembrar-me do quê.
O coração começa a bater muito rápido. Cai-me uma enorme angústia em cima. O que é que se passa? O meu corpo começa a contorcer-se. Quer chorar. Mas antes que comece a chorar, o chão começa a tremer. Sinto a casa a abanar. A portas dos móveis abrem-se e fecham-se com fortes pancadas sonoras. Ouço, vindo lá de dentro, talvez da sala, o som do que me parece uma garrafa a cair no chão e a estilhaçar-se.
Não sei quanto tempo está o mundo a abanar, mas parece uma eternidade. Devia estar com medo. Não estou. Sinto mesmo um certo alívio. O tremor-de-terra é a minha trepanação. Liberto a pressão.
Sopro. Deito fora o ar que me enche os pulmões. Acendo outro cigarro. O chão ainda treme. Uns pratos escorregam no lava-loiças e caem para dentro da pia. Acho que não se partiram. Coloco a mão na mesa.
Suspiro. De repente deixo de sentir o chão a tremer. Acabou sem eu dar por isso.
Olho para o computador fechado em cima da mesa da cozinha. Deixo-o assim. Não o vou abrir. Não consigo. Não consigo ler. Não consigo perceber.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Não vejo os gatos nem o cão. Devem estar com medo. Sento-me no alpendre. Os gatos aparecem de onde estavam e vêm para cima de mim. O cão vem atrás deles e deita-se aos meus pés.
Estamos todos juntos. Juntos e vivos.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/15]

Billy, o Botas

Era miúdo e lia muita banda-desenhada. No meio daquelas enormes pilhas de revistas, especialmente a preto e branco, que se amontoavam em prateleiras improvisadas à espera de um conhecimento metodológico que acabaria por vir só com a idade, ao contrário da bronquite que desapareceria com o adiantado da idade, diziam os médicos aos meus pais, e nunca desapareceu, havia umas revistas que eu lia mais que todas as outras, relia até à exaustão, sei que algumas delas se gastaram de tanto serem folheadas e as outras, as que restaram, não sei onde param, talvez nalgum caixote dos inúmeros que vou deixando plantados nas casas por onde vou passando à espera de os recuperar um dia mais tarde, mas sem já fazer grande fé no futuro que é cada vez mais negro que o passado alguma vez foi. Chamava-se Billy, o Botas, era da autoria de Fred Baker (argumento) e John Gillat (desenho), mas foi, depois, desenhado por outros ilustradores.
Billy, o Botas era Billy Dane, um pobre coitado, órfão, que viva com a avó, gente pobre, sem muitos recursos (por vezes, e agora que penso nisso, encontro alguns paralelos com a história do Homem-Aranha, e a vida de Peter Parker com a tia May e as enormes dificuldades económicas que enfrentam no dia-a-dia), para agravar as coisas, era uma nulidade no futebol, desporto que ele gostava acima de tudo. Um dia descobriu umas chuteiras velhas, que tinham pertencido a uma antiga glória do futebol inglês, Chuto Mortal, era assim a alcunha dessa antiga estrela, e ao calçar as chuteiras dessa antiga glória, Billy ganhava a capacidade de ser uma recriação do Chuto Mortal, como se as chuteiras tivessem memória e reproduzissem, nos pés de Billy, as jogadas do Chuto Mortal.
Estávamos nos anos sessenta, eu conheci Billy, o Botas nos anos setenta e, cá como lá, viviam-se tempos difíceis. As estórias eram sobre esses tempos difíceis e, os jogos que Billy jogava, e ganhava, quase sempre sozinho, por obra e graça do par de chuteiras velhas que tinha nos pés, eram um paliativo para a vida miserável que levava. Que levávamos. Todos nós.
Hoje, passados tantos anos, ao lembrar estas estórias com indisfarçada saudade, penso no cinema de Ken Loach que só vim a conhecer alguns, bastantes, anos depois, mas cujo ambiente também estava aqui. O realismo inglês. Problemas sociais. Os bairros sociais. As casas de renda barata. As famílias miseráveis. A pobreza extrema. A fome.
Lembro-me que, na mesma colecção, ou noutras colecções, a memória já não é como era (eram livros editados por Rossado Pinto, que também publicava o Jornal do Cuto, uma espécie de Revista do Tintim para pobrezinhos – o Jornal do Cuto era a preto e branco e tinha menos páginas, era um jornal e não uma revista – embora fosse, mesmo assim, uma revista, não é?), havia outras estórias com o desporto como pano de fundo, como Peter, o Gato, que era um guarda-redes, Kangaroo Kid, Os Pupilos de Carson, Scruffs! e Craig, o Bala de Canhão, que eram, também, todos eles sobre futebol, Kid Gloves, que era um boxeur e o Fishboy que era um nadador, mas todas as estórias tinham um cunho social muito forte, as personagens eram todas marginais, lumpens que através do desporto, conseguiam ascender a uma vida que lhes estaria vedada à partida.
Estas revistas que eu tinha (tenho? ainda terei?) eram a preto e branco e em papel de fraca qualidade. Mais tarde vim a perceber que, algumas destas histórias eram, originalmente, a cores mas que as edições de Rossado Pinto eram a preto e branco para serem mais baratas e mais acessíveis. A miúdos como eu.
Recordei estas estórias e lembrei-me de Billy, o Botas, ao ver os milhões que o futebol movimenta. Hoje. Em plena pandemia. Os milhões que alguns dos miúdos ganham. E o sonho que alguns deles ainda acalentam, alguns deles que não passam da enorme massa anónima que recebe mal, não tem grande futuro, mas que permite que os bons sobressaiam.
Com os algoritmos que tendem a afunilarem-nos o gosto e o novo conhecimento, sinto às vezes falta da descoberta feita nas escaparates montadas por gente que tinha gosto naquilo que vendia. E percebia o que tinha em mãos. Gostava dos produtos que vendiam.
Hoje sinto uma certa tristeza ao passar nos lineares dos hipermercados e ver as pilhas de livros indiferentes que estão por lá largados por alguém que se está nas tintas para todos eles. E quem os leva, na maior parte das vezes, fá-lo por desfastio. Levar um livro como quem leva duzentas e cinquenta gramas de fiambre da pá Nobre, ou cento e cinquenta gramas de queijo flamengo, em barra, que é para tostas, se faz favor!
Os livros, e em especial estas revistas simples e pobrezinhas, não só as de desporto, de onde fui relembrar o Billy, o Botas, mas todas as outras estórias de cowboys e de super-heróis (sim, da Marvel e da DC, também a preto e branco, em edições baratinhas), o Tarzan, o Fantasma e o Mandrake, carregavam em si uma magia que mesmo assim, com todas as suas lantejoulas e purpurinas, a internet não consegue combater. Eu também sou um utilizador das novas tecnologias. Também ando pelas redes sociais. Também me perco pelo Youtube. Mas quando quero mesmo evadir-me, é com um livro nas mãos, tenha só letras ou quadradinhos (era assim que se chamava a banda-desenhada naquele tempo), e sem estar preso à ditadura do algoritmo.
Quem não lê, não sabe o que perde.
E eu tenho saudades do Billy, o Botas. Gostava de um dia poder recuperar esse caixote. Esse, entre outros. Esse e outros. Todos.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/10]

Uma História Efémera

Eu tinha dezasseis anos. Ela também. Eu ia de férias para a Zambujeira. Ela também. Eu apanhei o expresso da Rodoviária, na Avenida Heróis de Angola. Ela também. Eu ia sentado ao lado dela. Ela ia sentada ao meu lado.
Chegámos à Zambujeira, os dois ao mesmo tempo. Montámos os dois a canadiana. Depois vesti os calções de banho. Ela vestiu o biquíni. Eu fui para a praia. Ela também. Eu corri de mão dada com ela para o mar. Ela correu de mão dada comigo para o mar. Mergulhámos os dois de mãos dadas. Ela acabou a beber um pirolito. Eu ri-me.
Passámos o resto do dia entre a toalha, estendidos ao sol, e o mar frio do Atlântico. Eu fiquei vermelho. Ela ficou bronzeada. Ela besuntou-se com creme hidratante. E besuntou-me a mim. Eu queixei-me de dores. Ela riu-se.
Na primeira noite jantámos uma tosta-mista. Eu comi metade. Ela comeu a outra metade. Eu bebi uma cerveja. Ela também. Depois fui-me deitar. Ela também. Eu deitei-me com ela na minha canadiana. Ela deitou-se comigo na minha canadiana. Estávamos cansados. Eu dormi. Ela também.
Eu passei uma semana entre o parque de campismo, a praia e uns cafés ao fim da tarde, ao início da noite e, às vezes, ao longo da noite. Ela acompanhou-me sempre.
Eu estava apaixonado. Ela também.
Ao fim de uma semana, eu acordei na canadiana. Ela não acordou na canadiana porque não estava lá.
Ela não estava lá mas deixou um papel no lugar dela. O papel dizia Vou para a Quarteira. Vou ter com a minha tia. X.
Eu olhei o papel. Virei-o. Voltei a lê-lo. Quem era a tia? Porque é que ia ter com a tia? E o que é que queria dizer o X?
No dia seguinte apanhei o expresso de regresso a Leiria. Ela não. Voltei para casa dos meus pais. Ela, acho que ela continuou em casa da tia. Acho que não regressou a casa dos pais. Não naquela altura.
Passei o resto do Verão a ler livros de banda-desenhada e a ir mergulhar ao rio com o meu vizinho. Também fui aos pássaros. Nunca tinha ido aos pássaros. Não gostei. Não voltei a ir os pássaros. Continuei a ler bandas-desenhadas. Continuei a ir mergulhar ao rio.
Parti uma perna ao escorregar na beira do rio.
Quando as aulas recomeçaram, eu estava com a perna engessada. Eu vi-a. Ela viu-me. Ela perguntou-me Partiste a perna? Eu não cheguei a responder. Um tipo, mais velho (já tinha barba), chegou-se ao pé de mim e dela e abraçou-a. Trocaram um xoxo (é assim que se escreve?). Ela não esperou pela minha resposta. Foram-se embora abraçados.
Eu continuava com dezasseis anos. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/05]

Uma Cama Quente e Confortável

Naqueles dias eu esperava acordado até ouvir o meu pai sair de casa e depois levantava-me da minha cama e ia para a cama dos meus pais, deitar-me ao lado da minha mãe, na metade que era do meu pai, e cobria-me com o lençol e os cobertores e esperava que a minha mãe não desse por mim e não me mandasse embora de regresso à minha cama fria, e eu pudesse ficar ali, naquela metade quente e confortável, com a cabeça enterrada na almofada embrenhada no cheiro do meu pai, e nem o facto dos lençóis e cobertores estarem desalinhados me fazia qualquer problema, como me fariam hoje, e eu mal me deitava naquele bocado de cama que não era a minha e me tapava todo, a cabeça e tudo, e descansava a cabeça na almofada fofa e quente, adormecia, mas adormecia descansado como se o futuro não trouxesse problemas nem desgraças porque enquanto ali estivesse, ali naquela cama ao lado da minha mãe, estava a salvo de todas as desgraças do mundo.
Olho para a minha cama, a minha cama impecavelmente esticada, de lençóis brancos, engomados e sem um vinco e o edredão quente e farfalhudo e a almofada hipoalergénica e não consigo lá entrar, mantenho-me em pé a olhar para a minha vida tão asséptica e sem sabor, solitária e fria e sinto saudades de ficar noites inteiras em branco, no escuro, à escuta, à escuta que o meu pai saísse de casa mais cedo, bem mais cedo que o normal, e a minha mãe não desse pela minha entrada sorrateira na cama dela, mas eu sabia que ela sabia que eu lá estava, mas fingia que não sabia para não ser obrigada a mandar-me de volta para a minha cama, onde eu tinha estado a ler banda-desenhada a‪té de madrugada, e depois deixava-me estar o resto da noite atento à saída do meu pai de casa para aproveitar aquelas horas até ter de me levantar para ir para a escola e a minha mãe levantar-se e fazer-se surpresa por eu estar ali e eu ia vestir-me enquanto ela me preparava o pequeno-almoço e eu punha-me a contar os dias até que o meu pai tivesse de sair outra vez muito cedo de casa e eu pudesse, de novo, esgueirar-me até ao seu lugar da cama, onde ainda estava a forma do seu corpo gravado no colchão e o seu cheiro na almofada onde eu iria deitar a cabeça e adormecer descansado.
De pé sobre a minha cama vazia e fria, impecavelmente esticada e sem um vinco, pergunto-me porque continuo a preferir a cama desarrumada do meu pai ou se o que prefiro é a ideia de que a cama dele era mais acolhedora do que a minha? E percebo que o passado tem esta coisa fantástica em que tudo era bom, mesmo que não o fosse, e nada pode voltar a ser como era e o melhor é aceitar as coisas como elas são e pensar Tenho sempre o meu passado.
É então que me deito, dentro da cama impecavelmente esticada, sem um vinco, com uns lençóis brancos e frios, debaixo de um edredão fofo e quente, sozinho, e me deixo adormecer sabendo que vou sonhar um sonho que não me vou lembrar no dia seguinte, para que a minha vida não seja ainda mais triste ao saber que sonho com um passado que, provavelmente, nem existiu.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/30]

Fastio

Às vezes estou dentro dela e quero sair. Ou melhor, queria já não estar ali, dentro dela. Às vezes estou dentro dela e apetecia-me estar a ler a Parte 1 de A Morte do Pai, o volume 1 de A Minha Luta de Karl Ove Knausgård. E tem 160 páginas. Não por causa dela. Nem por causa do Knausgård. Mas por mim, mesmo. Sofro de fastio.
Não consigo estar a fazer a mesma coisa durante muito tempo. Mesmo que sejam coisas que goste muito de fazer. Como foder, por exemplo. Não é que não goste, que gosto, adoro, mas aborreço-me e preciso de fazer outras coisas. Por vezes começo a salivar à simples possibilidade de fazer outra coisa qualquer quando começa a despontar o aborrecimento pelo que estou a fazer.
Mesmo quando tenho prazos de entrega bastante curtos, tenho de parar várias vezes, durante o trabalho, para fazer outras coisas. E depois retomo o trabalho que estava a fazer anteriormente, na maior parte das vezes com uma vontade duplicada e cheio de novas informações e conhecimento.
Não se julgue que deixo de fazer coisas importantes por causa de outras coisas igualmente importantes. Bom, para mim serão mas, na maior parte das vezes troco o prazer de uma coisa de que gosto e importante pela alienação completa de outra da qual não desgosto também.
Já aconteceu estar a fazer um chili com carne, já com tudo preparado, só faltar fazer o arroz e misturar a carne os pimentos a cenoura as malaguetas num refogado de cebola e alho e juntar o feijão previamente cozido, e ir acabar de ler um capítulo de uma banda-desenhada que tinha deixado por ler quando me levantei para ir dar leite aos gatos. Depois do leite e dos gatos, perdi-me com qualquer outra coisa e esqueci o livro de banda-desenhada que estava a ler.
Também na adolescência acontecia estar a jogar à bola e, depois de uma jogada, que poderia ter sido de golo marcado ou não, acontecia sair de campo e deitar-me ao lado de umas raparigas que lá tinham ido ver o jogo e conversar sobre o próprio jogo e só regressar depois da equipa adversária me chamar.
Não sei se tem alguma coisa a ver com o facto de ser gémeos. Não gémeos no sentido de haver outro igual a mim, valha-nos Deus, mas gémeos de ter nascido no mês de Maria, o melhor mês para se nascer e ser do signo de gémeos. Às vezes sinto que cá dentro somos mais que um e, por vezes, fazemos guerra um ao outro. E um de nós tem de ceder. Acho mesmo que é tudo uma questão de cedências, e é por isso que estou sempre a saltar de coisa em coisa. Às vezes acho que sou um salta-pocinhas.
No sexo é que se nota mais. Estou dentro dela e tento despachar-me. Quer dizer, não preciso assim tanto de tentar, que despacho-me bastante rápido, mas despacho-me, às vezes sem atender às reais necessidades dela, sim, às vezes, muitas vezes, quase todas as vezes, sou egoísta, e despacho-me e logo de seguida pego no iPad e faço um jogo de Solitaire Spider. Acabo o jogo e estou outra vez pronto para as questões sexuais. Regresso aos beijinhos, aos toques, mas às vezes já é tarde. As outras pessoas não têm a mesma capacidade de saltar entre coisas como eu. Claro que, na maior parte das vezes ela já apanhou um táxi de regresso a casa, ou já está a dormir ou, e já aconteceu, acabou por se enfiar na cama do meu colega de casa. Não há problema, não sou ciumento. Só me aborreço com alguma facilidade.
Com os filmes também acontece muito. Se for ao cinema, vejo o filme de seguida, nem tenho necessidade de ir à casa-de-banho. A minha bexiga ainda é a de um jovem. Mas se estou em casa, páro tantas vezes quanto a necessidade de ir à casa-de-banho, e aqui tenho uma bexiga de velho, a vontade de comer pipocas, a necessidade de ver as manchetes de A Bola, do Público e do Expresso (já lá vai o tempo em que também precisava de ver as manchetes da Première e dos Cahiers du Cinéma). Porquê?, porra!
É por isso que tenho sempre cinco ou seis livros na mesa-de-cabeceira. É por isso que vejo dois ou três filmes intercalados. É por isso que começo sempre três ou quatro textos ao mesmo tempo com objectivos diferentes e, já aconteceu, às vezes misturo conteúdos, o que não é mau, porque dá um ar esotérico ao trabalho. É por isso que, às vezes, mas só às vezes, tenho duas e três namoradas na mesma altura. Mas normalmente isso dá mais dor de cabeça que prazer. Troco nomes, ordens e vontades. Já perdi tudo no mesmo dia. E não é por querer tudo. Não. É, simplesmente, por não conseguir saciar este meu fastio que dá, por vezes, comigo em doido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/03]

Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Ao Domingo

Naquela época, aos Domingos, eu era o primeiro a levantar-me da cama.
Levantava-me cedo, às vezes tão cedo que havia Domingos em que me levantava ainda quase de noite. Eram dias escuros de Inverno, dias escuros e chuvosos. Mas era sempre eu o primeiro a levantar-me.
Eu levantava-me, aquecia um púcaro com leite. Abria uma carcaça e colocava-a na torradeira. Depois despejava o leite na caneca. Tirava-lhe a nata que ficava a boiar em cima, e juntava-lhe Ovomaltine. Ou era Nesquick, já não tenho a certeza. Barrava manteiga nas torradas e sentava-me na mesa da cozinha, com uma revista de banda-desenhada aberta à minha frente, a comer e a beber. Geralmente deixava cair muitas migalhas à minha volta mas, quando a minha mãe se levantava, e depois de me dar um beijo na cabeça e, invariavelmente dizer-me Lava este cabelo, hoje!, ia buscar a vassoura e uma pá e varria o chão ali à minha volta.
Nessa altura eu ia tomar banho. Lavava o cabelo. Vestia uma roupa domingueira e regressava à cozinha onde ficava a ler bandas-desenhadas até o meu pai estar despachado, de barba feita, banho tomado, vestido e a beber uma caneca com café que a minha mãe já teria feito, e dizer-me Vamos? e nós íamos.
Todos os Domingos, naquela época, eu e o meu pai íamos ver os jogos de futebol das equipas de juniores da União de Leiria. Os jogos eram no campo pelado, ao lado do estádio onde havia o campo relvado onde jogava a equipa principal. Ali, no pelado, jogavam os juniores, os juvenis e os iniciados. Víamos os jogos todos. Às vezes contra o Benfica, o Sporting e o Porto. A União de Leiria tinha, geralmente, boas equipas de miúdos. Os espectadores, nós, estávamos em cima do campo, mesmo atrás dos fiscais-de-linha, que hoje se chamam árbitros assistentes. Mas não havia grandes problemas. Por vezes os jogadores caiam ali, à minha frente, e eu via como os jogadores esfacelavam os joelhos e faziam sangue. Mas não se queixavam. Quer dizer, queixavam-se até o árbitro marcar falta e, depois, estavam já prontos para nova jogada.
Enquanto eu e o meu pai íamos ver os jogos das camadas mais jovens da União de Leiria, a minha mãe ficava em casa, suponho que a fazer o almoço pois, quando chegávamos, a mesa estava posta e o almoço era quase-imediatamente servido.
Nessas manhãs de Domingo encontrava sempre alguns amigos meus a ver também os jogos com os pais deles. Às vezes nós íamos juntos para outro lado do campo e víamos os jogos juntos, como se fôssemos adultos e estivéssemos ali sozinhos a ver o jogo de futebol.
Às vezes essas manhãs eram a primeira parte de um Domingo inteiro cheio de futebol. Depois de almoço a minha mãe já vinha comigo e com o meu pai e íamos ver os jogos da equipa principal da União de Leiria ao estádio Municipal. Levávamos umas almofadas para nos sentarmos um pouco mais confortáveis nas bancadas de pedra onde ficávamos a ver os jogos. A minha mãe gostava tanto ou mais de ver os jogos que o meu pai. Às vezes também a ouvia ralhar com alguém. Ora com um jogador da União, ora com o árbitro, ora com o meu pai por ele estar enervado com alguém que não conhecíamos.
Um dia levantei-me. Estava de chuva. Fazia frio e corria furioso o vento, o vento e a chuva, lá fora, fora das janelas, e eu aqueci o leite e fiz as torradas e tirei a nata ao leite e misturei Ovomaltine (ou seria Nesquick?), barrei manteiga nas torradas e sentei-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada, mas a minha mãe demorou mais que o normal dos outros dias a aparecer e, quando apareceu, não me deu um beijo na cabeça nem disse para eu lavar o cabelo, e vinha a chorar. Nesse dia o meu pai não apareceu. E nunca mais apareceu. Nesse dia não fomos ver os jogos de futebol dos miúdos. E nunca mais fomos.
E a partir desse Domingo, os Domingos nunca mais foram os mesmos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/08]

A Insatisfação

Os dias sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Uns iguais aos outros.
A insatisfação.
Agora todos os dias são Domingo.
Mal vejo a claridade do dia a furar os buracos das persianas e entrar pelo quarto nas asas dos grãos de pó que navegam no ar, enfio-me debaixo do edredão. Tapo a cabeça. Fecho os olhos. Mantenho os ouvidos atentos. Não descolo da vida. Só fujo. Não estou cá.
Ouço o silêncio da casa. Não há os passos suaves da amante. Nem a corrida desenfreada dos filhos pelo corredor. Não há as patas impacientes dos cães à espera de ir à rua.
Ouço os sinos da igreja a chamarem os fiéis para a missa das oito. Não é para mim. Mas ouço as vozes em bando dos crentes. Vão em bando, como pardais. Comungam. Cumprimentam. Dizem ámen.
Acho que é imaginação. Estou debaixo do edredão, no quarto, numa casa de vidros duplos. Não posso ouvir as conversas de quem caminha ao fundo da rua, quatro andares abaixo de mim e da minha neura matinal.
E então…
Ouço o galo a cacarejar, como ouvia na aldeia do meu pai, na aldeia ao norte onde ia nas férias de Verão, na aldeia onde mergulhava no pequeno rio de água cristalina, na aldeia onde corria pelos arraiais populares e onde comia o caldo verde com chouriço e azeitonas onde o meu avô despejava um fio de azeite.
Ouço a minha mãe a chamar-me Levanta-te mandrião, enquanto puxava os estores, afastava as cortinas e deixava o dia entrar dentro do meu quarto, e me deixava um tabuleiro com torradas e um copo de leite frio em cima da cama. Vá, levanta-te!, insistia. E eu levantava-me na cama e lia uma banda-desenhada do Buffalo Bill enquanto devorava as torradas barradas com manteiga Primor meio sal.
Ouço o meu irmão gritar Despacha-te, pá! enquanto enfiava uns calções e uma t-shirt, os chinelos nos dedos dos pés, e se preparava para ir ao mar de madrugada antes que os turistas invadissem a praia e deixássemos de ter espaço para as braçadas que gostávamos de dar, livres, numa natação paralela à costa, das rochas até ao porto e regresso.
Ouço a minha amante sussurrar-me ao ouvido Chega-te para cá! Chega-te para mim! e eu chegar-me e colar o meu corpo ao corpo dela. E sentir-lhe o corpo fremir, a reagir ao meu e perceber o que era o desejo, a dimensão do meu desejo.
Sinto os pés do meu filho aos saltos na cama enquanto grita que quer ir andar de bicicleta comigo para a praça e eu desperto e levanto-me e vou para a praça andar de bicicleta.
Oh, a insatisfação.
A casa está em silêncio. Não há nada nem ninguém. Só eu, debaixo do edredão, num dia igual aos outros dias, e sem vontade de sair da cama, do quarto, da casa e pular para a vida de todo os dias.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/19]