Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Estou no Outono

Estava na casa-de-banho. Estava sentado na borda da banheira. Olhava para a rua através do quadro da janela da casa-de-banho. As árvores verdes, pontilhadas já com algum amarelo torrado. O céu azul com nuvens esbranquiçadas, num espécie de óleo renascentista, visto na dimensão, à distância, como pano de fundo das árvores que estavam em primeiro plano. Eram pinheiros. Pinheiros mansos.
Estava sentado na borda da banheira, nu, e via-me branco, branquinho, como há muito tempo não me via. O Verão tinha acabado e eu não tinha aproveitado os dias de sol e calor para me bronzear. O sol não queima fechado em casa.
Estava na casa-de-banho e via, na rua, através do quadro da janela, as árvores verdes, pontilhadas de amarelo torrado, a esvoaçar um pouco ao ritmo suave da aragem que se fazia sentir neste início de Outono ainda soalheiro.
O tempo já não era mas também ainda não era. Estava num limbo entre uma coisa e outra. O tempo estava como eu, sem saber muito bem como estar e ser. Indeciso entre mundos, funções, desejos. A querer ser uma coisa mas sem deixar de ser a outra.
Eu estava sentado na borda da banheira, nu, olhava para mim e via como estava flácido. Os músculos dos braços tombados para o chão. A barriga proeminente. Sentado, já me dificultava a visão da pila. Onde estás tu? perguntava, e tinha de lá ir com a mão para a sentir e descansar. Ainda a tinha comigo, ainda era homem e a barriga não desfez a minha masculinidade.
Estava na casa-de-banho, com a porta aberta. De um lado ouvia a aragem que agitava as árvores lá fora, na rua. Um som suave, discreto. Um embalo. Do outro lado o silêncio. O silêncio ensurdecedor da casa vazia.
Estava sentado na borda da banheira e ganhei coragem, baixei-me e comecei a cortar as unhas dos dedos dos pés. Não gosto de cortar as unhas. E as dos pés, menos ainda. Mas há alturas em que já não podemos fugir a certas obrigações. E logo ao primeiro corte, um golpe no dedo e o sangue a jorrar. Não percebi o que aconteceu. Pus o pé dentro da banheira, liguei a torneira e pus o pé debaixo de água. Ardeu-me. E vi um grande golpe no dedo. Mais um pouco e tinha cortado mesmo a cabeça do dedo.
Levantei-ma da beira da banheira, abri a gaveta do móvel e tirei gaze, água oxigenada e betadine. Limpei o dedo. Tentei estancar o sangue. Agarrei em fita-adesiva e fixei a gaze. E pensei É melhor ir ao hospital. E levantei-me e fui, a coxear, vestir qualquer coisa para ir ao hospital ver se precisava de pontos no dedo.
Estava mesmo no Outono.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/12]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

Preciso de Ir mas Ainda Não Fui

As grossas gotas de água caíam-me em cima. A água estava fria. O meu corpo estava quente. A ferver. As gotas de água caíam como punhais cravando o meu corpo.
Estava deitado, nu, sobre a relva do quintal. O sol torrava-me. A mangueira, agarrada pela mão direita, apontada ao céu, mandava para lá a água que vinha das montanhas e saía pela agulheta. Depois caía em cima de mim, como uma chuva de Verão refrescante.
Apetecia-me fumar um cigarro, mas não havia como. À minha volta era já um charco. Não devia tardar o coaxar das rãs.
Perscrutava com toda a atenção, todo e qualquer bocadinho de céu à procura de uma nuvem, por pequena que fosse, que me agilizasse o pensamento e me fizesse imaginar alguma coisa.
Tinha a cabeça a ferver. Não conseguia pensar em nada. Um blur cinzento num mundo colorido. O verde na terra. O azul no céu. Mas a cabeça cinzenta. Preciso pensar, dizia num mantra. Preciso pensar. Mas não conseguia.
O céu estava azul. Nem uma nuvem. Nem uma amostra de nuvem.
A água continuava a cair em chuveiro sobre mim. Sobre a minha cabeça e o meu corpo. Comecei a ficar com os dedos engelhados. O corpo envelheceu. Fiquei com frio. Fiquei frio. Larguei a mangueira e ela ficou ali a engrossar mais o charco onde eu estava deitado.
Levantei-me. Tentei levantar-me. Uma cãibra. Uma cãibra na perna. Uma dor diabólica. Voltei a cair no charco. Agarrei o pé com as duas mãos e fiz força. Tentei impedir o músculo de se fechar sobre si próprio. As dores eram horríveis. Fiz força. Depois massajei o músculo. Massajei a perna. Tentei levantar-me. Estava farto daquele charco. Fiquei furioso. Estas merdas são só para me chatear. Acabei por me pôr em pé. Fui a coxear desligar a mangueira. Voltei a olhar o céu. Azul.
Eu estava molhado. A coxear. E foi a coxear que entrei em casa. Entrei na cozinha a molhar as lajes do chão. Abri o frigorífico. Uma cerveja. Fui para o alpendre. Sentei-me nu e molhado a beber a cerveja. Acendi um cigarro. E disse Está um calor do caralho. E dói-me a perna. Tudo só para me chatear.
E foi então que sorri. Já conseguia pensar. A dor no músculo libertara-me daquela dormência. Já conseguia pensar. Primeiro pensei na dor que ainda sentia no músculo onde tivera a cãibra. Depois no dia de calor extremo que estava. E finalmente decidi que era hora de ler um bocado. Precisava de ler. Andava há uns tempos para acabar de ler o Homo Deus de Yuval Noah Harari. Era isso. Mas tinha de me levantar para o ir buscar. Lá dentro. A casa. À sala. À mesa da sala. E decidi que já ia. Mais tarde. Depois de descansar um pouco.
Ainda não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/22]

A Fotografia de Joana Gil

Deram-me um prémio. Uma fotografia. Uma fotografia de um trabalho nota vinte.
Uma mão entregou-me a fotografia na mão. A mão agarrou a fotografia mas os olhos é que viram a nota vinte.
Um primeiro olhar. Um cacifo. Um recanto íntimo de memórias guardadas. As meias com cheiro a chulé; a camisola transpirada; as botas Doc Martens cheias de óleo; umas luvas de borracha; outras luvas de borracha mas guardadas dentro de uma embalagem de plástico inviolável, que o tempo escureceu, mas preservou; uma caneta Bic Cristal Azul; outra caneta Bic Laranja de escrita fina preta; um maço de cigarros CT vazio, um pouco amarfanhado; uma boina basca; um capacete de protecção amarelo; uma embalagem de graxa preta; várias embalagens de preservativos, algumas delas abertas e vazias; um preservativo usado, com um nó na ponta, preservado nos seus restos – um horror!; um recorte de jornal com a imagem da Gina Lollobrigida; um pente de plástico com alguns dentes partidos; uma caixa com brilhantina; um canivete com cabo de madeira e lâmina cega; umas moedas de cinco escudos – quanto valeria isto no tempo em que valia? e hoje, quanto vale isto que já não vale?; uma bola insuflável, azul, vazia, da Nívea – queria levá-la para a praia e jogar com o vizinho anónimo da barraca do lado; um cinto de couro claro com uma fivela com um s estilizado – um cinto da Mocidade Portuguesa perdido num mundo comunista, a ironia da vida; um número da Crónica Feminina – o que raio fazia isto lá?; um exemplar d’A Batalha; uma garrafa de vidro, vazia, da Sagres, com uma aranha a viver no seu interior; uma Nossa Senhora de Fátima luminosa; uma cautela perdedora; um boletim do Totobola; uma vela de aniversário com um três numérico desenhado a cores na haste da vela; uma canção do António Calvário que se adivinha; ou do Zeca Afonso; uma pastilha May, bolorenta, embrulhada num cromo de papel com a imagem do Vítor Baptista equipado com o vermelho e com um brinco na orelha; um cartão de sócio do Benfica com o nome rasurado e a cota de 19… é difícil de perceber de quando.
Suspiro. Respiro.
Um segundo olhar. O cacifo amarelo de um operário-anónimo. O cacifo amarelo de um operário-metalúrgico da Lisnave. O cacifo de um constructor de barcos que vê o seu suor transformado em espelho-de-água para os sultões da finança se babarem com Lisboa viva na menina-dos-olhos. Um cacifo amarelo vazio ao lado de outros indistintos cacifos amarelos vazios, sujos, depósitos de memórias numeradas mas que não consigo identificar. Um cacifo amarelo onde estão coladas fotografias de mulheres nuas em poses eróticas. Desejáveis. E vejo o operário-metalúrgico que já esteve em construção, a masturbar-se sobre estas mulheres-fotografia que saíram do passado para o meu presente.
Está calor. Transpiro. Um pingo de suor tomba sobre as fotografias das mulheres-fotografia na fotografia premiado que a mão colocou na minha.
Não limpo. Não seco. Deixo escorregar. Até cair do papel mate que transporta até mim essa memória.
A fotografia é da Joana Gil. E eu sinto-me agradecido pelo que a fotografia me dá.
Sento-me no sofá e espero que me tragam também à mão um copo de vinho enquanto continuo a contabilizar o que o cacifo amarelo continha lá dentro: uma caixa de fósforos; um bloco de papel com linhas; um mata-borrão – e para que é que servia, ao operário, o mata-borrão?; uma régua de plástico incolor com 25 centímetros; uma primeira página, rasgada, de A Bola; uma caixinha de pó-de-arroz vazia e um espelho redondo quebrado; uma sapatilha da Edmar, número 40, mas solitária, sem par; uns calções de banho azuis escuros; uma caixinha para isco de pesca mas sem isco; uma embalagem de rebuçados Dr. Bayard, todos colados uns aos outros; um coração tosco desenhado com batom vermelho num guardanapo de papel. E percebi que o operário também foi amado.
A fotografia cai-me das mãos. E sinto-me adormecer até deixar de sentir o que quer que fosse porque já devo estar a dormir. E ninguém me traz copo de vinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/09]

Preciso de Sair Daqui

Mexo o braço debaixo de água. Vejo-o a mover-se lento, travado pelo atrito da água. O sol brilha, reflecte no espelho de água e, por momentos, deixo de ver o braço. Mas sinto-o a flutuar. Suave.
Deixo-me cair na água. Flutuo. Sinto pequenas ondas passarem por cima de mim. Está calor. Sinto-me bem aqui.
Tenho os olhos fechados aos raios de sol. E no entanto vejo. Vejo gente a mergulhar. A saltar da pequena prancha meio-metro acima da piscina. Vejo as explosões provocadas pelas bombas humanas lançadas em peso sobre a água da piscina para molhar as cercanias. As miúdas fogem. Fogem a rir. Algumas ainda são salpicadas por pingos de água. Despem os vestidos que largam abandonados pelo chão e mergulham na piscina. Brincam. Riem.
Alguém manda uma bola grande, insuflável. É azul. Tem escrito Nivea. É uma gigantesca bola insuflável da Nivea. Saltita na piscina. Mãos lançam-na de um lado para o outro. Não pára. Não cai à água. Alguém mais afoito bate com mais força e a bola foge para longe da piscina.
Há música no ar. Uma música alegre, fresca, dançável. Sinto-me a bater o pé. Não sei onde. Não me vejo. Mas sei que estou ali. Sei que estou ali porque sou eu que vejo o que se passa. E sinto-me a bater o pé ao ritmo da música que paira sobre o jardim, a piscina, a multidão de gente jovem e bonita.
Um casal beija-se. Um pequeno grupo dança. Uma trupe de pequenos diabretes corre de um lado para o outro disparando jactos de água de pistolas e metralhadores de plástico.
Alguém passa com uma cerveja na mão.
Uma rapariga está deitada numa chaise-longue enquanto bebe um longo cocktail colorido e cheio de adereços à volta do copo.
Um rapaz está sentado no meio da relva a comer uma fatia de melancia. Pinga-se. O sumo da melancia escorre-lhe pelo peito. Duas raparigas sentam-se ao pé dele e cortam mais fatias da melancia e também comem. Uma criança aproxima-se de uma das raparigas e senta-se ao colo dela. A rapariga dá-lhe a comer um bocado de melancia. O miúdo trinca. Depois levanta-se e vai a correr ter com os outros miúdos.
Abro os olhos. O sol já está mais baixo. Vejo o azul do céu. Não há uma nuvem. O céu está limpo. Ouço o restolhar das pequenas ondas da piscina a bater nas margens. Ainda está calor. As folhas das árvores não se mexem.
Viro-me. Nado até ao muro. Ergo-me. Saio da água. Entro em casa molhado. Deixo um rasto de água no chão da cozinha. Abro o frigorífico. Agarro numa cerveja. Abro-a. Dou um grande gole. Vou até ao jardim com a garrafa na mão. Sento-me numa cadeira e olho a piscina vazia. O jardim deserto. O silêncio. Não, o silêncio não. Ouço as cigarras. O som das cigarras é a minha companhia.
Preciso de sair. Preciso de sair daqui. Preciso de ver gente. Preciso de conversar. Tocar em alguém. Preciso de um pouco de confusão.
Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. Sinto a garrafa a escorregar-me dos dedos, não a consigo agarrar e cai sobre a relva. Ouço a cerveja a sair da garrafa. Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. A olhar as pequenas ondas na piscina vazia.

[2019/06/24]