Ninguém Aparece

Sentado na mesa da cozinha a tentar fazer o trabalho que já devia ter sido entregue ontem e não foi, pedi adiamento para hoje que me foi concedido mas continuo sem saber o que fazer, mantenho-me aqui parado a olhar, feito parvo, para a folha do Word que continua em branco depois de ter começado várias vezes e de todas as vezes ter voltado a apagar tudo o que estava a começar a escrever, vem-me o cheiro dos sonhos a serem fritos no fogão atrás de mim.
Os sonhos eram fritos em óleo a ferver, retirados para uma caixa forrada em papel de cozinha para absorver a gordura, e depois eram passados por outra caixa cheia de açúcar e canela em obscena mistura, sendo remetidos por fim para uma taça de vidro, a taça que ia para a mesa, e eu esperava um bocado que o sonho arrefecesse, para não me provocar azia, e fazia-o acompanhar-me o gin tónico que já levava uma tarde de avanço e que me iria embebedar ainda antes do jantar mas nessa altura bastava ir à casa-de-banho vomitar para voltar a ficar bem e com vontade de jantar a maravilha que ela estivesse a preparar para essa noite.
Já não há ninguém nas minhas costas a fritar sonhos. Já não entram sonhos cá em casa. Eu não os sei fazer e, de todas as formas, deixei de ter vontade de os comer. Agora são só memória. Memória que vem lá do fundo dos tempos só para me chatear.
A casa está fria, silenciosa e sem cheiro a comida. Tenho passados os dias a frango assado, pizzas congeladas e atum com arroz ou esparguete. Eu sei cozinhar. E não cozinho mal. Mas não tenho vontade. Deixei de ter vontade de cozinhar, de comer, de fazer seja o que for. Apetece-me beber. E fumar. E um café de manhã, ao levantar e de vez em quando, ao longo do dia, quando preciso de motivação para fazer alguma coisa e os copos de vinho tinto bebidos durante toda a tarde mantêm-me mole e apático.
Emagreci nestes últimos meses. Recuperei calças antigas que ainda estão boas. Mas a cabeça não está a funcionar tão bem.
Há uma semana que tinha que fazer este trabalho. Pedi um adiamento e ainda não consegui fazer o que quer que fosse. Sinto-me perdido. Não consigo concentrar-me. Não sei como começar.
Acho que precisava de um sonho cheio de açúcar e canela a acompanhar um gin tónico. Acho que precisava de a sentir a cirandar nas minhas costas, à volta do fogão, de um lado para o outro, a fazer coisas que cheiravam muito bem e sabiam ainda melhor.
Levanto-me. Acendo um cigarro e vou até à janela. Olho lá para fora. Vejo um gato deitado no meio do quintal. Não se mexe, o gato. Parece morto. Foda-se. Acho que me tenho esquecido de lhes dar comida. E o cão? O que será feito do cão?
Vou à porta da rua. Saio para o alpendre. Chamo o cão e os gatos. Volto a chamar. Ninguém aparece.

[escrito directamente no facebook em 2020/12/05]

Cavalo Dado

A cavalo dado não se olha o dente e eu não desprezo ofertas. Ainda por cima o velho veio lá de baixo da estrada, com o garrafão cheio na mão para mo oferecer. Não sabia que ainda existiam garrafões destes, de cinco litros, de vidro incolor e forrados a palhinha. O velho retirou a rolha de cortiça e deu-mo a cheirar A pomada! como ele disse. A pomada tinha um cheiro activo a azedo. Não sei se era dos anos que já levava de rodagem de vinhos e da mistura dos anos sem ser lavado, se era deste próprio vinho.
O velho pediu dois copos para provarmos. Quer dizer, para eu provar à frente dele para ele ver a minha reacção ou para explicar porque é que aquele vinho era como era. Fui busca dois copos de vidro. Bebemos de um só gole. Fizemos Ah! Eu tossiquei com a aspereza do vinho e ele disse que aquele vinho, aquela pomada Até cega!, como quem diz que é vinho para homens de barba rija, não para miúdos. E eu acenei com a cabeça, a concordar, acendi um cigarro para descontrair e, despedi-me dele com novo aceno de cabeça que os tempos presentes pedem distância social.
Fiquei a fumar o cigarro enquanto o via descer a alameda de regresso ao carro que tinha ficado na estrada. Provavelmente com outros garrafões que iria levar a outros amigos, gente para quem quereria despachar este vinho para ganhar espaço para o que iria entrar lá em casa agora.
Pensei que com um pouco de Seven Up e limão espremido, até que poderia dar um bom refresco. E foi o que fiz.
Enchi um copo de gelo. Espremi meio limão, dois terços de vinho e um de gasosa. Um tinto de verano como fazem os espanhóis. Pena não ter calamares nem tapas de anchoas. Nem tremoços nem pevides. Fui fumando cigarros. E bebendo. Não sei quantos tintos fiz. Mas escorrem que nem refrescos. E fui bebendo. O vinho é mau mas sabe bem. Acabei por fazer as mesmas medidas para um jarro. Vim para o alpendre, onde ainda estou. E não consigo levantar-me. O mundo gira à minha volta, mas não está vento. Acabei com os cigarros mas não sei se consigo ir à aldeia. Sinto-me muito pesado. Não consigo levantar-me da cadeira. Já é de noite. Está a ficar frio, mas não consigo levantar-me daqui. Já me ri sozinho quando me esforcei demasiado, à pouco, e libertei flatulência. Agora estou enjoado. Talvez vomite. Talvez me faça bem vomitar. Alguma coisa deve ter-me feito mal ao estômago. Ou à cabeça. Ainda não comi nada e ainda não percebi o que é que me dói. Mas não, não me dói nada. Estou somente no alto mar no meio de uma tempestade. E estou a tentar não me afundar. Agarro-me aos braços da cadeira com unhas e dentes. Este instinto de sobrevivência é muito forte. Tenho sede. E fome. Acho que estou com azia. Apetece-me um cigarro. Preciso de sair daqui. Quero a cama. A minha cama.

[escrito directamente no facebook em 2020/10/04]

Aquele Mês de Agosto

Naquele mês de férias que passei em casa dela, à hora do almoço ela mandava-me sempre para trás da casa, para perto da garagem, onde tinha uma espécie de churrasqueira que o ex-marido tinha construído, com tijolo e cimento e uma chaminé que subia acima do telhado da garagem e levava o fumo para os quintais da vizinhança, numa zona ventosa, e eu ia para lá todos os dias assar sardinhas, pelo menos enquanto houvesse sardinhas, pensava eu, tendo-me esquecido que agora havia sempre sardinhas o ano inteiro porque o Pingo Doce as vendia congeladas e as sardinhas aguentavam assim todos os meses do ano e então, o mês de Agosto, não haveria de ser um problema e sofrer com falta delas.
Assava primeiro dois pimentos, um verde e outro vermelho, que metia, assados, dentro de um saco de plástico que fechava, com um nó, e deixava-os ficarem lá a cozer a pele até ela lá ir buscá-los e levá-los para dentro de casa, despelá-los e juntá-los à salada que estava a fazer e com o qual iríamos acompanhar as sardinhas. Eu também cortava uma fatia de broa de milho para cama da sardinha e que guardava até ao fim, depois de comer todas as sardinhas que me estavam destinadas, para que estivesse bem embebida em azeite e pedaços perdidos das sardinhas. Ela não comia a broa porque dizia que lhe provocava azia e flatulência.
As primeiras vezes, e dada a minha falta de cultura para fazer brasas e assar fosse lá o que fosse, eu, menino da cidade, armado de uma embalagem de gasolina Zippo despejava golfadas e deitava-lhes fogo e via os raminhos a começarem a arder, juntava-lhes o carvão e agitava as chamas com um abanador de palha que lembro de ver um parecido nas mãos da minha mãe quando ela também assava as sardinhas mas num minúsculo fogareiro na varanda do nosso apartamento na cidade. Aprendi depressa a desenrascar-me.
Passei todo o mês de Agosto a comer sardinhas assadas à hora do almoço. Depois dormíamos a sesta debaixo de uma árvore, deitados sobre uma mantinha que partilhávamos com as formigas, fazíamos amor quando acordávamos e dávamos um mergulho no tanque de água gelada que ela usava para regar as hortaliças que cultivava e que vendia para o Pingo Doce, e eu aproveitava para me lavar depois de andar a roçar-me nela e com ela.
Ao fim da tarde ela fazia uma sangria que despejávamos à velocidade da luz. Era refrescante e escorria pelo gargalo abaixo sem pedir autorização.
Ao jantar era ela que inventava sempre qualquer coisa, uma tosta, uma novidade criada assim em cima de uma fatia de pão que torrava e que eu comia com um prazer diabólico, ou uma salada, criada na hora com o que houvesse nas prateleiras do frigorífico ou esquecido na despensa. Às vezes misturava fruta nas saladas que fazia. E queijos.
No fim do mês de Agosto eu tinha engordado cerca de dez quilos.
Decidi que aquilo não era vida para mim. Quando tentei vestir umas calças de ganga, percebi que já não cabia dentro delas. Foi a gota de água. Fui-me embora.
Depois desse mês de Agosto de vacas bem gordas, acabei por cair de amores por uma rapariga escanzelada que a única coisa que cozinhava era um esparguete insípido, demasiado cozido, ao qual juntava uma lata de atum inteira e, às vezes, era ela que acabava por comer o atum todo porque nunca o misturava. Também não me demorei por aquela casa.
Hoje, quando como sardinhas assadas, lembro-me sempre daquele mês de Agosto. Eu nunca mais voltei a assar sardinhas. E tenho saudades daquelas tardes dormidas sobre a mantinha, debaixo da árvore, e do acordar com ela a enfiar-me traqueia abaixo e a dizer-me Cheiras a fumo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/14]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Uma Sardinhada

Eu devia ter percebido logo. Mas não percebi. Às vezes não percebo logo as coisas. Mesmo quando são evidentes.
Era perto do meio-dia. Eu estava em pé, no alpendre, a ver o cão às voltas do arbusto e a levantar a perna para mijar e marcar território mas já sem ter mijo para despejar, quando ela chegou por trás de mim com um gin tónico nas mãos. Sorri e agradeci. Estava calor. Não costumo beber álcool de manhã mas, não ia dizer que não. Levantei o copo para ela em agradecimento e bebi um gole, um grande gole com o qual despejei quase metade do copo. Estava refrescante. Soube-me bem.
E então ela disse Comprei sardinhas.
Oh, pá! Afinal, era isso. O gin era para me comprar. Era para me preparar para as sardinhas. A lata dela. Bom, tinha uma fogueira para ir fazer. Tinha brasas para ir fazer. Tinha sardinhas para ir assar.
Dei-lhe um beijo e fui até à churrasqueira. Gravetos. Uns pauzinhos maiores e mais grossos. Pinhocas. Acendalhas. Risquei um fósforo. Acendi o lume. Abanei um pouco com o abanador. Beberiquei o gin. Dei novo gole. Acabei com ele. O gin é refrescante. Escorre pela garganta. Vai-se enquanto o Diabo esfrega o olho. E só bate quando é tarde demais.
Continuei a abanar o lume para fazer crescer as chamas. O fogo estava vivo. Ela voltou a aparecer com outro gin tónico e uma caixa com sardinhas e dois pimentos, um verde e um vermelho. Beberiquei o gin.
Peguei no saco do carvão e despejei um pouco sobre o lume. Dei ao abano. Fiz o carvão incandescer.
Virei-me para trás. Vi-a voltar para o interior de casa.
Há uns anos, numa férias, as primeiras férias que fizemos juntos, partilhámos quase tudo, a cama, a comida e a bebida. Lembro-me de estarmos a vir da praia, primeiro dia de praia juntos, os corpos quentes, o meu muito queimado porque não quis usar creme protector, e mais tarde tive de me besuntar com creme hidratante, sentei-me numa esplanada, com ela, e mandámos vir uma tosta mista que partilhámos. Metade para mim, metade para ela. E uma cerveja. Dois copos. Metade para mim, metade para ela. Ela ainda me deu uma trinca da tosta dela, assim, da boca dela, num bocado maior, com um bocado de fora da boca e que me obrigou a aproximar dela, da boca dela, os lábios a tocarem-se, os dentes a rasgarem o pão de forma torrado, o queijo derretido a cair pelo queixo abaixo.
Os gravetos arderam. O carvão estava em brasa. Coloquei a grelha e os pimentos. Deixei os pimentos assarem bem. Queimaram um pouco mas não havia problema. Era a pele. O queimado era na pele. Bebi mais um bocado de gin. Ela apareceu com um saco de plástico. Coloquei os pimentos dentro do saco de plástico. Ela deu um nó no saco. Eu coloquei as sardinhas na grelha. Ela deu um gole no gin. No meu copo de gin. Eu tirei-lho das mãos e acabei com ele. Ela levou o copo vazio e os pimentos.
Nesse dia, e depois de me ter colocado creme hidratante no corpo, saímos para jantar. Comemos frango assado. Meio-frango assado com batatas-fritas e salada. Era uma dose. Partilhámos a dose pelos dois. Voltámos a beber uma cerveja pelos dois. Naquelas férias foi tudo muito assim. Partilhámos tudo. Ou quase tudo.
Ela voltou com outro gin. Beberiquei. Virei as sardinhas.
Mais tarde, naquela noite, partilhámos uma fartura e fiquei cheio de azia. Tivemos de procurar uma farmácia aberta para comprar Kompensan. Ela também tomou uma pastilha. Não porque precisasse. Mas por solidariedade.
As sardinhas estavam assadas. Acabei com o gin. Sentia-me um pouco tonto. Entrei em casa com as sardinhas e o copo de gin vazio.
A mesa estava posta. Uma fatia de broa nos pratos. Uma batata cozida. A saladeira com uma salada de pimentos, pepino e tomate. Azeitonas. Uma garrafa de vinho aberta e vinho nos copos.
Comi e bebi. Fui pondo as sardinhas sobre a fatia de broa. Parti a batata. Um pouco de salada ao lado. Reguei com azeite. Comi uma azeitona. Outra. Porra, estava com fome. Devorei a sardinha. Fui repondo uma sardinha em cima da fatia de broa. No fim, comi a broa cheia de azeite e gordura das sardinhas. Bebi vários copos de vinho tinto. Não sei quantos.
No fim, arrotei. Estava satisfeito. Sonolento.
Fui até ao alpendre. Sentei-me e deixei-me adormecer.
Voltei à praia. Nessas férias fiz nudismo. Fizemos. Eu e ela. Foi a primeira vez que fiz nudismo na praia. Voltei a não usar creme protector. Voltei a queimar-me. À noite, ela voltou a besuntar-me com creme hidratante. Nessa férias partilhámos tudo. Menos os corpos. Eu não estava em estado de fazer sexo com ninguém. No dia seguinte fomos comprar um chapéu-de-sol e passei o resto das férias debaixo do chapéu.
Acordei agora, há uns minutos. Ainda estou a pensar naquelas férias. Um dia tenho de falar naquelas férias. As férias em que partilhei tudo com ela, menos os corpos. Por minha culpa. Às vezes sou estúpido e faço merdas assim. Mais tarde vim a partilhar o corpo com ela. O meu corpo e o corpo dela. Até hoje. Hoje já não vou para a praia sem creme protector. Mas continuo a partilhar tudo com ela. Agora até o corpo. O meu. O meu e o dela.
Naquelas férias também não comemos sardinhas. Foi o único ano em que não comemos sardinhas. Nem sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/13]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

Um Fantasma Caminha pela Cidade em Tempos de Emergência

Caminho pelo passeio irregular de calçada portuguesa. Quando era criança caminhava só pelas pedras azuis, fazia as curvas com ângulos de noventa graus e às vezes, a minha mãe tinha de esperar por mim ao fundo da rua que as pedras azuis afastavam-me dela, do trajecto dela, e depois era o cargo dos trabalhos para regressar ao regaço familiar sem pisar nas pedras brancas. Agora ignoro as linhas, os desenhos, as cores das pedras. Agora caminho a direito ao longo do passeio indiferente aos desenhos marcados na calçada.
Caminho numa cidade quase-fantasma. Não há mais ninguém a caminhar na rua. Algumas lojas estão fechadas. Outras estão abertas. Mas estão vazias. Não há clientes. Vejo, através das montras, um solitário atrás do balcão à espera do improvável cliente para um qualquer produto não-essencial. Caminho sozinho pelo passeio, mas há mais carros na estrada, parece-me. Sinto o cheiro do combustível queimado. Não é normal sentir este cheiro. Talvez eu esteja demasiado sensível. Talvez o cheiro esteja mais forte. Talvez haja mais carros na cidade. Talvez se queime mais combustível. Talvez seja as profundezas da cidade em ebulição.
Passo ao lado da garagem dos autocarros. A enorme porta de ferro pintada de azul celeste está corrida. Não há autocarros a partir dali. Talvez passem pela cidade a caminho de outros destinos mais distantes e mais importantes. Talvez passem pela cidade e larguem algum passageiro. Talvez levem outro. Mas daqui não sai nenhum autocarro. A cidade é pequena. Não tem importância política e muito menos económica. Ninguém vem para esta cidade. Só eu.
O tempo está cinzento. Não está frio, também não está calor, mas está desagradável. Sinto um desconforto desde que cheguei à cidade. Como se alguma coisa se abatesse sobre mim. Mas eu tive sorte. A mim vieram trazer-me. Eu estava fora e trouxeram-me. Livraram-me de uma viagem de autocarro, provavelmente cheio, cheio de gente que não saberia de onde vinha, com quem teriam estado e se transportariam algum inferno dentro deles.
Páro um pouco na rua e olho os prédios em frente, do outro lado da estrada. Há gente nas casas. Mas não há gente nas varandas. Como se estivessem escondidos. Com medo. Acendo um cigarro. Retomo o caminho. Penso no Harrison Ford de cigarro ao canto da boca (se calhar não havia cigarro) e gabardina de três quartos, gola levantada a proteger o pescoço da chuva miudinha que teima em cair, a caminhar ao longo de uma rua de neons e fumo que sai de vários sítios e ampliam aquela imagem de herói-anti-herói rebelde do Blade Runner, que por vezes se mistura com as sombras que o devoram, e sinto-me como ele, de casaco curto e de corte mais clássico, cigarro nos dedos da mão a caminhar ao longo de uma rua deserta à luz de um dia cinzento. Não, eu nunca poderia ser um Rick Deckard. Não sei caminhar daquela forma como se dominasse o mundo e o fosse devorar. Eu encolho-me a um simples aviso de alerta. Eu evito entrar em autocarros que possam vir cheios e contaminados. Eu sou um medricas que só não é cobarde porque nem tem coragem para o ser.
Ouço um som melodioso. Um som de piano que vem lá da frente. Aproximo-me e o som aproxima-se de mim. É uma melodia bastante agradável. Suave. Parece pegar em mim e levantar-me no ar e, por momentos, pareço flutuar. Aproximo-me do largo do Teatro e vejo um homem sentado a um piano de cauda a tocar. Não há ninguém ao pé dele. Está sozinho. Ele e o seu piano. E as notas que produzem em conjunto. Sinto-me como uma personagem de uma leve comédia-romântica. Agora vejo algumas caras coladas aos vidros das janelas das casas a olhar para o homem. Não sei porque é que ele está ali. Não sei porque é que ele está ali a tocar piano, mas sinto-me agradado com o encontro, com aquela surpresa, e páro por momentos ao pé dele a vê-lo e ouvi-lo enquanto acabo de fumar o cigarro. Belisco-me para perceber se estou acordado e magoo-me. Não importa. Penso como às vezes a vida pode ser tão bonita. Sempre gostei do som de piano. Gostava de ter aprendido música. Gostava de saber tocar guitarra. Gostava de saber tocar piano. Gostava de saber tocar com as baquetas numa bateria e produzir um som agradável, ritmado. Mas sou uma nulidade sem par. Não tenho jeito para a música. Não sei cantar. Tenho uma voz de merda e nem no coro da igreja me quiseram. Aguentaram-me dois dias. Ao fim do segundo dia disseram-me para não voltar no dia seguinte. Foi aí que decidi jogar andebol. Também não fui grande coisa, mas fui um pouco melhor.
Gosto muito de ouvir o som de um piano. E a cidade ganha outra dimensão. Ganhou pulsão nas suas artérias, mesmo que vazias de almas. Até parece que as nuvens se abriram aos raios de sol, mas é mentira. O cinzento do céu mantém-se. Eu é que, por momentos, fiquei um pouco mais feliz. Por momentos esqueci os tempos difíceis que vivemos e senti um fogo no peito, um fogo que me aqueceu e me deu alento.
O alento comigo é sempre sol de pouca duração.
Largo a beata no chão, aos meus pés. Deixo o pianista inundar as ruas da cidade com as suas notas melodiosas e entro no Pingo Doce lá mesmo ao lado. E fico parado à entrada. Eu só ia comprar umas carcaças e um pacote de manteiga e há toda uma multidão de gente no que parece um happening com vários carrinhos-de-supermercado cheios até cima, a abarrotar com o que me parecem ser pacotes de papel-higiénico, garrafões de água, latas de conserva e frescos. Parece que se anunciou o fim-do-mundo e há que fazer uma festa. Que é o que está a acontecer ali, nas filas para as caixas do supermercado. As pessoas conversam. Riem. Mantém uma certa distância entre elas, mas comunicam e, em certa medida, divertem-se. Talvez tentem iludir-se. Ou sou eu que estou iludido.
Saio por onde entrei. Não tenho paciência para esperar sobreviver aquele mar de gente e confusão. Eu não me sinto alegre como eles, mesmo que o piano no largo do Teatro me tenha deixado bem disposto.
Saio para a rua. Acendo novo cigarro. Penso que as ruas da cidade estão desertas porque está toda a gente nos supermercados a comprar tudo o que podem para se fecharem em casa e esperarem pela salvação.
Há um café mais à frente. Vou até lá. Espreito pela montra. Também tem muita gente, mas menos que o supermercado. Fico à entrada a acabar o cigarro. Depois entro. Vou ao balcão. Descubro que têm pão. Compro três carcaças. Compro mais três rissóis de camarão. Peço um café mas depressa descubro que vem queimado e fico logo com azia. Penso que tenho Kompensan em casa. Ao mesmo tempo descubro um pastel-de-nata queimado a sorrir para mim. E digo-me que dias-não-são-dias. A rapariga que está ao balcão percebe-me e sorri. Coloca-me o pastel-de-nata à frente. E um frasquinho de canela. Agradeço com um Obrigado! que é mais gesticulado pelos lábios que audível. Ouço uma senhora ao meu lado perguntar se o café vai fechar e o dono dizer que não. Que tem de trabalhar. Que não sabe nada de política. Que a política dele é o trabalho. Que tem a família para sustentar. Que tem doze pessoas a dependerem do trabalho dele. Que não tem medo do medo. E eu como o pastel-de-nata, acabo de beber o café queimado, pego no saco de papel com as carcaças e os rissóis, pago tudo e saio do café.
Na rua olho para o caminho que vou ter de percorrer até casa e vejo-o deserto. Não entendo por onde é que caminham todas estas pessoas que estão ali no café e as que  estavam no supermercado. Não caminham pelas ruas, isso é uma certeza. Pelas ruas caminho eu. Sozinho. E pergunto-me se não serei eu um fantasma.
Se não for para casa quem dará pela minha falta?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/13]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Sinto-me em Queda

Querem que sorria?
Que agradeça a sopa quente que me oferecem num copo de plástico?
Que a minha cabeça acene, obediente, as ordens de um algoritmo?
Querem gratidão pela dádiva do Pai?
Estou em queda.
Tudo cai. Tudo morre. Não há gratidão possível quando tudo morre.
Foi o quadro que caiu parede abaixo. Não rasgou a tela, vá lá. Mas partiu a moldura. Uma moldura barata comprada numa loja de chineses. Assim como a tela. Foi numa loja de chineses que o artista comprou a tela que pintou. Não havia dinheiro para mais, disse. Não há dinheiro para mais, digo.
Foi o computador que caiu do braço da poltrona abaixo, onde estava em equilíbrio precário para apanhar o wireless fugidio. Uma amolgadela no alumínio perfeito do MacBook Pro, desenhado na América mas fabricado na China.
Foi o carro que bateu num pilar numa marcha-atrás feita às escuras e sem visão no ângulo morto. Chapa rasgada, amolgada e tinta descascada.
Foi a conta da electricidade. Tenho-a aqui na mão. Valor por kwh. Escalão 1. Potência mais baixa. Taxas e impostos. Contribuição audiovisual. Mais o IVA para isto tudo. Deixar cortar? Que importa agora? Não estou em casa.
Estou em queda.
Escorreguei no meu próprio vómito. Parti a bacia. Tenho de parar de beber vinho barato. É barato mas sai caro. Dá-me azia. Revolve-me o estômago. Faz-me bolsar as tripas.
Escorreguei no vomitado e caí. Parti a bacia. Enxaqueca. Dentes cariados. Garganta inflamada. Cravos nas mãos. Unhas encravadas nos dedos dos pés. Hemorroidas. Borbulhas várias ao longo do corpo, especialmente nas costas e nas virilhas. Algumas com cabeça branca. Cheias de pus. Varizes. Pernas trémulas. Artroses. Já não escrevo nada com caneta. Mal toco as teclas do computador amolgado. Agora só falo. Comigo. Duas horas caído no chão até conseguir arrastar-me pelo corredor, os gritos calados, até chegar ao telemóvel e chamar os bombeiros.
Estou no SNS. Talvez o que melhor funciona nesta pobre país a cair das arribas para o mar. Talvez por isso queiram dar cabo dele. Talvez porque funciona para quem não tem seguros de saúde privados. Como pagá-los? O Salário Mínimo Nacional é de 635 euros em 2020.

O presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, considerou que 635 euros para 2020 é Um objectivo ambicioso, tal como o objectivo para 2023, de atingir 750 euros.

Triste quando a ambição do presidente da CIP é tão pouco ambiciosa. Reflecte a realidade empresarial nacional. Temos os salários que merecemos. Os trabalhadores que merecemos. Os empregos que merecemos. Os patrões que merecemos.
E eu? O que é que eu mereço?
Estou em queda. E a vida tirou a vida para me chatear.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/10]

O Telemóvel

Estamos ali os dois a olhar um para o outro. Ela sentada na poltrona da sala. Eu em pé. Tenho as mãos na cintura, inquisidor. Ela olha-me como um cachorrinho, de olhar meigo e suplicante. E queixa-se Tu nunca acreditas em mim. Eu suspiro e respondo Acreditar, acredito. Mas às vezes é difícil…
E ela volta a explicar-me, outra vez, como foi roubada ali dentro de casa. A mulher, não sei que mulher, uma mulher qualquer que ela explica que costuma lá ir a casa chateá-la, entrou lá em casa e roubou-lhe o telemóvel sem ela perceber. E ela só percebeu quando o viu na mão da mulher.
Na televisão está a dar um filme com o Eddie Murphy. Ela gosta dos filmes com o Eddie Murphy. E dei comigo a pensar no que é que o Eddie Murphy andaria a fazer, que desde os anos ’80 tinha-lhe perdido o rasto, para além das vozes do burro nas animações do Shrek. O Eddie Murphy tinha tido dois grandes sucessos, O Caça-Polícias e o 48 Horas. Não sei se o que estava a dar na televisão era algum destes.
Volto de novo a atenção para ela e pergunto-lhe, outra vez, quem era a mulher, mas ela responde como tinha respondido das outras vezes É uma mulher. Uma mulher que costuma aparecer por aqui, e pronto, era essa a definição da mulher.
Deixo-a entretida com o Eddie Murphy e vou procurar o telemóvel. Nos bolsos dos casacos dela. Nas várias malas. Nas carteiras. Em todas as gavetas, na mesa-de-cabeceira, no móvel, na estante. Mesmo nas duas gavetinhas da máquina de costura para onde ela costumava enfiar coisas. Mesmo nas prateleiras da casa-de-banho. Não encontrava o telemóvel em lado nenhum.
Já lhe tinha tentado telefonar, mas estava desligado.
Resolvi sair e dar uma volta pelos cafés da zona. Gritei-lhe da porta da rua, à saída, Já venho. E fui a um café, a outro, ao supermercado. Perguntei se tinham encontrado um telemóvel de abrir, com teclas grandes, não era smartphone, era só um telemóvel que fazia e recebia chamadas e estava num contrato em que tinha mais de seiscentos euros de crédito para chamadas que não chegava a fazer nem havia maneira de reverter aquilo em qualquer outra forma de crédito. Nada. Nada em lado algum.
Viagem infrutífera. Aproveito para beber uma bica. E comer um sonho. São os únicos sonhos da minha vida, estes que como na semana do Natal. Normalmente são todos muito maus. Este também é mau. Está cheio de óleo. Sinto a azia a chegar. Passo logo pela farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. E pergunto-me porque é que vou sempre atrás dos sonhos quando eles acabam sempre por me fazer mal?
Regresso a casa. O Eddie Murphy está a acabar. Ela diz que quer comer um iogurte. Pergunto-lhe se quer que o vá buscar. Ela responde que não, que precisa de se levantar e vai ela mesmo à cozinha. Dou-lhe a mão para a ajudar a levantar-se e nesse momento, nesse preciso momento, vejo o telemóvel tombar para o chão. Ela também o percebe. Eu digo Olha! O teu telemóvel! E ela responde logo Foi a mulher que o escondeu aqui. Foi só para me chatear, com certeza. E eu já não digo nada. Ela vai até à cozinha comer um iogurte de maracujá. Eu coloco o telemóvel à carga. Depois ligo-o.
Acabo também por ir comer um iogurte. Vou comer um iogurte para me fazer esquecer o sonho. E ficamos ali os dois, na cozinha, a comer um iogurte cada um.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/21]