Destilar Ódio

Agora ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Uns têm a razão pelo seu lado. Os outros são sempre umas bestas. Uns são comunistas. Os outros, uns fascistas. E há quem berre. Uns porque sim, porque assim fazem-se ler com mais acuidade. Outros só porque não perceberam que estão com o caps lock. Ainda há quem se ria sarcasticamente com kapa (kkkkk), que é afinal uma forma brasileira de rir (mas não sei porquê). Uns defendem o indefensável. Outros atacam o inatacável. Todos cheios de certezas e razões. De repente, não há meios termos nem espaço para dúvida.
Um tédio, é o que é. Bocejo enquanto faço scroll.
As redes sociais parecem-me infrequentáveis. Mas o problema não são as redes sociais. São as pessoas. São sempre as pessoas.
Há sempre um Tulius Detritus ao virar de uma esquina, num comentário a um post, numa pequena opinião sensaborona e sem grandes veleidades. E, depois…
Um tédio, é o que é.
Não fosse o copo de vinho que seguro na mão esquerda nem o cigarro preso nos dedos da mão direita, a mesma com que faço scroll, e já tinha atirado o iPad contra a cabeça do gato. Está ali à frente a lamber o cu e depois pára a olhar para mim. Eu olho-o de soslaio para que não perceba que estou a olhar para ele, mas o cabrão olha para mim e depois continua a lamber o cu.
Faço mais um scroll e canso-me. Não se passa nada mais para além do ódio, e das palavras amargas cuspidas por uns e por outros.
Toda a gente cheia de razão e ninguém com dúvidas.
Um tédio, as redes sociais, as pessoas, a vida.
Toca o telemóvel. Olho para ele em cima da mesa de apoio. Sem identificação de número de chamada. Agora é uma constante. Os call center das telecomunicações a quererem vender-me nada. Um nada como se fosse tudo. Quando peço fibra óptica dizem que não é possível. Não é rentável. Satélite. Tem de ser por satélite. Que está sempre a falhar, digo eu. Esmifra-se para me dar três ou quatro mega, sublinho. E o silêncio do outro lado. Mas pago o mesmo. Pago o mesmo que os que têm fibra óptica.
Um tédio, este capitalismo.
E ainda acham que está tudo bem. Concorrência, dizem. A concorrência favorece o cliente, dizem. Mas não há concorrência. Há concertação. Mesmo que camuflada. Lembro-me dos anos em que percorria as auto-estradas para norte e para sul. O mesmo preço de combustível nas diferentes estações de serviço. Concorrência?
E, de repente, percebo que também eu sou um tipo maldisposto. Também estou azedo.
Ora, porra!
Por enquanto ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Quanto falta para começarmos a colocar a mão na cara do outro? Quanto tempo para agarrarmos num martelo, numa faca, num revólver e dispararmos sobre o outro?
Um tédio, esta vida cheia de razão.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/08]

A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

Como É que se Destrói o que Já Está Destruído?

Como é que se destrói o que já está destruído?
Tinha passado o dia inteiro a pensar nisso: como é que se destrói o que já está destruído?
Fiz o meu trabalho, que não tem nada que saber, não é nenhuma ciência, nem requer grandes conhecimentos, mas que exige bastante atenção, pois estou sujeito a ficar sem os dedos das mãos, há vários colegas meus assim, lá na fábrica, sem alguns dedos das mãos, dedos deixados dentro das máquinas com que temos de conviver, e mesmo assim não consegui deixar de pensar no filme que tinha visto na véspera, à noite, sobre a guerra na Síria. A guerra na Síria e os seus incontáveis mortos. Uma guerra de que ninguém quer saber. Uns mortos que ninguém quer ver. Vi o filme e passei a noite em claro, desperto, de candeeiro aceso na mesa-de-cabeceira porque não conseguia enfrentar a escuridão da noite e o que ela traz. E depois, de manhã, depois de ter bebido uma caneca de café para me manter acordado no trabalho e ter fumado um cigarro, o filme veio comigo para o trabalho. E não deixei de pensar nele. O dia inteiro a pensar nele. Não cortei nenhum dedo, mas também não resolvi a equação: como é que se destrói o que já está destruído?
Às quinze horas, quando acabou o meu turno, pensei em ir dar uma volta pela cidade. Beber uma imperial. Libertar a cabeça dos seus dramas e descontrair. Ir a uma esplanada, talvez. Se não chovesse. Se não fizesse frio. Se não me desse a neura a meio do caminho e mudasse de vontade.
Mas nem cheguei aí, a meio do caminho.
Ao aproximar-me do carro, vi que tinha um furo.
Merda.
Depois de um dia de merda a fazer um trabalho de merda por um salário de merda a pensar que há gente que tem uma vida muito mais merdosa que a minha e, mesmo assim, debaixo de bombardeamentos constantes em cidades sitiadas por anos, têm filhos, têm inúmeros filhos, casam, fazem festas de casamento e de aniversário e buscam, mesmo assim, a felicidade, pensei que, ao ver o pneu do carro em baixo, que merecia um pouco mais de sorte da roda do destino. Até parecia que o mundo me queria atazanar o juízo.
Tirei o pneu de reserva, e vi que, ainda por cima, era de diâmetro mais pequeno, só para desenrascar, e que teria de ir à recauchutagem o mais rápido possível para recauchutar o pneu furado, tirei o macaco e a chave de porcas em cruz e o triângulo. Depois pensei para que raio me serviria o triângulo se o carro estava com o furo no parque de estacionamento da fábrica. Mandei o triângulo para dentro do porta-bagagens e percebi que tinha acabado de fazer merda. Eu a pensar nisso e o triângulo a bater no canto de uma caixa-de-ferramentas (quem é que anda com uma caixa-de-ferramentas no porta-bagagens do carro?) e lascou um bocado do vidro reflector que o vi saltar no ar e projectar alguns reflexos de sol pelo interior do carro como se fosse uma bola de espelhos numa festa de garagem nos anos ’80. E aí bateu uma saudade.
Merda.
Acendi um cigarro. Encostei-me ao carro a fumar o cigarro e pensei para comigo Se estivesse em Aleppo, seria pior! E seria, com certeza. Pois como é que se destrói o que já está destruído? E, estranhamente, acalmei. Deixei o fumo do cigarro entrar pelos pulmões e pensei que, de qualquer maneira, ainda poderia ir beber uma cerveja depois de mudar o pneu. Ora pois.
Deitei o cigarro fora. Arregacei as mangas. Agarrei na chave de porcas e comecei a desaparafusar as porcas que prendiam o pneu ao carro. Depois, antes de tirar as porcas por completo, peguei no macaco e comecei a elevar o carro. É difícil manusear estes macacos modernos.
Uma colega de trabalho, uma colega engraçada do trabalho, uma colega que costuma rir-se constantemente para mim, uma colega que é divorciada e sem filhos, bem-disposta e que faz piadas por tudo e por nada, passou por mim quando eu estava a elevar o carro com o macaco de difícil manuseamento e perguntou-me a rir (lá está!) Precisas de ajuda? E eu sorri, um sorriso amarelo e parvo e limitei-me a abanar a cabeça. Ainda pensei em convidá-la para ir beber uma cerveja comigo depois de ter mudado o pneu, mas olhei para as minhas mãos, todas sujas da borracha do pneu, e senti o cheiro que exalava debaixo dos sovacos e pensei que seria melhor ficar calado, não fosse ela aceitar, a pensar que, afinal queria levá-la era para o pinhal, o que ela quereria, e que com as unhas e os dedos tão encardidos que estavam e com o cheiro azedo que exalava, era bem melhor não me meter em grandes cavalgadas e não estragar aquilo que bem podia ser um caso com futuro no futuro, futuro esse que talvez não fosse assim tão distante. Baixei os olhos para o pneu e senti-a, pelo canto dos olhos, seguir em frente para o seu carro, a olhar para trás, para mim, até entrar dentro do seu carro que, um pouco mais tarde, ouvi sair do parque de estacionamento da fábrica.
Merda.
Acabei de mudar o pneu. Limpei as mãos às calças de ganga, que ficaram sujas, mas as mãos também, também continuaram sujas, encardidas, e as unhas pretas, cheias de merda enfiada debaixo da unhas.
Enquanto mudava o pneu era tal a irritação que não pensei mais na Síria. No fim acabei a pensar que é assim que as pessoas passam ao lado destes dramas: têm os seus próprios problemas, mais dramáticos porque são os seus. E a Síria fica lá longe. Onde é que fica a Síria, afinal? Fica lá no sítio onde ainda se consegue destruir o que já está destruído.
Uma merda, é o que é.
Entrei no carro. Liguei a ignição e pensei Vou beber uma cerveja. E arranquei com o carro. Mas à medida que galgava o asfalto, percebia que não estava a ir para a cidade, para uma esplanada, para um bar beber uma cerveja. Estava a ir para casa.
Cheguei a casa. Larguei o carro. Entrei e fui directo para a sala. Acendi um cigarro e comecei a chorar. A chorar convulsivamente. A chorar baba e ranho. A chorar alto. Aos berros. A chorar tanto que às vezes me parava a respiração. E eram tantas as lágrimas que me turvaram a vista que eu já não via o cinzeiro na mesa-de-apoio à minha frente. Mais tarde vim a perceber a quantidade de beatas caídas sobre o tapete da sala. Mais tarde vim a saber a quantidade de buracos que fiz no tapete da sala. Mais tarde vi as asneiras cometidas. Acabei com os cigarros. Mas continuei a chorar.
Ainda estou a chorar. Tenho que deixar de ver estes filmes idiotas. Para a merda de vida devia bastar-me a minha.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/26]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

Espírito Natalício

Sinto-me azedo. Chega esta altura do ano e começo com as irritações. Não gosto do espírito natalício. Não o espírito natalício em si, que não tenho nada contra, antes pelo contrário, e até era gajo para gostar do Natal, não tanto do aniversário mas, de tudo aquilo que o Natal podia representar. Amizade. Amor. Humildade. Bem estar.
Mas é tudo muita mentira.
O trânsito na cidade anda caótico. As pessoas estão agressivas.
Parei na senhora das castanhas, a eterna senhora das castanhas que está ali, naquela curva da cidade, desde antes do princípio dos tempos, a vender castanhas assadas, e assisti. O carro parou antes da passadeira para dar passagem a um casal de namorados. Eles passaram lentos, apaixonados, arrogantes, sozinhos no mundo. Só eles e o seu desejo. A meio da passadeira pararam para dar um beijo. Um beijo terno e apaixonado. Um beijo cheio de tesão. O homem do carro começou a apitar. Colou a mão à buzina. Vi a boca dele a abrir e fechar. Senti os gritos. A baba que caía pelo ódio abaixo. E depois, pé no acelerador, arrancou num foguete, queimando borracha no asfalto e deixando cheiro de borracha queimada a sobrepor-se ao cheiro das castanhas assadas, quase atropelando o par. Fiquei parado a olhar o carro a arrancar, doido, e a ter de parar uns metros mais à frente para dar passagem ao autocarro que saía da garagem. Karma.
Pedi uma dúzia de castanhas. Havia duas estragadas. Não me importei. Mas elas são pagas quase ao preço do ouro. Fui andando pela cidade. As luzes. As músicas. Os sacos. As cores. Tudo em excesso. Tudo demasiado. Tudo em promoção.
A cidade de lantejoulas mas em saldo. O brilho é falso. É tudo mentira.
Compras aqui e eles oferecem X a uma instituição de caridade. Compras ali e uma % das tuas compras vai para uma IPSS. Mais ao fundo são mais baratos. Mais ao lado são melhores. Na loja a seguir são os presentes ideais. Mas o melhor de tudo é que nem precisas de pensar muito no que é que vais oferecer à pessoa a quem queres oferecer. Compras um cheque. Um vale. Um valor. Compras um valor para oferecer. E depois, a pessoa troca o valor por algo que queira ou, não querendo, qualquer coisa porque já está pago. Não interessa o que se dá. Interessa é dar.
É o espírito natalício.
As pessoas oferecem presentes porque podem. Para mostrar que podem. Coisas caras. Únicas. Exclusivas. A minha carteira não tem fundo.
As pessoas oferecem presentes à família, aos amigos, conhecidos, colegas de trabalho, amigos-secretos. É obrigação. Oferece-se porque sim. Fica mal se não se oferecer. Mas ninguém gosta do que recebe. Quase nunca. Às vezes gostam. São uns simplórios, estes.
As pessoas oferecem presentes, muitos presentes para pagar as ausências, as faltas, as falhas, os erros, os enganos, as mentiras. As pessoas compram-se umas às outras.
Houve um tempo de meias. Houve um tempo de Ferrero-Rocher. Agora é o cheque-qualquer-coisa.
É o espírito natalício.
Em Outubro comecei a armazenar comida em casa. Enchi a despensa. Tudo para evitar entrar agora, nesta época, nos supermercados, hipermercados, megamercados, centros comerciais e todas as outras catedrais de consumo. Quero distância.
A cidade está iluminada. Há barracas. Barraquinhas. Presépios. A vaquinha. O burro. O menino Jesus nu, deitado numas palhinhas. Ao lado o carpinteiro José. E a mãe Maria. Uma árvore cheia de fitas e fitinhas e bolas e neve, de muitas cores, cores muito bonitas e apelativas. Um velho gordo, barbudo, com um saco enorme com presentes, meninos sentados ao colo e que só diz Ho-ho-ho.
Era uma vez um casal pobre, refugiado, emigrante, que não conseguiu um quarto para albergar a mulher grávida. Era uma vez uma mãe que teve de dar à luz num estábulo porque ninguém lhe abriu as portas. Era uma vez uns miseráveis escorraçados por toda a gente. Era uma vez uma estória de amizade, amor, bondade, humildade e bem-estar. Mas não era esta. Era uma vez uma estória que não tem nada a ver com esta que se conta todos os dias de Dezembro nas nossas cidades.
Se eu tivesse dinheiro, comprava-te um frasco anti-rugas ou anti-envelhecimento da La Prairie. Mas estou a brincar contigo. Gosto das tuas rugas. Das histórias que elas me contam. Preferia gastar esse dinheiro numa garrafa de vinho e sentar-me contigo a beber e a conversar.
Estou azedo. Amargo.
Mas estou mais ainda é triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/30]