Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

Sem Conseguir Falar

Tudo começou quando ela deu entrada no hospital.
Eu já não sabia dela há vários anos. Embora vivêssemos ambos na mesma cidade, nunca mais nos vimos depois de eu ter saído de casa dela e batido com a porta. Ela ainda escreveu uma enorme mensagem no Messenger. À qual eu respondi. Depois disso fui bloqueado no Facebook. E nunca mais falámos. Nunca mais no cruzámos nas ruas da cidade, mesmo tendo amigos em comum. O destino trabalhou por nós. Separou-nos. E acho que respirámos melhor.
Entretanto ela deu entrada no hospital. Ela deu entrada no hospital e eu fui avisado.
Eu?
Aparentemente eu fui o contacto que ela deu quando deu entrada no hospital.
Eu? Perguntei várias vezes a quem me telefonou a avisar do internamento no serviço de oncologia. Oncologia? Também o perguntei várias vezes. E sim. Não havia erro. Ela dera entrada no serviço de Oncologia do hospital.
Soube depois que ela andou vários dias, talvez semanas, a vomitar toda a comida e bebida que tentava ingerir. Vários dias, talvez semanas, sem se conseguir alimentar. A perder forças. A definhar.
Foi encontrada desmaiada no meio da rua. Estava em cima de um monte de vómito. Não muito. Não muito que ela não tinha nada no estômago. E foi a sorte dela. Ou o azar. Não morreu sufocada no seu próprio vómito. Foi encontrada por um arrumador de carros que telefonou para o cento e doze.
O INEM levou-a para o hospital. Fizeram umas análises. Fizeram uns testes. Fizeram o diagnóstico. Nada que ela já não soubesse. Nada que ela já não adivinhasse. Tentou ignorar. Tentou ignorar o estado em que estava como fazia com tudo o que a incomodava na vida. Ignorava. Ignorava e esperava que desaparecesse. Foi o que vez comigo, também. Ignorou-me. Bloqueou-me no Facebook.
Telefonaram do hospital a dizer que ela estava lá. E então? E então eu era o contacto. Era a mim que ela queria ver no hospital.
E fui lá.
O que levar? O que se leva a quem está no hospital no serviço de Oncologia e sem saber exactamente como é que está quem vamos ver?
Aparentemente, nada. Nada é o melhor que se pode levar.
Quando entrei no quarto ela estava a dormir. Tinha uns tubos a entrar dentro dela. Devia ser soro. Talvez. Ela estava a dormir. Sentei-me ao lado da cama e esperei. Olhei para ela. Não a reconheci. Estava magra. A cara muito seca. Notavam-se os ossos. Mas ainda se percebia que era bonita. Ou que seria bonita noutras condições.
Agarrei no telemóvel e passei pelo Facebook. Passei pelo Instagram. Agarrei-me ao 1010!, e fiquei ali, ao lado da cama dela, a jogar.
E já muito tempo tinha passado, e eu já tinha perdido vários jogos e recomeçado outros tantos, quando ouvi, saída do fundo de um poço, uma vozinha muito frágil e fininha, muito sumida, Olá! e levantei os olhos e cruzei-me com os olhos encovados dela.
Não soube o que dizer.
Fiquei ali, feito parvo, a olhar para ela a olhar para mim, e mesmo depois de ela perguntar Como é que estás? eu não soube o que responder, não consegui responder.
Senti umas lágrimas a caírem-me pelas faces abaixo. Não queria chorar mas não estava a conseguir bloquear-me. Chorei. Agarrei-lhe nas mãos. Agarrei-lhe nas mãos magras e ásperas com força, massajei-as com os meus dedos e continuei em silêncio. Não conseguia falar. E depois tive uma convulsão de choro e chorei em jorro e convulsivamente durante algum tempo. E depois acalmei. Limpei as lágrimas e o ranho com as costas das mãos e respirei fundo, a recuperar a calma. Mas continuei sem falar.
Passaram horas. Depois passaram dias e semanas. Ela começou a fazer quimioterapia e foi enviada para casa.
Eu acompanhei-a a casa. Ajudei-a a instalar-se. Preparei as coisas para os dias mais próximos. E, de repente, parei. Olhei para a rua através da janela da cozinha. Olhei em volta. Reconheci alguns daqueles espaços. Já tinham sido meus, também. Já não eram. Mas eram dela. Eram dela e eu decidi. Decidi que ia ficar ali com ela. Decidi que ia passar por tudo aquilo com ela.
E fiquei.
Até hoje ainda não consegui falar com ela. Ainda não consegui dizer-lhe palavra. Vamos vivendo como conseguimos. Um dia a seguir ao outro.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/18]

Alguém Ia Ter de Pagar

Quando, hoje, ia a sair de casa para ir ao café da aldeia beber uma amêndoa amarga e abrir o apetite para o almoço (estava a guisar um coelho que uma vizinha me ofereceu), vi o corpo do cão caído no chão do quintal. Senti um aperto no coração. Imaginei que não seria boa coisa. O cão anda sempre a correr de um lado para o outro com os gatos. Nunca está assim parado. Não seria boa coisa.
E não era.
O corpo estava parado. Vi espuma a sair-lhe da boca. Pus-lhe a mão sobre a barriga e percebi que estava morto. Envenenado, com certeza.
Acendi um cigarro. Senti um nervoso percorrer-me o corpo. Olhei em volta. Para os muros do quintal. Por cima dos muros do quintal. Para a estrada que passa lá em baixo. Para o terreno em frente. Não vi ninguém. Um Domingo como os outros. Nunca há ninguém nas ruas da aldeia antes de almoço. Uns estão na missa, outros a fazer o almoço e, os restantes, estão no café da aldeia. Não anda ninguém nas ruas. E hoje também não andava.
Dei uma volta em torno da casa. Olhei o chão com atenção. Espreitei atrás dos arbustos, das flores, dos troncos das árvores.
Espreitei atrás de todas as esquinas da casa. Levantei pedras. Subi ao muro e andei lá por cima a olhar para o lado de fora. Não sei do que é que andava à procura, mas saberia quando visse. Estava à espera de não ver. Não queria ter razão. Gostava que tivesse sido um acaso. Um azar.
Não vi nada de estranho.
Desci a pequena alameda até à estrada. Espreitei através das grades do portão. Caminhei ao longo do muro. Sempre a olhar para a estrada. Para o outro lado da estrada. Para as árvores do outro lado da estrada. Para os postes de electricidade. Vi os caixotes do lixo. Há ali, no fim do muro da casa, no outro lado da estrada, uma pequena ilha para separação de lixo. Há lá sempre alguns monstros. Tábuas de passar-a-ferro, esqueletos de máquinas de lavar, caixas de televisores de cinescópio. Que ficam por ali meses. Fiquei por momentos a olhar para os caixotes. Depois regressei a casa e subi a pequena alameda.
Estava furioso.
Entrei em casa. Fui ao quarto. Abri o guarda-fatos. Agarrei no cofre. Abri-o. Tirei o revólver. Confirmei que estava carregado. Prendi-o no cós das calças. Nas costas.
Passei na cozinha e agarrei num saco de lixo de 50 litros.
Saí de casa.
Enfiei no corpo mole do cão morto e enfiei-o no saco.
Desci a pequena alameda com o saco nas mãos. Fui à ilha e deixei-o no caixote de lixo RSU.
Acendi outro cigarro. Olhei em volta. Coloquei a mão atrás das costas para sentir o revólver. Estava lá. Estava lá à espera.
Voltei para trás na estrada. Olhei em volta. Fiz o caminho até à casa do vizinho mais próximo. Debrucei-me sobre o muro. O cão deles estava deitado no jardim. Viu-me e veio até ao muro a abanar o rabo. Esticou-se no muro. Fiz-lhe uma festa na cabeça. Voltei para trás. Ia fazer toda a aldeia. Olhar em todas as casas, em todos os quintais, em todos os jardins.
Alguém seria culpado. Alguém ia ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/09]

Ordem Cósmica

Dia 02 do mês 02 do ano 2020. Não acredito muito em conjugações cósmicas nem cabalas para me dobrar o destino mas, há momentos em que parece que o mundo se une para me ser simpático e para me compensar, com alguma pequenas sortes, todos os azares com que tem pautado a minha vida aqui pela Terra. Hoje é um desses momentos.
Começou logo de manhãzinha. Acordei quando acordei e não fui despertado por nenhum despertador. Abri a janela do quarto e vi o sol em todo o seu esplendor, num belo céu azul, o que afastou para longe toda a neura que os últimos dias, cinzentos e de chuva, tem cultivado. Não queimei o café nem as torradas. O pão não caiu no chão com a manteiga para baixo. Não faltou gás durante o duche. Nem acabou o champô nem o sabonete. Já antes me tinha apercebido que não me iria faltar papel-higiénico por mais que eu o gastasse. A toalha com que me limpei, estava seca e limpa.
Tinha as cuecas lavadas. As meias agrupadas aos pares. As camisas passadas a ferro. As camisolas dobradas. As calças penduradas. Tinha toda a roupa disponível e a dificuldade foi só em escolher o que vestir para ir à rua.
Antes de sair fumei um cigarro à janela. Ainda tinha cigarros no maço e gasolina no isqueiro. Enquanto fumava o cigarro à janela pensava que o Benfica já tinha jogado há dois dias, portanto não havia a possibilidade de perder o jogo. Sorri.
Ia a sair de casa quando tocou o telemóvel que estava com a bateria carregada. Não me tinha esquecido de colocá-lo à carga na véspera. Era a minha mãe a convidar-me para almoço. Tinha feito feijoada. Aceitei logo. Não tinha nada para almoçar e há muito tempo que não comia uma feijoada à transmontana, cheia de couves, feita pela minha mãe.
Saí à rua e entrei na pastelaria do bairro. Pedi um café. Não estava queimado. Depois um favaios. Estava fresquinho. Apareceu um amigo de longa data. Alguém que já não via há anos. E pensei que, afinal, ainda tinha alguns amigos. Conhecidos, vá lá. Pedimos um Martini branco com uma pedra de gelo e um bocado de gin. Repetimos a dose. Ele pagou a despesa. A despesa toda.
Dei um passeio a pé pela cidade até casa da minha mãe. Não fui atropelado. Não tropecei nas pedras levantadas da calçada. Não caí nos buracos do asfalto.
A feijoada estava boa. Não é de admirar. A minha mãe tem boa mão para a cozinha. Repeti. Não me engasguei com nenhum osso nem a minha mãe com as couves – a minha mãe tem historial com engasgar-se com couves. Havia vinho para acompanhar a feijoada, que foi todo para mim. A minha mãe desculpou-se com o facto do corpo não lhe estar a pedir vinho e acompanhou a feijoada com um panaché que fez ao misturar uma mini com um bocado de Seven Up.
Depois do almoço a minha mãe foi fazer uma sesta. Eu também me sentia sonolento, mas não fui dormir. Levantei à mesa e lavei a louça. Não parti nenhum prato nem nenhum copo. Depois saí de casa sem fazer barulho.
Voltei a cruzar a cidade. Enquanto caminhava pensei que era Domingo. Não iria receber nenhuma carta com contas para pagar. Não iria receber nenhuma carta de nenhum advogado a reclamar a pensão de alimentos de nenhuma das minhas ex-mulheres. Não iria ouvir nenhum raspanete de nenhum chefe, director nem patrão.
Passei pelo jardim e não fui assaltado. Cruzei várias vezes a estrada e não fui abalroado por nenhuma trotineta. Encontrei uma nota de vinte euros perdida no passeio. Fui tirar tabaco a uma máquina e estava lá um maço. Precisamente a marca que eu fumo. Mas até poderia ser outra.
Passei ao lado de um estaleiro e não me caiu nenhum andaime em cima. Não me cruzei com nenhum credor nem ex-namorada zangada e maldisposta. Não levei com nenhuma cagadela dos pombos que invadiram a cidade.
Andei por ruas que não conhecia e não me perdi. Comprei castanhas na senhora das castanhas e contei três a mais que a dúzia que tinha pago.
Ao chegar a casa dei conta que tinha começado a chover na rua. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Estava a dar um filme do 007. Fiquei a ver até adormecer. Quando acordei, fui comer uma maçã. Não tinha bicho. Lavei os dentes e não fiz sangue nas gengivas.
Deitei-me. E enquanto estava deitado, de barriga para cima a ver o rasgo de luz projectado do exterior pela janela mal fechada, pensei como o dia me tinha corrido bem. Não me tinha acontecido nenhuma desgraça.
Não acredito nas sorte e nos azares do destino. Mas este dia 02 do 02 de 2020 foi um dia muito simpático para comigo.
Às vezes penso que faço parte de uma certa ordem cósmica que me quer preservar para além dos problemas do dia-a-dia desta vida comezinha. Mesmo que não acredite em nada do que estou para aqui a dizer.
Amanhã já sei que vou torcer o tornozelo mal coloque o pé no chão ao sair da cama. Se calhar é melhor não me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/02]

Perna Partida

Parti uma perna. Tive sorte. Não parti a bacia. A bacia é algo que os velhos como eu costumam partir quando caem. Eu caí e só parti uma perna. Vá lá. No meio do meu azar, acabei por ter sorte.
A bacia é a pélvis e ficou muito conhecida graças a Elvis Presley e à sua forma de dançar. A alcunha que ganhou, The Pelvis, foi por mexer a pélvis de forma muito sexual. As raparigas adoravam. Os pais delas não.
Parti a perna em casa. Que é também um dos sítios onde os velhos, como eu, mais caem e partem partes do corpo. A bacia é a pior delas, mas há outras coisas a quebrar. No meu caso foi a perna. Tive sorte. Podia ter sido pior.
A minha casa, como muitas das casas arrendadas na baixa da cidade, casa de poucas assoalhadas, para tempo muito limitado e uma rotação muito grande de inquilinos, o que não é o meu caso que já estou aqui há cinco anos, é de mosaico. Um mosaico vidrado que facilita a limpeza. É só passar um pano húmido. Mas no Inverno é terrível. Está sempre húmido. Nunca seca. E então, em dias de chuva, parece que a chuva que cai lá fora vem toda cá para dentro de casa.
Eu amarrava uma toalha de turco, absorvente, na escova da vassoura para limpar a humidade de casa. Mas durava só alguns minutos. No melhor dos casos, uma hora. Depressa voltava tudo a ficar húmido, molhado e cheio de água. Às vezes parecia que nascia água debaixo das lajes.
E foi o que aconteceu.
Começou a chover. Chegou o frio. O chão começou a ficar cheio de humidade. Eu estava na mesa da cozinha a acabar de comer uma omeleta. Uma omeleta simples, só de ovo, com uma pitada de sal e pimenta e um pouco de salsa fresca picada, salsa que roubei do vaso da vizinha do lado e que me obrigou a estender no muro da varanda e que por pouco não caí lá em baixo na rua. Comi a omeleta na companhia de um copo de vinho tinto. Levantei-me para ir colocar o prato, sujo e vazio, no lava-louças e apanhar um pequeno prato com um marmelo assado com canela, que uma amiga cá veio trazer a casa, quando me desequilibrei, deixei cair o prato que se partiu em mil-e-um-pedaços ainda dantes de me colocar em queda, que vi acontecer em câmara-lenta, um pé que escorregou na laje molhada, torceu o tornozelo, puxou o corpo para baixo, obrigou a levantar a outra perna, e fez-me cair em força sobre o rabo, o pé torcido, todo torcido de lado, e as costas foram projectadas para trás e acabei por bater com a cabeça no chão. Até saltitou, a cabeça.
Ouvi um barulho seco quando a cabeça bateu no chão.
Assustei-me.
Mas não aconteceu nada à cabeça. Foi só mesmo o barulho. Nem aconteceu nada às ancas e à queda de rabo. Só me magoei num pulso, devo ter pousado a mão no chão para me amparar na queda e nem me apercebi, e depois a perna dobrada que se partiu e me provocou dores horríveis.
Consegui, no entanto, arrastar-me até ao telemóvel que estava na mesa da cozinha onde estava a almoçar e chamei o INEM.
Hospital.
Perna partida.
Gesso. Várias semanas com gesso.
Tenho passado estes dias à janela a olhar a chuva a cair lá fora. Fumo um cigarrito. Bebo um copo de vinho e pronto, assim está a minha vida. Ando numa cadeira de rodas e não tenho saído de casa. Não com este tempo assim.
Há uma moça que vem cá a casa de dois em dois dias para ver se preciso de alguma coisa. É gira a miúda. Estou a pensar em convidá-la para jantar comigo. Talvez ela aceite. Talvez não se preocupe com a minha perna partida. Ou talvez a perna partida a faça aceitar o convite.
Afinal, talvez a perna partida tenha sido uma coisa boa.
É mesmo gira, o raio da miúda.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/04]

Em Berlim com o Tiago Baptista

Um gajo escolhe não ter família. Um gajo escolhe não ter mulher nem filhos nem pais, que já morreram e foram enterrados em sítios que não recordo, não volto lá, nunca voltei lá, mas pago para que limpem as campas todos os meses e coloquem flores frescas em dias festivos, escolho não ter amigos nem amantes, só sexo bruto e furtivo de vez em quando, quando a necessidade grita as suas vontades, e depois tem de levar com as famílias dos outros? Com os filhos mal-educados dos outros, as mulheres histéricas dos outros, os maridos carrancudos das outras?
Tudo começou quando quis sair de casa. Eu já sabia que não devia sair de casa. Sair de casa é sempre um problema. Coloco-me nas mãos dos outros. Em convivência com os outros. Uma chatice. Um problema. Vários problemas. As pessoas carregam problemas para cima dos outros. Para cima de mim.
Estou a chegar ao Festival de Banda-Desenhada da Amadora. Há um tipo que se lança passadeira fora, de auscultadores nos ouvidos, a mexer no telemóvel e nem olha para a estrada. Aquele conselho Olhar para a Esquerda, Olhar para a Direita, está em desuso. O tipo não olhou para lado nenhum. Mas eu vinha a andar na estrada, devagar mas fluído, numa estrada que estava livre e a passadeira não era entrave e tive de travar a fundo para não passar por cima dele. Chamei-lhe Cabrão do caralho! mas ele não me ouviu. Não era para ouvir. Era mais para me libertar da raiva que me subia do estômago à boca e depositava um sabor ácido na língua. Ia a carregar no acelerador, a primeira metida, quando se lança uma moça, com carrinho de bebé, à passadeira, o carrinho à frente para lançar o medo e voltei a travar. O carro foi abaixo. Bati com as mãos no volante. Espumei. Gritei impropérios mas em silêncio. Não saltaram da boca para fora. Ficaram lá. Na cabeça. As pessoas têm a mania. Acham que a passadeira as defende da chapa dos carros em aceleração. Talvez um dia tenham azar.
Estaciono. Entro na exposição. Começo lento. Com calma. A absorver os desenhos. As pranchas originais. Descubro a exposição Berlim – Cidade sem Sombras de Tiago Baptista e fico contente. Gosto muito dos desenhos do Tiago. Gosto muito das pinturas do Tiago mas, as banda-desenhadas, são simplesmente geniais na sua simplicidade aparente de traço simples e estórias banais, mas que refletem a vida dele, a minha, a de todos nós, tomando posições políticas, tendo opinião, mostrando como a vida pode ser espectacular e uma grande merda. Tudo ao mesmo tempo. Yin e Yang. O dia e a noite. O belo e o feio. O frio e o quente. O génio e o burro. A vida é dual. Foda-se! O Tiago é grande. Obrigado pelo que me dás.
E estava eu nesta oração de agradecimento à magia de Tiago Baptista, quando chegaram as famílias. Criancinhas a correr por cima de tudo e de todos. Aos berros em altos decibéis e os papás idiotas, que tudo deixam e permitem, porque as crianças são filhos preferidos de Deus, a sorrirem perante a petulância infantil.
Mais à frente vejo umas crianças mexer nos cenários. Em elementos dos cenários. Perante a passividade dos papás. Benevolentes. Há uma exposição com dinossáurios. Uns ovos gigantes. Ovos de dinossáurios. As criancinhas pegam nos ovos e partem-nos. Olham para os pais. Que sorriem perante as brincadeiras dos rebentos, olham para mim e fazem um sorriso amarelo. Elas são assim, parecem dizer. Que podemos fazer? Eu viro costas e vou-me embora.
As pessoas são mesmo uma merda.
Ainda tento ver mais umas exposições. Mas não consigo. As famílias tiraram o dia para me azucrinar a vida. Estão aos magotes em todo o lado. Gritam. Tiram fotografias. Jogam a apanhada. Às escondidas. Berram. Choram. Comem batatas-fritas. Comem algodão doce. Comem pipocas javardamente. Deixam cair pipocas no chão. Sinto os pés a pisarem as pipocas e a fazer barulho crac-crac. Estou irritado. Não me consigo concentrar. Não consigo apreciar. Não consigo olhar.
Vou-me embora. Regresso a casa.
Em casa pego no livro Berlim do Tiago e viajo. Viajo com ele. Sem que me chateiem. Gosto do Tiago. Tem um traço maravilhoso e conta estórias de uma simplicidade desarmante. E apaixonada. E deixo-me ir com ele.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

Sexta-Feira, 13

Sexta-feira, 13. Hoje é Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições e azares. Como não acredito em Bruxas. Mas que as há, há.
Foi numa Sexta-feira, 13. Um dia como hoje. Há muitos anos. Tantos anos que já não sei quantos.
Estava no açude que havia ali em baixo, ao pé de São Romão. Ali a caminho das Cortes. Estava com uma miúda. Uma miúda de quem gostava muito. Era uma miúda da minha idade. Da minha turma. Éramos amigos já antes de sermos namorados. Foi a minha última namorada. Este dia, naquele dia, foi o último dia de namoro. Nunca mais namorei. Nunca mais quis nenhum relacionamento. Não queria ter um relacionamento coxo. Que me iria fazer lembrar, a todo o momento, que já não era homem. Já não era gente. Só um corpo atrofiado.
Estávamos no açude. Eu e ela. Era o fim das aulas e nós tínhamos faltado. Estávamos com o sangue quente e cheios de desejo. Fomos até ao açude. Eu era bom nadador. Elegante a mergulhar. E fazia gala disso. E então, mergulhei para ela. Para ela ver. Saltei do braço grosso da árvore para o meio do açude. Mas algo correu mal quando mergulhei. Fui mais fundo que o habitual. Tinha entrado muito a pique. E quando dei por mim, já tudo tinha acontecido e eu já estava no hospital. A minha vida ficou naquele mergulho. E eu nunca mais regressei ao contacto com os vivos. Não, não morri. Mas foi como se tivesse morrido.
Mergulhei mais a pique que o habitual e bati com a cabeça numa rocha no fundo do açude. Desmaiei. O meu corpo, inerte, subiu. Ela viu-me e puxou-me para fora. Parece que teve de me fazer respiração boca-a-boca e carregar forte nos pulmões. Parece que acordei e cuspi água. Depois foi à procura de ajuda. Eu não me lembro nada. Não me lembro de ter acordado. Nem de ter estado à espera de ajuda. Nem da ambulância. Lembro-me de ter acordado no hospital. Lembro-me de não me conseguir mexer. Lembro-me de a ver chorar. E lembro-me de uma conversa que a médica teve comigo. A primeira conversa. A dor da primeira conversa. O desespero. E a vontade de ter morrido. A vontade de ter ficado lá no açude.
E foi assim que me senti. Como se tivesse morrido. Tudo aconteceu numa Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições. Nem em azares do destino. Mas a minha vida foi abalroada pelo destino numa Sexta-feira, 13.
Mandei-a embora. Mandei toda a gente embora da minha vida. Saí da cidade. Fui viver para o campo. Os meus pais foram comigo. Eu isolei-me. E continuo isolado, hoje.
Às vezes tenho de descer à cidade. E custa-me. Custa-me ter de vir para o meio das pessoas. Algumas pessoas que eram do meu passado. Fingimos que não nos reconhecemos. Mas também me custa não reconhecer a cidade que era minha. Custa-me não andar por aqui a sorver esta cidade com tudo o que ela tem, tinha, para me dar. Mas eu não tenho forma de sorver nada disto. Continuo a existir, mas já não vivo. Sou um tipo zangado. Eu, na verdade, fiquei no açude.
Em dias como o de hoje, ainda mais zangado fico. Tive de vir à cidade. Tive de chamar o táxi para me trazer à cidade e fazer, por mim, umas coisas que precisava que fossem feitas. Mas o taxista é simpático. Já la vão uns anos que me ajuda.
Mas hoje!? Hoje o diabo saiu à rua para me azucrinar e fazer lembrar que as Sextas-feiras, 13 não gostam de mim.
Vou no carro com o taxista. Vou sentado quieto, sem me mexer. Nada em mim mexe. Sei que já há um procedimento, através de um implante no cérebro, que me poderá fazer recuperar as mãos e os braços. Mas ainda sou um tronco estático. Só a cabeça mexe. Mas sinto tudo o que anda, ou não, à minha volta.
Estou parado numa estrada na cidade. Há uma fila que não anda. Uma das principais saídas da cidade está fechada por causa de um evento automóvel. Uma espécie de exposição de carros antigos. Passeiam-se pela cidade. Fazem provas de perícia. Gastam combustível fóssil, queimam borracha e sentem as suas pilas enormes, do tamanho dos seu carros e dos seus motores.
Eu também gostava de sentir a minha pila. E conduzir um carro. Mas não posso. Não consigo. Estou aqui na cidade, enfiado numa fila de trânsito que não se mexe. Pareço eu. A cidade sou eu. Os motores a trabalhar. O cheiro insuportável. Estou preso. Preso em mim e na cidade.
Às vezes penso na minha namorada. E como a minha vida podia ter sido se não tivesse faltado as aulas. Mas também penso que aquele mergulho, com ela a ver o meu corpo a furar o espelho de água do açude, valeu por uma vida.
Só é pena ter de vir a esta cidade nestes dias. São dias que acordam a minha tristeza.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/13]

Não É Nada de Grave

Ouço os gritinhos histéricos das miúdas na cama elástica nas traseiras da casa.
Quando vim para esta casa, a cama elástica já cá estava. E ficou. Não a uso. Nunca a usei. Estou velho para andar aos saltos em cima de uma espécie de trampolim gigante, para cima e para baixo, a deixar o coração e os pulmões longe do corpo.
Mas as miúdas aqui da zona sabiam da cama. Um dia apareceram aqui a pedir para vir dar umas cambalhotas e eu deixei. Agora estão por aí quase todos os dias. Vêm ao final da tarde e passam lá cerca de uma hora aos pulos, a rir que nem umas perdidas e a filmar brincadeiras com os telemóveis que depois mandam para o Instagram.
Eu tento sempre abstrair-me das brincadeiras delas, mas não consigo. Não conseguem estar caladas um minuto. Durante essa hora fico aqui assim, a fumar uns cigarros e a beber uns gins tónicos. Quando elas se vão embora, regresso às minhas leituras.
Gosto de as ter por cá. São simpáticas. Alegres. Trazem cor aqui a casa. Compensam a minha natural má-disposição. Às vezes trazem-me umas uvas, umas ameixas, uns pêssegos que roubam em casa dos pais para me serem simpáticas. Eu aceito sempre com prazer. E até sorrio quando lhes agradeço.
De repente os gritinhos mudam. Agora não parecem de alegria. Há gritos assustados. Ouço um choro. Levanto-me e contorno a casa. Corro até às traseiras. Corro até à cama elástica.
Uma miúda está caída no chão a agarrar o joelho e a soprar-lhe. Aproximo-me. Tem o joelho em sangue e algumas escoriações nas mãos e nos braços. Pergunto O que aconteceu? E uma delas diz Caiu pelo buraco da rede de protecção para fora da cama elástica. Um pequeno azar, penso eu. Mas não me parece nada de muito grave. Olho a cara e a cabeça da miúda. Foi mais o susto. Volto ao interior de casa para buscar a farmácia.
Limpo as feridas com água oxigenada. Sopro. Só pequenos arranhões. No joelho arranhou mais fundo e fez mais sangue mas, depois de limpo, percebo que é superficial. Ponho betadine no joelho e faço um penso com gaze. E digo-lhe Não é nada de grave.
Telefono aos pais da miúda que se magoou. O pai parece-me muito ansioso.
Chegam cá a casa em pouco tempo. Descarrega a buzina do automóvel para eu abrir o portão. Eu desço a alameda. Abro a porta. O pai entra sem me dirigir a palavra e vai a correr, a subir a alameda a correr, à procura da filha. A mãe vai devagar, ao meu lado e diz Desculpe, ele fica sempre muito ansioso com a filha.
E estamos a chegar ao cimo da alameda quando o pai já vem com a miúda pela mão. Ela vem a chorar. O pai puxa-a. Olha para mim com um olhar de morte. Se pudesse, penso, fuzilava-me.
O pai vira-se para a mãe e diz-lhe A culpa é tua! E continua a descer a alameda a puxar a filha que vai a toque-de-caixa. A mãe ainda se vira para mim, com ar muito preocupado e diz-me, outra vez Desculpe! e vai atrás do marido.
Eu vejo-os cá de cima até saírem pelo portão. O carro arranca, nervoso.
Noto as outras miúdas, todas juntas, na esquina da casa. Não sabem o que fazer. Não sabem o que dizer.
Eu viro-me para elas e digo Acontece! e sento-me na minha cadeira no alpendre.
Uma delas pergunta Podemos cá voltar, amanhã? e eu sorrio e respondo Claro que sim.
Elas sorriem e dão pequenos gritinhos entre elas, em grupo, num qualquer ritual adolescente. Viram-se para mim e dizem Então adeus! Até amanhã! e eu digo Até amanhã! e vejo-as descer a alameda. Saem pelo portão e fecham-no nas suas costas.
Eu pego finalmente no Público e começo a ler o editorial de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/18]

Os Cinco

Peguei no Lovely de Frank Ronan. Andava com vontade de o reler. Gostava muito do Frank Ronan. Li os livros todos. E, de repente, desapareceu. Já andei à procura dele pela internet, mas parece que não existe. Evaporou-se. Deve ter cometido suicídio literário. Tenho pena. Gostava dele. Gostava muito, mesmo. Desde Evelyn Cotton. Até à imitação de Marc Bolan.
Peguei no Lovely de Frank Ronan. Sentei-me no sofá. Mas não cheguei a ler a primeira linha. Do interior do livro caiu uma fotografia. E o meu olhar caiu com a fotografia. O que é que aquela fotografia estava a fazer dentro do Lovely? A quem é que eu emprestei o livro? Eu que nem gosto de emprestar livros? Quem é que o leu? Quem é que pegou nele à minha revelia?
Peguei no Lovely de Frank Ronan mas larguei-o logo em cima do sofá, ali ao meu lado. Baixei-me e peguei na fotografia. Lembrava-me daquela fotografia. Lembrava-me de quando a tirámos. A fotografia da nossa última viagem. Quando ainda andávamos juntos. Quando ainda éramos amigos. Companheiros. Ou se calhar já não. Provavelmente já nos estávamos a afastar. A sermos corroídos por dentro. Por dentro da amizade. Sim, porque éramos amigos.
Peguei na fotografia e vi. Cinco personagens abraçadas. Quatro rapazes e uma rapariga. Eu, mais três rapazes e a rapariga. Estávamos em Santiago de Compostela. Atrás de nós, na fotografia, a Catedral. Tínhamos acabado de fazer a Via Láctea, que me tinha fascinado depois de ver o filme de Luis Buñuel. Mas não fomos lá em peregrinação. Foi a nossa rota de fuga. E funcionou. Deu resultado. Mas tudo terminou aqui. Em Santiago. E tudo por causa dela. Como é que a fotografia veio parar aqui?
Peguei na fotografia e vi o grupo. Três deles já não andavam por cá. Três deles já tinham morrido. Morrido em condições no mínimo estranhas. Estranhas para mim. A polícia não achou nada de estranho. As autópsias também não revelaram nada de estranho. Mas havia algo de estranho. Logo para começar a coincidência das mortes. A semelhança dos acidentes.
Ela sobreviveu. Ela e eu. Mas ela desapareceu logo. Sei que andou uns anos pela América Latina. Mas nunca mais tivemos contacto. Nem apareceu nos funerais dos outros três. Eu… Eu mantive-me por aqui. Decidido a portar-me bem. A andar na linha.
Peguei na fotografia e olhei para ela. E ela tinha sido a nossa sorte. E tinha sido o nosso azar. Foi ela que nos juntou, mas também foi ela que nos separou.
Peguei na fotografia e lembrei-me do tempo em éramos só dois. Só nós dois. Sem os outros três. Antes do outros três. Antes de cada um dos outros três depois de mim. Ela jogava bem connosco.
Peguei na fotografia e pensei no resto do dinheiro que nunca tinha aparecido. O dinheiro correspondente aos outros três. Nunca saiu nada na comunicação social. Ou a polícia ficou com o dinheiro, ou ele nunca apareceu. Alguém pode ter ficado com ele. Sempre pensei nessa possibilidade. Talvez ela. Mas nunca quis verdadeiramente acreditar que tivesse sido ela. Ou já sabia?
E então, um sinal sonoro de chegada de mensagem no telemóvel.
Pousei a fotografia em cima do livro. Peguei no telemóvel que estava na mesa de apoio, à minha frente, e li Olá. De regresso. Quero ver-te. Na esplanada do argentino. Ao lusco-fusco ☺ Assim. Com a merda de um emoji a sorrir.
Deixei o livro e a fotografia no sofá e fui ao quarto. Ao roupeiro. Ao fundo do roupeiro. Agarrei na caixa. Levei-a para a sala. Sentei-me na mesa de jantar. Abri a caixa. Tirei o revólver e limpei-o.
Já estou aqui sentado, na esplanada do argentino, à mais de meia-hora. Vim antes de tempo. Ainda falta algum tempo para o lusco-fusco. Mas eu gosto de chegar antes da hora. Gosto de observar tudo. Ver tudo. Gosto de me sentir preparado. Mesmo que seja para a morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/04]