Juá

No meu tempo de miúdo havia um detergente para lavar a roupa, lavar a roupa à mão naqueles tanques que não eram de guerra mas de cimento, que quase só as mulheres utilizavam, e que já eram um upgrade dos lavadouros públicos onde as mulheres se juntavam para distribuir notícias enquanto lavavam as roupas da família e das famílias de bem da cidade (como muito bem descrevia Chianca de Garcia na sua popular Aldeia da Roupa Branca), chamado Juá, que era, também, um verdadeiro Bazar das Novidades, e que me perdoe o verdadeiro Bazar das Novidades que, na rua D. Dinis, em Leiria, alimentava os meus sonhos de criança, mas este bazar que era o Juá fez-me brincar de mil-e-uma maneira e hoje ainda me serve como impropério para gritar à cara das pessoas que fazem asneiras grosseiras, com irem a conduzir um carro a vinte quilómetros por hora em plena auto-estrada A1, ou simplesmente porque me chateiam Ouve lá! Tiraste a carta no Juá, foi?
O Juá oferecia vários brindes, quase todos eles destinados às crianças, aos filhos das mulheres que, afinal, iriam utilizar o detergente na lavagem da roupa da casa, talvez, quem sabe, para entreter a criançada enquanto as mães trabalhavam à volta do tanque, a esfregar, esfregar, esfregar, e depois pendurar ao sol para secar, mas não durante muito tempo directamente ao sol para não queimar a roupa e o branco não ficar amarelo e o preto não ficar castanho, enquanto os pais, coitados, ganhavam a vida lá fora, longe desta azáfama.
Os brindes do Juá eram feitos numa fábrica em Leiria (está bem, era no Juncal, mas é a mesma coisa, não é?), da mesma forma que as famosas e resistentes cassetes Sonovox, com que fazíamos as mixtapes apaixonadas, também eram feitas em Leiria (era na Marinha Grande, que é também a mesma coisa, não é?).
O Juá ofereceu jogos do Galo, bonecos militares, cowboys e índios, que davam para fazer exércitos e conquistar o mundo ou, pelo menos, o quarto à irmã (às vezes a cama, que um quarto dava para dois filhos, às vezes mais), pequenas molduras para fotografias rasgadas da Crónica Feminina, copos de plástico coloridos, bolas, bonecos para as pontas dos lápis e lapiseiras, canecas para o leite com Ovomaltine matinal e uma colecção de sinais de trânsito para estarmos familiarizados com as regras quando chegasse a nossa vez de tirar a carta, mas que então também servia para brincarmos às cidades com os carrinhos da Matchbox em estradas desenhadas no chão de terra batida atrás das garagens, terrenos públicos ou privados que todos usufruíamos nas brincadeiras.
Às vezes também vinham brindes para as mães. Para as mães porque os pais não queriam saber disso para nada, mas as mães queriam porque compravam o detergente e usavam os brindes para poupar nas despesas da casa: copos de vidro que iam à mesa do jantar, colheres de esparguete que a minha mãe nunca utilizou porque teimava sempre em partir o esparguete antes de o cozer, para caber no tacho e as famosas molas de roupa, em plástico, coloridas, que vinham destronar as eternas molas de madeira que as equipas de cinema nunca deixaram morrer porque dá sempre jeito à secção de iluminação.
Também havia fervedores de leite (dantes o leite não era pasteurizado e tinha de ser fervido, não era?) e conjuntos de chá.
Também houve uma época em que o Juá oferecia carros e motos por sorteio, mas nunca saiu cá em casa nem em casa de nenhum dos meus amigos de infância cujas mães também usavam Juá para esfregar a roupa nos tanques de cimento enquanto os filhos se entretinham com os brindes grátis que as embalagens traziam.
Aqui tenho de fazer um pequeno aparte para referir o meu brinde preferido da Juá, que era uma régua com dois buracos de tamanho diferente e ranhuras onde iam encaixar várias rodas de vários tamanhos que giravam nesses buracos, arrastados por lápis ou canetas, e faziam lindos desenhos artísticos e muito gráficos.
E só me lembrei do Juá porque quando estava a ultrapassar o carro que seguia à minha frente todo chegado à esquerda até eu ter de apitar várias vezes a pedir passagem, me virei para ele, para o condutor do outro carro, e gritei do sítio onde estava Saiu-te a carta no Juá, foi, meu cabrão?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/25]

No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]

Um Beijo e o Chá de Hibisco

Ela baixou-se e deu-me um beijo. Baixou-se ao pé de mim. Eu senti-a chegar antes de a ver. Senti-lhe o cheiro. Uma mistura de várias especiarias que tinha estado a utilizar na preparação do jantar, mas por cima, por cima de tudo isso, o perfume, o perfume floral que costuma utilizar e que já conheço. Cheirei-a e percebi que ela vinha lá. Depois baixou-se e deu-me um beijo.
Deixou-me um chávena de chá juntamente com o beijo. Uma chávena com chá de hibisco a fumegar. Deu-me primeiro o beijo. Os lábios dela nos meus. Ainda senti a língua atrevida a sair por momentos da sua boca e tocar, levemente, nos meus lábios. Depois largou a chávena com o chá na mesa. Ao lado do computador. Sorriu-me e voltou para os seus afazeres. Eu estava nos meus.
Eu estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Via-a a cirandar em volta do fogão. Ia à despensa. Voltava com coisas. E eu sei lá que coisas! Coisas! Caixas de plástico. Saquinhos. Embrulhos. Depois continuava de costas para mim. Em volta do fogão. Às vezes ficava uns tempos na bancada ao lado do fogão. A fazer coisas. Sentia os gestos. Os braços a mexer. Sempre de costas para mim. Abria uma gaveta. Outra. Uma porta do armário. Abriu o forno e vi sair de lá uma nuvem de fumo. E pensei Está tudo estragado! Deixou queimar! Mas, estranhamente, ela continuava na sua normalidade de um lado para o outro. Calma. Não sentia cheiro de queimado. Afinal, não se passava nada. Eu é que me precipitei. É claro que ela tinha tudo sobre controle. Sabia o que fazer. Ela era mesmo um mestre na cozinha. Mesmo quando era eu a cozinhar, nunca se afastava muito. A dada altura sabia que eu ia pedir isto. Ou aquilo. Perguntar se não tinha. Se ainda tinha. Se por acaso. Ou então. E uma sugestão? E ela estava sempre pronta para ajudar. Cobrir as necessidades. Completar. E sabia sempre como.
Olhava-a nessa azáfama e não conseguia fazer o que tinha de fazer. Eu.
Os dedos estavam em cima do teclado do computador. Procuravam letras. Queriam escrever palavras. Formar raciocínios. Mas os dedos não se mexiam. Não havia letras nem palavras nem raciocínios que me fizessem mover. E ia olhando para ela. Ela não tinha os mesmo bloqueios que eu. Estava sempre à frente das suas necessidades. Nunca ficava um minuto parada a pensar E agora?! O que faço agora?! Não! Ela antecipava sempre as suas necessidades. E também as dos outros. As minhas.
Foi assim que eu a cheirei a aproximar-se de mim quando estava entretido a olhar o site de A Bola à procura de inspiração. Ela chegou e deu-me um beijo. E depois largou-me uma chávena de chá de hibisco em cima da mesa, ao lado do computador. E eu fiquei a apreciá-la a afastar-se, de regresso à bancada onde terminava de fazer o jantar, mas onde ainda tinha tido tempo para me fazer um chá. E eu vi-a ir. E apreciei-a. O corpo. Olhei-lhe as ancas a ondular enquanto se distanciava. O rabo. Ela tinha um belo rabo! E dava gosto olhá-lo. Olhá-la.
Bebi um pouco de chá de hibisco. Soprei a fumarada da água a ferver e bebi um pouco do chá.
Depois estalei os dedos das mãos e comecei a escrever por ali fora. Sem parar.
Não dei pelo tempo passar.
Só dei por mim quando a ouvi dizer Anda jantar. E fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/06]