Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

Voyeur

Houve um tempo, há uns anos, ainda eu era um miúdo, em que partilhei uma casa com outros miúdos como eu. Éramos estudantes. Com pouco dinheiro mas, mesmo assim, o suficiente para pagarmos uma casa nos subúrbios e todas as despesas que lhe vinham agarradas. Cada um tinha o seu quarto. Partilhávamos a cozinha, a casa-de-banho e a sala onde víamos televisão, principalmente os jogos de futebol.
Nessa altura eu era um miúdo muito tímido. Principalmente com as miúdas. Não sabia o que lhes dizer. Como lhes dizer. Bloqueava. Começava a tremer. E fugia.
Nas aulas não. Nas aulas não era tímido nem com elas nem com os professores. Acho que isso também contribuiu para que as minhas notas não fosse melhores. Fui tomado de ponta muitas vezes. Estava sempre a colocar em causa alguns conhecimentos. Alguns dados adquiridos. Estava sempre a levantar dúvidas. Naquela altura, além de muito tímido, também era muito chato.
Não me metia com as miúdas porque era tímido e elas não se aproximavam de mim porque eu era um chato.
Por outro lado, os meus companheiros de casa não tinham problemas com as miúdas. Eram aquele género de miúdos de quem as miúdas gostam e um tipo nem sabe porquê. O que é que eles tinham que eu não tinha? Nunca soube. Mas havia qualquer coisa neles que não conseguia compreender. Ainda hoje é um pouco assim. Estou é um pouco mais velho. Estamos. Mas alguns envelheceram mais que eu. Acho que consegui ganhar alguma coisa por aqui.
Haviam sempre muitas miúdas lá por casa. Muitas delas dormiam por lá. Dormiam com os meus colegas. Não comigo. Nunca comigo.
Eu era o solitário. O miúdo que estava sempre lá por casa. Sozinho. Disponível. Fazia recados. Dava recados. Ficava com recados.
Mas era à noite, tarde da noite, que eu me transformava.
Quando a casa já estava em silêncio, ou quase, quando já toda a gente estava a dormir, ou quase, ouviam-se uns distantes e abafados sons. E eu já sabia o que era.
Ao ouvir esses sons levantava-me da cama, saía do quarto, e aproximava-me da porta do quarto de onde vinham esses barulhos. Ia às escuras. Descalço, mesmo durante o Inverno. Encostava o ouvido à porta e ficava ali, a ouvir o que se passava no interior do quarto. A ouvir as conversas íntimas. Os desejos. As confissões. Ouvia os corpos a tocarem-se. A roçarem-se. Baixava-me e colava um olho à fechadura da porta. E entrava lá dentro com o meu olhar. E via-os na cama. Despidos. Descobertos. A pele dela arrepiada. A dele nervosa. As mãos que se tocavam. E se aventuravam. Os gemidos baixinho. As contracções do corpo dela. A pujança do corpo dele. A doçura, primeiro. A fúria depois. E eu ali, a sentir a minha respiração galopante. O ouvido na porta. O olho na fechadura. A minha mão no meu sexo. Com atenção à casa. A toda a casa. Com rota de fuga traçada até à casa-de-banho, o melhor sítio para onde fugir e não ser apanhado.
Às vezes, mais tarde, muito mais tarde, já depois deles terem adormecido e eu sem conseguir adormecer, abria a porta dos quartos deles, dos quartos onde se permitiam estar íntimos e descansados, corpos tombados sobre os lençóis encharcados, e entrava. Primeiro com muito cuidado. Em silêncio. Prostrava-me aos pés da cama a olhar para aqueles corpos abandonados. Brancos. Às vezes queimados do sol. As marcas dos biquínis delas. As marcas dos calções de banho deles. O triângulo branco sobre os seios tão redondos e perfeitos. As pernas que a meio passavam de uma cor a outra.
Um dia aventurei-me. Aproximei-me de uma. Era nova. Nunca a tinha visto lá em casa. Aproximei a minha cara da dela. Senti-lhe o bafo da respiração na minha cara. Uma respiração tranquila. Os cabelos caídos sobre a almofada. As mãos sob a cara, em suporte. Puxei os lençóis para baixo. Vi-o a ele encostado, por trás, a ela. A mão dele pousada sobre a anca dela. Soprei levemente sobre o corpo nu dela e vi-lhe os pêlos a eriçarem. Ela mexeu-se. Eu fiquei quieto. Esperei. Ela acalmou. Eu levantei-me e afastei-me para sair do quarto. À porta olhei para trás, de novo para eles. E foi então, ao vê-los assim, à distância, que senti um desejo enorme de estar ali no meio deles, deles os dois. E fui a correr para a casa-de-banho.
Ainda hoje, depois da minha mulher adormecer, levanto-me sozinho, em silêncio, com pouca luz, puxo o edredão para o fundo da cama e fico ali assim, a olhá-la. Percorro-lhe o corpo nu com o olhar e sinto-o como se lhe tocasse com as minhas mãos. Às vezes tiro-lhe fotografias. Já a desenhei. Às vezes tenho de ir para a casa-de-banho.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/03]

O Meu Pai Nunca Teve Qualquer Relação com a Arte

O meu pai nunca teve qualquer relação com a arte. A vida dos meus pais, um como o outro, neste sentido, foi bem diferente da minha. A forma de arte da qual o meu pai esteve alguma vez mais perto foi através de uma finta do Eusébio e do Victor Baptista ou de uma defesa do Costa Pereira e do Bento. Vagamente num fado da Amália e, sobretudo, numa qualquer canção romântica do Tony de Matos. Sim, pelo que a minha mãe me contava, o meu pai era um romântico. À luz da época dele. Deles. Do meu pai e da minha mãe. O meu pai gostava de dançar. E acho que gostava de dançar as músicas do Tony de Matos. Sempre que ouço O Destino Marca a Hora lembro-me do meu pai. Do meu pai com a minha mãe. Em dupla. Pelo que a minha mãe me contava.
Também ela nunca teve nenhuma relação próxima com a arte. A minha mãe era uma excelente cozinheira. Não uma chef. Não. Uma cozinheira. Uma cozinheira daquelas que se fala quando falamos, com saudade, da comida da mãe ou da avô. Comidas que muitos de nós tentamos reencontrar nas mulheres que vamos tendo ao longo da vida. E alguns de nós, como eu, acabamos por sermos os próprios, na impossibilidade de reencontrar as mães na cozinha, os recriadores das comidas de casa. Não me dou mal entre os tachos, as frigideiras e o forno. Mas não sou como a minha mãe. A minha mãe sabia fazer os pratos clássicos que as mães e as avós sabiam fazer e, às vezes, punha-se a inventar com o que tinha em casa e descobria-nos maravilhas de agradar ao palato. Nunca houve um livro em casa dos meus pais. Nunca houve um livro até eu começar a comprá-los. Nem a minha mãe tinha um qualquer livro de cozinha. Nem assentava nada do que inventava. Tinha tudo na cabeça. E as medidas eram à medida da mão, primeiro, e do gosto, depois.
Mesmo não tendo nenhuma relação com a arte, mesmo não havendo nenhum livro lá em casa, os meus pais sempre me incentivaram a ler e a gostar de arte. A ter predisposição para isso, pelo menos. Os primeiros livros que entraram em casa foram os que eu comprei. Os que eu comprei com o dinheiro que eles me davam para os poder comprar.
Lembro-me de ver jornais, especialmente A Bola, a Crónica Feminina, a Simplesmente Maria e as Selecções do Reader’s Digest lá por casa. Perdidos em gavetas. Largados em cima do sofá. Mas nada de muito importante. Uns números avulsos. Soltos. E espalhados pela casa, ao acaso.
Até que comecei a comprar as primeiras bandas-desenhadas. Os primeiros livros da Enid Blyton. O que originou a existência de uma primeira estante para os livros mandada fazer de propósito, para o meu quarto, pelo meu pai.
Mas mesmo não tendo qualquer relação com a arte, por vezes o meu pai surpreendia-me ao extravasar os pedidos que normalmente lhe fazia para o natal e para o aniversário. Livros.
Uma vez surgiu em casa com a adaptação para banda-desenhada de o Tubarão, o filme de Steven Spielberg que andava, na altura, a assustar toda a gente em todo o mundo. Em minha casa não foi excepção. E foi uma surpresa vê-lo chegar com uma banda-desenhada. Para mim. E sem ter de a pedir.
Outra vez, e não sei como, deve ter ouvido na rádio, visto na televisão, ouvido nalguma conversa entre gente amiga, conhecidos, não sei, apareceu em casa com o disco Anjo da Guarda de António Variações. Foi o primeiro disco que comprou. Não era para mim, embora eu o julgasse, erradamente. Era um disco para a casa. Porque, tanto ele como a minha mãe o queriam ouvir. Ouvir na aparelhagem que havia lá em casa e que o meu pai tinha comprado para mim. Pelo menos era o que eu julgava. Era eu que lhe dava uso, não? Era eu que comprava os discos. Os discos todos. Era eu que ouvia as músicas. As músicas dos discos que comprava. Em altos berros. Até tinha levado a aparelhagem para o meu quarto. O meu quarto era o meu mundo. Nesse dia, a aparelhagem voltou para a sala onde tinha estado originalmente. E ficou lá por algum tempo.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve a arte de bem me surpreender. Quando ia a Lisboa, e antigamente ir a Lisboa não é o mesmo que hoje, em que demoramos menos de uma hora a fazer estes poucos mais de cem quilómetros que nos separam, na época ir a Lisboa era uma aventura, toda uma viagem de horas, em carros mais fracos, menos confortáveis, cansativos, aparecia por casa com Pastéis de Belém, Queijadas de Sintra, frango frito de um restaurante da baixa, que já procurei e nunca encontrei, provavelmente fechou, restos de uma época morta e enterrada nas fundações desta modernidade que nos veio tornar iguais a toda a gente de todo o lado.
A minha mãe era uma grande cozinheira. Recordo com muita saudade alguns pratos de uma simplicidade desarmante que ainda hoje me fazem água na boca, coisas tão estúpidas como arroz branco, quase em calda, não é malandrinho, é mesmo quase-calda, a acompanhar uns bifes de vaca panados, mas bem panados, bem fritos, coisa que nunca consegui encontrar fora de casa, mesmo quando ia às cinco da manhã comer uma sandes de panado à Sopa da Puta, o panado não era o mesmo nem tão bom, e hoje, então, nuns panados de porco, de peru, de frango, umas coisas desenxabidas, nunca há ecos dos panados da minha mãe, nem dos seus rissóis de peixe ou da mão-de-vaca com grão, que hoje parece asséptico nos restaurantes onde ainda se aventuram. Ela também fazia frango frito. Hoje já ninguém faz frango frito. Comem no KFC uma imitação americana. Mas mesmo o frango frito da minha mãe, cheio de limão e piri-piri, sendo tão bom, não era tão bom como o que o meu pai trazia naqueles dias em que chegava das suas idas a Lisboa e os trazia em pequenas caixas de cartão todas besuntadas de gordura dos fritos.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve arte de me criar memórias vivas. Como arte.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/31]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Mais uma Mudança de Casa

Mais uma mudança de casa. Mais tralha para levar de um sítio para outro. Desta vez a mudança é da minha mãe. Mas sou que a faço. Ela transporta-se a ela e já é uma aventura.
A mudança não é para longe. Na verdade, é só atravessar a rua. O que, afinal, acaba por complicar as coisas. Não contrato ninguém para a mudança. Faço eu tudo sozinho. Depois deparo-me com alguns móveis. Como levar isto sozinho? Ela diz Chama um dos teus amigos. Que amigos? Não gosto de pedir favores às pessoas e, no entanto, esta vida está feita para andarmos todos uns atrás dos outros a pedir favores uns aos outros. Por quê? Porque é que não posso ser um tipo sozinho?
Quero arrendar uma casa? Preciso de um fiador. Tenho de pedir a alguém que seja meu fiador. E pedir isso a alguém? Como se pede uma coisa dessas a alguém? E se eu quiser arrendar uma casa noutra cidade. Numa cidade onde não conheça ninguém?
E na Junta de Freguesia, para se garantir que somos moradores, solitários, daquela freguesia? Arranjar duas testemunhas que sejam habitantes dessa freguesia e que não sejam da família. E então? Tenho de andar na rua Oh tio! Oh tio! Quem é minha testemunha? Quem me assina este papel? De novo pedir por favor. Garantir que sou munícipe e que vivo sozinho. Não eu. Ela.
E agora? Para acartar as coisas de uma casa para a outra? Vou pedir a alguém mais um favor? Ainda por cima para alombar peso?
Acartei as coisas sozinho. O mais complicado foi transportar alguns móveis. Acartei-os às costas. Puxei-os em cima de um tapete. Acabei por arranjar um carrinho com rodinhas, daqueles que transportam as grades de cerveja. Deu um jeitaço.
A meio da tarde começou a chover. De uma casa para a outra, na travessia da rua, lá tinha de levar com chuva em cima. Molhei móveis. A poltrona. A televisão. Os atoalhado e lençóis e cobertores foram transportados em sacos de lixo e não se molharam. Molhei-me eu. Já tomei um Voltaren e o Brufen 600. Mandei duas bombadas de Ventilan. Fumei um cigarro de hora a hora para não fumar demais e para ter de parar ao fim de uma hora e não me esquecer de descansar um pouco, beber água e fumar um cigarro enquanto olhava a chuva a cair na rua e me recuperava para a próxima carga.
Porque é que temos de andar sempre a mudar de sítio?
E porque é que acumulamos tanta tralha? Tanto lixo? Metade das coisas que acumulamos deviam ir para o caixote. Algumas não deviam ter sido compradas. Outras nem deviam ter sido fabricadas.
Disse à minha mãe Devias deitar estas coisas fora. E ela respondeu Pode dar jeito. Responde sempre Pode dar jeito. O futuro da minha mãe está feito para ela utilizar as coisas que foi acumulando ao longo da vida.
Depois da mudança feita, os aprumos de última hora: Transportar as coisas de um frigorífico para o outro. De um congelador para o outro. Sintonizar a televisão. Já experimentaram sintonizar a televisão sem comando? Onde está o comando? Depois, e não menos importante, descobrir todos os cabos e extensões necessárias e que vieram num caixote qualquer, ou saco de plástico e estão misturados com outras coisas já nem eu nem ela sabemos onde.
E o telemóvel? Onde está o telemóvel?
E o relógio? Não, não é este. É o de parede.
E o micro-ondas? Ah, o micro-ondas está aqui. E já está a funcionar?
E a minha almofada? Não, não é esta. É a outra. E os meus chinelos de casa?

[escrito directamente no facebook em 2019/10/19]

Onde Estás?

Como fazer para sair do comboio em andamento?
Como fazer para sair de onde não devia ter entrado?
Como fazer para voltar atrás? E escolher diferente?
Saio do quarto de hotel. Saio atrás dela. Não. Saio à procura dela.
Eu devia ter percebido. Não hoje. Não agora. Não há minutos atrás quando aconteceu. Mas há muito tempo. Quando a conheci. Quando percebi.
Os olhos. Os olhos vítreos. Os nervos. A impossibilidade de estar parada. Quieta.
Saio do hotel. Direita ou esquerda? Estou numa cidade que não conheço. Que não conhecemos. Viro à direita? Viro à esquerda?
Viro para um lado qualquer. Sigo as pessoas. Vou na direcção do vento. Olho para todo o lado. Olho para todas as pessoas. Tento vê-la. Tento vê-la nos outros.
Onde estás?
É fim-de-dia. Hora de ponta. Confusão nas ruas. As esplanadas cheias de gente que bebe. As lojas cheias de gente que compra. Turistas. Gente como eu. Como nós. Como encontrá-la aqui, no meio desta confusão de gente toda igual? Mas ela não é igual. Não, não é.
Entro e saio de cafés. De bares. Salas de jogo. Lojas. Geladarias. Passo ao lado de um Cinema. Um multiplex. Mas não vale a pena. Ela não conseguia estar dentro de uma sala de cinema, às escuras, sossegada.
Passo na zona das putas. Olho-as sem as olhar. Tento vê-la lá. Nas outras. Mas com a esperança de não a encontrar ali. Não estar ali. Mas quero encontrá-la.
Onde estás, porra?
Ao lado das putas, os dealers. Não vale a pena procurar ao pé deles. Não precisa de drogas. Não destas. Não usa destas. Tem as suas. Legais. Compradas às caixas. Em lamelas. Não precisa destas.
Aventuro-me um pouco mais longe. Vou a sítios onde ainda não tínhamos ido. Mas começo eu a ficar nervoso. Não a encontro. Mas tenho de encontrar. Não a posso perder. Não a posso deixar perder. É minha responsabilidade. É da minha responsabilidade.
Mas não quero. Não quero mais essa responsabilidade.
Foda-se! digo alto. Mas ninguém me percebe.
Páro. Estou sem forças. Sinto-me desfalecer. Encosto-me a uma parede. A uma parede de uma loja. Numa rua de lojas. Lojas de sapatilhas. De perfumes. De óculos. De roupa de mulher. De jovem senhora. De criança. Onde estou? Onde estou eu, agora? Não reconheço nada. Sim, percebo. Nunca tinha estado aqui. Nem eu, nem ela.
Tento concentrar-me. Foco o meu olhar nas montras. Nas portas. Nos letreiros que começam a acender. Néons. Cores. Muitas cores vivas. Olho as pessoas. Sigo-as. Passo o olhar de uma para outra. Recupero a calma. Acendo um cigarro.
E se ela voltou para o hotel? pergunto-me.
Olho em volta. Tento perceber onde estou. Não é fácil. Não é fácil, para ninguém. Percebo o caminho. Começo a andar de regresso ao hotel. À espera que ela esteja lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/25]

E se Fui Eu?

Acordei numa cama que não era a minha.
Não sei como é que vim aqui parar. Não me lembro da noite de ontem. A memória mais recente leva-me ao balcão do restaurante onde jantei uma omeleta de queijo. Acho que bebi um copo de vinho. E depois, está tudo em branco.
Até hoje de manhã.
Acordei numa cama que não era a minha. Estava sozinho, mas a cama estava remexida. Não estive aqui sozinho. Levantei-me. Fui à casa-de-banho urinar, lavar as mãos, a cara e os dentes. Não encontrei escova nova e usei o dedo.
Depois voltei ao quarto. Vesti os boxers e fui à aventura, descobrir onde estava. E com quem.
Desci umas escadas. Encontrei a cozinha. Fiz café. Duas torradas. Enquanto esperava, fui olhando lá para fora pela janela, para um pequeno quintal nas traseiras. Tinha três árvores, um roseiral e uma mesa de madeira com várias cadeiras. Abri a porta da rua e fiquei ali, à entrada, a beber o café e a comer as torradas.
Sai da cozinha e aventurei-me pelo resto da casa. Quando cheguei à sala fiquei petrificado. À minha frente, caída no chão, uma mulher nova, nua, com as tripas fora do corpo e um mar de sangue à sua volta. Não me contive e vomitei ali mesmo, sobre o corpo morto. Perdi as forças. As pernas cederam e caí no chão. Voltei a vomitar.
Com dificuldade, consegui arrastar-me para fora da sala e fugir daquela visão.
Voltei à cozinha. Abri a torneira do lava-loiças e enfiei lá a boca. E lavei-a. Lavei as mãos. A cara. A cabeça.
Subi ao primeiro andar e peguei no telemóvel. Comecei a marcar o número das emergências. Mas parei. O que é que estou a fazer?, pensei.
Vesti-me rapidamente e saí da casa a correr.
Quando estava a sair pelo portão de entrada pensei que não valia a pena fugir. Eu estava por toda a casa. Nunca conseguiria não ter estado ali. O medo e o desespero transformaram-se em frustração. Um peso enorme tombou-me sobre os ombros, deixei-me cair e sentei-me no lancil do passeio frente ao portão de entrada. E se fui eu?, pensei. As minhas mão tremiam.
Peguei outra vez no telemóvel e, com alguma dificuldade, telefonei para as emergências.
Acendi um cigarro e fiquei ali sentado, a fumar e à espera da polícia. Fumei os cigarros todos que ainda tinha. E pus-me a rezar para que não tivesse sido eu. E foi com alguma admiração que descobri que ainda sabia rezar.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/16]