Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]