Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

Numa Fila de Gente

Foi a primeira vez. E a primeira vez custou. Primeiro custou estar na fila com todos os outros como eu que estavam na fila à espera. Mas o que custou mais foi ser visto por todos os outros que passavam ao largo e mandavam olhares para nós, os que estávamos na fila, à espera. Aqueles olhares entravam por mim dentro. E eu vestia-me de vergonha.
Esperámos horas a fio ao longo do passeio. Houve quem viesse muito cedo para arranjar um lugar à frente, entre os primeiros. Gente que já sabia como é que aquilo funcionava. Eu nunca tinha ido e acabei por ficar num dos últimos lugares. Só esperava era que ainda houvesse alguma coisa para mim quando fosse a minha vez de chegar lá à frente.
Nunca tinha passado por nada daquilo. E no entanto, várias vezes imaginei aquilo a acontecer. Não aquilo assim, exactamente assim, nem que achasse possível aquilo realmente acontecer daquela maneira. Mas tenho tendência para imaginar desastres terríveis e depois congratular-me pela sua não-ocorrência. Talvez seja uma forma retorcida de me sentir bem com a vida. Já imaginei vários acidentes de automóvel em que eu sobrevivia tetraplégico. Ou que que familiares meus, próximos de mim, muito próximos de mim, morriam de mortes terríveis e dolorosas. Uma vez imaginei que a minha mulher tinha caído a um poço e eu acabava a casar com a irmã dela. Logo eu que nunca fui casado. Mas a minha imaginação não tem regras, nem limites. Eu não tenho poder nenhum sobre os meus sonhos e eles, por vezes, são bem macabros, terríveis, e estão-se nas tintas para mim.
Daquela vez o sonho tornou-se realidade. Uma realidade. Mas já estava à espera. Embora tenha sido uma descida rápida, era uma descida que se vinha anunciando. Mas o que é que eu podia fazer? Não conseguia mudar o destino. Eu não sou um tipo desses, de grandes frases filosóficas e acções compatíveis que lutam contra o mundo e conseguem vencê-lo. Eu, não. Eu acho que sou um falhado. Vou andando ao sabor das ondas, sem levantar muitas. Deixo-me ir. Às vezes corre bem. Outras vezes não.
E foi assim que acabei lá, na fila. Naquela fila. Com uma série de gente como eu. E só esperava ainda chegar a tempo.
Há quanto tempo não comia? Quer dizer, comer-comer, a sério? Porque comer, tinha comido. Tinha sempre comido alguma coisa. Umas laranjas. Restos de hambúrgueres. Iogurtes fora de prazo. Às vezes conseguia roubar umas couves ali nas hortas comunitárias. Mas não tinha comido mais que isso. Isso era o que tinha comido nas últimas semanas. A última vez que tinha comido, antes de ir para a fila, foi um resto de torrada que encontrei abandonada numa esplanada. E isso já tinha sido… No dia anterior? Talvez antes, talvez antes do dia anterior.
Mas tive sorte. Quando chegou a minha vez, ainda consegui levar algumas coisas para casa. Arroz. Bolachas. Óleo. Latas de atum. Feijão. Nessa noite consegui comer quase normalmente. Nessa noite, acabei a vomitar o que tinha comido e me tinha sabido tão bem. Não vomitei por causa da comida. Vomitei por ter estado na fila, junto com todos os outros que estavam na fila, à espera de conseguirmos trazer alguma coisa para casa. Vomitei por minha causa.
Agora, já não vomito. Agora, já estou habituado. Quer dizer, o mais habituado que é possível alguém estar quando tem de se colocar numa fila de gente desesperada como eu à espera de conseguir que lhes dêem alguma coisa, qualquer coisa, para comer e mitigar a fome. Sim, porque há fome. Eu tenho fome. Todos eles, que estão na fila, têm fome. E passo, passamos, horas na fila para podermos comer alguma coisa. E é o que nos resta. Mitigar a fome de comida. O resto, o resto das coisas que nos faltam, ficam à espera de melhores dias.
A primeira vez que entrei na fila, pensei que seria a primeira e a última vez. Depois dessa vez já passou,,, Quanto? Quanto tempo?… Já não sei. Já não sei há quanto tempo foi a primeira vez. Mas sei que já me habituei. Agora faz parte da minha rotina entrar na fila e chegar lá à frente.
Um dia gostava de deixar a fila. Um dia gostava de voltar a ser como os outros, os que não vão para fila.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/08]

A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

Um Dia como os Dias São

Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado. Adormeci.
Acordei com fome. Ainda chovia. Estava frio. Gosto de andar nu por casa. Mas tive de vestir um fato-de-treino e calçar umas meias. Passei na casa-de-banho. Fui à cozinha. Abri uma lata de atum. Desfiz o atum numa taça. Piquei um pouco de cebola. Acrescentei um pouco de salsa. Uma colher de sopa de maionese. Misturei. Cortei uma rodela de tomate. Abri um pão duro. Torrei-o um pouco. Coloquei o atum com maionese numa das metades do pão. Uma fatia de queijo Limiano. A rodela de tomate por cima. Coloquei a outra metade do pão. Levei-o à tostadeira. Prensei-o. Abri o frigorífico. Uma garrafa de vinho branco. Enchi um copo. Tirei a tosta de atum da tostadeira e coloquei-a num prato. Sentei-me à mesa da cozinha a comer a tosta de atum e a beber o vinho branco.
Lá fora continuava a chover. Senti um arrepio de frio pelas costas.
A maionese escorria-me pelos dedos e eu lambia-os. Acabei o copo de vinho antes da tosta e voltei a enchê-lo. A garrafa ficou vazia. Coloquei-a ao pé do lixo, dos vários sacos de lixo fechados com um nó à espera de irem para o rsu ao fundo da rua. Pensei que teria de sair. Teria de ir à rua brevemente. Mas não me apetecia.
Acabei de comer a tosta. Lambi os dedos. Despejei o segundo copo de vinho branco. Olhei as horas. Duas da tarde. Olhei a rua. Céu cinzento. Chuva. Frio. Voltei para a cama. Despi-me e enfiei-me debaixo do edredão.
Acordei com vontade de ir à casa-de-banho. Estava sol. Fiquei por momentos a tentar processar as informações. Ainda era o mesmo dia. O dia que amanheceu chuvoso, continuou chuvoso ao longo da manhã e início de tarde e agora estava sol. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Passei pela janela do quarto e espreitei lá para fora. A estrada estava molhada. Os poucos carros estacionados na rua estavam molhados. Fui à casa-de-banho.
Regressei ao quarto. Voltei a deitar-me.
Acordei com o barulho da buzina de um automóvel. Era de noite. A buzina não parava. Virei-me para o outro lado. A buzina continuava a tocar. Levantei-me. Espreitei à janela. Um carro bloqueava outro. Com tantos lugares vagos aqui na rua, um carro parou a bloquear outro que queria sair e não podia. Vi um sujeito a correr vindo da farmácia. Levantou o braço a pedir desculpa. Um homem saiu do carro a discutir. O sujeito entrou dentro do carro. O homem aproximou-se a gesticular com os braços. O sujeito arrancou com o carro. O homem fechou o carro e acabou por ir embora a pé. Não entendo as pessoas.
Voltei para a cama. Virei-me para o outro lado. Os olhos abertos. As sombras nas paredes. Virei-me de novo de lado. Os néons da farmácia a piscar nos vidros da janela. Estava desperto e já não conseguia dormir. Já não tinha frio. Não tinha sono. Não tinha fome. Não queria mais estar na cama.
Levantei-me. Fui nu até à cozinha. Abri uma Terra d’Alter tinto. Servi um copo. Sentei-me à mesa da cozinha. Abri a tampa do portátil. Acendi um cigarro. Estalei os dedos. Bebi um gole de vinho.
E comecei os lamentos.
Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado, escrevi.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/15]

Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

Uma Cama de Corpo-e-Meio

Todas as Quartas-feiras eu ia ter a casa dela. Ia logo de manhã, depois dos pais terem saído para o trabalho e a irmã ter ido para a escola. Em dias de chuva ou de sol, lá estava eu a tocar à campainha na forma de um código de toques, para ela saber que era eu e, se os pais e a irmã já tivessem saído de casa, ela dizia Sobe, babe! pelo intercomunicador e só depois abria a porta da rua. Nunca foi diferente. Os pais, ou a irmã, nunca, por uma vez que fosse, estiveram em casa numa Quarta-feira durante aquele ano.
Eu subia o elevador numa excitação tal que, nas primeiras Quartas-feiras, só com a expectativa do que se adivinhava, vinha-me antes de lá chegar. Era com enorme vergonha que a via a olhar para a mancha nas calças com que eu entrava em casa dela. Mas o desejo era maior que a vergonha.
Ela estava quase sempre de pijama. Às vezes de camisa de dormir. Mas normalmente era de pijama, naqueles pijamas de turco, amarelo, com um desenho infantil qualquer à frente, mas que já não recordo.
Pegava em mim, pela minha mão, e levava-me para o quarto que era dela. Dela e da irmã. E ficávamos lá os dois sozinhos, toda a manhã, até quase à hora do almoço, altura em que saíamos de casa dela e íamos até ao liceu almoçar e às aulas da tarde.
Às Quartas-feiras não tínhamos aulas de manhã. Era a única altura em que não tínhamos aulas, numa semana bastante preenchida de manhã até ao final da tarde. E tudo começou com um trabalho de grupo. Uma trabalho de grupo que acabou por ser a dois. Em casa dela. No quarto dela. Com ela. E tudo aconteceu. De uma forma natural. Tão natural como estas coisas podem acontecer. Uma anedota ou outra. Um sorriso. Depois um riso. Uma conversa sobre gostos, paixões, desejos. Encontros nos livros mas, principalmente, nas bandas de música. A vontade de tocar. De beijar. E, depois, depois passou a acontecer todas as Quartas-feiras.
Eu saía de casa para as aulas, só que não tinha aulas. Fazia o caminho a pé, a gerir as expectativas. Pensava naquelas três horas em que ia estar junto dela, em casa. Sozinhos. Nus. Na cama pequena dela. Na cama pequena em que tínhamos de estar muito juntos, agarrados, para nenhum de nós cair. Ou ela em cima de mim. Para cabermos os dois. E como ela gostava de estar em cima de mim! E eu gostava que ela estivesse em cima de mim. Gostava de a ver cá de baixo. O corpo dela a crescer sobre mim. Os olhos semi-cerrados. A cabeça a bailar. Os braços esticados ao céu. Às vezes, as gotas de transpiração que eu via na sua trajectória pelo corpo dela, até caírem sobre mim, sobre o meu corpo, a minha cara, a minha boca, e eu saborear todo aquele sal que o corpo dela exalava.
Isto começou a meio do primeiro período e durou até ao final do ano. Acabou quando as aulas acabaram. Cada um foi para as suas férias e, no ano seguinte, fomos parar a turmas diferentes e nunca mais tivemos uma Quarta-feira. Sim, porque a nossa relação resumia-se às Quartas-feiras. Em casa dela. No quarto dela. Na cama dela. Fora dali tínhamos uma relação quase inexistente. Não éramos namorados. Nem sequer amigos próximos. A nossa proximidade estava toda ali, naquele quarto, às Quartas-feiras.
Houve um dia em que as coisas tiveram uma narrativa diferente. Naquele dia ela levou-me para a cama dos pais. A cama estava por fazer. Era ela que a deveria fazer. Mas antes de puxar os lençóis e os cobertores, deitou-se lá em cima e puxou-me para cima dela. E invadimos a cama dos pais, ela e eu, e desfizemos ainda mais a cama. No fim fomos para a varanda fumar um cigarro, sentados no chão da varanda, a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas como algodão doce. Deixámos a porta da varanda aberta para arejar a cama. Depois eu ajudei-a a fazê-la. E fomos para o liceu.
Nesse dia, ao final-do-dia, quando cheguei a casa, soube que o meu pai tinha morrido num acidente automóvel. O resto do ano foi muito doloroso. As notas acabaram por se ressentir. Consegui passar de ano à tangente. Mas nunca falhei uma Quarta-feira. Não, as Quartas-feiras eram sagradas. Ainda hoje não consigo dormir em camas-de-casal. Ainda hoje durmo sozinho, numa cama de corpo-e-meio.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/31]

A Volta dos Tristes

Em dia feriado promove-se a Volta dos Tristes.
A Volta dos Tristes vem do tempo dos meus pais. Se calhar era-lhes anterior. Se calhar aprenderam com os pais deles e eles com os avós dos filhos. Mas eu aprendi com os meus pais. Nos dias de feriado, como em alguns Domingos, promovia-se a Volta dos Tristes. E agora também. Em dia feriado promove-se a Volta dos Tristes.
A Volta dos Tristes é um passeio, geralmente de automóvel, a um sítio onde se vai normalmente, nos outros dias, mas com outro espírito e com roupinha de feriado, ou a um sítio sem jeiteira nenhuma.
Em Leiria havia muitos trajectos para a Volta dos Tristes.
Um desses trajectos era ir de carro até à Praça Rodrigues Lobo. Os carros ainda podiam circular na Praça que, então, era uma rotunda. O Francisco Rodrigues Lobo ainda estava no centro da Praça, da rotunda. Eu jogava à bola na Praça. Para além de fintar os adversários, também tinha de fintar o Francisco que estava mesmo no meio do campo, e tentar acertar na parte de baixo dos bancos da Praça para marcar golo. As balizas. Os pais dos jogadores dividiam-se pelos dois cafés com pequenas esplanadas que existiam ao longo das Arcadas. Os carros eram estacionados em frente às Arcadas. E à volta da Praça, na rotunda. Às vezes acontecia um vidro partido. Lanchávamos uma torrada. Bebíamos um galão, uma Laranjina C ou uma Superfresco. Depois os carros arrancavam para casa e estava feito o dia. O dia especial. Feriado. Ou Domingo.
Outra Volta dos Tristes era ir de carro até ao Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, quando ainda havia dois campos, um relvado, no estádio, outro pelado, ao lado, verdadeiro campo da bola, aberto às pessoas, e um Pavilhão Gimnodesportivo, onde se realizavam os desportos de pavilhão. Joguei lá andebol pela União Desportiva de Leiria. Mas nunca fui grande jogador. Portanto as pessoas iam de carro até à zona dos campos ver que jogo é que havia. Porque às vezes havia jogos dos juniores, dos juvenis, dos iniciados. Às vezes havia torneios de futebol das escolas. Às vezes havia outras coisas. Os homens iam ver a bola. As mulheres, algumas, ficavam nos carros a fazer renda. A minha mãe, não, que gostava de bola. Depois, no fim, voltavam para casa. Ou iam lanchar à Praça. Ou fazer um lanche ajantarado na Barreira ou nas Cortes.
Ainda havia outra Volta dos Tristes mais completa, e que eu gostava mais, que era ir de carro até ao Pedrogão, a praia do concelho. Parar na marginal. Comprar uns tremoços e umas pevides. Esperar que o vento não fosse muito e não nos enchesse a boca e o nariz de areia. Havia quem fosse à Praia da Vieira ou a São Pedro de Moel, mas era gente sem noção de cidadania: Praia da Vieira e São Pedro de Moel pertenciam à Marinha Grande. Era a Volta dos Tristes dos outros.
Hoje, dia feriado, Dia dos Mortos, de Todos-os-Santos, do Bolinho, do Pão-por-Deus, manhã seguinte à ressaca do Halloween, fiz a minha Volta dos Tristes. Saí de carro, depois de almoço (uma verdadeira Volta dos Tristes é feita à tarde, depois de almoçar), e fui até à praia. Fui até uma arriba onde via o mar. O mar estava cinzento-escuro. O céu também. Mas eram cinzentos diferentes. Não chovia. Estava um pouco de vento. E frio. E fiquei dentro do carro a ouvir os noticiários na TSF. Quando a luz começou a cair, voltei para casa. Acabou a volta.
Agora estou com a neura. Coisa que me acontece muito, em adulto, depois da Volta dos Tristes. Mas não consigo não a fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/01]

Estou e Vejo

Acabei de acabar…

Estou no alto das ameias do castelo e vejo o rio a serpentear lá em baixo, lá em baixo ao fundo. Vejo uma criança a afogar-se nas águas do rio, com os patos à sua volta a fugirem do gesticular agitado da criança. Um homem mergulha, vestido, na água, e nada, desesperado, em direcção à criança.

E como continuar? e para onde? e para quê?…

Estou na avenida, junto ao terreno baldio que serve de parque automóvel, e vejo, do outro lado da estrada, a miúda, tímida, que olha, intensa, os condutores, e se aproxima dos carros que abrandam perto dela. Um deles pára. Um homem puxa de uma pistola e dispara à queima-roupa sobre a rapariga que é projectada para trás, com um buraco mortal no peito. E o carro arranca, deixando a morte lá atrás.

E o que fazer agora com isto?…

Estou numa casa abandonada, destruída, de janelas rasgadas ao longo de paredes sujas da patina do tempo, sem luz, sem vida, e vejo, muito sumido, no canto da sala, muito escondido, o rapaz a espetar uma seringa. A deixar-se cair para trás, amparado pela parede que o deixa cair docemente para o chão. Depois o rapaz começa com convulsões, e espuma-se pela boca…
Da rua ouve-se a voz de um homem, um homem mais velho, que chama por ele, entra casa dentro, encontra o corpo tombado no chão no canto da sala, ajoelha-se e agarra o corpo inerte ao colo, e chora.

Eu queria voltar atrás. Lá mais atrás. Arrepiar caminho.

Estou numa estrada na periferia da cidade. Dois carros aceleram lado-a-lado, numa estrada de dois sentidos. Um deles acaba por se cruzar com um carro em sentido contrário, e o choque é iminente. Mas o carro desvia-se. E o outro também. E desviam-se ambos para o mesmo lado e chocam um com o outro, de frente, com força, com força bruta, e vê-se e ouve-se uma explosão, e os carros destroem-se e ao que levam lá dentro, no seu interior. Tudo morre. Tudo se destrói.

Já é tarde. Já é tarde demais. É sempre tarde demais.
Eu só observo. É só o que me resta. Observar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/31]