A Lâmina Mais Pequena É Sempre a Mais Afiada

Não sei como fazer as coisas. Mas não posso continuar como se não se passasse nada. Não posso.
Vejo os meus olhos tristes ao espelho. Faço a barba. Faço a barba com navalha e espuma de sabão. Nunca tinha feito a barba com navalha. Ela não está muito bem afiada. E eu nunca tinha feito a barba com navalha. Passo-a várias vezes pelo mesmo sítio. Para raspar bem. Para raspar melhor. Corto-me. Mas nada de grave. Uns cortes sem importância. Estanco o sangue com pedaços de papel higiénico.
Massajo a cara barbeada com after shave. Encetei um frasco que a minha filha me deu há… Há dois anos, acho. Não costumo fazer a barba. Não costumo usar after shave.
Será que vão achar estranho?
Tenho de fazer alguma coisa. Não posso esperar mais.
Tomo um banho de imersão. Há quantos anos não o fazia? Ela vai achar estranho. Não tarda vai querer entrar na casa-de-banho e vai achar estranho eu estar a tomar banho de imersão. E não sei mentir. Não consigo fingir. Oh! Mas sabe-me tão bem!
Deixo-me ficar quieto na banheira durante algum tempo. E penso como a vida pode ser fabulosa na sua simplicidade. Um simples banho de imersão e esqueço-me de mim.
Ela abre a porta da casa-de-banho, coloca a cabeça dentro e diz Demoras muito? e eu sinto-me despertar da minha letargia, forço um pequeno sorriso e digo Saio já! e ela ainda comenta Banho de imersão, hum? Lorde!, sorri e eu volto a dizer Saio já!
E saio. Saio já. Seco-me. Vou vestir-me no quarto. Não me cruzo com ela. Nem com eles. Visto-me. Umas calças de ganga e uma camisola. Ouço-a entrar na casa-de-banho. Ouço-os a eles na brincadeira na cozinha. Desço as escadas e dirijo-me à porta da rua. Grito alto para toda a casa ouvir Adeus! Estou atrasado! Beijos! e ainda os ouço gritar, chamar por mim Pai! Pai!, mas saio a correr, rápido, não os quero ver, não os quero encarar, e entro dentro do carro e arranco pelas ruas do bairro. Olho para o espelho retrovisor e vejo os olhos molhados. Páro o carro na berma de uma rua qualquer e desato a chorar. Choro compulsivamente. Grito. Ainda aqui estou e já sinto saudades. Saudades dela. Deles. Da minha vida. Da vida.
Tento respirar. Tento respirar com calma. Acalmo. Páro o choro compulsivo. Mas choro. Ainda choro. Acendo um cigarro. Abro a janela do carro e deixo o fumo sair para a rua.
Vejo as crianças a pé a caminho da escola. Uma mulher, de robe, passeia um cão pequenino pela berma da estrada. Passam carros. Carrinhas. Um jipe. Motas. Várias bicicletas. Miúdos de bicicleta a caminho da escola.
Deito fora a beata ainda fumegante.
Olho o relógio. Vejo as horas.
Acendo outro cigarro.
Vejo os carros passarem. As pessoas passarem. Os cães passarem. As minutos passarem. A vida passar.
Volto a casa. Está em silêncio. Vazia. Já não está ninguém.
Deixo o carro. Deixo a carteira. O dinheiro. O telemóvel. As chaves. Tudo em cima da mesa da cozinha. O bloco aberto. Amo-vos! escrito numa linha de página do bloco como se fosse uma redacção da escola.
E vou embora. Outra vez. De vez.
Saio a porta. Olho a casa pela última vez. Penso que aguentei quase dois anos sem trabalho. Ela aguentou. Eles todos aguentaram por mim. Mas isto agora… Isto agora já é demais. Eles precisam de viver as suas próprias vidas. Sem âncoras que os prendam.
Faço as ruas do bairro a pé. Não me cruzei com ninguém conhecido. Pelo menos, não dei por isso.
Desço até à cidade. A pé até à cidade. Um bilhete de autocarro para fora da cidade. Não precisa de ser muito longe. Tem de ser é muito rápido. Para não ter tempo de me arrepender.
Vou até uma aldeia que nem conheço. Nunca ouvi falar. E fica aqui nos arredores da cidade. Saio do autocarro. Caminho ao longo da rua da aldeia. Saio da aldeia. Entro no pinhal. Caminho à deriva pelo pinhal. Vou andando enquanto consigo. Começo a chorar. Sinto saudades. Saudades deles. De tudo. Tenho uma dor de estômago e vomito. Vomito agarrado a uma árvore.
Sento-me no chão, em cima de uma manta de musgo, encostado a um pinheiro. Acendo um cigarro. Sinto uma grande angústia.
Penso em quando acompanhei o meu pai à quimioterapia. Penso em quando acompanhei a minha mãe. E penso que não quero que me acompanhem a mim.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o no musgo, entre as minhas pernas.
Agarro no canivete-suíço. Puxo a lâmina mais pequena. Está mais bem afiada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/09]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]

O Autocarro que Já Não Fazia Carreiras

Era um autocarro. Um autocarro daqueles da carreira. Um autocarro daqueles que faziam a ligação da cidade com os seus lugares e aldeias.
Era um autocarro parado em fim de vida e começo de outra. Em cima, no tejadilho, uma calha curva, em rebordo, como um algeroz. As rodas, agora sem pneus, estavam cravadas na terra como se não quisessem mais sair dali para lugar nenhum. As janelas enormes, em todo o redor, estavam agora fechadas com uns cortinados coloridos, manta de retalhos como um puzzle gigante feito à dimensão do homem. Também ele fazia parte da composição? Do puzzle?
Ao lado, um pau esticava uma corda onde estava pendurada roupa a secar ao sol, batida pelo vento.
Era um autocarro parado e a única porta aberta era a porta que antigamente franqueava a entrada aos passageiros. O autocarro parava. Ouvia-se o bufar do sistema hidráulico de travagem. A porta abria-se. Como um fole. Os passageiros entravam. Uns tinham Passe Social. Outros bilhete que tinham de validar na máquina à entrada, que a cobrança já era feita pelo motorista tendo dispensado o cobrador, um operário a menos que o capitalismo tinha de pagar. Outros pediam um bilhete ao motorista. Estendiam uma nota. O motorista refilava quando não havia trocos. O passageiro era um terrorista pronto a foder a vida ao motorista. Raio de vida. E agora?, o que é que faço agora? Agora não tenho troco! Agora já não havia motorista. Nem passageiro. Agora já não havia motorista para conduzir o autocarro para lado nenhum. Agora já não havia passageiro para querer ir para algum lugar. Agora o autocarro estava ali parado e dali não fazia tenção de sair. Talvez para o ferro-velho. Talvez um dia. Talvez. Vendido à peça. Desmembrado. Como a vítima de um assassino. Peça-a-peça. Membro-a-membro.
O autocarro tinha a porta aberta mas um homem flanqueava a entrada. O homem, de barrete de lã roto na cabeça, barba comprida e desgrenhada, camisola grande, grande demais para ele já de si enorme, todo ele a ocupar a passagem da porta aberta em fole, calças mijadas à frente das misérias e chinelos enfiados nos pés, de unhas sujas, olhava-me. Com desdém. Quem és tu?, percebia eu.
Eu estava com a câmara apontada ao autocarro. À entrada. Ao homem. Eu a querer apertar o botão sensível ao toque para registar aquele momento do homem na sua propriedade. Eu senti aquele olhar que me entrou pela objectiva dentro e vi-o de fato e casaco atrás de uma grande janela. Uma janela tão grande que era maior que ele. Uma janela sobre os telhados da cidade. Perto das nuvens. E vi quando o homem despiu o casaco e as calças de alfaiate fino. Quando descalçou os sapatos de corte italiano. Largou o relógio analógico. Os óculos de sol. As chaves do carro. E da casa. Tudo no chão da sua sala sobre a cidade, e saltou, nu, sobre ela.
Eu vi tudo o que vi naquele olhar que o homem me lançou através da objectiva com que eu o olhava. O meu dedo não pressionou o botão. Baixei a câmara. O homem continuou à entrada do autocarro que já fizera carreiras. E agora estava ali. E o homem puxou de um cigarro e acendeu-o. E ficou ali parado a fumar. Coçou os testículos por cima das calças mijadas. E eu arrumei a câmara e fui-me embora. E enquanto ia, virei a cabeça duas ou três vezes para trás. E o homem continuava lá. À entrada do autocarro. A fumar. À entrada de um autocarro que já não fazia carreiras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/08]

Nervoso num Autocarro

Estou nervoso.
Há gente que quando está nervosa disfarça. Não diz nada a ninguém. Foge à condição. Não gosta que se saiba. Talvez para não se sentir diminuída. Talvez porque ninguém tem nada a ver com isso.
Há gente que quando está nervosa, anuncia por todo o lado. Não consegue fingir. Os nervos são bem evidentes. A perna não pára de abanar. O pé está sempre a bater no chão. As mãos transpiram. Há um dedo que está sempre a subir à cara. Há sempre uma angústia latente.
Eu sou destes últimos. Quando estou nervoso digo logo. E digo a toda a gente. Acho que para me exorcizar. Talvez para diminuir os nervos. Talvez para desculpar alguma asneira provocado pelo nervosismo.
Estou num autocarro. Estou a caminho da cidade grande.
O autocarro está cheio. Há gente mascarada. Há gente adulta mascarada. Com saias de tule. Caras muito pintadas. O cabelo armado. Estou no meio da loucura.
Há um palhaço sentado duas filas mais à frente que está sempre a voltar-se para trás. Para mim. Para olhar para mim. Se calhar conhece-me. Eu não consigo perceber quem é. Não assim, mascarado.
Sinto algum medo de palhaços. Talvez algum trauma de infância. Talvez algum espectáculo de circo não percebido. Talvez alguns desenhos-animados perversos.
O autocarro cheira mal. É o cheiro de muita transpiração junta. Mais os perfumes. Os bons e os maus. Nesta altura já é só tudo mau. Mau cheiro. Alguma flatulência, com certeza. E isto deixa-me mal-disposto. Nervoso.
O autocarro não tem Wi-Fi. Não consigo ver as últimas notícias.
Agora entro numa estação. Uma pausa de dez minutos. Para o motorista fazer chichi. Fumar um cigarro. Também fumava um cigarro. Mas estou demasiado nervoso para fumar.
Há gente a sair. Há gente a entrar. Mais mascarados. Há uma mulher-barbuda. Não sei se é a sério ou de Carnaval.
Lá fora um homem mostra castanhas assadas. Pergunta se quero. Eu finjo que não o vejo. Olho em frente. Para a cabeça do tipo que está sentado à minha frente e não se levantou nesta pausa.
Chega uma mulher que fala alto. Fala alto e não se cala. Conta a sua vida. A sua vida hoje. Andou a sambar. Mas é portuguesa. E não se cala.
Não há Wi-Fi no autocarro.
Não era suposto haver Wi-Fi na Rede Expressos?
Estamos de regresso aos anos ‘80 do século passado. Mas sem poder fumar em sítios fechados.
Tudo isto me deixa ainda mais nervoso.
A mulher não se cala. Agora fala ao telemóvel com alguém. Estás no Pingo Doce? Eu chego daqui a uma hora. Leva comida para o cão, coitado.
Eu fecho os olhos. Tento abstrair-me. Tento dormir. Tento esquecer a voz da mulher. Mas não consigo.
O cão foi deixado no Pingo Doce. Abandonado. A mulher disse ao segurança Pode agarrar-me o cão enquanto vou comprar umas coisas? E nunca mais voltou. Um cão muito giro. Com franja. Bom para os penteados.
Porra. Cala-te, mulher, penso.
Começo a ficar mal-disposto.
Não há Wi-Fi no autocarro. Não consigo dormir no autocarro. Não consigo descansar no autocarro. Malditos mascarados. Malditos cães. Maldita mulher que não te calas. Pum!
Estou nervoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/03]

A Sandes de Leitão

É meio-dia e meia. Levanto-me da cadeira, contorno a secretária e saio da sala. Não digo nada a ninguém. É meio-dia e meia. Levanto-me e saio.
Desço no elevador. Saio a porta do edifício. Viro à direita. Ando cento e vinte e cinco metros. Entro no snack-bar. É Terça-feira. Dia de sandes de Leitão. Peço uma.
Saio do snack-bar. Cruzo a estrada em frente e sento-me no banco da rua.
Começo a comer a sandes de Leitão.
À minha frente passam os carros. Furiosos. Em aceleração constante. Têm pressa. Eu não.
Continuo a comer a sandes de Leitão. Devia ter trazido uma cerveja.
Atrás de mim o jardim. O que resta do jardim. Cortaram as árvores quase todas. Estavam doentes, parece. Estão sempre doentes. Estão sempre uma coisa qualquer que leva a que sejam cortadas. Vai lá nascer um condomínio. Sim. Um condomínio em vez das árvores. Do jardim. Das flores. De oxigénio. Casas. Um condomínio. O jardim não dá dinheiro.
O molho do Leitão cai do pão. Cai nas minhas calças. Suja-me as calças. Devia ter trazido mais guardanapos. E umas batatas fritas.
A cidade está barulhenta. Tenho dificuldade em me ouvir. Trânsito em correria desenfreada. Já não há árvores. Nem quase pessoas. Só turistas. Só carros. Só pressa.
Uns miúdos passam à minha frente. Vão entre o passeio e a estrada. Os carros apitam. Mas não abrandam. Pressa. Não têm tempo. Os miúdos têm tempo. Todo o tempo do mundo. Até deixarem de ter. Todos deixam de ter. Todos têm vinte anos. Todos deixam de ter vinte anos. Um deles levanta o dedo do meio aos carros que passam. Ri-se. Riem-se.
Acabo a sandes de Leitão. Procuro um lenço de papel. Limpo a boca. As mãos. Junto os papéis todos. Faço uma bola. Lanço para o caixote do lixo. Acerto. Levanto os braços em glória. Depois percebo onde estou. Baixo os braços. Olho à minha volta. Estou um pouco envergonhado.
Fecho os olhos. Deixo-me embalar pelo som dos carros a passar. Não chego a adormecer. Não quero adormecer. Estou só a respirar. A ganhar coragem.
À minha volta só ouço o som dos carros a galgar asfalto. Não há mais sons. O cheiro é de gasolina. Gasóleo. Não me chega mais nada. Não percebo mais nada.
Acabo por ouvir uma gargalhada. Franca. Sincera. Bem disposta. Abro os olhos. Vejo duas miúdas de mãos dadas. Uma delas transporta um sorriso enorme na cara. A outra está a falar. A dizer-lhe qualquer coisa. Não ouço. Levanto o braço. Olho o relógio no pulso. Vejo as horas. Uma e vinte cinco. Hora de partir.
Olho para cima. O céu azul. O sol quente. Voltámos à Primavera em pleno Inverno. Isto anda tudo trocado.
Olho para a esquerda. Respiro fundo. Sinto-me tremer um pouco e não é de frio.
Volto a olhar para a esquerda. Vejo, ao fundo, um autocarro de passageiros a aproximar-se. Respiro fundo.
Levanto-me. Aproximo-me da beira da estrada. Espero.
Vejo novamente as horas. Uma e trinta.
Soube-me bem a sandes de Leitão.
O autocarro está mesmo a aproximar-se. Eu ponho o pé direito na estrada. E vou todo atrás dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/19]

A Avenida

Vista daqui, esta zona da cidade continua igual. Há cinquenta anos que as formas são as mesmas. Mudam alguns conteúdos, poucas formas, e, no fim, está tudo praticamente na mesma.
Estou aqui na Avenida da cidade. A Avenida. Toda a gente sabe qual é. Mesmo que, na realidade, seja a única que não é. Já foi importante. Já mandou na cidade. Hoje definha. Os homens matam a cidade por ausência e desinteresse. E acumulação de erros que teimam em continuar a cometer.
Já houve por aqui vários cafés. Bastantes até. Muito frequentados. Com charme. Uns modernos, à época. Outros clássicos. Desapareceram todos. Vieram as agências bancárias. Ocuparam tudo. Agora foram-se embora. As agências. Acabaram com o pouco que restava depois de já terem morto a Avenida.
Às vezes penso que esta gente não merece a cidade que tem. Teve.
Lembro-me de vir para aqui, para esta mesma varanda, aqui neste terceiro andar, e sentir que estava no tecto do mundo. As pessoas pareciam-me formigas a correr lá em baixo. Às vezes deixava cair balões com água sobre a cabeça das pessoas. Às vezes cuspia. Empoleirava-me no muro da varanda e deixava cair uma bola de cuspo, para ver o tempo que demorava a cair cá de cima até lá baixo, e se acertava em alguém. Na cabeça de alguém. Às vezes fazia concursos com os meus amigos, habitantes de outras portas, também habitantes da Avenida. Bateram à porta muitas vezes. Pelos balões. Pelos balões de água. Pelas cuspidelas. Pelas pedrinhas de brita mandadas cá de cima. Pelos papelinhos dobrados, lançados em fundas de elástico presos aos dedos. Uma vez veio cá a polícia. Tinha andado a rasgar cartazes políticos na rua. Foi depois do 25 de Abril de 1974. Andava tudo louco com as eleições. Comícios na Praça, aqui ao lado. A sede do Partido Comunista atacada ali em frente. A enorme fila à volta do cinema para ver Chove em Santiago de Helvio Soto. Os tiros. As manifestações. As bandeiras. As tarjas. Eu andava aí pela rua, eu e os meus amigos aqui das portas vizinhas, a brincar. A cabriolar. Fazíamos muita merda. Na rua. A maior parte dela não chegava a casa. Aos ouvidos dos nossos pais. Roubávamos flores no jardim, que também definha hoje, para darmos às nossas mães. As mães que vinham gritar à janela por nós. Em diminutivo, estava tudo bem. O nome composto estava tudo mal. E lá voltávamos a casa. Para almoçar. Ou jantar. Ou para fazer os trabalhos de casa. Jogávamos à bola nos passeios. No largo. Partíamos montras. Rasgávamos cartazes dos partidos, porque sim. As pontas estavam soltas, a esvoaçar ao vento e, bastava um puxão. Um pequeno puxão. Vinha tudo atrás. Até o cimento das paredes. E a polícia veio cá a casa. O meu pai prometeu um sermão. Mas nunca chegou.
Estou aqui agora, a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro. A vista não é maravilhosa. Nem desafogada. Esbate com o prédio mal tratado ali de frente. E depois? Continuo a ouvir a voz grave saída dos altifalantes fanhosos da Rodoviária. Uma companhia de anos. Saía, não saía. A Rodoviária. Passam os anos e continua aqui. Tomar uma decisão é difícil. Se sai daqui, é mais uma facada nesta artéria que já perdeu toda a importância para o Shopping feito nas margens da cidade (nem perto nem longe, ali, onde ajuda mais à morte urbana). Se fica, é mais um cancro a apodrecer a cidade. Já apanharam algum autocarro para onde quer que fosse? Para Fátima, por exemplo? Já tiveram de frequentar as casa-de-banho? Pois…
Cinquenta anos a frequentar esta varanda. Os mesmos pombos. As mesmas camionetas. Os mesmos bandos de adolescentes que desaguam para as escolas da cidade, de manga curta em pleno Fevereiro. Que raiva já não ser assim. Já não ser adolescente. Já não ter o sangue quente. Já não ter essa tesão furiosa que afasta o frio e o mau tempo.
Agora bebo vinho. Comecei com a mama da minha mãe que me dava de mamar aqui à janela. Um pouco recuada da varanda por pudor. Passei às canecas de leite. Às garrafas de leite achocolatado. Aos sumos da Superfresco. À RC Cola. Às garrafas de cerveja. Ao vodka. Ao whiskey. Muita bebedeira curada aqui à janela. De Verão. De Inverno. A apanhar o fresco da noite. Da madrugada. Das manhãs soalheiras. Acordar, vomitado, com o som roufenho a avisar que a carreira para o Janardo estava na linha seis e ia partir. E eu rebolava na varanda, sobre o vomitado que teria de lavar.
Olho agora daqui e a única coisa que se mantém é o Teatro. Que já foi cinema. O cinema fugiu-lhe. O teatro é quando calha. Agora são os espectáculos de variedades como eram há cem anos.
Às vezes sinto-me aqui sozinho na Avenida. Não há ninguém. Está vazia. Em silêncio. Gosto quando está em silêncio. Mas entristecem-me as ausências. O deserto de gente. A falta de cidade. Uma artéria estrangulada nas más decisões políticas, ano-após-ano.
Ao longo dos anos pensei várias vezes em lançar-me da varanda. Quando novo, desistia por cobardia. Não me sentia com coragem para um tão grande acto de desespero. Quando cresci, porque percebia que, afinal, a altura não era assim tanta e que a probabilidade de ficar aleijado era bastante grande. Agora porque já não consigo passar as pernas para o outro lado da varanda.
Deixo-me ficar aqui sentado. Um copo de vinho tinto numa mão. Um cigarro na outra. Fico a olhar a pouca vida que ainda corre lá em baixo. E volto para dentro quando arrefece. Sento-me frente à televisão e vejo o programa do Hernâni Carvalho. E já não sei qual de nós está mais doente.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/06]

O Pacote de Bechamel

Foi quando cheguei a casa que reparei que o pacote de bechamel estava rasgado. Deitei a mão ao saco de plástico. Uma garrafa de vinho. Brócolos. Cogumelos. Umas cenouras. O pacote de bechamel. Fiquei com a mão peganhenta. O pacote estava a deitar fora. Mirei-o. Um corte longitudinal. Talvez feito com um x-acto. Talvez feito ao abrir as embalagens de plástico onde vêm os pacotes. Aproximei-o para ver melhor. Cheirava mal. Cheirava mesmo muito mal. Cheirava a podre. Devia estar aberto há muito tempo. Sim, ainda estava dentro do prazo, mas lá de dentro saía um fedor a podridão.
Tinha de voltar ao Intermarché. E estava a chover.
Olhei à minha volta. As mãos na ancas. Podia esquecer. Mandar o pacote para o lixo. Aquilo custa o quê? Quanto? O problema é que assim teria de comer os legumes só cozidos. Com o resto do frango assado da véspera. Uma coisa desenxabida, portanto.
Agarrei no pacote. Pu-lo dentro do saco de plástico. Vesti o casaco. Agarrei no chapéu-de-chuva. Ia a sair de casa e lembrei-me. O talão! Abri o saco de plástico. Aproximei-o da cara. Veio-me o cheiro a podre do bechamel. E não vi lá nenhum papel. Procurei nos bolsos das calças. Nos bolsos do casaco. Em cima da mesa da cozinha. No chão. No frigorífico. No caixote do lixo. Nada! Deve ter ficado no supermercado.
Saí de casa.
Encharquei os pés mal os pus na rua. Caí numa poça de água. As botas estavam velhas. Não eram para a chuva. Não eram Gortex.
Pus-me a caminho. Consegui ir evitando os carros e a água que lançavam sobre os peões ao passar nos buracos da estrada.
Passei por um Pingo Doce. Por um Minipreço. Por um Aldi.
A chuva caía agora com mais violência. E vinha tocada a vento. Tinha-se levantado um pequeno vendaval. O chapéu já se tinha virado algumas vezes. O cabelo estava molhado. Os óculos cheios de pingos de água e embaciados. Não via nada. Ia assim por tentativa. A seguir a mancha escura da calçada à portuguesa.
Cheguei ao Intermarché. Fui ao balcão das reclamações. O pacote cortado. O cheiro. Não tinha o talão. Foi há pouco tempo. Naquela caixa ali, e apontei. Tudo tranquilo. Podia ir buscar outro pacote. Nem precisava de passar nas caixas. Era passar por ali. E lá fui. Fui buscar um pacote de bechamel. Procurei onde tinha encontrado o outro. E à volta. Nos lineares adjacentes. Nos corredores ao lado. Perguntei a uma menina com o fato da casa. Desculpe, mas já não há. Esgotou! Esgotou? Esgotou! Porra!
Deixei lá o pacote rasgado e com cheiro a podre. Nem quis trazer um vale com o valor do pacote de bechamel.
Sai para a rua.
Chapéu-de-chuva aberto. Pés encharcados. Cabelo molhado. Óculos embaciados. Frio. Fiz o caminho de regresso no automático. Não pensava em nada. Já não me preocupava com os carros e as poças de água nas bermas. Estava melancólico. Triste. Com vontade de me mandar para a frente de um autocarro.
Passei pelo Aldi. Pelo Minipreço. Entrei no Pingo Doce já perto de casa. Comprei um pacote de bechamel. Estava intacto.
Cheguei a casa. Cozi os legumes que já tinha comprado. Desfiei o resto de frango assado.
Coloquei os legumes cozidos numa travessa de pirex. Espalhei o frango desfiado. Larguei umas gotas de piri-piri. Cobri tudo com o bechamel. Levei ao forno. E enquanto gratinava, fui tomar um duche quente que estava todo molhado e cheio de frio. Mas antes ainda abri a garrafa de vinho, um Monte dos Pegos (o vinho barato não é nada mau) e bebi um copo de um só trago. Para aquecer o coração. E ainda fiz, Ah!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/30]