Um Tempo que Me Falha

Os dias passam vorazes por mim. Perco-me no tempo. Mal acordo e me levanto, já é noite, hora de jantar e ir para a cama. Não sei para onde vão os dias, as horas, os minutos. Não sei como fazer o que tenho para fazer no pouco tempo que os dias têm.
Penso que há menos tempo no tempo dos dias de hoje do que havia nos dias de ontem. Não é só uma sensação. É factual. As coisas que eu conseguia fazer ao longo do dia eram muito mais do que consigo fazer hoje. Os dias de antigamente eram enormes faixas de tempo onde cabiam inúmeros mundos. Hoje, essa faixa de tempo é uma ausência. Espirro e termina. Esvai-se num estalar de dedos.
Lembro-me dos dias de Verão da minha infância. As férias grandes, grandes porque eram de facto grandes, enormes. Quando chegávamos a Setembro tínhamos saudades da escola, dos amigos da escola, do cheiro dos livros novos, das folhas imaculadas dos cadernos novos, as novas canetas e as várias versões coloridas, azul, preto, vermelho e verde, eram Bic laranja e cristal. Naqueles Verões havia tempo para viver muitas vidas. Eu vivi muitas vidas. Muitas vidas num só dia. Acordava de manhã. Pequeno-almoço de uma fatia de pão saloio torrado e um copo de leite com Ovomaltine enquanto lia uma banda-desenhada da colecção Falcão ou alguma revista de cowboys da colecção Histórias do Faroeste ou do Buffalo Bill. Vestia-me e ia para a rua. Encontrava outros como eu. Íamos para o pinhal procurar os nossos Rochedos do Demónio em terra firme. Ou para um prédio em construção dar saltos do primeiro andar, ou do segundo, para o monte de areia que às vezes era rija e mais parecia rocha. Subíamos às nespereiras e às figueiras, as árvores mais imponentes da rua, para navegar em alto mar e encher o bandulho de fruta fresca nascida espontânea e sem químicos. Às vezes ia mesmo verde. Às vezes entrávamos dentro dos mares de silvas para apanhar as amoras. Eram pretas. Eram vermelhas. Eram agridoces e muito boas. Regressava a casa para almoçar. Era obrigatório dormir a sesta. E era o que fazíamos. Dormíamos a sesta. Eu deitava-me em cima da cama a ler uma banda-desenhada e deixava-me adormecer. Transpirava porque fazia sempre muito calor. Acordava e lanchava. Não podia sair de casa sem lanchar. E depois ia jogar à bola num dos pátios da rua. Ou um jogo de tabuleiro, normalmente o Monopólio, na garagem de algum de nós, ou íamos brincar para o pequeno riacho que lá passava perto, que não dava para mergulhar nem nadar mas dava para andar na brincadeira, molharmo-nos todos e chegarmos a casa e levarmos uma palmada ou um puxão de orelhas. A infância daquele tempo vinha com alguns castigos físicos, mas que compensavam a maluquice daqueles dias que nunca mais acabavam. E não! Não acabavam. Eram enormes. E ainda havia tempo para fazer asneiras como ir roubar na mercearia da rua ou entrar em casa de alguém que deixara a porta no trinco para roubar pacotes de batatas fritas Dora-Dora ou pacote de bolacha Maria torrada que barrávamos às mãos-cheias de manteiga Primor.
Agora sento-me em frente ao computador, depois de me levantar de manhã e beber uma caneca de café, e quando dou por mim tenho a página do Word em branco, não fiz nada, e a noite já cai lá fora.
Que porra de tempo este que me falha cada vez mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/16]

Desespero

Isto já se deu há muito tempo. Há mais de trinta anos. O pai de uma amigo, um amigo próximo, matou-se. Enfiou os canos de uma caçadeira na boca e disparou. Dizem, quem viu ou, pelo menos, quem ouviu dizer, que rebentou com a cabeça.
Na altura lembro-me de pensar Como é que um tipo se suicida com uma caçadeira? É que não deve ser fácil. Fisicamente, não é? Agarrar na arma. Naquela arma específica. Numa arma grande. Grande e comprida. E disparar o gatilho. Como é que se chega ao gatilho?
Lembro-me de ter recebido a notícia com alguma frieza. Talvez, desdém. Lembro-me de ficar condoído pelo meu amigo. Lembro-me de estar lá para ele. Não muito, na verdade. Acho que foi mais as palavras da praxe. Estou aqui, Se precisares de alguma coisa, Ânimo, esse tipo de frases feitas compradas numa coleccionável da D. Quixote para oferecer em alturas de Natal e Páscoa a pensar nos infortúnios anuais.
Os anos foram passando e passaram por entre mim e esse meu amigo e levou-nos para vidas diferentes e, provavelmente, longínquas. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Pode até já ter morrido, não sei. Sei que nada sei dele.
No entanto, de tempos a tempos recordo a morte do pai dele. Recordo a morte do pai, não pela morte do pai em si, mas pela minha indiferença à morte dele. Não sei se pelo suicídio, se pelo facto de ir embora e deixar cá o filho (mais uma filha e a mulher), se por outra razão qualquer que ainda não me tenha ocorrido. Mas ao longo dos anos tenho, quando me lembro desta história, ficado cada vez mais zangado comigo.
Desta vez chorei. Finamente chorei pelo meu amigo e, mais importante, pela morte do pai do meu amigo. Acho que este choro me libertou de alguma angústia aprisionada cá dentro por mais de trinta anos. Pelo menos foi o que me pareceu.
Finalmente percebi o desespero e a coragem que ele deve ter tido para fazer o que fez. Não é algo que se faça de ânimo leve. Não é algo que se decida fazer porque sim. Não é, como alguns querem fazer crer, uma saída fácil. E é preciso haver um enquadramento. Uma razão. Um motivo. E é preciso muita coragem. Uma coragem extrema.
Não vou falar sobre os motivos. Não os conheço. Nunca virei a conhecê-los, provavelmente. Quem se lembra da morte de alguém ao fim de tantos anos? Neste caso, talvez os órfãos e a viúva, se ainda forem vivos, e eu.
Hoje percebo que os motivos devem ter sido muito fortes. Só o peso de um drama sem saída empurra alguém para aquele desfecho. Alguém decidir deixar cá, sós, os filhos, a família, é porque o caminho das respostas está vedado – e está-o tantas vezes! bem mais do que nós sabemos, ou julgamos saber. Sim porque nós julgamos saber sempre da vida alheia e até temos a mania que sabemos as respostas e temos as soluções, como se elas viessem em saquetas de brinde nas caixas do Juá.
Mas posso falar sobre a coragem. Aquela coragem que muitos acham que é corbardia, medo, que é fuga. A coragem de decidir pôr um fim a tudo. E conseguir dar todos os passos. É que cada passo pesa toneladas. Cada passo tem o peso de uma vida. De várias vidas. Cada passo é uma ida sem regresso. Cada passo é mais um acelerador das batidas do coração. Cada passo é uma batalha entre todas as dúvidas e certezas que uma pessoa tem. E então imagino aquele homem, homem ainda novo, mais novo do que eu sou hoje, com filhos pequenos, a pegar numa arma, a carregar essa arma, a apontar essa arma a si próprio, lutar contra todas as conversas que lhe hão-de estar a consumir a cabeça, a dizer para o fazer, a dizer para não o fazer, manter a força da mão, do braço, do braço que suporta essa arma, pensar em tudo o que vai perder, pensar que tudo vai acabar, pensar que já não vai mais haver aniversários, nem Natal, nem cabrito assado, nem jogos do Benfica, nem netos, nem beijos, nem amor, nada, nada, nada, não vai haver mesmo mais nada e ainda assim ter força suficiente para mexer o dedo que está sobre o gatilho e disparar e, naquela fracção de fracção, naqueles nano-segundos entre o disparar o gatilho e o cartucho, a bala, sair disparado, disparada, pelo cano até atingir o alvo, pensar num possível arrependimento e saber que já é tarde, tarde demais, e depois já não é mais nada, nem o vazio, é apenas só uma ausência, o mundo acaba, desfaz-se, desaparece, e só continua para quem fica por cá, às vezes em que condições.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/04]

Escondido, parte 08 e final

[continuação de ontem]

Agarrei na pistola que ela me deu. E perguntei-lhe O que é que vou fazer com isto? E ela olhou nos meus olhos, vi que ainda tinha os olhos inchados e vermelhos de chorar, pousou a mão sobre a minha perna, talvez para me tranquilizar, embora aquele toque me tivesse feito recuar alguns anos, até ao tempo em que ela punha as mãos sobre as minhas pernas nuas e me dizia Vem! e eu ia, obediente, e íamos os dois e o tempo passava e nenhum de nós dava pelo tempo a passar e quando dêmos por ele já não estávamos um com o outro, as coisas tinham morrido assim, quase de morte natural, pelo menos foi assim que eu percebi, foi assim que nós percebemos, ou talvez não tenha sido assim, talvez isto tenha sido uma narrativa que criei para fugir a qualquer história que me pudesse magoar, sei lá! não sei! e talvez seja por isso que agora estou sempre a regressar lá atrás, onde lá atrás éramos os dois, os dois juntos, eu e ela, um conjunto feito de um par que durante algum tempo parecia ter sido feito um para o outro, pelo menos sexualmente, não era? sexualmente éramos o prolongamento um do outro, não era? e nunca mais me prolonguei assim com mais ninguém, mas tenho procurado esse prolongamento ao longo de toda a minha vida, procurado exaustivamente, por vezes até demais, embora nunca seja demais, pois não? até terminar aqui assim, sozinho, sozinho como estou hoje, a desfazer um só lado da minha cama grande, a usar um único individual nas refeições caseiras, uma única escova de dentes no lavatório da casa-de-banho, e penso isso enquanto olho para os olhos inchados e vermelhos dela, os olhos de quem tem estado a chorar pelo marido, com prognóstico reservado numa unidade de cuidados intensivos depois de ter sido estupidamente agredido com tacos de baseball por um grupo de gente selvagem, carregada de ódio e disposta a destruir toda a humanidade que ainda mantínhamos entre nós, apesar de tudo o que têm sido estes últimos anos, quando ela disse As coisas vão ficar perigosas.
Sim, as coisas iam ficar perigosas. Percebemos que o país estava a ficar refém de um grupo de gente motivada a ódio, ódio nas redes sociais, ódio de género, ódio de idade, ódio de raça, ódio de sexo, ódio de educação, havia quem não quisesse mais nada desta vida que controlar a vida dos outros e espalhar ódio, e esse ódio estava a alastrar-se como as metástases que se espalham pelo corpo e o contamina e o condena à morte e eu voltei a dar comigo a regressar no tempo outra vez, como se todos estes anos de separação entre a nossa ausência e o nosso reencontro fosse somente um hiato de tempo para nos preparar para o que aí vinha, As coisas vão ficar perigosas, disse ela e eu percebi, percebi que tínhamos de ir à guerra, à guerra contra o mundo e ao lado dela ia para todo o lado, contra quem quer que fosse, o que me deixou preocupado a pensar se estava ali a tomar aquelas decisões porque achava que eram as ideias certas, uma luta por valores, ou porque queria só estar com ela, consolá-la por o marido estar nos Cuidados Intensivos? e esperar por algo mais?
Não. Tínhamos tomado uma decisão. Tínhamos os dois tomado uma decisão e a minha decisão não fora tomada de ânimo leve nem a pensar com a cabeça da pila. As coisas vão ficar perigosas e agora tínhamos de nos preparar para elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/25]

Estou Cansado

Chego ao cima da montanha. Estou ofegante. Há muito tempo que não fazia uma caminhada destas. Dobro-me e suporto-me com as mãos nos joelhos. Fico de cócoras. Tento recuperar a respiração.
Primeiro descubro o silêncio. Faz-me confusão nos ouvidos esta ausência de barulho. Depois percebo a pieira da minha respiração cansada. Uma respiração forçada. O tempo não foi complacente com a minha bronquite. Os médicos diziam aos meus pais que ela desapareceria com a idade. Não desapareceu. A idade foi passando e a bronquite continua por cá.
Levanto o corpo. Já me sinto melhor. Com a respiração mais normalizada. Viro-me para trás e tento ver a minha casa na lonjura do vale. Mas não consigo. A minha vista está cansada. Tão cansada quanto eu. Tudo o que vejo é uma enorme massa desfocada. Percebo uma estrada. Uma fábrica. Uns postes de alta-tensão. Uns tufos de verde. Imagino o mar lá ao longe. Não mais que isso.
Agora já me chegam sons. Sons distantes. Sons que voam lá de baixo cá para cima. Ouço um cão a ladrar. Ainda tento perceber se é o ladrar do cão lá de casa. Mas não consigo perceber. Ouço uma motorizada. Há sempre uma motorizada a esgalhar o motor até à exaustão e que se propaga através do espaço. Não vejo a motorizada na estrada, mas ouço-a. Começo a pensar que o som é mais importante que a imagem. Que quando ficar cegueta, ainda me restará a capacidade de ouvir. Talvez descubra no sentido para captar o som, uma espécie de radar. Como o que tem o Demolidor.
Acendo um cigarro e fico ali em cima, de pé, a olhar o vale aos meus pés, com a respiração normalizada, a fumar e a pensar no que é que vou fazer. Não me apetece fazer nada. Agora gostava de estar sentado no alpendre a ler o Serotonina do Houellebecq antes que o mundo acabe.
Depois percebo que tenho de fazer o caminho todo de regresso. A pé. E pergunto-me porque é que não pensei nisso antes. Antes de vir. Antes de vir a pé. Não tarda é noite. Ainda vou estar a descer a montanha quando começar a escurecer.
Sento-me numa rocha. Continuo a fumar o cigarro. E penso que tudo se irá resolver. Tudo se resolve. É preciso é não entrar em pânico.
Deito fora o cigarro e acendo outro. Acho que estou nervoso. Penso que devia ter trazido uma garrafa de vinho tinto. Alentejano, de preferência. Mas olho para o interior da mochila e vejo que só tenho uma garrafa de meio-litro de água e que já está quase vazia. Vejo as horas no telemóvel e percebo que está a ficar sem bateria.
Sorrio, sentado na rocha, e digo alto para mim Estou fodido.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/12]

Quando Ela Morreu

Quando ela morreu, pensei segui-la. Cheguei a ter na mão uma lâmina de fazer a barba. Cheguei a encher a banheira. Cheguei a despir-me e a entrar dentro de água. Cheguei a estar deitado na banheira, relaxado pela água morna, a cabeça encostada a uma borda, os pés dentro de água, quentinhos, o braço direito estendido sobre a borda da banheira com a lâmina na mão, entre os dedos, a girar entre os dedos, e depois a lâmina fez um golpe num dos dedos e caiu para o chão da casa-de-banho.
Assustei-me.
Vi o sangue a começar a escorregar para dentro de água e a alastrar. Levei o dedo à boca e chupei-o. Senti o sangue a entrar-me na boca e a escorrer para dentro de mim.
Olhei a lâmina caída no chão da casa-de-banho com um fio de sangue.
Não estava preparado. Ainda não estava preparado. Não podia ir com ela. Não. Por mais que a ausência me doesse.
Estiquei-me na banheira e abri o ralo. Vi o volume de água a diminuir. Levantei-me. Saí da banheira com cuidado. Olhei para a lâmina no chão para não me cortar nos pés descalços. Cruzei as lajes frias da casa-de-banho até ao pequeno armário. Abri a porta e agarrei na caixa dos pensos-rápidos. Tirei um e colei-o no dedo que estava a sangrar. Depois fui à porta e agarrei na toalha de banho pendurada. Enxuguei-me.
Fui até à janela da casa-de-banho. Olhei para a rua. Ao fundo, um miúdo andava em cima de um muro. Andava de um lado para o outro. Como se estivesse indeciso. Salto, não salto? Para este lado ou para este? Depois o miúdo olhou na minha direcção. Percebi que estava nu à janela da casa-de-banho. Não sei se me via, mas eu estava nu. Suspirei.
Fui ao quarto. Vesti umas calças e uma camisola. Calcei umas sapatilhas. Saí de casa. Fui até ao canteiro onde estão as fisális. O cão passou por mim com um chinelo na boca e não me ligou nenhuma. Apanhei umas quantas fisális. As que me couberam na concha das mãos. Voltei para casa. Lavei as fisális. Abri o frigorífico. Olhei lá para dentro. Agarrei um saco com rúcula selvagem. Uma caixa com tomate-cereja. Um queijo Palhais, seco. Descasquei uma laranja. Cortei-a aos pedaços. Coloquei-a numa tigela. Misturei-lhe a rúcula e o tomate-cereja, as fisális e parti o queijo seco aos bocados. Fui à despensa. Olhei as prateleiras. Agarrei num frasco com cajus. Num frasquinho com sementes de sésamo. Num saco com passas. Pus um pouco de cada na tigela. Um fio de azeite. Uns pingos de vinagre. Uma pitada de sal. Misturei tudo. Abri uma Herdade dos Grous tinto. Enchi um copo. Agarrei num garfo. Fui até ao alpendre.
Sentei-me lá fora, no alpendre. Ao fundo, as montanhas continuavam lá. Não via o cão nem os gatos. O mundo estava silencioso. Dali, de onde estava, não via o miúdo em cima do muro.
Comi a salada. Comi a salada toda. Soube-me bem. Bebi o copo de vinho. Senti-me bem. No fim acendi um cigarro.
Estava a fumar o cigarro, sentado na cadeira, no alpendre, a olhar as montanhas que continuavam serenas lá ao fundo, quando pensei na lâmina da barba que estava caída no chão da casa-de-banho, com um pequeno fio de sangue a alongar-se pelas lajes.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/19]

Exame de Geografia

Acho que ainda não era Verão. Era uma Primavera quente, bastante quente. Saí da casa de calções e t-shirt e sapatilhas All Star pretas nos pés. Ia leve mas ia nervoso. Afinal, não era todos os dias que fazia exames. E, naquele dia, tinha o exame de Geografia do nono ano para fazer. Era de manhã, tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, umas torradas com manteiga e um copo de leite frio com uma colher de Nesquick. Ou talvez fosse de tarde, e eu tivesse acabado de almoçar rissóis de peixe com arroz de cenoura. Não estou seguro. De certeza é que era dia de exame de Geografia e eu saí de casa de calções, nervoso com o exame mas confiante no estudo feito e preparado para me sair bem.
O exame era no colégio perto de casa. O mesmo colégio onde estudava. Não era bem perto de casa, mas suficientemente próximo para ir a pé. Sozinho e a pé.
À entrada do colégio fui barrado por uma freira que me perguntou ao que ia. Ao exame, irmã. Ao exame de Geografia, respondi. Não assim, disse-me. Não assim, de calções. Isso não é maneira de vires para um exame.
Fiquei parado a olhar para ela. Ela ficou parada à minha frente. A barrar-me a entrada. Senti a cara a ficar vermelha. As mãos a fecharem-se em punhos. A garganta a apertar, a prender-me a respiração. Eu a querer falar, a querer perguntar o que fazer, mas a voz, estrangulada, a não sair. Estava a sentir os olhos a ficarem húmidos. Estava prestes a chorar. Até que a freira me disse Vai num instante a casa, vá! Despacha-te! Vai vestir umas calças.
E eu estive ali uns segundos como minutos-horas parado em frente à freira a processar o que ela tinha acabado de dizer e então percebi e voltei para trás a correr. E foi a correr que fiz o caminho inverso e regressei a casa onde os meus pais já não estavam, tinham ido trabalhar. Procurei a chave de casa debaixo do vaso à entrada e entrei. No quarto, vesti umas calças de ganga e senti o calor daquela Primavera quente, daquela manhã de calor, talvez fosse uma tarde de calor, já não sei.
Despachei-me. Saí de casa. Fechei a porta e deixei a chave debaixo do vaso.
Recomecei a correr de regresso ao colégio e, a meio, não era bem a meio do caminho porque já não me lembro onde era exactamente o meio do caminho mas, ao longo do caminho e da minha correria, cruzei-me com um cão, um cão a ladrar, abrandei o passo de corrida com medo, o cão virou-se para mim a ladrar, eu acabei por parar, com receio do cão, mas o cão não se mexeu, não estava a ladrar para mim, estava a ladrar para alguma coisa à frente dele, no meio do mato daquele terreno baldio, e olhava para mim para me avisar, para me chamar atenção e, depois de passar o medo inicial, avancei, cauteloso, pelo meio do mato, com o cão a aproximar-se de mim, mas não estava a aproximar-se de mim, estava a ir comigo de encontro ao que ele queria que eu visse, e eu vi, um ninho de pássaro com três passarinhos, um deles fora do ninho, tombado no chão, no meio do matagal.
Agarrei no passarinho que tinha caído para fora do ninho e coloquei-o lá dentro. E fiquei ali durante algum tempo a olhar os passarinhos no ninho a chilrear, se calhar com fome, se calhar com saudades da mãe, se calhar com frio, se calhar assustados com a queda que tinham dado e eu ainda olhei em volta, em volta para o céu à procura de uma possível mãe e não encontrei ninguém até que resolvi subir à árvore e colocar o ninho entre duas braças.
Desci e fiquei ali, com o cão, agora calado e de rabo a abanar, a olhar para o ninho. Depois sentei-me no lancil do passeio. O cão sentou-se ao meu lado. Estivemos à espera que regressasse a mãe dos passarinhos.
O cão não tinha trela. Eu ainda não fumava. Não passou mais ninguém por ali e, finalmente, um pássaro apareceu a voar e entrou pela árvore dentro e foi até ao ninho. Os passarinhos num alvoroço devem ter começado a contar a sua desgraça, uma desgraça que só não tinha sido maior porque O cão e o rapaz ajudaram-nos, mãe.
Satisfeito com o desenlace da história, levantei-me do lancil, o cão também se levantou, dei-lhe duas palmadas no lombo, à laia de despedida, coloquei as mão nos bolsos das calças e tomei o caminho de casa…
…quando, de repente, me lembrei que tinha um exame para fazer e tirei as mãos dos bolsos das calças, virei costas, recomecei a correr em direcção ao colégio, corria tanto que batia com os pés no rabo e, quando finalmente cheguei ao portão do colégio, a freira, a mesma freira, não me deixou entrar porque o exame estava a terminar. Eu deixara passar o tempo e o tempo fugiu-me e já não tive tempo para fazer o exame de Geografia.
E nessa manhã, que pode ter sido nessa tarde, ficou decidido que eu teria de repetir o nono ano. Por causa da minha ausência ao exame de Geografia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/10]

A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

O Futuro É um Nada

Um de Maio. Podia ser o início de uma história de amor. Mas era somente um relato de ausência. Era o Dia dos Trabalhadores. Mas já não havia trabalhadores. Estavam desempregados. Estavam doentes. Tinham falecido. Restavam os colaboradores. E esses já não eram trabalhadores. Já não eram operários. Esses eram colaboradores. Chefes de si próprios. Igual-igual. Donos de pequenas empresas com um só cliente. O antigo patrão tornado cliente. Igual-igual. O antigo operário era agora burguês. Gel no cabelo e havaianas ao fim-de-semana a passear no areal da Costa da Caparica. Antes isso que ler um livro, gritam-me.
Ainda ouvi alguns relatos, ao longo do dia, de gente em manifestação na Alameda, em Lisboa. A Alameda onde se festejava o Dia do Trabalhador quando o Dia do Trabalhador era festejado. Agora já não havia ninguém para festejar nada. Ou quase ninguém. Ainda houve alguns que foram à Alameda participar numa coreografia norte-coreana. Os poucos trabalhadores que existiam foram contaminar-se uns aos outros. Haveriam de morrer infectados nas semanas seguintes.
O bizarro de tudo isto viria ainda mais tarde, quando os patrões começaram, eles próprios, a perceber o erro que tinham cometido e a começarem a festejar, eles próprios, sim, o Dia do Trabalhador. Para lembrarem. Para se lembrarem quando começaram a perder os seus consumidores. A razão da sua existência. Sim, porque a razão da sua existência não era a produção. Era a venda. Sem consumidores, não havia vendas. Sem trabalhadores, sem gente com trabalho e salário, sem gente com um Rendimento Básico Incondicional, sem gente, afinal, com capital para consumir, sem dinheiro a circular entre a base da pirâmide e o seu topo, com tudo estagnado, não havia capitalismo. Sem base para suportar o topo, o topo iria começar a descair. No fim, iria tudo terminar como terminam todas as coisas: em nada.
Claro que ninguém iria sobreviver à história para a poder contar, nem haveria ninguém a quem contar, nem haveria alguém a quem pudesse interessar a história e muito menos poderia haver alguém que pudesse dizer Eu bem avisei!
Mas eu sei. Eu daqui já espreitei o futuro e vi como era. E era um vazio. Um nada. Caminhamos para o nada. Estamos tornados irrelevantes.
Sentado no meu alpendre, a beber um copo de Herdade dos Grous tinto e a fumar um cigarro, assisto ao caminhar imparável da irrelevância. E já não faço nada para parar a sua caminhada porque já não vale a pena. O futuro é o que fizemos dele.
A vossa única esperança é que nos ofereçam uma segunda oportunidade num outro mundo semelhante a este e rezar para que não o fodamos como fodemos este.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/01]

O Homem Insignificante

Se eu fosse escritor e escrevesse um romance, contaria a história de um homem banal. Um homem banal como eu. Um homem cuja ausência de uma história é já de si motivo de ser de uma história.
Seria então a história de um sujeito banal. Na casa dos quarenta, casado, pai de dois filhos, amante, casa nos subúrbios de uma cidade de média dimensão, um cão, um gato, festas sexuais com a vizinhança aos fins-de-semana, sócio do Benfica, votante ora no PS ora no PSD, quando vota, algumas das vezes não vota porque prefere a praia com a mulher ou a amante, um trabalho insignificante mas de onde consegue retirar um salário confortável ou pelo menos o suficiente para ter um carro de cinco portas, de preferência francês mas a ambicionar um alemão, um SUV para a mulher, quinze dias de férias em Julho no Algarve numa casa alugada no interior a ver o mar lá ao fundo e a desejar ir até Varadero, jogging ao fim do dia porque é mais barato que o ginásio e assinante da Netflix que acaba por nunca ver porque nunca tem tempo para nada que não seja o trabalho e a amante, mas os filhos agradecem.
Este homem teria um passado sem história. Aluno mediano, algumas namoradas mas nada muito sério, alguns amigos dos tempos de infância, tão insignificantes quanto ele, frequentara o ensino superior num curso sem grandes saídas profissionais e que o chutou para um trabalho indiferente, nunca foi muito de ler, nem jornais, só A Bola e quase só à Segunda-feira, quando jovem ainda jogara andebol, futebol na rua com os amigos e tardes de King nas férias e aos fins-de-semana na adolescência.
Sem passado e sem presente digno de nota, tudo apontaria para um futuro igualmente anódino.
Mas é aqui, a caminho do futuro, que este homem sem história ganharia uma. Num acaso do destino.
Este homem de repente descobriria que tinha uma voz. Uma voz que seria ouvida. Tudo começaria nuns posts zangados no Facebook. Uns posts a destilar fel que teriam repercussões. Algumas respostas. Aplausos. O homem descobrir-se-ia igual a muitos outros homens iguais a ele. Homens insignificantes. Muitos homens insignificantes, cansados de o serem e de serem tratados como tal. A sua voz começaria a ser reproduzida por todo o lado. Lançar-se-ia o apelo ao homem insignificante. Seria levado em ombros. A revolta da insignificância. E, todos juntos, começariam a berrar alto, cada vez mais alto, a fazerem-se ouvir, a fazerem-se ouvir cada vez mais, e os posts do homem começariam a ganhar contornos teóricos, desejos, ideias, ensaios. De repente seria toda uma teoria política.
O homem deixaria o anonimato. Seria convidado discursar sobre as suas ideias nas suas palavras simples e certeiras. Encontraria eco por todo o lado. Afinal, são muitos os homens insignificantes que se reveriam nele. Seria convidado a ir a eleições defender as suas ideias. E ganharia essas eleições. Todos os homens insignificantes juntos descobririam ser muitos homens. E todos eles juntos chegariam ao poder.
Então, o homem insignificante, sem nenhuma história digna de se contar num romance, chegaria ao poder e iniciaria, assim, aquela que seria a sua história. A história de um romance.
Essa história seria para contar num segundo romance. Isto se eu fosse escritor e escrevesse este primeiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/13]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]