É isto Dois Mil e Dezanove?

Acordo com dor de cabeça e a boca empastelada. Tenho algo colado à volta da boca. E sobre o queixo. No peito. Percebo que vomitei durante a noite. Estou todo vomitado. A cama também. Há vomitado pelos lençóis, pelo edredão, pelas almofadas. Pelo chão.
Coço a cara. A barba. As unhas arrancam qualquer coisa que não percebo bem o que é. Mas parece nojento. Massajo a pila. Tenho de urinar. Coço o pé. Mas não o sinto. Não sinto o meu pé a ser coçado. Assusto-me! Levanto-me! Levanto-me rápido demais e tenho uma vertigem. Dou um tempo. Para serenar. Olho para o pé na minha mão e descubro que não é o meu. Afasto o edredão e descubro um corpo nu deitado na cama. É de uma rapariga. Não a reconheço.
Levanto-me nu da cama. Bocejo. Coço os tomates. Tenho uma pequena erecção matinal. É tesão de mijo. Procuro os chinelos mas não os encontro. Vou descalço casa fora.
Entro na casa-de-banho. Começo a urinar e olho para a banheira. Está uma outra rapariga, nua, deitada na banheira. Acabo de urinar. Sacudo-me. Vejo os últimos pingos serem projectados pela parede da casa-de-banho. E sobre mim. Aproximo-me da banheira. Olho para a rapariga. Não se mexe. Não vejo o peito a subir e descer ao ritmo da respiração. Ponho dois dedos no pescoço. Não encontro batidas. Não encontro ritmo. Acho que não está a respirar. Mas posso ser eu. Posso estar ainda a dormir.
Vou ao lavatório. Abro a torneira. Lavo a cara. Agarro na toalha e limpo a cara. O peito. A pila. E mando a toalha para o chão.
Saio da casa-de-banho. Faço café. Bebo um copo de água da torneira. Vejo garrafas caídas no chão da cozinha. Deve ter havido festa cá em casa. Há uma garrafa de espumante quase cheia. Levo o gargalo à boca e bebo um gole. Cuspo logo de seguida. É doce. Muito doce. E está quente. Acendo um cigarro. Vou à varanda fumar o cigarro. A vizinha de frente também está a fumar um cigarro à janela. Aceno-lhe um Bom-dia, vizinha! com a cabeça. Ela ri. Percebo que estou nu. Que se lixe!
A cafeteira apita. O café está feito. Mando o cigarro para a rua e entro em casa. Sirvo-me de uma caneca. Duas colheres de açúcar. Vejo o vapor quente do café a voar. Sopro. Encosto os lábios a medo. Está muito quente. Eu começo a estar com frio.
Penso Tenho de ir vestir uma camisola. Umas calças.
Penso É isto dois mil e dezanove?
Penso Tenho uma rapariga nua na cama. E sorrio.
Lembro-me da rapariga na banheira. Procuro o telemóvel. Marco o 112.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/01]

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Os Cães

Descobri-me dentro do carro, sentado ao volante. E de onde tinha eu vindo?
Não me lembro de nada. Não me lembro de onde é que vim. Não me lembro do trajecto. De nenhum trajecto. Não visualizo nenhum caminho, nenhuma estrada. Nada. O vazio.
Dentro do carro, agarrado ao volante, olho para a frente e vejo os cães. Uma data de cães. Muitos cães. Estão a ladrar. Estão-me a ladrar. Arreganham os dentes. Arreganham-me os dentes. Rosnam.
Sentado dentro do carro, agarrado ao volante, sinto medo. As minhas mãos agarram o volante com força.
O rosnar dos cães entra-me dentro da cabeça. Estão dentro da minha cabeça. Dentro de mim.
Grito. Grito alto. Grito com medo.
Faço tanta força com as mãos que arranco o volante do carro. Assusto-me ainda mais. Como vou sair, agora, daqui?
Os cães aproximam-se ainda mais do carro. Estão a cercar-me. Estão a preparar-se para me atacarem. Não tenho saída. Estou acossado.
Estou perdido.
Se soubesse rezar, rezava.
Já nem ouço os meus pensamentos. Já nem ouço este raciocínio que estou aqui a descrever. Já não sei o que digo. Não me ouço. Sou já todo rosnados e latidos. Sinto a baba amarga a escorrer-me pelos cantos da boca. Sinto os dentes afiados, prontos para rasgar.
Sou cão. Sou já cão. Rosno.
Abro a porta do carro e junto-me a eles. Uivo. Uivamos. E vamos juntos para a cidade. Vamos. Vamos.
Vamos ao ataque.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/10]