Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Um Arrepio de Frio nas Costas

Senti um arrepio de frio como se alguém tivesse passado por mim. Senti um arrepio de frio e os pêlos dos braços eriçaram-se.
Olhei para trás. Virei-me e olhei para trás de mim. Tive aquela sensação de alguém ter passado por mim e estar parado, atrás de mim, a olhar-me na nuca, a olhar-me fixo na nuca. Levei a mão à nuca. Massajei-a. Virei-me e olhei para trás mas não vi ninguém. Não vi nada. Só a cozinha e a solidão da minha cozinha. O silêncio dos vidros duplos. A porta e a ligação ao corredor que leva ao resto da casa. Que leva à porta da rua. Que leva à rua.
Aproximei-me da porta da cozinha. Olhei para o fundo do corredor. Vi as portas abertas dos quartos, da sala, a porta encostada da casa-de-banho. Pus-me atento. À escuta. Não ouvia nada. Nem os barulhos dos apartamentos de cima e de baixo, dos apartamentos dos lados.
Fixei o olhar no fundo do corredor, na porta da rua. A chave estava na fechadura. Via-a à distância. A chave na porta. A porta fechada.
Tive a sensação, pelo canto do olho, de uma sombra a mover-se dentro da casa-de-banho de porta encostada mas com uma frincha que deixava ver a luz no interior. Senti o coração a acelerar. A bater forte. A bater tão forte que fiquei com medo que se ouvisse em casa, no corredor, na casa-de-banho.
Fui devagar. Fui em silêncio. Fui com uma mão a deslizar pela parede do corredor a manter o equilíbrio, o salto da mão sobre os quadros, e o regresso à parede, a deslizar.
À porta da casa-de-banho encostei o ouvido. Prestei atenção. Procurei um ruído, um barulho, qualquer som. Senti, de novo, um arrepio de frio pelas costas acima. Virei-me, em silêncio, de regresso ao corredor até ao fundo à cozinha. Mas nada. Não havia nada. Voltei a minha atenção para a casa-de-banho. Olhei-a pela frincha. Nem uma sombra. Nem um movimento de sombra. Nem um ruído. Nem o bater do meu coração. Com a mão direita, empurrei a porta para dentro, devagar, até a ter toda aberta e a casa-de-banho vazia à minha frente. Olhei para a janela. Estava fechada. O chuveiro pendurado acima da banheira estava seco, não pingava. Nenhuma das torneiras pingava. O depósito de água da sanita estava em silêncio. Os frascos de after shave na prateleira. Voltei a puxar a porta e deixei-a encostada.
Caminhei em frente. Parei à porta do primeiro quarto. O meu quarto. A cama por fazer. O edredão tombado no chão. Os lençóis enrolados neles próprios. O relógio-despertador a iluminar, a verde, as horas. Os livros na mesa-de-cabeceira. Nas mesas-de-cabeceira. Uma revista caída no chão, junto com o edredão e o que deviam ser umas cuecas. Minhas, obviamente. A janela também estava fechada. As cortinas corridas.
Segui em frente, até ao outro quarto. Só espreitei. Era um quarto vazio. Não havia nada para ver. Só o espaço. O ar. O vazio. O pó no chão. A janela fechada, também. Sem cortinas. De persianas meio corridas.
Virei-me para trás. Voltei para trás, no corredor. Parei à entrada da sala. Em silêncio. Vazia, também. As luzes dos led dos aparelhos electrónicos ligadas. Um copo vazio na mesa de apoio. Umas revistas em cima do sofá. Um cinzeiro, de pé, cheio de beatas. Tinha de o despejar. Mas não agora. Pilhas de livros no chão. Nenhum livro tombado.
Voltei a olhar para o fim do corredor. Para a entrada da cozinha. Regressei lá.
Olhei de novo a cozinha. Vazia.
De súbito, notei a janela meio aberta. A janela da cozinha. E pensei Estava fechada. Não estava? Mas não conseguia responder. Achava que estava fechada. Mas não tinha a certeza. Não conseguia ter a certeza. Se calhar estava aberta.
Aproximei-me da janela. Olhei para fora. Puxei a porta de vidro da janela e abri-a toda. Meti a cabeça de fora. Assustei-me. Estava um gato preto sentado no pequeno parapeito que contorna o prédio, mesmo ao lado da janela da cozinha. Meti a cabeça para dentro. Assustei-me. Senti o coração a bater muito depressa, de novo. Senti-me tremer. Suspirei fundo. Voltei a pôr a cabeça de fora da janela. Devagar. Com calma. Olhei para o gato que estava a lamber-se. Lambia as patas. Depois abriu as pernas e começou a lamber-se entre as pernas.
Eu já não sentia mais nenhum arrepio de frio. Deixei de ter aquela sensação de haver alguém a passar por mim.
Acendi um cigarro. Fiquei ali à janela a fumar, a olhar para o gato a limpar-se, e a pensar que, se calhar, estava na altura de arranjar companhia lá para casa. Um pouco de companhia. Um pouco de barulho. Um caminhar no soalho da casa para além do meu.
Acabei o cigarro e lancei-o para a rua.
Fui buscar um pires com leite e deixei-o à janela, a janela aberta e o pires de leite do lado de dentro da janela. O pires de leite em casa. Anda bichano, anda.
Anda gato. Anda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/21]

Tenho uma Pistola

Tenho uma pistola.
A minha pistola era a pistola do meu pai. Foi a minha herança, esta pistola. Estava dentro do pequeno cofre que o meu pai me deixou. Dentro do cofre estavam umas acções da Torralta, que já não devem valer nada, aliás, acho que já nem há Torralta. Algum dinheiro. Euros e dólares. Não muito. Alguma poupança que deve ter feito. Talvez algum negócio mais esconso. O meu pai também não era um grande simpatizante dos bancos. Evitava-os o mais que podia. Dizia que eram uns tipos que enriqueciam com o dinheiro dos outros sem terem criado coisa alguma. Também lá estava um fio em prata com uma cruz, coisa estranha, que o meu pai não era religioso, e a ser católico era como quase todos nós, eu também, católicos por defeito, não praticantes e, no fundo, a pensar bem na coisa, ateu, mas permissivo com a religião. O seu passaporte. A licença de porte de arma. O cartão de sócio do Benfica, com data dos anos 50. Duas alianças. Dois conjuntos de botões de punho. Um alfinete de gravata. E a pistola. A pistola e umas balas.
A pistola não é grande. É pouco maior que a palma da minha mão. Mas é pesada. Não é um peso que não se suporte. Não. É um peso que nos faz pensar que temos uma pistola na mão. O cabo da pistola é de madrepérola. Não sei qual o calibre. Não percebo nada de pistolas nem de balas. Não fui à tropa. A pistola não está carregada, acho, porque já tentei disparar e não disparou. Na verdade nunca vi o carregador da pistola. Mas já a segurei. Já a apontei a mim próprio, ao espelho, e o braço não fraquejou. E a mão manteve-se segura. Fiz pam com a voz e não me assustei.
Há quem tenha pistolas de colecção. Outros de protecção. Para disparar. Tenho amigos que têm espingardas de caça. Um deles, de caça grossa. Nunca fui à caça. Mas eles vão. E já comi animais que eles caçaram. Sou cúmplice, sim. Mas não sei disparar nada. Não, sei disparar a funda. E ainda tenho uma que fiz em miúdo. Às vezes ainda vou para a varanda de casa mandar umas fundadas com pequenos seixos de rio. Já parti algumas janelas. O pára-brisas de um carro. Vários vasos que fiz tombar na rua. Sempre que alguma destas cosias acontece, fico assustado. Penso que a polícia virá cá a casa. Escondo a funda. Vou para a varanda fumar um cigarro e tentar perceber se acontece alguma coisa. Depois o tempo passa, eu esqueço que fiz asneira e a vida retoma o seu ciclo normal.
De tempos a tempos lembro-me que tenho uma pistola. Uma pistola pequena, pouco maior que a palma da minha mão. Uma pistola com o cabo em madrepérola. Uma pistola que era do meu pai.
O meu pai tinha licença de porte de arma. Eu não. Não quero andar com nenhuma pistola nas mãos. A polícia nem sabe que tenho esta pistola. A pistola que está no pequeno cofre é uma lembrança. Há quem tenha outro tipo de lembranças. A minha é esta pistola. Mas não sei disparar. Nunca disparei.
Tenho pensado em fazer um workshop. Um workshop de tiro. Aprender a disparar. Aprender a disparar uma pistola. Primeiro, aprender a carregar a arma. A destravar a segurança. A disparar um tiro. Disparar uma bala. Não é que eu queira andar para aí aos tiros. Mas já que tenho uma pistola, pelo menos tenho de saber o que fazer com ela. Quanto mais não seja, para não o fazer.
Mas tenho uma pistola. Era a pistola do meu pai. Agora é minha.

[escrito directamente do facebook em 2020/01/18]

O Fim do Mundo e uma Lata de Coca-Cola

Já não sei há quantos dias venho a caminhar. Acho que já passaram algumas semanas. Talvez meses. Já perdi a noção do tempo. Os dias são iguais. Cinzentos. Com esta chuva de cinza, constante, que cai dia e noite. A minha respiração ressente-se. Às vezes falta-me o ar. Preciso de parar. Tenho de parar. Recuperar o fôlego, a respiração. Mas tenho de voltar logo a partir, tenho de continuar em frente. À procura. Tenho de encontrar o grupo.
Ainda não me cruzei com ninguém. Desde que saí lá de cima, da quinta, nunca mais me cruzei com ninguém. Não há pessoas por aqui. Nem cães. Os pássaros, tal como lá em cima, desapareceram todos. Talvez tenham morrido. Talvez tenham ido todos morrer para o mesmo sítio. Não se vê nenhum caído pelo chão. Talvez os comam. As pessoas que eu também não vejo. As pessoas com quem não me cruzo. Devem estar por aí escondidas, talvez. Não morreu toda a gente. Não. Não morreu toda a gente. Mas todos têm medo. E escondem-se.
Estou cansado. Desde há alguns dias que me sinto cansado. Já não é só a respiração pesada por causa desta fuligem que teima em cair dos céus. São as pernas que já se movimentam sozinhas, mantendo o ritmo da caminhada, mas já não as sinto. As botas estão a ficar rotas. Devia arranjar outras, mas não encontro nenhumas. Nem uma loja nem um morto calçado. E pelo caminho que estou a fazer, já foi quase tudo saqueado.
A comida está a acabar-se. Tenho uma garrafa de plástico de 33cl ainda com água. E ando a poupá-la. Não tenho arranjado comida nem bebida. Está tudo vazio. Seco. Pareço que estou no fim do mundo depois do mundo ter acabado.
Tenho parado e entrado em quase todas as casas por onde passo. Procuro coisas. Não sei bem o quê. Coisas que me possam ajudar, que me possam servir. Comida. Roupa. Ferramentas. Coisas.
Hoje de manhã entrei num café à beira da estrada. Deve ter sido um café-restaurante para camionistas. Tinha um enorme terreno em terra batida, vazio, ao lado. Lá dentro, um enorme balcão e dois espaços grandes com mesas e cadeiras, tudo revolvido. Procurei por todo o lado. Abri todas as portas, abri todas as gavetas, procurei em todos os armários, dentro de todas as arcas frigoríficas, de todos os frigoríficos. Nada. Nada de nada. E depois, ao sair de uma das casas-de-banho onde fui à procura de papel-higiénico, que também não havia, vi, atrás de um grande vaso, um vaso que antes de tudo isto deve ter tido flores, mas que agora estava vazio, atrás do vaso, um pouco de lado, um bocado de vermelho que me chamou a atenção, e cheguei-me a ele, e baixei-me e estiquei o braço e a mão e alonguei os dedos e agarrei. Era uma lata. Uma lata de Coca-Cola. Coca-Cola clássica. Lata vermelha. Já fora do prazo, mas que sobrevivera a todos os saques que aquele café sofrera para esperar por mim. E ali estava eu. Com a lata de Coca-Cola na mão. Sem gelo. Sem limão. Sem um copo sequer. Ainda procurei, mas estava tudo partido. Sentei-me ao balcão. Abri a lata. Ouvi o estalito do alumínio a abrir e o fsch que o gás da Coca-Cola fez ao ser libertado. Levantei a mão com a lata e cheguei-a aos lábios e beberiquei um pouco, e senti as borbulhas a explodir na boca e despejei mais pela garganta abaixo e senti a garganta a rebentar com a aspereza do gás e fui seguindo o trajecto da Coca-Cola dentro de mim até chegar ao estômago e então, arrotei. Mas um arroto tão sonoro que me assustei. Não estava habituado ao barulho. Soube-me bem, arrotar. E soube-me muito bem sentir aquele sabor adocicado da Coca-Cola. E foi no momento em que voltei a levar a lata à boca pela segunda vez, que me lembrei d’ A Estrada de Cormac McCarthy e do momento em que o homem dá a provar ao rapaz, pela primeira vez na vida, um bocado de Coca-Cola. E sorri. Como a ficção pode antecipar tão bem a realidade. Naquele momento, senti-me uma personagem da ficção de McCarthy, mas em real. Aquilo não era uma história. Aquilo era a minha vida. E sim, tínhamos dado cabo do mundo. Alguns de nós tinham dado cabo do mundo, mas acabámos todos a sofrer com isso. Não deve haver ilhas isoladas, condomínios fechados ou paraísos fiscais que tenham sobrevivido ao apocalipse. Não há sol. Já há muito tempo que não se vê o sol. Quanto tempo? Talvez anos. Já não sei. E esta fuligem! Esta cinza constante a cair dos céus. Não há terrenos cultivados. Não há rios de água cristalina. Não há culturas nem água potável. Há restos. Restos que sobreviveram ao fim. Há esta chuva de cinza. E frio. Muito frio. Estamos todos na merda a tentar sobreviver, os que sobreviveram, com o que se consegue recuperar, saquear, descobrir nos sítios por onde se passa. Já não há Continente e Pingo Doce com os seus camiões de distribuição a encher os lineares dos supermercados. Já não há nada. Nada de nada. Só meia-dúzia de pessoas que deixei lá para cima há não-sei-quantos-dias para procurar um outro grupo de pessoas que, parece, está cá para baixo, não-sei-bem-onde, e está a tentar organizar o que resta de nós. De nós todos.
Tenho ouvido algumas histórias. Violência. Grupos que percorrem as estradas à caça. Canibalismo. Até agora são só histórias. Já venho a caminhar há tanto tempo e ainda não encontrei vivalma. São essas histórias que me fazem companhia na estrada.
E lá vou eu. A descer, acho. Em direcção a sul se a bússola estiver a funcionar. Às vezes o ponteiro dá umas voltas tontas. Depois pára e mostra-me o norte. Acho. E eu sigo para sul.
Estou cansado. Não sei se vou encontrar alguém. Não sei se as pessoas que deixei lá para cima estão ainda vivas. Eu continuo aqui. A caminhar na estrada. Estou com uma respiração ofegante. Cansado. E com as botas a ficarem rotas.
Mas hoje foi um bom dia. Hoje bebi uma Coca-Cola.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/09]

O Meu Pai Nunca Teve Qualquer Relação com a Arte

O meu pai nunca teve qualquer relação com a arte. A vida dos meus pais, um como o outro, neste sentido, foi bem diferente da minha. A forma de arte da qual o meu pai esteve alguma vez mais perto foi através de uma finta do Eusébio e do Victor Baptista ou de uma defesa do Costa Pereira e do Bento. Vagamente num fado da Amália e, sobretudo, numa qualquer canção romântica do Tony de Matos. Sim, pelo que a minha mãe me contava, o meu pai era um romântico. À luz da época dele. Deles. Do meu pai e da minha mãe. O meu pai gostava de dançar. E acho que gostava de dançar as músicas do Tony de Matos. Sempre que ouço O Destino Marca a Hora lembro-me do meu pai. Do meu pai com a minha mãe. Em dupla. Pelo que a minha mãe me contava.
Também ela nunca teve nenhuma relação próxima com a arte. A minha mãe era uma excelente cozinheira. Não uma chef. Não. Uma cozinheira. Uma cozinheira daquelas que se fala quando falamos, com saudade, da comida da mãe ou da avô. Comidas que muitos de nós tentamos reencontrar nas mulheres que vamos tendo ao longo da vida. E alguns de nós, como eu, acabamos por sermos os próprios, na impossibilidade de reencontrar as mães na cozinha, os recriadores das comidas de casa. Não me dou mal entre os tachos, as frigideiras e o forno. Mas não sou como a minha mãe. A minha mãe sabia fazer os pratos clássicos que as mães e as avós sabiam fazer e, às vezes, punha-se a inventar com o que tinha em casa e descobria-nos maravilhas de agradar ao palato. Nunca houve um livro em casa dos meus pais. Nunca houve um livro até eu começar a comprá-los. Nem a minha mãe tinha um qualquer livro de cozinha. Nem assentava nada do que inventava. Tinha tudo na cabeça. E as medidas eram à medida da mão, primeiro, e do gosto, depois.
Mesmo não tendo nenhuma relação com a arte, mesmo não havendo nenhum livro lá em casa, os meus pais sempre me incentivaram a ler e a gostar de arte. A ter predisposição para isso, pelo menos. Os primeiros livros que entraram em casa foram os que eu comprei. Os que eu comprei com o dinheiro que eles me davam para os poder comprar.
Lembro-me de ver jornais, especialmente A Bola, a Crónica Feminina, a Simplesmente Maria e as Selecções do Reader’s Digest lá por casa. Perdidos em gavetas. Largados em cima do sofá. Mas nada de muito importante. Uns números avulsos. Soltos. E espalhados pela casa, ao acaso.
Até que comecei a comprar as primeiras bandas-desenhadas. Os primeiros livros da Enid Blyton. O que originou a existência de uma primeira estante para os livros mandada fazer de propósito, para o meu quarto, pelo meu pai.
Mas mesmo não tendo qualquer relação com a arte, por vezes o meu pai surpreendia-me ao extravasar os pedidos que normalmente lhe fazia para o natal e para o aniversário. Livros.
Uma vez surgiu em casa com a adaptação para banda-desenhada de o Tubarão, o filme de Steven Spielberg que andava, na altura, a assustar toda a gente em todo o mundo. Em minha casa não foi excepção. E foi uma surpresa vê-lo chegar com uma banda-desenhada. Para mim. E sem ter de a pedir.
Outra vez, e não sei como, deve ter ouvido na rádio, visto na televisão, ouvido nalguma conversa entre gente amiga, conhecidos, não sei, apareceu em casa com o disco Anjo da Guarda de António Variações. Foi o primeiro disco que comprou. Não era para mim, embora eu o julgasse, erradamente. Era um disco para a casa. Porque, tanto ele como a minha mãe o queriam ouvir. Ouvir na aparelhagem que havia lá em casa e que o meu pai tinha comprado para mim. Pelo menos era o que eu julgava. Era eu que lhe dava uso, não? Era eu que comprava os discos. Os discos todos. Era eu que ouvia as músicas. As músicas dos discos que comprava. Em altos berros. Até tinha levado a aparelhagem para o meu quarto. O meu quarto era o meu mundo. Nesse dia, a aparelhagem voltou para a sala onde tinha estado originalmente. E ficou lá por algum tempo.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve a arte de bem me surpreender. Quando ia a Lisboa, e antigamente ir a Lisboa não é o mesmo que hoje, em que demoramos menos de uma hora a fazer estes poucos mais de cem quilómetros que nos separam, na época ir a Lisboa era uma aventura, toda uma viagem de horas, em carros mais fracos, menos confortáveis, cansativos, aparecia por casa com Pastéis de Belém, Queijadas de Sintra, frango frito de um restaurante da baixa, que já procurei e nunca encontrei, provavelmente fechou, restos de uma época morta e enterrada nas fundações desta modernidade que nos veio tornar iguais a toda a gente de todo o lado.
A minha mãe era uma grande cozinheira. Recordo com muita saudade alguns pratos de uma simplicidade desarmante que ainda hoje me fazem água na boca, coisas tão estúpidas como arroz branco, quase em calda, não é malandrinho, é mesmo quase-calda, a acompanhar uns bifes de vaca panados, mas bem panados, bem fritos, coisa que nunca consegui encontrar fora de casa, mesmo quando ia às cinco da manhã comer uma sandes de panado à Sopa da Puta, o panado não era o mesmo nem tão bom, e hoje, então, nuns panados de porco, de peru, de frango, umas coisas desenxabidas, nunca há ecos dos panados da minha mãe, nem dos seus rissóis de peixe ou da mão-de-vaca com grão, que hoje parece asséptico nos restaurantes onde ainda se aventuram. Ela também fazia frango frito. Hoje já ninguém faz frango frito. Comem no KFC uma imitação americana. Mas mesmo o frango frito da minha mãe, cheio de limão e piri-piri, sendo tão bom, não era tão bom como o que o meu pai trazia naqueles dias em que chegava das suas idas a Lisboa e os trazia em pequenas caixas de cartão todas besuntadas de gordura dos fritos.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve arte de me criar memórias vivas. Como arte.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/31]

Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

O Controle

Hoje pensei em M.
Hoje lembrei-me do que aprendi com M. ao escutar uma conversa alheia. Viajei no tempo, regressei a uma época de juventude e à descoberta do meu eu sádico. Sexualmente falando, claro.
Descobri o meu sadismo através do masoquismo de M. Tive medo. Nunca mais lá regressei. Pelo menos àquela dimensão.
Hoje fui almoçar à cervejaria no rés-do-chão aqui do prédio. O prato do dia era Ovos Escalfados com Ervilhas. Motivo mais que suficiente para me fazer sair de casa. Desci as escadas. Não tive lugar ao balcão, o meu lugar por excelência. Estava cheio de comensais. Acabei por me sentar solitário numa mesa no meio da sala. Fui olhando a televisão lá ao fundo enquanto esperava pela minha meia-dose do prato do dia e do pequeno jarro de vinho tinto da casa (da região das Cortes, aqui nas berças da cidade).
Ouvia várias vozes. Várias conversas. Coisas soltas. Coisas sem grande interesse. Até que algo me captou a atenção. Entre um bocado de pão com manteiga e uma azeitona, algo captou-me a atenção. Um pedaço de conversa. Uma voz feminina que contava E ele só dizia para me controlar. Controla-te que controlas tudo o resto, dizia-me isto ao ouvido, e toda eu era arrepios. Estava com os braços e as pernas arrepiadas e a perder a força nos joelhos ao ouvir a voz sussurrada dele ao meu ouvido, Controla-te.
Virei a cabeça. Foquei o olhar. Tentei perceber de onde vinha aquela conversa que me chamara a atenção. Havia uma mesa próxima da minha com duas senhoras. Senhoras jovens. À volta dos seus quarenta anos. Supus que a conversa viesse de lá. Imaginei-as. Primeiro uma. Depois a outra. De encontro a uma parede. E uma voz de homem sussurrada a arrepiá-las. Mas não tive certeza de nada. Apurei os ouvidos. Não voltei a captar nada com o mesmo grau de interesse. Não que me interessasse a vida sexual da senhora, das senhoras, ali do lado. Era a curiosidade de saber para onde evoluía aquela conversa que me tinha captado o interesse. Debalde.
Chegou a minha meia-dose. O jarro de vinho. Enchi o copo. Comecei a beber. E foi aí que me lembrei de M. O controle de M. O controle para atingir um fim.
M. gostava que lhe desse umas palmadas. Com força. E dei por mim a descobrir que gostava de lhe dar umas palmadas. Gostava de ver as minhas mãos marcadas no rabo dela. Mas havia um ritmo. Uma ordem. Uma cadência. No início ela dirigia-me. Dizia-me o que fazer. E como o fazer. E dizia-me precisamente isso É tudo uma questão de controle. Fui adquirindo esse controle. E, por uns tempos, as coisas andaram equilibradas. Ela gostava que lhe batesse. Eu descobri que retirava algum prazer em fazê-la feliz daquela forma. Aprendi que gostava de lhe bater.
Um dia passou-me uma caixa para as mãos. Pediu-me que a espetasse. Eu não percebi. Abri a caixa. Tinha agulhas. Várias agulhas. Agulhas mais grossas que as de acupunctura. Fiquei sem saber o que fazer. Ao início assustei-me. Ela insistiu. Experimentei. Uma. Duas. Três. Quarto. No rabo. Depois queria nas pernas. Fui espetando.
Comecei a sentir-me excitado.
Percebi que estava a gostar de espetar as agulhas no corpo dela. Percebi, assustado, que estava a gostar. E não fui capaz de continuar. Assustei-me comigo. Retirei as agulhas. Coloquei-as na caixa. Ela virou-se para mim e perguntou Então?!
Eu abanei a cabeça.
Levantei-me da cama. Vesti-me e saí do quarto dela. De casa dela. Da vida dela. Perdi o controle.
Nunca mais a vi. Há muitos anos que não pensava nela.
Comecei a comer as ervilhas. Beberiquei o vinho. Olhei para a televisão. Via umas imagens a passar mas não percebia nada do que é que se tratava.
Olhei à volta. Muitas conversas. Muito barulho. Muita gente.
Continuei a comer as ervilhas com o ovo escalfado. Perdi o controle. Foi isso.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/13]