Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]

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Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que de deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]

E Ainda Aqui Estou!…

Saí pela porta de vidro do edifício principal das consultas externas do hospital dos Covões. Abri muito a boca. Precisava de ar. Ar fresco. Estava há três horas dentro do edifício para saber uma notícia que já adivinhava. Podiam ter-me dito por telefone. Evitava esta viagem. Evitava estas horas sentado naquelas cadeiras rijas e desconfortáveis que me calejaram o rabo. Evitava ter de olhar para aquela gente quase-morta, cheia de olheiras, cara amarelada e sem cabelo.
Cheguei à rua. Abri a boca e inspirei golfadas de ar fresco. Doíam-me as costas. O rabo. As pernas. Tinha as mãos dormentes. E acho que me começavam a doer os dentes. E estava com sede.
O barulho de uma sirene anunciou a chegada de uma ambulância. Fiquei ali parado a vê-la chegar e parar. Saíram dois paramédicos. Abriram as portas de trás e retiraram uma maca. Um velho, deitado na maca, debaixo de um cobertor de algodão, gemia. Gemia de dores. Os paramédicos foram rápidos. Retiraram a maca pelas portas traseiras da ambulância e fizeram-na entrar dentro do edifício das consultas externas. Perguntei-me o que é que o velho viria ali fazer. Achava que devia ter ido para as urgências. Depois pensei Para que raio estou a mandar bitaites?, eu que não sabia nada disto. Não era assunto meu, raios me partam! Esta minha mania de querer saber sempre de tudo, saber sempre tudo, meter o bedelho onde não me diz respeito, era irritante. Mesmo para mim.
O velho já tinha entrado dentro do edifício. O motor da ambulância estava ainda a trabalhar mas a sirene já se tinha emudecido. Virei a cabeça para o parque de estacionamento. Lembrei-me que tinha lá o carro e comecei a dirigir-me para lá.
Cheguei ao pé do carro e descobri-o à torreira de sol. Lá dentro devia estar um inferno. O carro não tinha ar condicionado. Era uma carripana velha, comprada num leilão da PSP, e tinha a tinta a cair aos pedaços, descarnando-o e dando-lhe um ar assustador. Nunca me assaltaram o carro. Mesmo quando o deixo com as portas abertas. E tantas vezes que o largo por aí com as portas abertas.
Abri a porta. Entrei. Queimei logo o rabo. Abri as duas janelas da frente à manivela para deixar passar uma aragem. Mas não passou nenhuma. Agarrei na garrafa de água e levei-a à boca. Cuspi de imediato pela janela aberta. Era chá. Chá a ferver. Pus o carro a trabalhar. Arrancava sempre à primeira, graças a Deus. Agarrei o volante com a ponta dos dedos. Estava tudo a arder. Saí do parque a pensar se não seria a última vez que ali ia. Mesmo que me voltassem a chamar, não sei se voltaria. Não me apetecia regressar ali. Não para isto. Para estes… Para estes nadas.
Já ia na estrada e pensei Auto-estrada ou nacional? e numa decisão súbita escolhi a auto-estrada. De repente senti vontade de estar em casa. De estar fechado em casa com as janelas abertas e as persianas baixadas para fazer corrente-de-ar. Estar nu deitado no chão de madeira da sala. A televisão a debitar barulho, um barulho baixinho, a mentir-me uma ausência de solidão sem ter de enfrentar gente. Uma garrafa de Mouchão tinto aberto e um copo a molhar-me os lábios e a lubrificar-me a garganta seca pelas notícias. No dedos um cigarro a fumegar e a garantir-me sossego. Um cigarro. Era isso.
Agarrei num cigarro e coloquei-o na boca. Carreguei o isqueiro do carro para dentro. Ainda estava nas estradas municipais, a caminho da auto-estrada. O isqueiro disparou, mas saltou do seu encaixe e caiu para o chão. Estava aos meus pés. Olhei para baixo e vi-o junto ao calcanhar. Baixei-me. Agarrei-o. Levei-o ao cigarro na boca quando reparei num carro que corria desenfreado para mim. Percebi que não tinha tempo de me desviar.
Mas ainda tive tempo de pensar nisto tudo que aconteceu desde que saí do hospital.
E ainda aqui estou.
Sei que vou a caminho de bater contra aquele carro. Merda!…

[escrito directamente no facebook em 2019/06/27]

Regresso a Cacilhas

Tempo de regressos. Refaço os passos do passado. Volto no tempo e faço-o presente. Mas já não é a mesma coisa. Já não são as mesmas coisas.
Algumas pessoas já morreram. Sei-o agora. Acompanhei através das redes sociais. Através dos jornais. Uns de doença. Outros… Outros encontraram-se com a inevitabilidade.
Passo a pé pelos sítios que eram os do costume e já não são mais. Sou estrangeiro. Sinto-me estrangeiro. O tempo rasgou-me daqui. As casas estão diferentes. Umas degradadas. Outras transformadas. As árvores desapareceram. As pessoas também. Não reconheço ninguém. Parece tudo novo. Castradoramente novo. Novo e limpo. O ar do tempo é outro. Quero acender um cigarro e sinto-me intimidado. Esta cidade está esterilizada.
Há mais carros. Mais motorizadas. Mais bicicletas. Até trotinetas largadas um pouco por todo o lado. Esta cidade parece a cidade das trotinetas. Mas quero uma rede wi-if de jeito e não encontro. Que cidade é esta? Que futuro mentiroso é este? Afinal, onde está a tecnologia? O futuro é brilhante mas assustadoramente asséptico. Quero fumar um cigarro e sinto que não o posso fazer.
Apanho o ferry. Vou até ao outro lado. À outra margem. Houve um tempo em que havia um tempo da outra margem. Na música. Nos jornais. Na história que fez andar este país. Mas o outro lado está parecido com o lado de cá. As cidades são outras. À primeira vista parecem melhor. Mais limpas. Mais seguras. Mas também mais iguais. O que distingue uma da outra? O que nos dão de diferente para além dos horizontes?
Fui à Lisnave. Passeei-me ao longo do gradeamento dos estaleiros que já não existem. Aguardam algum empreendimento de luxo. Uma varanda junto às nuvens a olhar a cidade branca.
Já nada resta lá dentro. Está tudo vazio. Rapado. Limpo. Há docas e tanques com água. Mas não há barcos. Nem operários. A revolução morreu. A revolução não chegou a nascer. Morreu estrangulada à nascença. Resta o vazio.
Vejo a enorme placa, em metal, imponente: Lisnave, no fim da Cova da Piedade. Gosto destes nomes. Cova da Piedade. Amora. Corroios. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Apreendi-os com o futebol. E com a música. Acompanhava o meu pai a ver os jogos da União de Leiria por estes subúrbios industriais fora. Laranjeiro. CUF. Quimigal. Barreirense. E os festivais de música moderna. O que começou naquela pequena sala na Rua da Beneficência e se espalhou por salas de todo o país. Muitas nesta Margem Sul. Em Corroios.
Mas a Lisnave? Aquele espaço, aquela história, aquilo corta a respiração. Marca a época. A outra época. Que já não volta como eu não posso afinal voltar.
A verdade é que nunca fui um filho da Margem Sul. Nem da Lisnave. Apanhava ao cacilheiro para ir jantar ao Cais do Ginjal. Atira-te ao Rio. Ponto Final. Um burguês fruto de uma classe que se queria média. E agora? Agora sou o quê? Ainda vim cá ver um ou outro teatro mais Underground. Hoje é tão mainstream como a Cidade Branca. E já não há lugar para mim. Só cá cabem os iguais. Dar ao povo o que o povo conhece. Não é assim?
Não sou da Margem Sul mas tenho em mim as memórias dos outros. Amigos meus. Amores meus. Companheiros meus. Gente que fez uma terra. Que criou um mito. Moldou um mundo. E que se evaporou. E já nada resta que mereça ser alguma coisa. Mas fica tudo aqui. Aqui dentro. Aqui dentro de mim. Porque a história não morre. Mesmo que a luta estivesse perdida. Como a Lisnave. Onde estão os orgulhosos estivadores da Lisnave? Onde param os homens que um dia sonharam mudar esta terra?
Sento-me no Cais do Ginjal. Os pés baloiçam sobre a água suja do Tejo. Imagino a Maria Cabral, de sardas, a cruzar o rio num cacilheiro. E acendo um cigarro. Ainda se pode fumar em Cacilhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/08]

Enquanto Ela Faz uma Panela de Sopa

Ela anda de um lado para o outro na cozinha a preparar uma sopa. Corta uns legumes. Batatas. Cenouras. Bocados de uma abóbora. A um canto da bancada, uma pequena televisão debita um qualquer programa da tarde que acompanha a espaços, enquanto vai colocando as coisas que preparou numa panela. Pega num copo de vinho branco e beberica um pouco. Olha para trás. Para mim. Sorri.
Eu estou aqui, também. Estou na cozinha. Estou sentado à mesa da cozinha e olho-a a preparar a sopa. Também tenho um copo de vinho branco. Mas bebo tudo de um trago. Volto a encher o copo. Sou eu que tenho a garrafa. E vou despejando-a à velocidade da luz.
Tenho um livro à frente. Tenho um livro sobre Charlotte Salomon à minha frente. Um livro sobre a vida e a arte de Charlotte Salomon. Para ler. Para ver. Para apreciar as suas pinturas. Mas não consigo. O livro mantem-se fechado. Aprecio o vai-e-vem dela enquanto prepara a sopa.
Pára por momentos em frente à televisão para ouvir melhor algo que lhe prendeu a atenção. Depois diz-me qualquer coisa. Se calhar relacionado com o que acabou de ouvir. Mas eu não ouço. Não consigo ouvir. Vejo-a. Vejo-a só. Vejo-a a falar para mim. E a continuar a cirandar na cozinha, de um lado para outro. A mexer em objectos que não conheço. Corta. Barra. Mistura. Despeja. Acende. Tritura. Separa. Lixo. Ufa.
Aproxima-se de mim e coloca-me à frente um prato com petiscos. Umas tostas barradas com queijo-creme, salmão fumado, cebolinho, limão.
A quantidade de coisas que consegue fazer ao mesmo tempo é assustadora. Eu não consigo fazer mais que olhar para ela.
Então, viro-me na mesa e deito o copo para o chão. Estilhaça-se. Estava vazio. Menos mal. Mas já ela vem com uma pá. Uma vassoura. Apanha os bocados de vidro. Depois traz uma esfregona e limpa o chão. Também não havia muito para limpar. Se não se fizesse nada, daqui a pouco estava seco. Mas ela limpa. Seca. E eu fico ali, fascinado, a vê-la pôr ordem no caos.
Já tenho outro copo à frente. Com vinho branco. Ele agarra o dela. Pede um brinde. Levanto o copo. Levantamos. Tocam um no outro. Ela bebe um golo. Eu volto a despejar o copo. Tenho de moderar a bebida.
Não estou embriagado. Tenho sede. E o vinho escorre pela garganta abaixo.
Volto a olhar para a Charlotte Salomon, ali à minha espera. À espera da minha atenção.
Ele tira-me o livro da frente. Põe a mesa. Dois pratos para sopa. Duas colheres. Um frasco de azeite. Umas azeitonas. Desliga o fogão. Acende um cigarro. Oferece-mo. Acende outro para ela. Pega-me na mão e leva-me para a varanda. Está frio. Um frio de rachar. Ela agarra-se a mim. Enfia-se debaixo do meu braço. Quer o meu calor. Fumamos os cigarros. Batemos o dente. Rimos da estupidez de estarmos ali ao frio. Acabamos de fumar. Deitamos as beatas fora. Voltamos para dentro de casa. Ela pega numa concha e coloca sopa nas duas taças. Põe-lhes umas azeitonas. Um fio de azeite.
Sentamos-nos em frente às malgas de sopa. Vimos o fumo a subir até ao tecto. Sopramos. Esperamos. Esperamos que arrefeça um pouco.
Eu vejo-a comer. Devagar. Devagarinho. Sopra. Arrefece.
E eu esqueço-me de comer a minha.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/07]

Roommates

Todos os dias de manhã a história repete-se. O tipo enfia-se na casa-de-banho e desfia um concerto de sons guturais. Aquilo é assustador. Primeiro começa pela garganta. Acho que tenta expelir algum pêlo que lhe tenha entrado durante a noite pela boca e se tenha alojado na faringe, na laringe ou na traqueia. É um alto, enorme e prolongado arranhado gggrrrrrrrrrr que parece trazer a casa abaixo. E repete-a várias vezes. Depois passa ao nariz. Não se assoa com um lenço. Não! Aperta uma narina para expelir pela outra não sei que detritos que os canais nasais possam ter adquirido durante o sono. Mas a barulheira que lhe sai pelo nariz, nossa senhora! E repete. E volta ao início. Estou à espera do dia em que os pulmões sejam expelidos pelas fossas nasais.
Depois toma banho. Seca o cabelo. Aquece uma caneca de leite no micro-ondas. Vai embora.
Regressa o sossego.
Este é um dos dramas de partilhar casa. Os sons. Os barulhos. Às vezes dou comigo a tentar adivinhar o que estará a fazer através dos barulhos que produz.
Roommates. Soa melhor em inglês. É mais chique. E é a solução quando não há dinheiro suficiente para cobrir a renda da casa sozinho.
É então que saio do quarto. Passo na casa-de-banho para uma mija rápida. Lavo as mãos. Passo a cara por água. E faço café.
Enquanto espero pelo café, leio as gordas dos jornais no iPad. Sento-me na mesa da cozinha. O cheiro do café começa a invadir o espaço. Ouço gritar, num fundo escondido da minha cabeça, Uma torrada! Uma torrada!, mas não, não há torradas. Estou um bocado gordo. Cortar no pão.
Sento-me. Ligo o iPad. Abro uma página de noticias e leio Milagre! Deputado português com dom da ubiquidade. Queria saber mais sobre tão estranho fenómeno. Mas achei que não era suficiente para o clickbait.
Fui a outra página. A manchete era o poeta Alegre indignado. Achei que já não era notícia. O homem é uma indignação permanente. Depois, em diagonal, li touradas. E percebi tudo. O poeta Alegre era mais um desses fanáticos anti-touradas que grassam pelas cidades cosmopolitas. Nem fui ler a notícia. Já me chega de fanatismos.
O café estava feito. Enchi uma caneca. Um bocado de açúcar. Mexi. Olhei lá para fora, para a rua. A vizinha da frente andava pela casa, de camisa de noite, a apanhar os brinquedos dos miúdos. Baixava-se. Baixava-se outra vez. Tornava-se a baixar.
Voltei às notícias. Alguém português andava a responder em alemão a perguntas feitas em português por jornalistas portugueses sobre assuntos de Portugal. Que raio! Só fake news!
Acabei o café. Fui tomar banho. E só pensava na vizinha de frente a apanhar os brinquedos dos miúdos.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/08]

Um Dia Acertei nos Números do Euromilhões

Há anos que mantinha aquela rotina. Não era um ritual. Nem uma obrigação. Nem sequer uma esperança. Era só um hábito. Um hábito que nasceu no início, quando o jogo nasceu e quando ainda acreditava que podia fintar o destino. E depois manteve-se. Já era automático. Sexta-feira. Entrava pelo quiosque dentro. Ou pelo café. E registava os números. A chave. A possível chave milionária. Nunca ganhei nada. Não, minto. Por duas ou três vezes ganhei o suficiente para poder voltar a jogar. Foi só. Por vezes até me esquecia de verificar os números. É possível que já tivesse alguma vez acertado na chave e deitado fora os bilhetes. Sem conferir. Tal era o meu nível de confiança. Ou de esperança, lá está.
Bom, mas naquela Sexta-feira, estava eu a passar em frente à loja dos electrodomésticos e, na montra, estava uma parede de televisores ligados a inúmeros canais. A imagem prendeu-me. Estava num futuro futurista. Senti-me um agente de informação digital a espreitar vidas alheias através dos circuitos integrados de televisão.
[agora num aparte, sempre tive vontade de me oferecer para trabalhar na régie do circuito de televisão de segurança da cidade, mas sempre tive medo do que poderia ser levado a fazer. tenho medo de ter um fascista dentro de mim. e esse medo horroriza-me]
Então parei frente à montra. Frente aos inúmeros televisores. Olhava os ecrãs. Um. Outro. Um terceiro. E comentava para mim próprio, baixinho, como se fizesse um relatório exaustivo do que estava a ver. Escolhia as imagens mais íntimas. Como se furasse mais dentro de alguém de quem queria saber tudo. Assustei-me. Assustei-me comigo próprio. Assustei-me ao pensar que eu próprio era um potencial fascista, pronto a calhandrar a vida alheia e a divulgá-la pelos meandros burocráticos do poder concentracionário – é bizarro que para os dicionários que vasculhei, calhandra é uma ave, uma espécie de cotovia, e nenhum deles trazia o sentido com o qual eu o utilizo, e cujo sentido era, para mim o único, bisbilhotice. Bizarro. Retomando, assustador. Eu próprio. É terrível quando se começa a ter medo de si próprio.
E foi então que vi. Perdido nos meus fascismos, vi num ecrã perdido no meio de todos os outros. O sorteio, em directo, do Euromilhões. Ri-me. Lembrei-me que tinha um bilhete na carteira. Tirei-o. Fui olhando a saída dos números. Tinha um. Tinha outro. Tinha três. Olha, olha! Até me ria! Tinha quatro. Tinha cinco números. Foda-se! Foda-se! Comecei a ficar nervoso. A doer-me a barriga. Os intestinos começaram a refilar comigo. Tinha vontade de ir à casa-de-banho. Saíram as estrelas. Tinha a primeira. E a segunda. E fiquei ali, assim. Parado. Hipnotizado. Não reagia. Não estava a acreditar no que tinha acontecido. Estava de boca aberta. Queixo caído. Chegaram uns vómitos. Despertei. Corri para a esquina e vomitei. Estava rico! Rico! E o vómito saía-me em jorro. Convulsões. Sujei as sapatilhas com o respingar do vomitado. Depois acalmei. Limpei a boca às mangas da camisola. Porra! Sentia a boca azeda. Tinha acertado no Euromilhões! Eu! Eu, caralho! E depois levantei a mão para rever a chave. Levantei a mão. Ergui o braço. Olhei para a mão. Para os dedos. Vazios. Tudo vazio. Onde estava? Onde caralho estava o bilhete sorteado? Porra! Porra! Porra! Voltei à esquina. Ao vomitado. Olhei. Vasculhei. Meti as mãos no meio daquela merda toda e agitei, mexi, separei, espremi. O bilhete tinha desaparecido. O bilhete fugira-me das mãos. Onde estava? Onde estava, caralho? A merda do Euromilhões? Os meus milhões! Os meus milhões!
Nunca mais joguei.
O dinheiro que utilizava para jogar, passei a bebê-lo. Sempre que penso que devia ir jogar, sento-me ao balcão e peço um copo de tinto. Alentejano, de preferência. Mas pode ser uma coisa qualquer. Preciso de afogar as mágoas. Depois saio do balcão e vou à rua fumar um cigarro. E penso que houve um dia em que fui quase um Warren Buffett português. Verto uma lágrima. Mando tudo para o caralho! e vou beber outro copo.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/25]