Ausência de Bilhete Validado

Há dias em que não consigo evitar e baixo às emoções do Correio da Manhã. A violência toma conta de mim. Por mais que lhe queira fugir, sinto-me atraído como os insectos voadores por uma lâmpada acesa na escuridão nocturna.
Então, a notícia que estava na ordem do dia era de uma mulher negra que tinha sido espancada por um agente da polícia. Li a notícia no Facebook. Li a notícia sentado no sofá com o iPad nas mãos.
Acendi um cigarro.
Fui às páginas do Correio da Manhã. Comecei a ler.
Era tarde. Não tarde de madrugada, mas já era noite. Uma noite fria. A mãe, cansada, depois de mais um dia como os outros, a correr de um lado para o outro, a cumprir todos os horários que tinha de cumprir, depois de fazer todos os trabalhos que tinha de fazer, depois do sol já se ter escondido para lá do horizonte e das luzes da cidade lhe conferirem uma falsa vida de fantasia colorida ao seu dia, estava finalmente a entrar no autocarro com a filha pequena pela mão. O autocarro que a iria levar para casa. Depois do último trabalho tinha ido a correr buscar a filha à escola antes que a escola encerrasse. E, depois da viagem, ia chegar a casa e preparar o jantar para ela, para a filha e para os outros dois filhos que já lá estavam à espera que a mãe chegasse. Verificar se os filhos tinham feito os trabalho da escola. Um banho rápido, mais um passar por água que propriamente banho. Ela e a filha, aproveitando o mesma água, o mesmo banho. E então, finalmente iria sentar-se um pouco na cadeira da cozinha a olhar, alheada, para a televisão que debitaria qualquer coisa que não lhe iria interessar mas que lhe serviria de companhia até adormecer. Iria acordar com a filha a chamá-la do quarto porque estava a ter um sonho mau e ela iria então para a cama dormir algumas horas deitada antes de ter de se levantar de novo e, de novo, retomar outra vez os mesmos rituais de todos os dias, dias iguais, dias tristes, dias alegres, dias cheios de esperança e desilusão.
Mas não foi o que aconteceu.
À entrada no autocarro, a mãe percebeu que a filha se tinha esquecido do Passe Social. O motorista-cobrador exigiu a validação da entrada das duas. Ela estava cansada. A filha estava com fome e sono. A mãe pediu para que o motorista-cobrador deixasse entrar a filha. Afinal só tinha oito anos. O motorista-cobrador mostrou-se inflexível. É a lei. A lei é para cumprir. E os dois esgrimiram razões. A mãe exaltou-se. O motorista-cobrador também. Elas tinham que abandonar o autocarro, dizia o motorista-cobrador. Que não, era noite, estava frio e a criança estava com fome e sono e ela só queria chegar a casa, dizia a mãe.
Desvairado, o motorista-cobrador arrancou com o autocarro pelas ruas da cidade e parou junto a uma esquadra de polícia. Um agente aproximou-se do autocarro. O motorista-cobrador abriu a porta da frente. Queixou-se ao agente da polícia. Queixou-se da mãe. E da ausência de passagem validada da criança. É a lei, disse o motorista-cobrador. É a lei, concordou o agente da polícia.
O agente pediu à mãe que saísse e fosse com ele à esquadra. Mas a mãe só queria ir para casa. Com a filha. E tinha lá os outros dois filhos à espera. O polícia insistiu. A mãe também. O agente chamou-lhe recusa a uma ordem da autoridade. A mãe enervou-se. Estava cansada. O agente também se enervou. Também estava cansado. Farto das más condições de trabalho. Farto da merda de vida que tinha. E depois de um dia difícil, aquilo ali assim… Para lhe estragar o resto do dia.
O agente pegou a mãe por um braço e puxou-a para fora do autocarro. A mãe gritou. Chamou nomes ao agente da polícia que ainda se enervou mais. O agente da polícia puxou a mãe à força. A criança tentava agarrar a mãe. Chorava com medo. O agente forçou a mãe a descer do autocarro. A mãe caiu para fora do autocarro. Caiu no asfalto. Arranhou a cara. Esfolou as mãos. Rasgou as calças de ganga. Depois tentou voltar a entrar no autocarro com a filha agarrada a ela. O agente deitou a mãe ao chão e tentou imobilizá-la perante o olhar assustado da filha. A mãe debateu-se. Era forte. Cuspiu no agente. O agente bateu na mãe. Deu-lhe dois murros na cara. Rebentou-lhe o lábio. Abriu-lhe um golpe no sobrolho. A mãe gritou. A mãe era preta. Assim como a filha. Mas o sangue brilhava sobre o preto da sua pele. Debateu-se. O agente em cima dela a tentar colocar-lhe umas algemas. Ao lado, a filha chorava.
Acordei.
A cigarro tinha-se consumido inteiro. Estava todo feito num rolo de cinza. Mexi-me e a cinza caiu-me em cima. Esfreguei os olhos. Sacudi a cinza para o chão. O iPad estava a negro. Voltei a acender outro cigarro. Liguei outra vez o iPad. Estava nas páginas do Correio da Manhã. Uma mulher que fora agredida pela polícia, tinha sido constituída arguida. Desliguei o iPad e larguei-o em cima do sofá. E fiquei por lá sentado, agoniado. Não consegui continuar a fumar. Estava com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/21]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

A Minha História com F.

Foi a minha primeira paixão. Mas não foi a minha primeira namorada. Nem sei se ela alguma vez soube que eu gostava dela. Nem sei mesmo se ela sabia que éramos da mesma turma. Um ano fomos vizinhos de mesa, mas não sei se ela sabia que eu estava ali, a olhar para ela sempre que podia.
Tudo começou na primeira classe. Era assim a nomenclatura. Primeira classe. E foi na primeira classe que a vi pela primeira vez. Fui atingido pela seta de Cupido. Vi-a e apaixonei-me. Desde esse primeiro momento sempre tive dificuldade em lhe dirigir a palavra. E quando ela, por um qualquer acaso do destino, metia conversa comigo, o gaguejar era a minha única resposta. Ficava vermelho, sentia a cara a ruborescer, e isso ainda ampliava a minha timidez transformada num gaguejar estúpido de onde só saíam grunhidos. Ela acabava por se ir embora, provavelmente a achar que eu era parvo. E era.
Chamava-se F., e é a única coisa que direi dela que não quero que, ao fim de tantos anos, alguém, finalmente, descubra o que eu nunca desvendei. Nem a ela.
Por uma única vez nos cruzámos numa festa. Uma festa de aniversário, claro, que, naquelas idades, não temos autorização para outras festas. E foi nessa festa que ganhei coragem para a convidar a dançar um slow. Mas ninguém dançava naquelas festas. Éramos novos demais. Os meninos andavam em grupo a fazer asneiras, as meninas andavam também em grupo mas aos risinhos. Nunca percebi o que significavam aqueles risinhos.
A certa altura, na única festa em que me cruzei com F., alguém pôs música a tocar. Uma dessas músicas era um slow, um tipo de música que veio a estar na moda na minha adolescência e que os rapazes e as raparigas aproveitavam para mostrar uns aos outros que gostavam de quem gostavam. Ainda me lembro da primeira vez que senti os dedos de uma rapariga a mexer-me nos cabelos, suavemente, como quem não quer nada, e a respiração húmida a tombar sobre o pescoço que começava a ficar rígido, fixo, para não alterar em nada o estado das coisas. E não, não foi, obviamente F. que me mexeu com os dedos no cabelo durante um slow. Até porque nem cheguei a dançar com ela. Mas também não digo quem foi porque toda a gente a conhece e eu não quero causar constrangimentos às raparigas que passaram pela minha vida.
Fui convidar F. para dançar o slow. Eu nunca tinha dançado. Não sabia dançar. Mas arranjei coragem no fundo mais profundo de mim e pensei Seja o que Deus quiser! (na altura andava num colégio de freiras). Para meu terror, ela disse que sim. Ela aceitou o meu convite. Estendeu-me a mão que eu agarrei cheio de vergonha. Lembro-me que, de repente, ficou muito calor. Senti a cara a ficar vermelha. Os meus músculos retesaram-se. Agarrei-lhe na mão e conduzi-a para o meio da sala onde ninguém mais estava a dançar. Vi toda a gente a olhar para mim. Os rapazes a rirem que nem uns perdidos. As raparigas a suspirarem e ansiosamente à espera de também elas serem convidadas. Os meus pés pesavam. As minhas pernas tinham dificuldade em mexerem-se. Sentia o corpo desconjuntado. A transpiração a acumular-se nos sovacos. Então parei. Ela em frente de mim. Estiquei os braços. Ela encaixou em mim. E ao meu primeiro passo pisei-a. Eu estava de sapatos de sola. Ela de sandálias. Magoei-a, claro. Ela deu um berro. Eu assustei-me e larguei-a. Ela saiu dali e foi procurar consolo junto das amigas. Eu fui a chacota dos rapazes.
Durante os quatro anos que durou a primária fui um apaixonado escondido. Nunca olhei para outra rapariga que não a F. e sabia que podia olhar para ela à vontade que o meu olhar nunca se cruzaria com o dela. Eu era invisível. Não existente.
Foi só quando chegámos ao quinto ano, no início do que é hoje o segundo ciclo, é que nos separámos. Fomos para turmas diferentes. Eu ainda a via nos intervalos. Ela continuava a não me ver. A não saber da minha existência. Mas foi só nessa altura que me livrei dessa paixão assolapada que não me permitia olhar para outras raparigas.
E foi então que conheci M. M. era uma colega de turma do quinto ano. M. meteu conversa comigo e, num intervalo, convidou-me para partilhar uma Bola de Berlim com ela. Mas essa é outra história. Essa é a história de M. Esta, de hoje, é a história de F. E a história de F. acaba aqui, no final da primária. Mesmo que, a tempos, me lembre dela. Como hoje. Gostava de me lembrar de um beijo trocado com ela. Mas isso nunca aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/15]

Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

Há Mais um Cão Cá em Casa

O cão apareceu por aí ao final do dia. Ou melhor, eu só dei por ele ao final dia. Tinha estado a chover durante toda a tarde. Ainda me aventurei pelo alpendre a fumar uns cigarros. Mas refugiei-me em casa. A chuva vinha tocada a vento e entrava pelo alpendre dentro e molhava tudo, a cadeira onde costumo sentar-me, a mesa onde amparo o copo de vinho, os tapetes onde os gatos costumam estar deitados na ronha. Ainda agarrei nos tapetes e levei-os para a cozinha para não se molharem mais.
Não sabia dos gatos. Nem do cão.
Passei a tarde na sala a acabar de ler Bem-Vinda a Casa, as memórias de Lucia Berlin (acho que me apaixonei por esta mulher fora do tempo, e não só pelas suas capacidades de escrita e criatividade, quando a olho na sua fotografia colorida que a Alfaguara publica nas badanas dos livros editados, percebo que era uma mulher lindíssima, muito bonita, de um olhar mágico e sedutor que o cigarro pendurado entre os dedos da mão esquerda ajuda a compor e a arrasta para dentro dos meus sonhos acordado) e esqueci-me que havia vida lá fora.
O luz do dia começou a cair. Ainda não era tarde mas a noite principiava a cair. A chuva continuava no seu embalo. Não chovia muito, mas era constante. Então lembrei-me dos gatos e do cão. Lembrei-me que precisava de lhes dar comida. Que tinha passado o dia todo sem lhes dar comida.
Saí para o alpendre e despejei ração para todos eles. Mas não aparecia ninguém, o que não era normal. O normal é os gatos e o cão virem logo, a correr, comer. Às vezes até arranham a porta para me lembrarem Então pá! Onde é que está a nossa paparoca? Normalmente o cão aspira tudo de uma vez, sôfrego. Os gatos comem às mijinhas. Vão lá várias vezes. Pequenas doses de cada vez. A guardar sempre para mais tarde. Mas não sabia deles.
Saí para a chuva. Dei uma volta pelo quintal. Vi que as laranjeiras estavam carregadas de laranjas. Apeteceu-me um sumo natural e fresco. Pensei em apanhar algumas. Mas lembrei-me que andava à procura do cão e dos gatos, que estava a chover, eu estava sem casaco e sem chapéu-de-chuva, nem sequer um cesto para apanhar as laranjas e decidi que ficava para o dia seguinte de manhã, de manhãzinha, para ainda conseguir espremer umas laranjas para o pequeno-almoço.
Dei a volta à casa e fui às traseiras. Vi os gatos empoleirados onde quer que fosse que estivessem no alto. Todos a olharem para o mesmo sítio. O cão estava mais à frente, em pose de guarda. Estático. Muito direito. Quase sem pestanejar. Ao fundo, junto à parede de fundo do telheiro, um cão, um outro cão, um cão pequeno, não percebi a raça, encolhido, acossado, tentava passar despercebido mas a sentir que era o centro das atenções.
Era um cão de caça. Daqueles cães pequeninos, mas muito afoitos. Devia ter sido abandonado por algum caçador. Raios os partam. Já tinha ouvido histórias destes cães abandonados pelos caçadores. Cães que já estão velhos. Cães que não são tão bons para perseguir as presas como os seus donos desejam. Ou simplesmente cães que já não são precisos e fica caro alimentar toda aquela canzoada. Esses cães abandonados costumam juntar-se e formar matilhas selvagens que sobrevivem matando as galinhas das redondezas.
O coitado do cão estava muito assustado. Estava magro. O pêlo, molhado, fazia-o parecer-se com um rato de esgoto. Por onde é que o cabrão do cão teria entrado?
Tive pena dele. Tenho sempre pena dos animais. Mais que das pessoas. Sim, eu sei, é estúpido. Mas os animais tocam-me mesmo cá dentro, no fundo do coração. Sou um emotivo.
Agarrei no cão que estava em pose. Fiz-lhe umas festas. Acalmei-o. Falei-lhe ao ouvido. Palavras meigas e suaves. Depois chamei-o para que viesse comigo. E ele veio. Os gatos ficaram lá a olhar para o cão.
Fui buscar uma tigela com ração. Pus a tigela ao pé do cãozinho, com o outro a olhar e eu a falar para os dois. O cãozinho olhava assustado para nós todos.
Entretanto parara de chover. Já era quase noite. Chamei o cão e os gatos para virem comer e deixei lá a comida para o outro.
Já estava há algum tempo no alpendre, com os gatos e o cão a comerem, eu a fumar um cigarro encostado ao pequeno muro, quando vi aparecer o cãozinho perdido. O cão olhou para ele, mas continuou a comer. Os gatos ignoraram-no. O cãozinhoo olhou para nós lá de baixo, deitou-se no chão do quintal e ficou a olhar para o alpendre.
Deitei fora o cigarro. E pensei que tinha mais um cão lá em casa. Ia ser um processo de aprendizagem com os outros todos. Vai ser aos poucos. E disse para mim próprio Eu não ganho é para os alimentar. E entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/30]

Tudo Escuro, Tudo Morto

Acordo assustado. Estou numa aflição. Pareço ter um peso sobre o peito. Sinto-me esmagar. Não consigo respirar.
Abro os olhos e olho o tecto escuro. Uma faixa amarela, do candeeiro da rua, cruza o tecto em diagonal. Vejo uma aranha a caminhar ao longo do feixe de luz.
Quero respirar.
Empurro com os pés, o edredão para o fundo da cama. Tenho peso em cima de mim. Preciso de me libertar.
Levo as mãos ao pescoço e massajo-o. E aperto-o. Para o libertar do que o oprime.
É um pesadelo que se transforma em angústia. Não sonho. Normalmente não sonho. E descubro-me num pesadelo. Não sei o que era. Só que me acordou. E me deixou assim. Assustado. Aflito. Como uma pata de elefante sobre o peito. A esmagar-me. A bloquear-me a respiração.
Ar.
Preciso de ar.
Arranho o pescoço como se arranhasse a garganta. Abrir caminho para o ar entrar nos pulmões. E respirar.
Inspirar.
Expirar.
Olho para o lado. Para a mesa-de-cabeceira. Vejo os contornos do Ventilan, mas não consigo chegar-lhe. Não consigo deitar-lhe os braços. As mãos. Os dedos.
De qualquer forma, não conseguiria fazer entrar o Ventilan nos pulmões. Nos alvéolos. Não tenho força para respirar. Para inspirar. Para expirar. Estou bloqueado.
Sinto o corpo aos saltos na cama. São espasmos. O corpo refila a ausência de ar. A ausência de oxigénio.
Sinto a vida a ir. Não consigo respirar. Sinto as pernas a espernear no ar. As mãos agarradas ao pescoço. Arranham o pescoço. Sinto o sangue a sair pelos rasgos das unhas. Sinto o sangue quente. Sinto-me quente. E sinto-me a rebentar. Sinto que vou explodir como um sapo com um cigarro na boca que não consegue parar de o fumar.
Já não vejo a aranha no tecto. O feixe amarelo que cruzava o tecto na diagonal desapareceu. Ou sou eu que já não o vê. Está tudo escuro.
Já não tenho forças. Já não tenho esperança em conseguir desenrolar o novelo e conseguir respirar. Dói-me. Nem sei bem o quê.
Abro muito a boca. Não entra ar. Não sai nada. Nem voz. Sinto os olhos esbugalhados. Mas já não vejo nada. Só escuridão.
Está tudo escuro. Está tudo morto.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/14]