Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

Há Mais um Cão Cá em Casa

O cão apareceu por aí ao final do dia. Ou melhor, eu só dei por ele ao final dia. Tinha estado a chover durante toda a tarde. Ainda me aventurei pelo alpendre a fumar uns cigarros. Mas refugiei-me em casa. A chuva vinha tocada a vento e entrava pelo alpendre dentro e molhava tudo, a cadeira onde costumo sentar-me, a mesa onde amparo o copo de vinho, os tapetes onde os gatos costumam estar deitados na ronha. Ainda agarrei nos tapetes e levei-os para a cozinha para não se molharem mais.
Não sabia dos gatos. Nem do cão.
Passei a tarde na sala a acabar de ler Bem-Vinda a Casa, as memórias de Lucia Berlin (acho que me apaixonei por esta mulher fora do tempo, e não só pelas suas capacidades de escrita e criatividade, quando a olho na sua fotografia colorida que a Alfaguara publica nas badanas dos livros editados, percebo que era uma mulher lindíssima, muito bonita, de um olhar mágico e sedutor que o cigarro pendurado entre os dedos da mão esquerda ajuda a compor e a arrasta para dentro dos meus sonhos acordado) e esqueci-me que havia vida lá fora.
O luz do dia começou a cair. Ainda não era tarde mas a noite principiava a cair. A chuva continuava no seu embalo. Não chovia muito, mas era constante. Então lembrei-me dos gatos e do cão. Lembrei-me que precisava de lhes dar comida. Que tinha passado o dia todo sem lhes dar comida.
Saí para o alpendre e despejei ração para todos eles. Mas não aparecia ninguém, o que não era normal. O normal é os gatos e o cão virem logo, a correr, comer. Às vezes até arranham a porta para me lembrarem Então pá! Onde é que está a nossa paparoca? Normalmente o cão aspira tudo de uma vez, sôfrego. Os gatos comem às mijinhas. Vão lá várias vezes. Pequenas doses de cada vez. A guardar sempre para mais tarde. Mas não sabia deles.
Saí para a chuva. Dei uma volta pelo quintal. Vi que as laranjeiras estavam carregadas de laranjas. Apeteceu-me um sumo natural e fresco. Pensei em apanhar algumas. Mas lembrei-me que andava à procura do cão e dos gatos, que estava a chover, eu estava sem casaco e sem chapéu-de-chuva, nem sequer um cesto para apanhar as laranjas e decidi que ficava para o dia seguinte de manhã, de manhãzinha, para ainda conseguir espremer umas laranjas para o pequeno-almoço.
Dei a volta à casa e fui às traseiras. Vi os gatos empoleirados onde quer que fosse que estivessem no alto. Todos a olharem para o mesmo sítio. O cão estava mais à frente, em pose de guarda. Estático. Muito direito. Quase sem pestanejar. Ao fundo, junto à parede de fundo do telheiro, um cão, um outro cão, um cão pequeno, não percebi a raça, encolhido, acossado, tentava passar despercebido mas a sentir que era o centro das atenções.
Era um cão de caça. Daqueles cães pequeninos, mas muito afoitos. Devia ter sido abandonado por algum caçador. Raios os partam. Já tinha ouvido histórias destes cães abandonados pelos caçadores. Cães que já estão velhos. Cães que não são tão bons para perseguir as presas como os seus donos desejam. Ou simplesmente cães que já não são precisos e fica caro alimentar toda aquela canzoada. Esses cães abandonados costumam juntar-se e formar matilhas selvagens que sobrevivem matando as galinhas das redondezas.
O coitado do cão estava muito assustado. Estava magro. O pêlo, molhado, fazia-o parecer-se com um rato de esgoto. Por onde é que o cabrão do cão teria entrado?
Tive pena dele. Tenho sempre pena dos animais. Mais que das pessoas. Sim, eu sei, é estúpido. Mas os animais tocam-me mesmo cá dentro, no fundo do coração. Sou um emotivo.
Agarrei no cão que estava em pose. Fiz-lhe umas festas. Acalmei-o. Falei-lhe ao ouvido. Palavras meigas e suaves. Depois chamei-o para que viesse comigo. E ele veio. Os gatos ficaram lá a olhar para o cão.
Fui buscar uma tigela com ração. Pus a tigela ao pé do cãozinho, com o outro a olhar e eu a falar para os dois. O cãozinho olhava assustado para nós todos.
Entretanto parara de chover. Já era quase noite. Chamei o cão e os gatos para virem comer e deixei lá a comida para o outro.
Já estava há algum tempo no alpendre, com os gatos e o cão a comerem, eu a fumar um cigarro encostado ao pequeno muro, quando vi aparecer o cãozinho perdido. O cão olhou para ele, mas continuou a comer. Os gatos ignoraram-no. O cãozinhoo olhou para nós lá de baixo, deitou-se no chão do quintal e ficou a olhar para o alpendre.
Deitei fora o cigarro. E pensei que tinha mais um cão lá em casa. Ia ser um processo de aprendizagem com os outros todos. Vai ser aos poucos. E disse para mim próprio Eu não ganho é para os alimentar. E entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/30]

Tudo Escuro, Tudo Morto

Acordo assustado. Estou numa aflição. Pareço ter um peso sobre o peito. Sinto-me esmagar. Não consigo respirar.
Abro os olhos e olho o tecto escuro. Uma faixa amarela, do candeeiro da rua, cruza o tecto em diagonal. Vejo uma aranha a caminhar ao longo do feixe de luz.
Quero respirar.
Empurro com os pés, o edredão para o fundo da cama. Tenho peso em cima de mim. Preciso de me libertar.
Levo as mãos ao pescoço e massajo-o. E aperto-o. Para o libertar do que o oprime.
É um pesadelo que se transforma em angústia. Não sonho. Normalmente não sonho. E descubro-me num pesadelo. Não sei o que era. Só que me acordou. E me deixou assim. Assustado. Aflito. Como uma pata de elefante sobre o peito. A esmagar-me. A bloquear-me a respiração.
Ar.
Preciso de ar.
Arranho o pescoço como se arranhasse a garganta. Abrir caminho para o ar entrar nos pulmões. E respirar.
Inspirar.
Expirar.
Olho para o lado. Para a mesa-de-cabeceira. Vejo os contornos do Ventilan, mas não consigo chegar-lhe. Não consigo deitar-lhe os braços. As mãos. Os dedos.
De qualquer forma, não conseguiria fazer entrar o Ventilan nos pulmões. Nos alvéolos. Não tenho força para respirar. Para inspirar. Para expirar. Estou bloqueado.
Sinto o corpo aos saltos na cama. São espasmos. O corpo refila a ausência de ar. A ausência de oxigénio.
Sinto a vida a ir. Não consigo respirar. Sinto as pernas a espernear no ar. As mãos agarradas ao pescoço. Arranham o pescoço. Sinto o sangue a sair pelos rasgos das unhas. Sinto o sangue quente. Sinto-me quente. E sinto-me a rebentar. Sinto que vou explodir como um sapo com um cigarro na boca que não consegue parar de o fumar.
Já não vejo a aranha no tecto. O feixe amarelo que cruzava o tecto na diagonal desapareceu. Ou sou eu que já não o vê. Está tudo escuro.
Já não tenho forças. Já não tenho esperança em conseguir desenrolar o novelo e conseguir respirar. Dói-me. Nem sei bem o quê.
Abro muito a boca. Não entra ar. Não sai nada. Nem voz. Sinto os olhos esbugalhados. Mas já não vejo nada. Só escuridão.
Está tudo escuro. Está tudo morto.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/14]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

Esquecer Tudo o que Nos Faz Sentir Mal

Íamos os dois estrada fora. Duas faixas. Nós sempre na faixa da direita, mais devagar, a apreciar a paisagem, o verde, o amarelo, o castanho, as casas perdidas algures, entre montes e vales e muitas nas encostas. Há sempre uma casa perdida na paisagem. Já não há paisagens virgens.
Era o primeiro dia de férias. Janelas abertas. Eu com o cotovelo pousado na janela aberta. Ela com os pés esticados sobre o tablier. Uma mania. Já tínhamos sido multados por isso. Por ela ir com os pés descalços colados ao pára-brisas. Nunca cheguei a pagar essa multa. Qualquer dia vão buscar-me a casa. Se eu lá estiver.
Éramos ultrapassados por camiões cheios de pressa que nos faziam tremer na deslocação de ar das suas ultrapassagens, em velocidade bizarra e colados a nós. Cheguei a pensar que podíamos ser chupados por um túnel de vento.
Ela acendia-me um cigarro. Outro para ela. Íamos assim, descontraídos, a fumar um cigarro, com o rádio a debitar uma qualquer música local que não percebíamos por causa do ruído do vento que vinha de fora e nos enchia os ouvidos.
Então, senti a mão dela, suave, sobre o meu braço descansado sobre a alavanca de velocidades. Olhei para ela que disse Preciso de fazer chichi.
Continuei a conduzir naquela velocidade quase sonolenta mas agora atento às placas de indicação de Estações de Serviço.
Odiava aquelas Estações de Serviço. Quer dizer, para encher o depósito de combustível, eram todas iguais. Mais cêntimo, menos cêntimo, esta marca ou aquela, normal ou aditivada, era só enfiar a agulheta no buraco do depósito e encher. Mas para comer e ir à casa-de-banho, eram todas muito sofríveis. A comida era cara e geralmente muito má. O pão era seco. A manteiga margarina. O queijo corrente. O fiambre era mortadela. As vezes até a Coca-Cola era Pepsi. Quanto às casas-de-banho, por mais que fossem limpas, estava lá sempre o papel com os horários de limpeza e a assinatura da funcionária responsável, nunca perdiam aquele cheiro entranhado a mijo, as retretes entupidas, a falta de papel-higiénico, as torneiras automáticas que não davam tempo de mudar a mão de um lado para o outro e os secadores que, por mais que as mãos ficassem lá por baixo a esfregarem-se, nunca ficavam secas.
Saí na primeira indicação. Não valia a pena escolher. Eram todas iguais. Entrámos mais uma vez em contra-mão no parque de estacionamento da Estação de Serviço. Nunca acerto com as direcções pintadas no chão, e entretanto apagadas pelos pneus dos milhares de carros que entram por ali diariamente, e as placas de trânsito com as suas mil-e-uma informações ao utente e qual-é-a-minha, porra?
Parei num lugar vago debaixo do sol escaldante. Nestas Estações de Serviço nunca há árvores. Ela tirou os pés a contra-gosto do tablier e enfiou-os nas Havaianas.
Saímos do carro.
Entrámos no bar da Estação de Serviço. Encostei-me ao balcão. Ela encostou-se a mim. De costas para o balcão. Abraçada a mim. A morder-me o pescoço. Eu pedi Duas Coca-Colas e un bocadillo de calamares cortado pela mitad. E ele respondeu Solo Pepsi. Ela riu-se. E eu disse Entonces, puede ser.
Ela deixou-me encostado ao balcão, e foi, a rir, em direcção à casa-de-banho. Eu mandei um grande gole na Pepsi. E disse Foda-se! Comecei a comer uma metade do pão com calamares.
Ela apareceu. Branca como a cal. Agarrou-se a mim. Estava a tremer. A tremer que nem varas-verdes. Caíam-lhe gotas de suor pelas têmporas. E eu perguntei O que foi? e ela encostou-se mais a mim, aproximou a boca do meu ouvido e disse, num sussurro quase inaudível, assustado, quase-morto Acho que está um feto morto na casa-de-banho. No meio do caixote de lixo. Era assim uma coisa… E começou a chorar. A chorar baixinho.
Eu tirei uma nota de dez euros do bolso. Larguei-a no balcão. Agarrei na outra metade de pão com calamares, em vários guardanapos e saí do bar, com ela agarrada a mim, a querer cair por mim abaixo, a querer desmaiar, a querer adormecer e despertar de um horrível pesadelo.
Entrámos no carro. E arranquei, de novo, pela estrada fora.
Levávamos as janelas abertas. A rádio desligada. Ela não falava. Eu não dizia nada. Continuámos em silêncio. Continuámos em frente mas já não sabia se queríamos ir para onde íamos.
Às vezes basta um pequeno acidente no percurso para nos mudar a vida. Para o bem ou para o mal. Para nos mudar, com certeza.
Já não somos os mesmos depois da paragem naquela Estação de Serviço. Mas também ainda não sabemos o que é que somos. Ainda estamos a processar as coisas. Estas coisas que nos acontecem. E não pedem autorização para acontecer. E nos mudam, assim, de repente.
Parei o carro à beira da estrada. De um lado e outro, descampado. Ao fundo, o touro da Osborne. Eu mijei virado para o touro. Quando regressei ao carro, vi que ela estava agachada entre o carro e a porta aberta. Eu entrei no carro. Ela também. O carro arrancou. Ela acendeu um cigarro e deu-mo. E depois acendeu outro para ela. E fomos, estrada fora, a fumar, a ouvir o vento a entrar pelas janelas abertas, e a tentar esquecer todas as coisas que nos fazem sentir mal.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/20]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]