Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

Tudo É Perigoso

Fui ao supermercado. Com lista. Para não me perder. Tenho tendência a encher o carrinho das compras com coisas boas mas que me rebentam a carteira. Hoje fui com lista. É claro que vigarizo um pouco a lista. Acabo sempre por trazer mais uma ou outra coisa que não consta da lista. Mas é um começo. E é só uma ou duas coisas a mais.
Aproveitei as promoções. Agora ando atento. Há coisas que, entre hoje e amanhã, podem baixar quase cinquenta por cento. Agora leio os panfletos. Tomo atenção aos descontos. Tenho poupado muito dinheiro.
Voltei para casa. Arrumei as compras.
Fui apanhar laranjas numa das laranjeiras que tenho aqui no quintal. São um pouco azedas mas, espremidas, com um pouco de açúcar ou a acompanhar um vodka, a meio da tarde, fazem milagres.
Estava a voltar para o interior de casa quando vi passar uma procissão, ao fundo da rua. Primeiro ouvi uma vozes. Uma ladainha. Percebi uma oração. Depois vi um andor. E um mar de gente atrás do andor, a ladainhar.
Fiquei ali parado por momentos. A olhar a procissão a passar lá ao fundo. A ouvir a oração. O cesto com as laranjas nas mãos. A pesar.
Perguntei-me Que procissão é esta? E não soube responder.
A procissão acabou por passar. Deixei de ver pessoas. Deixei de ouvir vozes. Entrei em casa.
Coloquei as laranjas no frigorífico. Finalmente percebi a funcionalidade das gavetas de plástico. Servem perfeitamente para guardar as laranjas.
Ouvi um estrondo. Depois um burburinho. Um burburinho ao longe. Fechei o frigorífico. Saí de casa. Espreitei para a estrada, lá ao fundo. Não vi nada. Desci o quintal até ao muro. Olhei para um lado. Depois para o outro. Vi algumas pessoas no fundo da estrada. Pareciam agitadas. Estava lá um carro parado, no meio delas. Havia gente a correr à volta do carro. Pareceu-me ouvir alguns gritos.
Saí pelo portão do quintal. Fui para a estrada. Acendi um cigarro. Vi uma miúda a correr na minha direcção. Perguntei-lhe O que houve? E ela, cansada, cansada da corrida, um pouco assustada disse Um carro foi para cima da procissão!, passou por mim e continuou a correr estrada fora.
Deixei-me estar ali. Encostei-me ao muro a fumar o cigarro. Fiquei a olhar para a confusão que se adivinhava lá ao fundo, na estrada.
Não voltou a passar mais ninguém à minha frente.
Fiquei ali um momento, hesitante, entre entrar em casa ou ir ver o que se passava ao fundo da estrada. Mas não gosto de confusões.
Voltei a entrar pelo portão. Subi o quintal. Entrei em casa. Abri o frigorífico. Espremi duas laranjas. Juntei um pouco de vodka. Fui para o alpendre.
Estava a sentar-me no alpendre quando ouvi a sirene dos bombeiros.
Acendi outro cigarro. Beberiquei um pouco do vodka com laranja. E pensei Os carros são perigosos. Olhei para as montanhas lá à frente. De manhã não as conseguia ver com o nevoeiro com que nasceu o dia. Agora estão bem nítidas e verdes. E ainda pensei As procissões também podem ser perigosas. Puxei uma passa do cigarro. E voltei a pensar Tudo é perigoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/15]

Estou Quente

Sinto-me quente.
Ele coloca a mão dela sobre a minha, que está na alavanca das velocidades, e diz Estás quente.
Sim. Estou quente. Sinto-me quente.
Vou a conduzir o carro. Ela vai ao meu lado. Olha para mim. Coloca a mão dela sobre a minha e diz Está quente. Eu vou a conduzir devagar. Vou atrás de um camião lento. Não praguejo. Vou a conduzir mas nem vou atento à estrada. Vou só atrás do camião.
Eu estou à entrada do Liceu. Estou a fumar um cigarro. Ela está ao meu lado. Encostada a mim, como só os adolescentes sabem encostar. Mergulha a cara no meu pescoço. Beija-o, lentamente. E diz Estás quente.
Sim. Estou quente.
Páro o carro no parque de estacionamento do super-mercado e digo Eu fico aqui. Ela sai. Eu fico. Mas não estou lá. Não estou em lado nenhum. Sinto-me estranho. Estou quente mas não tenho calor. Sinto, aliás, um pouco de frio. Nada de muito intenso. Um arrepio. Uma vontade de não estar de t-shirt.
Passam carros à minha frente. Carrinhos cheios de compras. Uma carrinha Opel faz manobra para estacionar de traseira. O Mercedes que vem atrás apita. Volta a apitar. O Opel pára. Pára atravessado na estreita passagem do parque de estacionamento. Um homem sai de dentro do carro com um ferro na mão. Aproxima-se do Mercedes e começa a bater no carro com o ferro. A mulher dentro do carro fica parada. Estática. Assustada. O homem parte os faróis da frente do carro. Amolga o capot. Parte o espelho retrovisor exterior esquerdo. Com uma só pancada. Violenta. Bate com o ferro no pára-brisas mas não consegue parti-lo. Nem um arranhão. A mulher dentro do Mercedes desperta. Mete a marcha-atrás e arranca em alta velocidade pelo parque de estacionamento. Ao fundo faz um pião. Endireita o carro. Mete a primeira e desaparece.
O homem com o ferro na mão olha à volta. De peito feito. Olha para toda a gente. À espera de um olhar. De um desafio. Mas todos os olhos fogem. O meu também. Olho para o lado. O homem afasta-se, lentamente. Entra dentro do Opel. Estaciona-o.
Eu vejo-o sair do carro e entrar dentro do super-mercado.
A porta do carro abre-se. Ela entra. Coloca o saco aos seus pés. Dá-me uma garrafa de água e um comprimido. É um ibuprofeno. Toma-o. Estás quente, diz
Meto o comprimido na boca. Abro a garrafa e bebo água. Empurro o comprimido. Ela leva a mão à minha testa.
Eu ponho o carro a trabalhar. Saio do parque de estacionamento.
Queria estar no Liceu. À saída do Liceu. A fumar um cigarro. A fumar um cigarro e ela a dar-me um beijo, suave, no pescoço e a murmurar-me ao ouvido Estás quente.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/11]

A Conversadeira de Eduardo Souto de Moura

Porto de Mós.
Sexta-feira. Fim-de-tarde.
Sento-me na Conversadeira de Eduardo Souto de Moura. A Conversadeira é uma poltrona dupla com assentos em oposição, feito em Mármore Rosa com Veios Verdes, e com 1220 x 650 x 850 mm de dimensões. Visto de cima forma um S.
Sento-me num dos lados e olho. Vejo um prédio. Um prédio sem nada de particular que o distinga dos outros prédios à volta.
Estando Porto de Mós rodeado de montanhas, esperava poder ver uma montanha, umas árvores, até o castelo apalaçado de estilo francês que domina a vila. Mas não. Nada. Um cruzamento. Estou num cruzamento.
Levanto-me e vou sentar-me do outro lado. Espero outra vista. Mas, porra. Um prédio. Outro prédio.
A Conversadeira de Souto de Moura está num cruzamento rodeado de prédios na vila de Porto de Mós.
Sinto-me desiludido.
Olho em frente. Um fila de carros. Um tractor. O cheiro a gasolina. Buzinas. Uma motorizada que ultrapassa a fila e entra na estrada com a facilidade da mobilidade. No passeio que circunda o prédio, uma rapariga empurra um carrinho de bebé. Ela pára. Olha para mim. Leva a mão à boca.
Eu ouço. Ouço atrás de mim uma sinfonia urbana. Travagem. Apitos. Buzinas. Derrapagem. Gritos. Chapa. Trambolhões. Explosões. Mais gritos. Choro.
A cara da rapariga vai mudando. Eu vou vendo o que se passa atrás de mim reflectido nas expressões da rapariga e nos sons que me vão chegando.
Acendo um cigarro e recosto-me na Conversadeira.
Percebo, na cara da rapariga. O tractor que passa no cruzamento e entra na outra estrada. Um carro que trava. Um polícia que apita. Um outro carro que buzina enquanto derrapa no asfalto. Uma mulher que grita. A motorizada que bate no carro que derrapa. O rapaz da motorizada que é projectado, passa por cima do tractor e vai aos trambolhões estrada fora. O motor de um carro que rebenta. Gente que grita. Em vários tons. Em vários momentos. Desencontrados. Uma criança que chora.
A rapariga leva agora as duas mãos à cara. Está assustada. Assustadíssima. Com medo. O carrinho começa a deslizar pelo passeio. Eu continuo na Conversadeira a ver tudo na cara da rapariga. A ouvir tudo atrás de mim.
Vêm mais carros que se enfaixam uns nos outros. Ouço a chapa a bater. O polícia é atropelado por um dos carros. O tractor passa por cima do corpo do rapaz da motorizada que está caído no chão. Chega um camião TIR, e eu ouço o barulho dos travões pneumáticos, aquilo parece que sopra, sopra chateado, e o camião leva tudo de arrasto até ao rio. Um dos carros cai.
O carrinho de bebé chega ao fim do passeio e começa a cair para a estrada. Eu levanto-me rápido da Conversadeira, corro, atravesso a estrada num ápice e agarro o carrinho de bebé antes dele cair do passeio. Levo o carrinho à rapariga que está em estado de choque a olhar para a confusão no cruzamento. Não liga nenhuma para o carrinho que tento entregar-lhe.
Ouço o barulho de uma ambulância a chegar e, finalmente, olho para trás. Para tudo aquilo. Mas tudo o que vejo é a Conversadeira do Eduardo Souto de Moura.
Porque é que se chama Conversadeira se naquele cruzamento ninguém ouve os próprios pensamentos?
Porque é que está ali, naquele cruzamento, rodeado de prédios banais?
É já noite.
O que é feito do meu cigarro?
Que raio faço eu em Porto de Mós?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/07]

Natal em Julho

Muito da minha vida ao longo dos anos tem sido feito à espera dos elevadores ou dentro deles.
Hoje voltou a ser assim. A minha vida numa roda-viva, para cima e para baixo à velocidade de Schindler, os que existem no prédio onde vivo.
Hoje estava no meu andar à espera do elevador. Estava a demorar. Mas lá acabou por chegar. Abriram-se as portas. Entrei.
Já lá estava um casal. Ela estava grávida. Gravidíssima. Com uma barriga enorme.
Disse Boa-tarde!. Responderam-me Hello!, os dois, mas não se sobrepuseram. Primeiro um, depois o outro. Hello!
Íamos a descer os andares. Cada um na sua vida. Eles os dois em conjunto. E depois, um esticão. O elevador parou. Entre dois andares.
Manteve-se a luz no interior do elevador.
Tocámos à campainha.
Insistimos.
Nada. Nada de nada.
Expliquei-lhes, em inglês, que não era normal. Era normal um dos elevadores estar avariado, mas não era normal avariar assim, a meio de uma descida, a meio do trabalho, com gente lá dentro. Os elevadores ali avariavam mas com razoabilidade.
Eles disseram, na verdade ele disse, que estavam habituados. Eram palestinianos. Na cidade onde viviam era normal não haver elevadores. Quando havia não funcionavam. Mas o normal era não haver. E quando funcionavam, a maior parte das pessoas preferia ir a pé.
Emigrantes? Não, não eram emigrantes. Ele era marceneiro. Fazia móveis de madeira. Com as mãos, dizia ele orgulhoso, enquanto me mostrava os calos. Estavam ali porque a mulher era engenheira Biotecnológica e estava ali em Leiria para assistir a um simpósio internacional no IPL
Só consegui emitir um Ah! de admiração e sem saber que mais dizer, quando a mulher começou a falar muito rápido, assustada e com as mãos agarradas à barriga. Tinha água a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Uma poça de água aos pés.
Contracções.
Ficámos todos nervosos. Eu fiquei muito nervoso.
A campainha tocava mas ninguém aparecia.
O meu telemóvel sem bateria. Os deles sem rede.
Ela deitou-se.
Ia dar à luz ali. Naquele elevador sem graça nenhuma. Avariado. Com uma luz fraquinha e a tremeluzir. À minha frente.
Entrou em trabalho de parto quase de imediato.
O marido tomou a situação nas mãos. Literalmente. Pediu a minha ajuda.
Amedrontado, ofereci-me.
Não me recordo de muito.
Lembro-me de gritos. De palavrões em inglês e outras coisas que não identifiquei. De sangue. Do homem retirar a camisa. De pedir a minha t-shirt. De um bebé a sair de dentro da mãe. De choro. De muito choro. E riso. Uma confusão de berros de choro e gargalhadas de alegria.
O homem virou-se para mim, ainda com a criança nas mãos e disse-me Jesus!, e depois colocou a criança sobre o corpo da mãe e tapou-a com a minha t-shirt. A mãe abraçou-a, cansada mas alegre e muito feliz.
O elevador deu um estalo e recomeçou a funcionar. A andar para baixo. Para o rés-do-chão.
Chegamos lá abaixo e eu fui a correr à rua, para pedir ajuda à cervejaria frente ao prédio. Chamei a ambulância que chegou em menos que nada.
Eles foram-se embora na ambulância. Agradeceram-me. Despediram-se de mim e repetiram os dois Jesus!, de sorriso rasgado.
Ao fundo, na rua, vi passar um cigano com um burro pela mão.
Nem sei o que pensar.
Eu acabei por ficar aqui na cervejaria. Estou ao balcão. Já bebi sete imperiais e continuo com sede. Preciso de um cigarro mas não consigo sair do balcão. E não sei o que pensar.
Não sei mesmo o que pensar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/28]

O Peixe ao Sal

Era Domingo e deixei-me ficar na cama até mais tarde. Deixaram-me. Afinal, não estava em minha casa.
Pouco barulho. Nada de telemóveis, televisões, música alta, nada.
Descansei.
Até que fui acordado com um barulho ensurdecedor. Um barulho monocórdico. Monótono. Repetitivo. Alto. Era um bum, bum, bum, ritmado. Parecia que a casa vinha abaixo.
Levantei-me ensonado, mas rápido, nu, e fui pela casa à procura de tal barulho infernal.
Cheguei até à cozinha.
Ela estava de volta da máquina de lavar-roupa que não parava de repetir os barulhos. A máquina parecia possessa e batia contra a parede. Ela estava a mexer em todos os botões, mas nenhum resultava. Percebi que estava a ficar assustada. Quando lhe toquei, por trás, para a afastar da frente e tratar do assunto, ela deu um salto, como se não se lembrasse que eu estava ali. Ou então foi só apanhada de surpresa no meio da sua concentração para desligar a máquina. Também pode ter sido por eu aparecer ali assim, nu, mandão, feito herói.
Chegou-se para o lado e eu deitei a mão à ficha e puxei-a da tomada. A máquina parou de trabalhar. O barulho cessou. O silêncio invadiu a casa. Olhámos um para o outro. Ela disse Não sei que raio aconteceu. E eu disse Não percebo nada de máquinas para além de desligá-las. Tens de mandar vir alguém para a arranjar.
Vi a desilusão momentânea na cara dela. Depois disse-me Vai tomar banho que o almoço está quase pronto. E eu fui. Ainda me virei para trás, antes de sair da cozinha, e vi-a a abrir a máquina para tirar a roupa lá de dentro e a água que ainda lá estava sair para fora da máquina e invadir a cozinha. Deixei sair um Foda-se! baixinho, mas voltei atrás e ajudei-a a apanhar a água com uma esfregona, enquanto ela tirava a roupa da máquina, a espremia para uma bacia e a pendurava no estendal da janela da cozinha. E fui tomar banho.
Quando voltei, de banho tomado, a mesa estava posta. Ela tinha feito um peixe ao sal no forno. Tinha aberto uma garrafa de vinho branco. A roupa já estava toda estendida e ela tinha posto um vestido.
Eu peguei na garrafa, verti o vinho nos dois copos e fui oferecer-lhe um. Demos um pequeno toque com os copos, um no outro, e dissemos ambos Tchim-tchim. E bebemos um pequeno gole.
E depois ela disse Vamos com calma. É para irmos com calma.
Eu fiz um pequeno e quase imperceptível sorriso e acenei com a cabeça a concordar.
Sentámo-nos à mesa e ela serviu-nos o peixe. Havia lá em cima da mesa uma salada de tomate para acompanhar.
O peixe estava muito bom. Aquele fora um bom almoço. Nós fomos com calma. Com muita calma. Mas as coisas não deram em nada. Acabámos por nos chatear, como nos tínhamos chateado de todas as outras vezes.
Mas não consigo esquecer aquele peixe ao sal. Estava mesmo muito bom.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/29]

Serviço Nacional de Saúde

Ela acordou assustada e a gritar por mim.
Levantei-me sobressaltado e fui ter com ela. Queixou-se de dores no braço. O braço do lado do coração, do lado onde sofreu uma mastectomia.
Tirou o casaco do pijama e levantou o braço. Estava tudo vermelho debaixo de sovaco. Arranhado. Como se ela tivesse andado a esfregar-se numa lixa de papel. E uma baba escorria por ali abaixo. Perguntei-lhe se lhe doía, se lhe dava comichão, se lhe ardia. Não, não e não, foi a resposta dela.
Dei-lhe banho. Ajudei-a a vestir-se. Comemos os dois qualquer coisa e arrancámos para o hospital.
Era uma boa hora. Havia pouca gente nas urgências. Fizemos a triagem. Fomos indicados para determinado serviço de determinada cor em determinada zona do hospital.
Não demorou muito para sermos atendidos. Uma médica jovem. Simpática. Então do que é que se queixa, minha querida?, perguntou, e ela desbobinou todo o rol de problemas que terminou naquela baba que escorria pelo corpo abaixo e que, agora, a assustava ainda mais, talvez por estar em frente a alguém que poderia perceber o problema, o drama pelo qual estava a passar.
A médica chamou outra médica e depois um médico para saber mais uma opinião, duas opiniões, opiniões diferentes da sua, Desculpe minha querida, é só para tentar perceber melhor o que é que possa ser, e depois exames, análises, mais uma vistoria, duas, três e um curativo e ordens para novos curativos no centro de saúde, uma consulta mais tarde, mais análises, exames, antibióticos, medicamentos e o regresso à casa partida se tudo continuar igual ou pior.
Respirámos fundo.
Eu dei graças ao Serviço Nacional de Saúde.
Ela rezou agradecendo a simpatia e o profissionalismo dos médicos que a viram. Tem sido quase sempre assim desde que começaram os problemas com a descoberta do primeiro caroço e depois com os problemas típicos da idade. Tem sido sempre muito bem tratada. Chora os problemas e a saúde e os dramas da velhice, mas dá graças pelas pessoas com quem se tem cruzado ao longo de todos estes anos.
Chegámos a casa, depois de termos feito uma paragem na farmácia, e ela disse Vou descansar um pouco, e foi-se deitar.
Eu sentei-me no sofá. Estava cansado. Acendi um cigarro e libertei toda a pressão que estava cá dentro. Mas ainda pensei A morte anda a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/24]

O Terramoto

1969.
Eu estava a dormir. Sei que estava a dormir porque depois acordei. Fui acordado.
Ela tinha-se levantado porque ouvira um barulho na cozinha. E foi descalça, e às escuras, do quarto até à cozinha para ver que barulho era aquele. E com a luz do luar que entrava pela janela da cozinha viu um prato partido no meio do chão, e um queijinho fresco tombado, que rebolou para baixo da mesa. Ficou intrigada. Mas enquanto estava intrigada, a casa tremeu toda, como se fosse de cartão, os candeeiros giraram no tecto, os pratos fizeram barulho no interior dos armários, a gaveta dos talheres abriu-se e alguns caíram no chão. Umas molduras que estavam em cima da televisão, caíram e partiram o vidro. Ela agarrou-se ao lava-louça, assustada. Não percebia o que estava a acontecer. Aquilo durou o que pareceu uma eternidade. Quando parou, ele apareceu na cozinha a correr e disse-lhe Um tremor-de-terra! e ela ainda teve presença de espírito para lhe gritar Cuidado com os vidros no chão! Mas ele nem ouviu, correu para ela, pisou os vidros e não os sentiu, agarrou-a pelos braços, abraçou-a e perguntou-lhe Estás bem?, e ela acenou com a cabeça, colocou a mão no seu ombro e disse-lhe O miúdo! e ele correu de volta para o interior da casa, entrou no quarto e pegou em mim ao colo. Embrulhou-me num cobertor e eu acordei e vi que estava ao colo dele.
Ele abriu a porta da rua e começou a sair e lá de dentro, ela gritou Não me deixes aqui sozinha., e ele voltou a entrar em casa e deu-lhe a mão e veio com ela numa mão e eu ao colo, no outro braço, todos em pijama, ela em camisa-de-noite, ambos de chinelos, e descemos a escadaria íngreme, com degraus de madeira, até à rua. Na rua encontrámos um mar de gente que corria para a praça, e fomos com eles, fomos na maré. Ainda aconteceu alguém deixar-se cair da janela de um segundo andar e alguém estar a gritar por socorro no alto de uma janela numas águas-furtadas e de outro alguém dizer Eu vou lá.
A praça estava cheia de gente. Gente em pijama. Gente com roupões. Gente em camisas-de-dormir. Gente descalça. Gente despenteada. Gente sem os dentes, sem as dentaduras. Gente sem o capachinho. Muita gente. Gente apanhada desprevenida, a dormir.
Ficaram por ali muito tempo. O tempo do medo. Cerca de uma hora. Em grupos. Grupos que se iam misturando. Uns que saíam daqui e iam para ali e para acolá. Muitas crianças. Muitas crianças que começaram a brincar. Às escondidas. À apanhada. De noite. No meio da praça cheia de gente apanhada desprevenida. Mas não havia polícia. Nem bombeiros. Nem protecção civil. Só gente. Muita gente.
E depois, depois não aconteceu mais nada, as pessoas ganharam coragem, perderam o medo que as levara ali e regressaram a casa. Mas não conseguiram voltar a dormir. Eu mal fui colocado na cama deles, adormeci. Ele não foi para a janela fumar um cigarro porque não fumava. Ela não tomou um calmante porque não sabia que isso existia. Deitaram-se os dois, comigo lá no meio, e ficaram a noite inteira a olhar para o tecto e a falar baixinho para não me acordarem e para afastarem o medo.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/04]