Estrela Rock

Deixa-me dizer-te uma coisa. Se eu fosse artista, seria um músico de rock. Guitarrista. Provavelmente também vocalista. Tenho pinta de vocalista. Mas guitarrista é que era. O guitarrista é o gajo da música. O gajo que caracteriza o som da banda. E acho que tenho estilo para estrela rock. Estar em cima de um palco e captar em mim todo os olhares sem me deixar amedrontar. Olha aqui o meu air guitar! Olha, olha! Estás a ver? Dou a volta ao braço. Como o Pete Townshend, estás a ver? Sabes quem é, não sabes? O gajo dos Who. Aquele que há uns anos foi acusado de pedofilia. Ou foi só de ter entrado em sites de pornografia infantil? Já não sei. Mas também não interessa muito. O que interessa é que um gajo destes, com pinta, com estilo, tinha as gajas todas na palma da mão, estás a ver? É preciso ter estrutura para se ser estrela rock. Eu acho que tenho essa estrutura. Tenho pena é de não saber tocar guitarra. A culpa foi dos meus pais. Nunca me puseram a aprender a tocar guitarra. Naquela altura os miúdos jogavam andebol e iam para o escutismo. Tive uma semana no escutismo. Andei quatro anos a jogar andebol. Nenhuma das actividades me serviu de nada ao longo da vida, e se ela vai longa. Ainda cheguei a jogar andebol na União de Leiria, sabes? Foi o meu momento de glória. Mas não ganhei nada. Nunca cheguei a fazer nada de glorioso no andebol. Ganhei uma vez uma medalha num campeonato de futebol de salão. Naquela altura chamava-se assim, futebol de salão. Futsal é uma frescura amaricada de gajos que não são bons o suficiente para jogarem futebol a sério, sabes? futebol de onze. Ainda joguei futebol de onze em campos pelados. Esfacelei muitas vezes os joelhos, mas eram jogos entre amigos. Às vezes os jogos terminavam à porrada. Éramos todos muito nervosos. E quando perdíamos, tínhamos todos muito mau perder. Mas eu devia era ter aprendido a tocar guitarra. Se tivesse aprendido a tocar guitarra, poderia ser hoje uma estrela no firmamento e no Walk of Fame ou no Rock and Roll Hall of Fame. Apareceria nas colectâneas dos melhores sucessos do ano. Ia tocar aos festivais de Verão. Qual David Fonseca? Qual Paulo Furtado? Qual Afonso Rodrigues? Era eu, pá! Ao pé de mim, todos eles seriam uns meninos. Porque eu tenho garra para isto. Sou um animal de palco. Um dia fui convidado por um professor, no liceu, para declamar poesia na festa de final de ano lectivo. Eu, que nem gostava de poesia, estás a ver? Quando senti as tábuas do palco debaixo dos meus pés, oh meu Deus, ofusquei todas as outras participações. Até não há muito tempo, ainda se falava da minha prestação. Fumei uma ganza antes de subir ao palco e destruí os poemas que me tinham destinado. Ficou toda a gente admirada comigo. E chegaram-me a dizer Tu tens pinta para o espectáculo. Tu devias ir para teatro. Devias ser actor. Acabei em economia. Também não fiz nada com a merda do curso. Economia! Quem é que quer saber da merda da economia? Como é que engatas uma gaja a dizer que estás a estudar economia? Foi aí que comecei a mentir. Trabalhava em cinema, estás a ver? Comecei por dizer que era assistente de produção, depois assistente de realização, depois argumentista, mas foi quando comecei a dizer que era realizador que as coisas ganharam uma dimensão tal que tive de abandonar a mentira. Já não tinha mãos a medir com o assédio que sofria por parte das gajas. Das gajas e dos gajos. Que aquilo ali, marchava tudo. Mas nunca gostei de gajos. E foi aí que deixei de sair como saía. Acalmei. Terminei o curso. Comecei a trabalhar. Uma vida de merda, estás a ver? Eu que me imaginava o novo Jim Morrison a enfiar pelas goelas abaixo todas as drogas que me ofereciam, como o Jim Morrison fazia com aquela tipa dos Jefferson Airplane, nunca sei o nome dela, quando fizeram a digressão peça Europa, percebes? Estavam sempre a voar, sem aterrar, sem precisarem de abastecer, sempre abastecidos, numa trip do caralho, mas afinal, percebi que já era tarde demais para aprender a tocar guitarra e ser uma estrela rock. A culpa, no fundo foi dos meus pais, não é? Nessa altura ainda me dei com uns gajos da faculdade que tinham uma banda. Cheguei a tentar escrever umas letras para eles. Mas não tinham pinta para aquilo, pá! Aquilo era pessoal que fez uma demo, chegaram mesmo a editar um disco, mas nunca foram a lado nenhum, não tinham estaleca e nunca venderam o suficiente para serem alguma coisa. Eu, eu se tivesse sido músico, acredita, seria mesmo uma estrela do caralho que toda a gente conheceria, como o António Variações, estás a ver? Um gajo excêntrico. Eu também seria excêntrico. As estrelas têm de ser excêntricas para que as vejam acima da mediocridade do pessoal normal. Se os meus pais me tivessem posto a aprender a tocar guitarra…
…e foi aqui, precisamente aqui, neste queixume familiar, que a gaja conseguiu aproveitar uma pausa na minha conversa para me perguntar Mas, afinal, queres que te faça o broche, ou não? ao que eu tive de responder Estou sem dinheiro, pá! E estava. Estava sem dinheiro e tinha acabado de ser posto fora do quarto que tinha alugado na parte velha da cidade. Ah, se eu fosse uma estrela rock!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/12]

E se Eu Fosse?…

E se eu fosse preto? Devia ser maltratado por isso?
E se eu fosse branco? Devia ser glorificado?
E se eu fosse homossexual? Gay? Paneleiro? Maricas? Bicha? Sapatona? Lésbica? Lambedora de velcro? Fessureira? Fufa? Estaria fora da lei de Deus?
E se eu fosse Bispo católico? Devia ser pedófilo?
E se eu fosse Bispo evangélico? Devia receber dízimo?
E se eu fosse Pastor protestante? Devia foder?
E se eu fosse ateu? Devia não ter direito a viver em paz?
E se eu fosse mulher? Devia acusar um homem de assédio?
E se eu fosse homem? Devia assediar uma mulher?
E se eu fosse deputado português? Devia ir a Serralves ver as pilas do Mapplethorpe?
E se eu fosse deputado português? Devia legislar em causa própria?
E se eu fosse deputado português? Devia ser leal ao partido? Devia ser fiel ao povo que me elegeu?
E se eu fosse Santana? Devia fazer mais um partido igual aos outros a fingir que é diferente?
E se eu fosse Aníbal? Não, eu não podia ser Aníbal!
E se eu fosse professor? Devia gostar do Mário Nogueira?
E se eu fosse PSP? Devia pagar a farda?
E se eu fosse GNR? Devia pagar a farda?
E se eu fosse Comando? Devia morrer na recruta?
E se eu fosse parvo? Devia levar um par de estalos?
E se eu fosse Índio norte-americano? Devia pôr o Donald Trump fora dos Estados Unidos?
E se eu fosse o Donald Trump? Devia assediar mulheres? E homens? E gabar-me de ser único? E grande? E enorme? E espectacular? E devia levar dois pares de estalos?
E se eu fosse Alexandre Frota? Devia fazer anal técnico?
E se eu fosse Jair Bolsonaro? Devia dar um tiro nos cornos?
E se eu fosse Povo? Devia ser estúpido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/05]

Qual o Preço da Vida?

…e depois, cada vez mais me convenço da nossa pequenez, mesmo quando explodimos de grandiosidade e damos passos enormes, maiores que nós, e o futuro nos parece risonho e o Homem se põe em bico-dos-pés para tentar ser Deus, dar a volta ao cosmos e ultrapassar a morte, descobrimos que somos o nosso próprio horror, quando nos tornamos carrascos de nós próprios e injuriamos e batemos e matamos quem temos ao nosso lado, porque queremos ser donos do que não nos pertence, e olho para os jornais e vejo as notícias sobre os 1% que comanda, efectivamente, este mundo, e percebo que todos nós queríamos ser, em alguma parte do tempo e do espaço, esse 1%, achando que podíamos ser donos e senhores da vida e morte de outrem, mas as manchetes do jornais enchem-se de indignação, nós enchemos-nos de indignação, as caixas de comentários dos jornais online enchem-se de indignação e as redes sociais indignam-se por inteiro, em coro, tudo muito alinhadinho, sem vozes discordantes nem dissonantes, e vimos todos condenar do alto de todas as nossas certezas e convicções, o criminoso quando, a bem da verdade, fomos nós os criminosos, nós os que deixámos acontecer, nós os mansos, nós os que estamos parados à beira da estrada a ver passar o cortejo dos horrores, a ver passar Auschwitz e o Trabalho que Liberta, Sarajevo, o Ruanda, o Médio-Oriente, e que só nos preocupamos com a nossa vidinha, vemos passar o cortejo dos horrores mas não nos metemos que não nos diz respeito e depois vamo-nos indignar em conjunto, porque em grupo é tudo mais bonito e simples, e não é preciso pensar, alguém o há-de fazer por nós e só temos de seguir a maré, não levantar ondas para que a indignação não se abata sobre nós, e por isso até sabe bem quando Elon Musk sugere que tudo isto é uma simulação, a nossa vida e a indignação e o futebol e o assédio e a violência doméstica e a morte são apenas o resultado de um qualquer programa computacional à escala cósmica e nós não somos mais que 0s e 1s que alguém programou para ser assim, agir assim e terminar assim, mas quando vejo o filme O Quadrado do sueco Ruben Östlund, candidato ao Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, em 2018, em representação da Suécia, filme onde se reflecte sobre o vazio e a virulência das sociedades actuais, sobre as constantes mudanças de códigos sociais e culturais e qual o preço que tem a vida de qualquer um de nós e qual o nosso papel nesta exposição absurda, onde todos temos os mesmo direitos e deveres, só que não, a realidade abate-se cruel sobre a teoria que…

[escrito para o Jornal de Leiria em 2018/02/01]

Fui Despedido

Fui despedido. Já está a tornar-se um hábito. Não consigo parar muito tempo no mesmo sítio. Esta gente tem muitas regras. Demasiadas regras. São só regras. Para fazer e para não fazer.
Eu fui despedido por ter assediado um rapaz lá do escritório. Um rapaz? Só porque lhe dei uma palmada no rabo quando ele me veio dizer que não podia beber em serviço. Não podia beber porquê? Não estava a conduzir. Não ia fazer nenhuma operação. Não tinha a vida de ninguém nas minhas mãos, porque raio não podia enfiar um bocado de vinho no bucho? Estava com sede.
Enfim, desvalorizei a coisa, ele virou costas, dei-lhe uma palmada no rabo em jeito de estar tudo bem e, vai daí, processo sumário por assédio, por estar ébrio no local de trabalho e por ter injuriado as pessoas que me foram pedir para sair do escritório.
Nem trouxe indemnização. Mas tive sorte, pagaram-me os dias que trabalhei.
Claro que despachei logo ontem esse dinheiro ao balcão deste bar. E esqueci-me que já devia alguns meses do quarto onde vivia. Quando lá apareci, durante a madrugada, tinha as minhas coisas à porta e a fechadura mudada. Deixei lá a coisas. Para onde é que as ia levar? Para aqui? É que mudei-me aqui para este balcão, pelo menos enquanto não me puserem, também, a andar.
Amanhã tenho de arranjar outra coisa para fazer. Preciso de dinheiro. Quem não precisa? Mas as oportunidades estão a ficar reduzidas. Já não sei onde ir. Já não sei o que fazer.
Mas amanhã logo se vê. O importante é agora. Ainda não jantei. Nem almocei. Olha, é mais um copo. Tinto. Podes assentar. Vou à rua fumar um cigarro, mas já volto.
E saio à rua para fumar um cigarro, e ando uns metros para a frente, mas há muita claridade na rua. Nem o cigarro me sabe bem, fumado aqui fora, debaixo de toda esta luz. Mas que raio de luz é esta? É noite… Porra é um camião… Um cami…

[escrito directamente no facebook em 2018/01/30]

Tempos Perigosos

Cheguei a casa com uma salsicha assada que trouxe do Rei dos Frangos. Cortei-a às rodelas e coloquei-as numa carcaça. Peguei numa mão cheia de batatas fritas de pacote e aconcheguei-as no prato, ao lado do pão com a salsicha. Agarrei numa garrafa de cerveja e fui sentar-me frente à televisão para ainda ver um pouco das notícias do dia.
Cheguei no momento em que se falava da entrega dos Globos de Ouro e da luta das mulheres de Hollywood contra o assédio.
Parei de comer e fixei-me na notícia. Percebi-a. Estava solidário. Senti, mesmo, os olhos a ficarem molhados ao ouvir algumas das mulheres actrizes activistas a falar. Mas não me satisfez. Sim, percebia-as, mas a luta pecava por defeito. Achava bem que lutassem contra os homens que utilizavam a sua superioridade financeira, social e profissional para tirar vantagem sobre elas. Percebia-as quando gritavam que tinha chegado ao fim o reinado destes homens. Mas era só disto que se tratava? Mulheres contra homens?
E depois pensei: e o que é que vai ser das mulheres de peitos generosos estrategicamente decotados para tirar vantagem? Mas achei que estava a ser parvo. Essas mulheres não existiam, eram um mito.
Mas o que existia era o empregado assediado pelo patrão; o preto assediado pelo branco; o funcionário assediado por um qualquer pequeno chefe de uma qualquer repartição; do jovem assediado pelo idoso (que tem a mania que sabe tudo); do idoso assediado pelo jovem (que acha que nunca vai ser velho); dos povos calões do sul assediados pelos povos trabalhadores do norte; dos 99% assediados pelo 1%; afinal, do assédio que quem está por baixo sofre por quem está por cima, seja no salário, na carreira, nos objectivos, na política, no amor, no desejo ou nas portas e janelas que se abrem ou não.
Notei que tinha a carcaça na mão e a salsicha já estava fria.
Tinha perdido o apetite. Acabei com a cerveja.
Acendi um cigarro e fui até à varanda.
Ao fundo vi passar um jovem casal de namorados abraçados e a trocarem pequenos beijos.
Percebi que eram tempos perigosos, estes. Tempos de mudança, é certo, mas perigosos.
Acabei o cigarro, mandei a beata para a rua e disse para mim próprio, Olha, que se foda!

[escrito directamente no facebook em 2018/01/08]