A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]

Abandonado numa Estrada Deserta

Está um calor de abrasar. Vejo, à frente, lá ao fundo da estrada, através do pára-brisas do carro, as ondas de calor que sobem da estrada.
Ela vai a conduzir. Eu vou ao lado. Vamos em silêncio. O rádio do carro está desligado. Não me lembro quem é que o desligou. Terei sido eu? Ela? Ela vai concentrada a olhar a estrada. Mas não precisa de muita concentração. Estamos numa recta infindável. Estamos numa estrada deserta. E não se ouve o barulho de outro carro. Só este. O barulho rouco do motor em sobre-aquecimento. E os pneus de borracha a descolar do asfalto mole, quase derretido, um quase-pântano que tenta prender o movimentos das rodas a circular.
Vou com o braço pousado na janela aberta. Vão as quatro janelas abertas. Mas não se sente quase nenhuma aragem. Estamos mesmo no reino do calor extremo.
Ela também leva o braço esquerdo fora do carro. Conduz só com uma mão. Não há muito para conduzir. Não há ultrapassagens. Não há que acelerar, travar, desviar.
Ela podia deixar-se dormir que o carro iria sozinho lá para onde vamos – e para onde é que vamos? Ela pegou no carro, mandou-me entrar, e arrancou. Arrancámos e aqui estamos.
Olho para o pulso, à procura do relógio e vejo as horas. Marca oito horas. Mas não pode ser. Oito horas, da manhã ou da tarde? Nenhuma das oito horas tem o sol tão alto. Levo o relógio ao ouvido. Está parado. Não lhe dei corda. Tiro-o do pulso e dou-lhe corda. Quero acertá-lo. Olho para o tablier do carro. Olho para os manómetros. Olho para o espelho retrovisor interior. Não há relógio em lado algum. Não há horas.
Levo a mão ao bolso das calças. Procuro o telemóvel. Não o encontro. Viro-me para ela e pergunto-lhe Viste o meu telemóvel? Ela olha para mim – e eu não sei se gosto daquele olhar. Com um gesto da cara, aponta o queixo para os meus pés. Eu olho para baixo e vejo o telemóvel partido. Pego-lhe. Pego-lhe nas peças. Nas pequenas e nas grandes peças partidas do que já foi o meu telemóvel. Sem a olhar pergunto-lhe O que é que aconteceu? e ela não me responde. Continua a conduzir o carro e atenta ao deserto que se abre perante nós.
Largo os pedaços do telemóvel na estrada. Vou deixando cair através da janela ao longo da estrada. O que é que terá acontecido ao telemóvel?
Depois, ela pára o carro. Pára o carro num descampado. Estamos parados numa estrada deserta no meio de um deserto. Não se vê ninguém. Ela diz Paragem para a mijinha. Ela abre a porta do carro mas não sai. Eu abro e saio. Dou três passos, agarro na pila e começo a mijar. E digo Foda-se! que me sabe tão bem.
E depois ouço.
Ouço o motor do carro a trabalhar. O carro a arrancar. Viro-me para trás e vejo o carro a acelerar na estrada deserta e a mão dela fora da janela, a fazer-me um pirete.
Meto a pila dentro das calças. Sinto alguns pingos a caírem nas cuecas. Mas logo secam. Corro para a estrada mas já é tarde. Como o pó que as rodas do carro fizeram ao arrancar. Vejo-o fugir de mim. Ouço-o fugir de mim.
Estou parado na estrada. Estou a transpirar. Ainda vejo o carro lá muito ao fundo, transformado numa onda de calor, a tremer. Mas já não o ouço. Só ouço a minha respiração. O cantar das cigarras. Penso nas cobras. Olho para o chão à minha volta. Pergunto-me O que é que aconteceu?
Olho para a frente, para onde o carro foi, para onde o carro desapareceu. Olho para trás, para de onde viemos. E penso Onde caralho é que estou?
Começo a andar na direcção do carro. Começo a andar na direcção do carro na esperança que ela volte atrás e me apanhe.
Mas não tenho grandes esperanças.
Acho que deve ter havido merda. Porque é que vínhamos em silêncio? O que é que eu fiz? O que é que eu lhe fiz? Devo ter feito alguma, de certeza. Mas o quê? O que é que eu lhe fiz para ela me largar aqui, assim, debaixo deste calor tórrido? E daqui a umas horas é noite. Há por aqui cobras. Não sei onde estou. Tenho a cabeça a ferver. Tenho sede.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/10]

A Picada

Sentia o vento correr de uma janela à outra e levantar-me os cabelos que, por vezes, me tapavam os olhos.
Percorria Trás-os-Montes. Estava numa zona árida. Rochosa. Quente. Solitária. Uma paisagem lunar. Não via ninguém há que tempos. Nem me lembrava do último carro com que me tinha cruzado. Nem uma vaca. Nem uma ovelha. Só aridez. Calor. Talvez houvesse um sardão, mas não me recordo de o ter visto.
Conduzia um Hyundai. Sem ar condicionado. Nem vidros eléctricos. Nem fecho centralizado de portas. Um carro analógico. Mas tinha rádio. Levava por companhia uma qualquer música popular portuguesa. Esticara-me por cima do banco do lado e abri o outro vidro.
O cotovelo pousado na janela aberta. A mão esquerda no volante. A mão direita no manipulo das mudanças. Nos dedos um cigarro a fumegar. Na rádio uma pimbalhada. À frente os quilómetros por fazer. Uma recta sem fim. Um horizonte que fugia cada vez que me aproximava. O céu azul, de um azul eléctrico. Dois farrapos de nuvem. O sol difuso, com uma argola brilhante em toda a volta, aumentando-o ainda mais. Estava sozinho no mundo. Eu, o cigarro na mão e a música na rádio. Depois lembrei-me que também ouvia o motor do carro. Sim, não conseguia escapar-lhe. Parecia um motor de rega.
Mandei a beata janela fora. Tinha sede. Precisava de um café.
De repente uma picada. Uma picada no pescoço. Uma picada que quase me paralisou. Uma picada atrás, no pescoço.
Guinei o volante para a esquerda. Travei. Reduzi as mudanças. Continuei a travar. Parei. Travão de mão. Chave. Carro desligado. E uma dor do caralho.
Saí do carro. O sol queimava. O asfalto parecia borbulhar. Dei a volta ao carro e fui para a berma. Para cima de uma rocha. Uma rocha a ferver. Eu transpirava. Doía-me o pescoço. Não o pescoço todo. No sítio onde senti a picada. Começou a inchar. Fui olhar no espelho retrovisor. Não via nada, era atrás. Mas sentia já uma batata a crescer.
Teria sido uma abelha? Uma vespa? Uma vespa asiática?
Sentei-me numa rocha e senti o rabo a aquecer. Tinha sede. Doía-me o pescoço. Estava a ficar sonolento. Devia ir para o carro. Devia pôr o carro a trabalhar. Devia arrancar. Devia procurar uma casa. Uma terra. Um hospital.
Vi o carro a afastar-se de mim. Não estava a ir embora, estava só a afastar-se. Como se o espaço entre nós estivesse a aumentar. O sol descia sobre a Terra. Sobre mim. Senti o coração disparar. Tive medo. Transpirava. Transpirava de calor e de medo.
Queria levantar-me, mas não conseguia. Comecei a arrastar-me. Parti as unhas a tentar ferrá-las na rocha para me puxar. Fiz sangue nos dedos. Comi o pó da berma da estrada. Cheguei ao carro. Invoquei todas as minhas forças para agarrar o manipulo do carro. Abrir a porta. Entrar. O coração parecia saltar do peito. As suas batidas feriam-me os ouvidos. Não conseguia mexer o pescoço. Estava muito inchado.
Estiquei-me. Forcei o meu corpo a esticar-se. Mais e mais. Como se fosse elástico. Estava quase a chegar ao manípulo.
E o sol tombou sobre a Terra. Sobre a minha cabeça. Tudo ficou vermelho. Depois amarelo. Finalmente ficou tudo branco. Branco e vazio.
E é onde eu estou agora. Num espaço branco. Asséptico. Vazio. Silencioso. Não sei onde estou. Não sei como estou. Estou aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/19]

Uma Co-Produção

Já conhecia Z. há muitos anos. Já tínhamos trilhado muitos caminhos juntos muitas vezes. Alguns deles eu já nem me lembrava. Apareciam assim, por acaso, quando alguém referia algo e isso despoletava uma memória, um regresso, e então fazia-se luz e percebia que já tinha lá estado, já lá tinha feito alguma coisa. Com algumas pessoas. Nomeadamente, com Z.
Daquela vez, estávamos num país africano. Num país africano que já não me lembro qual, tal a quantidade de África que fomos conhecendo ao longo de tantos anos.
Lembro-me que estávamos numa esplanada. Numa espécie de esplanada. Bebíamos umas cervejas. Quer dizer, eu bebia uma cerveja. Ele bebia uma Fanta. Estava calor. Estávamos de calções e chinelos. Sem carteira. Sem mala ou mochila. Sem relógio. Só o telemóvel enfiado no bolso dos calções e algum dinheiro dividido em vários bolsos. Não era por medo. Era só para não criar a ocasião.
Já tínhamos bebido várias garrafas, e fumado vários cigarros, quando ele disse Anda! Temos uma reunião. E eu pensei Reunião? Afinal estávamos de calções e chinelos. Ainda lhe perguntei com um gesto de cabeça o que é que se passava. Ele respondeu-me também com um gesto de cabeça para o seguir. E segui. Às vezes é melhor não fazer muitas perguntas. Às vezes a comunicação em silêncio é suficiente. Mesmo que eu não soubesse onde íamos e fazer o quê nessa reunião, onde podia ir de calções e chinelos, o melhor mesmo era ir. E fui.
Fomos a pé, com os chinelos tipo havaianas a bater nos pés, schlap-schlap, a passar por estradas quase sem asfalto, com muita terra batida pelo meio, a saltar por cima de esgotos a correr a céu-aberto, a transpirar, a percorrer quase metade da cidade até chegarmos a uma zona de prédios muito altos, com muitos andares e muitas janelas.
Entrámos num desses prédios. O confronto com o ar-condicionado do prédio deixou-me com frio. Z. não. Z. nunca tinha frio ou calor. Z. estava sempre preparado para tudo. Cruzámos a cidade sem que lhe caísse uma gota de transpiração pela fronte. Entrámos no prédio e não lhe vi nenhum arrepio ao choque com o ar fresco, demasiado fresco para quem vem das ruas da cidade.
Subimos umas escadas. Umas escadas sem fim. Quando parámos, eu já deitava os bofes pela boca. Z. olhava para mim e perguntava Então? Então o caralho!, pensava eu. Então o quê? Se estou cansado? Estou. Acabei de subir não-sei-quantos degraus. É normal que esteja cansado. Mas ele também os tinha subido. Também fumava como eu. Talvez mais que eu. E não o via assim. Cansado como eu. E não disse nada. Segui-o.
Entrámos por um corredor. Batemos a uma porta. Ouvi um clic de abertura. Entrámos. Disse quem éramos. Ao que íamos. Esperámos. Esperámos em pé, frente a uma janela aberta sobre a cidade africana aos nossos pés. E vista dali, do alto daquela janela, a cidade era bonita. Lindíssima. Claro que, ao pormenor, quando descíamos à rua, encontrávamos os problemas. Mas, dali, dali era realmente muito bonita.
Franquearam-nos a porta. Entrámos. Estava um saco de plástico em cima de uma mesa. Z. cumprimentou alguém. Agarrou no saco de plástico e fomos embora.
Voltámos às escadas. Começámos a descer. A meio parou. Abriu o saco. Retirou uns maços de notas e disse para os distribuirmos pelos bolsos. Eu ainda fiquei boquiaberto a olhar para aquelas notas todas. Mas depois ele disse Despacha-te. E eu despachei-me. Distribuímos várias notas pelos bolsos dos calções dos dois. O resto foi mesmo no saco de plástico, a dar-a-dar na mão de Z. enquanto regressávamos à mesma esplanada do outro lado da cidade. Fomos a pé. A bater chinelo pelos restos de asfalto e terra batido. A saltar por pequenos ribeiros de esgoto a céu-aberto. Eu a transpirar. Ele não.
Chegámos à esplanada. À espécie de esplanada. Acendemos um cigarro cada um. Era preciso recuperar os níveis de nicotina no corpo. Pedimos uma cerveja para mim e uma Fanta para Z.
Apareceu um miúdo. Pediu dinheiro. Z. disse para se sentar na mesa connosco. Perguntou-lhe se tinha fome. O miúdo acenou a cabeça. Um fio de ranho caía para a boca. O miúdo limpou-o com as costas da mão. Z. pediu um hambúrguer e uma Fanta para o miúdo.
E assim estávamos nós. Eu a beber uma cerveja. O miúdo a comer um hambúrguer. E eles os dois a beberem uma Fanta de uma cor tão fluorescente que parecia radioactiva.
Em cima da mesa o saco de plástico com os maços de dinheiro. Eu, de vez em quando, levava as mãos aos bolsos dos calções para ver se o dinheiro que lá estava ainda lá estava. Z. continuava a fumar sem se preocupar com nada disto.
No dia seguinte íamos começar a filmar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/05]

Uma Toupeira Morta

Calcei os chinelos nos pés, enfiei uma t-shirt e saí de casa. Deixei a porta no trinco. Aqui não se passa nada. Ia ao Intermarché comprar vinho. Estava calor. Tinha gasosa e limões em casa. Faltava-me vinho para um Tinto de Verano.
Fui a pé estrada fora. A bater os chinelos no asfalto quente. Cruzei a aldeia. As pessoas olhavam para mim. Estava calor.
No Intermarché olhei a prateleira dos vinhos. Não precisava de um vinho muito bom. Era para misturar. Podia ser uma zurrapa. Comprei uma caixa de Parente. Cinco litros.
Ainda não tinha saído do supermercado já estava a provar o vinho.
Saí. Comecei a bater o chinelo no caminho de regresso. Com a caixa na mão. Não cheguei a cruzar a aldeia.
Encostei-me a uma árvore. À sombra. A fugir do calor. E tentei matar a sede. Bebi. Bebi o Parente. Levantei a caixa e abri a pequena torneira sobre a boca. Bebi. Mais tarde já não conseguia levantar a caixa, embora estivesse mais leve. Mais tarde era a minha cabeça que se colocava por baixo da caixa. E tentava rapar o fundo.
Depois… Depois devo ter adormecido. O calor. O vinho. A dormência. O sono.
Senti-me ir.
Ouvi vozes. Parecia-me ao longe. Mas não percebia o que diziam. Eram vozes, somente. Não sabia se estava acordado. Não sabia se estava a dormir. Não sabia se sabia alguma coisa. Senti frio. Senti uma dor no estômago. Como algo que se movesse em mim. Se calhar algo que comi. Se calhar algo que bebi. O vinho?
Pareceu-me sentir dor. Um mal-estar. Mas não via nada. Não sabia nada. Não sabia se estava acordado ou a dormir. Podia ser um sonho. Um pesadelo. Uma loucura momentânea.
E depois… E depois nada.
Acordei.
Acordei caído no meio de uma estrada de terra batida. Abri os olhos devagar. Muita claridade. Não percebi onde estava. Não reconhecia nada à minha volta. Doía-me a cabeça. A barriga. Os braços. Tinha os pés descalços. Vi um chinelo ao longe. Caído no chão. Levei a mão à cabeça e vi que tinha sangue. Devo ter caído, pensei. Depois vi os braços. Tinha pequenas picadelas com sangue. Também vi sangue na camisola. Uma mancha. Uma mancha grande. Levantei-a e vi. Uma costura na barriga. Uma costura grande e mal feita. Ainda havia sangue. Comecei a tremer. De frio. De medo.
Pensei que nesse dia de manhã o gato tinha largado uma pequena toupeira à entrada de casa. Uma toupeira morta. Era para mim. Pensei na toupeira. Pequena. Pequenina. Parecida com um rato mas com o focinho em bico. Para furar.
Pus a mão sobre a costura na barriga. A mão ficou com sangue. Senti vertigens. Má-disposição. Vontade de vomitar.
A cabeça começou a andar à roda.
Senti-me ir.
Não sei o que aconteceu depois.
Agora acho que estou num hospital. Mas não tenho a certeza. Há umas máquinas. Mas também há uma certa sujidade.
Não sei onde estou. Mas estou com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/31]

Não Saber o que Fazer a Seguir

Saí de casa depois de almoço.
Pus os pés na estrada e fui por ali fora. O sol a dar na cabeça. Os carros a passarem rente a mim. Naquela zona não há passeio. Entre o asfalto e o campo de terra lavrada há uma vala para deixar correr as águas em dias de chuva. O que é feito desses dias?
Não sei onde é que ia. Ia, só.
Os Domingos são dias de uma certa melancolia. E quando não há bola, fico sem saber o que fazer. É que não posso ficar em casa o tempo todo. Não posso ficar dentro da cama o tempo todo. Não posso ficar debaixo dos lençóis o tempo todo.
Preciso livrar-me desta força que me prende. Faço um esforço. Às vezes penso que é um esforço inglório. Acabo sempre por voltar para lá. Sim, acabo sempre por voltar para lá, mas enquanto ando aqui por fora sinto-me bem. Relativamente bem.
Saí de casa e fui por ali fora.
O sol estava forte. Batia-me com força na cabeça. Eu caminhava pelo asfalto e, quando vinha um carro, afastava-me para a vala. A vala estava seca, mas era difícil caminhar na vala. O caminho não era direito e entortava-me os pés. Deformava-me as sapatilhas. Magoava-me os joelhos. Houve uma altura em que eram muitos os carros e tive de ir para o campo lavrado. Entre a vala de inclinada e os torrões de terra seca do campo lavrado não sabia qual o melhor caminho. Mas optei pelo campo de terra lavrada. Sujei as sapatilhas. Pensei que, mais tarde, teria de as lavar. Não consigo andar com as sapatilhas sujas. Não, não me incomodam as sapatilhas sujas. Tenho umas All Star todas porcas. A minha mãe até tem vergonha de sair comigo se eu usar as All Star tal o seu estado de sujidade. Mas não estas. Estas, umas New Balance 996 são muito boas para caminhar, mas não podem ficar sujas. Não ficam bem sujas. E isso incomoda-me. Mas anotei. Passei por cima da vontade e decidi que as limpava quando chegasse a casa. Logo que chegasse a casa.
O sol estava quente. Encontrei uma árvore no caminho. Não sei que árvore era. Não percebo nada de árvores. Mas tinha uma boa ramagem. Um tronco grosso. Sentei-me lá debaixo, à sombra. As costas contra o tronco. Puxei de um cigarro. Acendi-o.
E, depois de fumar ali sentado, o que é que iria fazer?
Essa era a pergunta que eu fazia ali sentado. Na verdade não conseguia descansar. Na verdade, nem conseguia saborear o cigarro. A minha preocupação era sempre o que é que iria fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem onde estou porque estou sempre a pensar onde vou a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a fazer o que faço porque estou sempre a pensar o que fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a gostar de ninguém porque estou sempre a pensar em quem vou gostar a seguir.
Por vezes sinto-me enlouquecer. É por isso que gosto de me enfiar na cama. Tapar-me com os lençóis. Não ver nada. Não ouvir nada. Deixar passar o Domingo. E os outros dias da semana todos, uns atrás dos outros. Depressa. O tempo a passar rápido.
Acabei o cigarro. Apaguei a beata na terra. Levantei-me.
Não sabia o que fazer.
Não sabia para onde ir.
Não sabia o que queria.
E estava ali assim, naquela imobilidade, quando chegou o carro.
O carro parou. Abriu-se uma janela. Ela olhou para mim a sorrir e perguntou Queres vir? E eu disse Sim, mãe. Ela abriu a porta do outro lado e eu entrei.
Enquanto ela engatava a primeira e o carro arrancava, ainda me disse Fiz um Bolo Veludo de Framboesa. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/24]

Brincadeiras Perigosas

Desatámos todos a fugir. Cada um para o seu sítio. Quase todos nos estaleiros dos prédios em construção. Fazíamos muito barulho. Pisávamos restos das obras. Tubos em pvc. Telhas. Tijolos. Pedaços secos de cimento. Algumas tábuas. Era preciso cuidado com as tábuas que podiam conter pregos. Depois entrávamos nas casas abertas, ainda sem paredes. Sem portas nem janelas. Eu encostava-me a um pilar. Deixava-me escorregar para o chão. Parava de respirar. Sentia o coração a bater muito. Muito e depressa. E punha-me à escuta. A tentar ouvir algum barulho na calada da noite. Ainda ouvia uns passos que logo se extinguiam. Escondiam-se, os passos. O motor do carro estava a funcionar. E aquela voz, invariavelmente zangada, Venham cá! Venham cá, meus caralhos! Eu sei que estão aí! E estávamos. Mas não íamos. Ficávamos ali escondidos. Entre as obras. À espera que o carro arrancasse. Que o carro arrancasse e levasse o homem com ele lá dentro. E que voltasse o silêncio. E então, sim. Eu saía de onde estava. Os outros também. E preparávamos a próxima vítima.
A estrada. A estrada escura entre dois prédios em construção. Uma placa de zinco tombada no chão da estrada. Uma estrada de pouco asfalto. De muita brita. E terra. E areia. E cimento. E tijolos partidos. E buracos. Pronto, buraquinhos. Umas pequenas ausências de asfalto na estrada, restos inacabados que ficavam do abre-e-fecha da estrada para colocar um cano de esgoto, o tubo da electricidade, a conduta da água, o cabo do telefone. Depois, uns de um lado da estrada e outros do outro. Um rolo de papel higiénico estendido de um lado ao outro da estrada. Cada grupo agarrava numa ponta. À altura dos olhos. E esperávamos. Havia sempre um. Havia sempre um carro que se atrevia a passar por ali. Estrada escura, ainda sem iluminação pública. Boa para namorar. Boa para namorar dentro do carro. E então, nós esperávamos por eles. Os carros.
E eles vinham. Com a escuridão da noite. Faróis ligados a seguir a estrada do bairro em construção até um tapume, uma barraca. E, de repente, aquele raio de luz. Os faróis incidiam na folha branca esticada do papel higiénico que reflectia aquela claridade de volta ao carro, ao condutor e ao susto. O condutor, num primeiro momento, assustava-se. Assustava-se com o flash de luz a cruzar a estrada de um lado a outro. E depois, a chapa de zinco a ser pisada. O barulho ensurdecedor na noite. A aldrabar os travões. O carro a pisar barulho e a deslizar em surf citadino. Uma desgraça. Um susto. O medo.
Geralmente os carros davam meia volta e regressavam pelo mesmo caminho. Com fogo no rabo. Alguns, mais afoitos, percebiam a marosca. Brincadeira de putos. Glória de adolescentes. Saíam dos carros e prometiam porrada. Venham cá! Venham cá, meus caralhos! Eu sei que estão ai!.
Uma noite as coisas podiam ter corrido mal. O carro chegou. Cegou com o flash de luz. Assustou-se com o barulho na placa de zinco. Fez um pião ao travar. E enfaixou-se numa betoneira.
Silêncio.
Esperávamos a reacção. Para saber o que fazer a seguir. Mas estava silêncio. Estariam feridos? Mortos? De repente uma porta do carro a abrir. E um tiro. Dois tiros. Três tiros. Desatámos todos a fugir. Desta vez a fugir mesmo de lá. A fugir a sério. Agora já não era brincadeira. Agora, alguém podia magoar-se. Fugíamos para a rua. Para casa. A casa de cada um. O refúgio seguro. O refúgio com os pais. E foi nessa altura que C. escorregou na brita, ao descer uma rampa, caiu, e foi por ali abaixo, a rolar pela brita. Parámos todos a olhar para trás. P. foi ajudar C. a levantar-se. E fui espreitar o carro. E vi um homem parado, ao lado da porta aberta do carro, com o braço direito esticado e uma pistola na mão. À escuta. Mas só se ouvia o silêncio.
P. trouxe C. amparada. C. chorava de dores. Mas chorava baixinho. Muito baixinho. Sabia que não podia fazer barulho. Estava de t-shirt. Os braços raspados na brita, com manchas de sangue. As unhas partidas e pretas. As mãos tentaram apoiar a queda e deslocou um dos pulsos. Estava inchado. As calças de ganga rasgaram nos joelhos e viam-se manchas de sangue a surgir a toda a volta dos buracos rasgados nas calças. C. vinha cheia de dores. A coxear agarrada a P.
Demos a volta por trás, pelos limites do bairro, e voltamos à rua. A rua da segurança. A nossa rua. E nessa noite regressámos cedo a casa. Estávamos assustados. Com medo. E com pena de C.
Na noite seguinte regressámos aos estaleiros. Mas tínhamos de preparar algo de diferente. E mais terrível. E preparámos.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/12]