As Pessoas São Porcas

Estou atrás da velha e olho-a a comer o gelado. Ela agarra o pau do gelado com o papel que o embrulhava para não se sujar se começar a derreter. E eu estou à espera. Estou à espera para ver o que é que ela vai fazer. Mas não tenho muitas dúvidas.
As pessoas são porcas. Porcas e más. E só pensam nelas. As que pensam. Há quem simplesmente nem pense. As coisas são assim porque sempre foram assim. Nem é por mal. É só por rotina ou, como é costume dizer-se nos dias que correm, por tradição.
Eu estou muito irritado. Por isso estou atrás da velha à espera para ver qual o fim daquele prazeroso gelado que lhe refresca as goelas.
Estou no Sítio da Nazaré e estou muito irritado.
Comecei a irritar-me logo de manhãzinha a caminho da cá.
Antes de chegar a Pataias apanhei um Renault Clio com a chapa toda comida pela ferrugem. Nem percebi qual a cor do carro. Que cor estaria no Livrete? Deitava uma nuvem de fumo. Pelo cheiro, óleo queimado com certeza. Obrigou-me a fechar os vidros do carro e a ligar o ar-condicionado. Coisa que nem gosto de utilizar, que me faz constipar.
Primeiro foi um pedaço de papel de alumínio que saiu pela janela do lado esquerdo e esvoaçou estrada fora até se perder no interior do Pinhal. Logo depois foi uma embalagem de iogurte lançada pela janela do lado direito. Esse caiu a pique e andou a rebolar pela estrada, passei-lhe por cima e perdi-o de vista.
Espremi a buzina. Bati várias vezes com a mão no centro do volante para chamar a atenção ao interior do Clio. Debalde.
Continuei atrás do carro.
Ainda vi sair uma casca de banana que atingiu a berma da estrada e sobre a qual pensei É biodegradável.
À chegada a Pataias parámos num semáforo vermelho. Eu atrás do Renault Clio. Um braço, na janela esquerda, cuja mão segurava um cigarro que entrava e saía do interior do carro. Quando o semáforo passou a verde, antes de arrancar, a mão largou a beata acesa que caiu no asfalto.
Irritei-me ainda mais. Acelerei atrás do carro e, no meio da vila, com traço contínuo, ultrapassei o Clio e, no momento em que estava mesmo ao lado do condutor disse Porca!, para a mulher que descobri a conduzir. Não vi quem ia ao lado da Porca.
E tive de guinar, rápido, o volante para a direita que me ia espetando na carrinha Renault Trafic que vinha no sentido contrário e que teve de se chegar à esquerda e fartou-se de apitar para mim e com razão. E eu, enquanto voltava à minha faixa só conseguia pensar Só há Renaults na estrada, hoje? É que, até eu próprio conduzia um Renault Twingo comprado através do OLX.
Continuei em frente. Deixei o Renault Clio com cor confusa para trás e segui para a Nazaré. Zangado. Furioso com esta gente. Gente porca e estúpida. Gente egoísta.
Não desci logo à Nazaré. Subi primeiro ao Sítio para comprar uns tremoços e umas pevides. E foi aí que a vi. A velha. A velha a comer o gelado junto ao penhasco. E percebi o que ia acontecer.
E está a acontecer. A velha chupou o gelado todo. Resta-lhe o pau e o papel, a envolver o pau, na mão. Olha em volta. Imagino à procura de um caixote do lixo. E não há nenhum. Sim, a velha tem razão. Mas então, larga o papel do gelado sobre o penhasco. Um penhasco cheio de lixo, de outros papéis de gelados, garrafas de plástico de água, raspadinhas, sacos de plástico das pipocas.
Estico o braço com força e empurro a velha do penhasco abaixo. E digo Porca! Ouve-se um pequeno grito abafado pela queda. Espreito para baixo e ainda a vejo a cair.
Vou-me embora. Vou à Batel comer uma sardinha e beber um café antes de ir para a praia. Ainda é época balnear? Olha, nem sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/17]

Uma Vida a Fugir a Sete Pés

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
O meu pai tinha-me largado nas mãos da freira e ido embora. Eu, a chorar baba-e-ranho, desesperado pelo abandono, deixado abandonada nas mãos de uma freira desconhecida, desatei aos pontapés à freira, que imediatamente me largou, e corri desalmado atrás do meu pai. Passei o portão do colégio e tentei entrar para o banco de trás do carro. Mas os carros não eram como são hoje. O meu pai já tinha aberto a porta dele, mas não havia sistema centralizado para abrir e fechar as portas dos carros. Cada porta um mundo. Corri para a porta dele a chorar. Não conseguia falar. Só um choro sofrido. A minha vida estava a acabar. Sentia-o. Os meus pais estavam a abandonar-me. Ali. Num sítio desconhecido. Mas eu não estava pelos ajustes. A mim, não! A mim ninguém me abandonava. Implorei. E o meu pai deixou-me entrar no carro. Para o banco de trás do carro.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Vi a cara sorridente da enfermeira demasiado próxima da minha. Senti-lhe o cheiro. O odor ácido. Os dentes escurecidos. A seringa na mão. A agulha preparada para me picar. A minha mãe a agarrar-me. O meu braço despido. A enfermeira a sorrir e a garantir que não ia doer nada. Mas eu não quis saber. Dei um pontapé na mão da enfermeira e vi a seringa a voar, cair e espetar-se no chão. Partiu-se. Saltei da cadeira. Fugi das mãos da minha mãe. Fugi da enfermeira. Fugi da seringa, da sala, daquele terror. Desci as escadas a correr e na rua cruzei-me com o meu pai que fumava um cigarro. E queixei-me. Queixei-me da minha mãe. Queixei-me da enfermeira. Queixei-me das pessoas que eram más e me queriam fazer mal. E o meu pai deitou o cigarro fora. Pegou-me por um braço e levou-me de volta à sala. À cadeira. Às mãos da minha mãe. Ao sorriso da enfermeira. À seringa de agulha apontada ao meu braço. Desejosa da minha veia.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Estava sentado no sofá, de Sagres na mão, à espera de ver a final da Liga das Nações entre Portugal e a Holanda, quando ouvi bater a porta da rua. Senti alguém entrar. Ouvi passos a dirigirem-se para a cozinha. Percebi sacos de plástico a serem mexidos. Portas e gavetas a abrir e fechar. Alguém arrumava coisas. Ouvi a porta do frigorífico. Garrafas a bater. Água a sair pela torneira do lava-loiça. Um pano a ser sacudido. E depois, alguém, lá de dentro, disse Temos de conversar!
Estremeci. Senti um calafrio pelas costas. Bebi o resto da Sagres de um gole. Despejei a garrafa. Peguei no maço de cigarros e saí de casa em silêncio. Desci as escadas a correr. Cheguei à rua e recuperei o fôlego. Cruzei a rua e entrei no café em frente. Estava mesmo a começar o jogo. Só era pena ter que vir à rua para fumar.

À Espera dos Acontecimentos

Ainda não tirei o pijama. O tempo está cinzento. Chove. Já trovejou também.
Este tempo convida-me à letargia. Não me apetece fazer nada. Não consigo ler. Não consigo ouvir música. Nem olhar para a televisão. Não tenho fome. Custa-me respirar. Custa-me estar vivo.
A janela é a minha única motivação. Arrasto-me até ela. Os pés descalços no soalho escorregam. Mas insisto. Cravo as unhas no chão e puxo por mim. Puxo pelo meu corpo. Gosto da janela. Gosto de olhar para a rua. Gosto de ver as pessoas à distância. É a única forma de as suportar.
Acendo um cigarro e deixo-me ficar por ali. Abro a janela. O fumo sai. O ar frio entra. Arrepio-me. Fecho a janela. O meu bafo embacia o vidro. Com o dedo escrevo lá letras, depois palavras. Palavras soltas. Sem sentido, acho. Corroído. Tóxico. Talvez signifique alguma coisa para mim. Mas não recordo. Talvez seja algo escondido. Perdido.
Volto a abrir a janela. Para o fumo sair lá para fora. As letras que escrevi começam a desfazer-se. As gotas tombam, vão caindo vidro abaixo e deixam de ser letras, palavras, e tornam-se desenhos. Abstrações. Que porra é que estou para aqui a dizer? O que é que se passa com a minha cabeça?
O meu olhar dirige-se lá para baixo, para a rua. Um homem agarra outro pelo casaco e vai esmurrando-o. O outro tenta fugir. Defende-se dos murros colocando os braços à frente da cara. Uma rapariga grita e bate com uma mala no homem que esmurra.
Eu fumo o cigarro e vou olhando o confronto. As pessoas são más. As pessoas são más companhias. As pessoas procuram o confronto. A porra da competição. Eu sou o melhor.
Sento-me numa cadeira. Estou saturado. Cansado das pessoas das suas regras razões e prioridades. Eu eu eu eu eu eu eu…
Cheira-me mal. Percebo que sou eu. Ainda não tomei banho. Não me apetece tirar o pijama. Não me apetece despir. Nem ir para debaixo da água.
Volto a levantar-me. O confronto exerce um certo fascínio em mim. Um dos homens está agora caído no chão. O outro está sentado em cima dele e continua a bater-lhe. À volta uma série de pessoas assiste como se fosse um jogo. A rapariga chega agora lá do fundo com um polícia que grita para o homem. Mas este continua a bater no outro. Ninguém respeita o polícia.
Mando o cigarro pela janela e ele cai em cima do homem que se vira para cima, para o prédio, e vê-me. Larga o outro que fica caído no chão, com sangue a escorrer pela cara. A rapariga cai sobre ele. Afaga-lhe a cara, espalha-lhe o sangue que é já só uma massa. O polícia tenta agarrar o homem que não lhe liga e que vai mandando gritos para mim que estou cá em cima.
O homem dirige-se para a porta de entrada. O polícia pede apoio pelo rádio e segue-o, mas o homem nem o nota. A rapariga fica a chorar agarrada ao corpo inerte do outro. As pessoas continuam à volta a assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Alguns deles olham cá para cima, para a minha janela.
Eu levanto-me e vou abrir a porta da rua. Depois volto a sentar-me na cadeira, acendo outro cigarro e ponho-me à espera. À espera dos acontecimentos.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/03]