Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

As Brancas Montanhas da Morte

Está mau tempo.
Chove muito, uma chuva tocada a vento. Entra por todo o lado onde exista uma nesga aberta. Fumo em casa com as janelas fechadas. Acendi uma vela por causa do cheiro, mas só tinha uma vela de baunilha que alguém me tinha oferecido e agora estou enjoado.
O vento é muito forte. Ouço-o através das janelas de vidros duplos. As portas e as janelas abanam. Ouço também a chuva a bater contra as persianas. É um barulho violento e um pouco assustador.
O céu está cinzento, o dia escuro e ainda são duas da tarde. Não se vêm nuvens. É uma massa uniforme.
Da janela da cozinha olho para as montanhas mas não as vejo. Talvez estejam tapadas pelo nevoeiro.
Onde é que estão as montanhas?
As notícias dão conta já de dois mortos e vários desaparecidos.
Há cidades inteiras inundadas. Cidades erguidas em leito de cheia. Cidades com os canais pluviais entupidos e esgotos cheios. Cidades de cimento sem escoamento para as águas da chuva.
As barragens abriram as comportas. Há notícias de cidades quase submersas no norte do país. Só morreram duas pessoas até agora. Nenhuma delas nestas cidades quase submersas. Mas há pessoas desaparecidas.
Olho a chuva a tombar sobre as casas batida pelo vento e a ausência das montanhas.
Onde raio é que se meteram as montanhas?
Não está frio. É inverno, está temporal mas não está frio. Estou de t-shirt e descalço na cozinha. Olho para o tempo cinzento e penso que não está frio nenhum.
Apago o cigarro num cinzeiro da Cinzano. Tenho uma grande colecção de cinzeiros em porcelana que eram dos meus pais. Eles não fumavam. Eu fumo.
Outras notícias falam dos meios de transporte públicos que estão parados em todo o lado sem se saber quando poderão retomar a actividade normal. Os aviões não levantam voo. Os comboios dormem na estação. Os barcos baloiçam no cais. Os autocarros não saíram dos terminais. Há inundações um pouco por todo o lado. Há árvores caídas. Abriram-se buracos no asfalto de algumas cidades. Em Lisboa, uma carrinha escolar enfiou-se num buraco na estrada e caiu sobre os carros de um parque de estacionamento subterrâneo. Ninguém morreu. Ninguém ficou ferido. Já há quem fale em milagre. O milagre de Natal. Mas há quem se queixe das avultadas perdas financeiras. As seguradores já vieram explicar que estão a analisar todas as queixas mas esclarecem que a maior parte das pessoas não têm seguro contra intempéries.
Será que as montanhas desapareceram? E tinham seguro?
Uma notícia de última hora diz que a pala do MAAT voou para o Tejo e o museu vai ficar fechado até meados do próximo ano. Já há turistas a desmarcar férias. Há agentes turísticos a quererem indemnizações mas não sabem bem a quem fazer o pedido.
Calço as botas. Visto uma camisola e o casaco e saio de casa.
À saída de casa percebo que a chuva continua a sua queda imparável, tocada a vento. Puxo o capuz do casaco sobre a cabeça, as mãos nos bolsos do casaco, saio para a rua e vou em frente. Vou à procura das montanhas.
As montanhas têm de estar lá.
É difícil cruzar a cidade. Muito trânsito. Muitos carros. Alguns parados em enormes poças de água. Lá mais à frente percebo que o rio galgou as margens e a ponte está submersa. Tenho de seguir pela direita e tentar passar mais à frente.
Há guindastes caídos um pouco por todo o lado. Andaimes tombados. Varandas quebradas. Muitos vasos que fugiram das varandas ventosas.
Há muito barulho na cidade. A chuva o vento os carros as buzinas as motorizadas as pessoas os gritos das pessoas ouve-se música vinda não sei de onde…
Vem-me à memória Jeremiah Johnson, As Brancas Montanhas da Morte de Sydney Pollack. Uma espécie de western que é mais uma lição de vida sobre o confronto do homem com a natureza e a sua luta pela sobrevivência.
Já cruzei a ponte mas nem me apercebi.
Estou distraído. Desconcentrado. Divago. Divago muito.
Vejo postes de alta-tensão vergados ao peso da tempestade. É incrível como estes postes de alta-tensão passam tão perto das cidades, passam por cima de vilas e aldeias.
A estrada começa a subir. Aproximo-me das montanhas. Não vejo nada. Está tudo cinzento. Há um blur cinzento à minha volta. Acho que já não chove. Mas não tenho a certeza. Não vejo nada. Não vejo nada de nada. Não vejo a ponta do meu nariz.
Não ouço nenhum barulho.
Onde estão as montanhas?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/20]

A Casa Abandonada

Às vezes estou a lavar a louça à mão, no lava-louça da cozinha, e vejo, através da janela que fica mesmo em frente ao lava-louça, para além do vidro, para além do alpendre, para além das árvores do quintal, para além da estrada e no meio das árvores no terreno em frente, mas muito lá para a frente, muito lá para o fundo, em direcção às montanhas, mas não tão longe que eu não visse, uma casa abandonada.
Já conheci essa casa abandonada, assim como está hoje, não tão destruída, claro, mas bastante, quase como hoje. Quando vim para cá, quando vim viver para aqui, a casa estava abandonada mas, os miúdos da escola costumavam ir para lá partir os vidros, as portas, as telhas… Um dia deitaram uma parede abaixo. Hoje já não vão para lá. Já não há lá quase nada para partir. Mas às vezes ainda lá vão uns tipos passar droga e uns casais com pressa.
Quando estou aqui assim a lavar louça, a água quente a correr sobre a louça suja que vou esfregando com a esponja Scotch-Brite com um fio de Fairy verde, e a espuma a envolver-me as mãos, olho para a casa e imagino-a como um portal para outro lado. Para outro mundo.
Imagino-me a transpor a porta que já não existe, a entrar dentro das paredes que ainda não vieram a baixo e caminhar até ao centro da antiga sala, onde o tecto já desabou, e esperar pelo novelo quântico que me irá permitir a passagem até um sítio diferente deste.
Mas nunca apareceu o novelo quântico. E eu regresso à cozinha, ao lava-louça, ao Fairy e à minha vida do lado de cá da janela.
Também já pensei que a casa podia ser um terreiro para as bruxas aqui da zona. Dizem que há bastantes por aqui. É verdade que se encontram vassouras perdidas um pouco por todo o lado. E às vezes vêm-se por aí carros da cidade, a rolar muito devagar, com mulheres de meia-idade e cabelo armado, à procura da santinha. Ouço dizer. E então, imagino-as a chegar a cavalo de vassouras voadoras, a despirem as vestes e a mergulharem numa festa de bacantes. Imagino-me a correr para lá, para a casa abandonada, mas ao chegar não está lá ninguém, reina o silêncio, a escuridão o cheiro da erva molhada pela chuva e os cogumelos selvagens que se erguem ao céu nocturno. Regresso a casa e colho os cogumelos que deixo secar e mastigo.
Quando estou assim a lavar louça aqui, no lava-louça, olho lá para fora e vejo a casa abandonada e penso que gostava que a minha vida fosse mais do que a casa abandonada. Uma casa abandonada que poderia ser mesmo uma casa, a casa de alguém, mas que nunca é visitada pelo dono, e que as ervas selvagens já começaram a cobrir.
Às vezes penso que a minha vida é assim como aquela casa abandonada. Tanta expectativa e tão pouco resultado. Uma vida cheia de potencial, reduzida ao meu abandono.
No outro dia, era de noite, acendeu-se uma luz dentro da casa. Larguei a louça e fui dar fé. Vi-me ir. Vi-me a descer a ladeira. Vi-me cruzar a estrada. Vi-me caminhar ao longo do matagal selvagem do terreno em frente. Vi-me aproximar da casa abandonada e espreitar lá para dentro. Vi-me entrar na casa e nunca mais sair.
Não sei o que é que me aconteceu. Eu não sou eu. Eu que estou aqui a contar a estória sou só uma projecção astral de mim que entrou naquela casa e não mais saiu. É por isso que estou aqui a lavar a louça, no lava-louça da cozinha. Porque foi a última coisa que fiz antes de entrar na casa abandonada e não voltar a sair. Sou a minha assinatura. Mas não sou eu. Embora também o seja.
É difícil de perceber. Às vezes até eu não percebo muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

Morrer e Voltar a Nascer

Eu já tinha morrido há uns anos, bastantes até, quando fui descoberto. Não eu, eu fisicamente, que eu já estava morto e o que tinha restado de mim tinha sido feito pó e comido pelos bichos, mas o eu que deixou umas coisas escritas pela internet, buraco sem tempo, e que foram descobertas, por puro acaso, por alguém que gostou delas e as partilhou com o mundo.
Eu já tinha morrido. Tinha morrido de fome. Tinha deixado de conseguir trabalho. Tinha-me fechado em mim mesmo e perdido o contacto com um mundo que não espera por ninguém e quem fica para trás fica para trás que o futuro é em frente e o que é preciso é abrir sempre a porta do amanhã, um amanhã glorioso e cheio de vitórias, sucessos pessoais e glórias de equipa, num sempre-eterno crescimento económico e social sem paralelo nos anais da história do mundo.
Eu tinha-me afastado de tudo isso. Não era competidor. Não queria saber de corridas e grandezas. Tinha as minhas dores e não queria que mas tirassem. Era um processo muito pessoal numa época de portas escancaradas nas redes sociais onde toda a gente tinha opinião sobre tudo e sobre todos e quem tivesse mais admiradores e seguidores é que fazia o mundo girar. Oh, e se o mundo girou! Girou tanto que retrocedeu no tempo e o tempo medieval voltou.
Eu já tinha morrido antes de tudo isso acontecer. Tinha-me fechado em casa. Sem trabalho e sem dinheiro, afastei-me de tudo. Fechei-me em casa. Eu e as minhas dores. E comecei a escrever sobre elas e a lançá-las na rede. Para quem quisesse ler. Para que quem tivesse paciência para ler o pudesse fazer. Escrevi durante todos os dias durante todo o tempo que resisti a todas as faltas que começaram a fustigar-me.
Deixei de conseguir pagar a água e a luz. Abri a torneira selada da água. Fiz uma puxada de luz desde o candeeiro da estrada. Deixei de pagar o IMI, mas nunca me vieram chatear por isso. O telefone era coisa que já não usava há muito tempo. Telefonar a quem? Estava toda a gente ocupada. Andava toda a gente a tentar ser feliz, a destilar ódio nas redes sociais para libertar as dores de alma e a serem melhores e maiores uns-que-os-outros.
Fui alimentando-me com o que havia por aqui nas árvores em redor de casa e na pequena horta que fui mantendo enquanto tive paciência e força para tal. Os gatos e o cão desapareceram. Talvez tenham morrido, como eu. Ainda vi por aí um deles morto. Queria tê-lo enterrado, mas o tempo foi passando e eu esqueci-me.
Sentava-me todos os dias no sofá a olhar para a parede branco-ovo em frente, a parede onde esteve pendurado, durante anos, um grande poster da Lolita de Stanley Kubrick que fui obrigado a retirar e a destruir porque era uma pouca-vergonha pedófila. Sentava-me no sofá a olhar para a parede em frente, vazia, e via as estórias. As minhas estórias. Surgiam-me assim. Do nada. Formavam-se na parede, como um filme mudo projectado numa tela, e eu só tinha de escrever o que via e foi o que fui fazendo. Tornou-se esse o meu trabalho. O meu trabalho não remunerado. E durou até eu morrer. Morri de fome. Deixei de conseguir cultivar a horta. As árvores deixaram de dar o que davam. Ainda fui bebendo água durante algum tempo. Emagreci. Emagreci tanto que depois nem água conseguia beber. Fiquei translúcido. Fiquei deitado na cama durante algumas semanas. As semanas finais. Já nem escrevia. Já nem nada.
E um dia, deixei de ser.
Fui enterrado em cova rasa. Comido pelos bichos e mais tarde, quando era já só pó, despejado para dar lugar a outro pobre coitado como eu.
Deixei de ser e depois deixei de estar.
A minha passagem pela Terra não deixara rasto.
Até que um dia…
Um dia alguém encontrou o meu rasto na internet. Encontrou o meu blog e todos os meus contos. Alguém achou que aquilo que ali estava tinha valor. Alguém resolveu retirar os contos do blog e publicá-los. Alguém lucrou muito com o sucesso de um perdedor que tinha morrido de fome muitos anos antes. Antes de ser encontrado. Muito tempo depois do regresso das trevas e, de novo, do regresso da luz e de o humanismo ter regressado, de novo, e outra vez, às agendas políticas do mundo e de o Homem se ter reencontrado consigo próprio
E eu sei que isso aconteceu porque sei tudo. Mesmo depois de morto, desfeito e desaparecido da Terra sem deixar rasto. E estou aqui a contar tudo porque posso. Eu sei. Eu sou. Eu estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/03]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Cavalgar na Onda

Cheguei cedo de manhã ao Sítio. Dei umas voltas à procura de lugar para o carro. Todos os cantos estavam cheios de carros. Não havia um lugar vago. Era dia de semana e o Sítio da Nazaré estava cheio de gente de fora que tinha ido à caça das ondas gigantes.
Acabei por arranjar lugar já fora da localidade. A caminho do Pinhal do Rei, ao longo da Estrada Atlântica que faz toda a costa junto ao mar.
Voltei a pé até ao Sítio. Mochila às costas. Máquina fotográfica na mão. Desci em direcção ao forte. Mas acabei por não ir até lá abaixo. Estava muita gente. Muita confusão. Odeio confusão.
Optei por um cabeço acima do forte. Via as carecas dos mirones ao longo da estrada até ao forte e noutros cabeços mais abaixo. Mas ali estava bem. Sozinho e com uma boa vista para o mar. Estava toda a gente à espera. Ver as ondas gigantes e as pranchas a cavalgá-las requer tempo e paciência.
Sentei-me numa pedra. Estava sozinho ali naquele cabeço. Como companhia, o som das ondas que rebentavam nas rochas. Tirei uma sanduíche de paio com manteiga da mochila e pus-me a comer enquanto ia olhando as ondas, já grandes e imponentes, para mim, mas ainda não gigantes.
As pessoas continuavam a chegar. Muitas raparigas novas. Muitos rapazes em calções. Estava frio e vento. Mas havia muitos rapazes em calções. Eram estrangeiros. Toda a gente com máquinas fotográficas com objectivas muito melhores que a minha. Senti uma certa inveja. E pensei Sou igual a toda a gente. Inveja. Ciúme. Azedume. Sou um gajo como os outros.
Depois via os casais que circulavam por ali. Os grupos de amigos. E percebia o acentuar da minha solidão. Estava ali sozinho. Gosto de estar sozinho. Mas às vezes não.
No mar andavam as motos de água de um lado para o outro com os surfistas atrás. Estavam à procura da onda perfeita. Ou de aproximações. Mas nada. O mar estava bravo. Revolto. Com muita rebentação. As ondas não eram as ideais para montarem e deixarem-se levar.
Acabei a sanduíche de paio. Guardei a prata na mochila. Limpei a boca as mangas do casaco e acendi um cigarro.
Às vezes penso que fazer surf é como ir à pesca. É preciso tempo. Ter paciência. Esperar. Não sou muito de esperar. Não tenho muita paciência. Mas às vezes tenho que ter.
Passaram duas miúdas pelo meu cabeço. Eram estrangeiras. Há muitos estrangeiros por aqui, agora. Vinham de mãos dadas. Acenaram-me, simpáticas. Olharam o mar dali. Acharam longe. Continuaram em frente.
Caiu-me um pingo na cara. Olhei para cima. Para o céu. Vi cair pingos. Começou a chover. Puxei as golas do casaco para cima. Pus a câmara dentro do casaco. Ao fundo abriram-se alguns chapéus-de-chuva. Mas ninguém arredou pé. Toda a gente ficou onde estava. Iam para onde? Não havia sítio para onde fugirem. Não havia beirais. Árvores. Carros. Ou iam embora, de regresso ao Sítio e aos carros estacionados lá, algures, ou entravam em algum café, ou aguentavam a chuva que aí vinha. Foi o que eu fiz. Aguentei a chuva. Encolhido sobre mim. O cigarro molhou-se e apagou-se. Mandei-o fora. Mandei-o ao mar.
Estranhamente estava a gostar de estar ali. Estava frio. Fazia vento. Chovia. As ondas ainda não eram as melhores para ver uma corrida. Mas o estar ali, sentir o cheiro a maresia, ver o céu cinzento, muito escuro, um céu de fim-de-mundo, e um mar agitado e com muita rebentação que provocava um lençol de espuma junto à Praia do Norte, fazia sentir-me bem como há muito não sentia.
Estes últimos meses tinham sido complicados. Não conseguia trabalho. Estava a entrar na fase de gastar os últimos tostões que tinha escondidos em casa para uma emergência quando caiu este pedido para fotografar as ondas gigantes que se esperava que viessem a acontecer na Praia do Norte.
E ali estava eu. Na Praia do Norte. À espera. À espera debaixo de uma chuvada que, passado pouco tempo, parou como tinha começado.
As nuvens fugiram. O céu cinzento e escuro deu lugar a um céu azul, não muito limpo, mas o suficiente para tornar o dia mais alegre. E pensei que era uma premonição. Aquele dia era um retrato da minha vida. Depois da tempestade, a bonança. E assim ia passando o tempo. A ver se agarrava a esperança.
Entretanto, as ondas começaram a crescer e a vir mais redondas.
As motos de água voltaram a galgá-las.
Agarrei na câmara. Tirei uma fotos. Uma fotos soltas. Do forte cheio de gente. Da Praia do Norte. Da frente urbana da Nazaré brilhante com o sol que despontava.
E então, alguém agarrou uma onda. Comecei a disparar a máquina. Vi a moto a descer a onda para trás e alguém, solitário, a cavalgar a onda. Uma onda grande. Não gigante, mas grande. Grande o suficiente para causar medo. E dar umas grandes fotos. A rebentação perseguia a prancha e o rapaz que lá ia em cima e que se mantinha, sempre, à frente da onda destruidora. A fugir. E eu a disparar a máquina. Estava a tirar boas fotos. E o rapaz mantinha-se na prancha, sem cair, a deslizar pela onda abaixo e para o lado, a manter-se paralelo à terra, a ganhar terreno, a voar nas asas da prancha. A tentar ganhar tempo. E espaço. A fugir à crista da onda e da sua rebentação que começava agora, a ser mais forte. E eu a fotografar. E então, a rebentação apanhou o rapaz e a prancha, envolveu-o e chicoteou-o. Ele fora apanhado. Enrolado na confusão da rebentação que vinha onda abaixo. Eu deixei de fotografar. Olhei para o mar. Para a onda. Para a rebentação. Procurava um ponto negro. Procurava o rapaz. Procurava a prancha. Procurava qualquer coisa que me garantisse a segurança daquele surfista. Olhei. Procurei. Esperei.
Depois vi muita gente a correr para a Praia do Norte. A correr ao longo das arribas. A descer para a areia da praia. Eu agarrei na mochila. Desliguei a máquina. E virei costas ao mar. Não ia tirar mais fotografias naquele dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/16]