A Lâmina Mais Pequena É Sempre a Mais Afiada

Não sei como fazer as coisas. Mas não posso continuar como se não se passasse nada. Não posso.
Vejo os meus olhos tristes ao espelho. Faço a barba. Faço a barba com navalha e espuma de sabão. Nunca tinha feito a barba com navalha. Ela não está muito bem afiada. E eu nunca tinha feito a barba com navalha. Passo-a várias vezes pelo mesmo sítio. Para raspar bem. Para raspar melhor. Corto-me. Mas nada de grave. Uns cortes sem importância. Estanco o sangue com pedaços de papel higiénico.
Massajo a cara barbeada com after shave. Encetei um frasco que a minha filha me deu há… Há dois anos, acho. Não costumo fazer a barba. Não costumo usar after shave.
Será que vão achar estranho?
Tenho de fazer alguma coisa. Não posso esperar mais.
Tomo um banho de imersão. Há quantos anos não o fazia? Ela vai achar estranho. Não tarda vai querer entrar na casa-de-banho e vai achar estranho eu estar a tomar banho de imersão. E não sei mentir. Não consigo fingir. Oh! Mas sabe-me tão bem!
Deixo-me ficar quieto na banheira durante algum tempo. E penso como a vida pode ser fabulosa na sua simplicidade. Um simples banho de imersão e esqueço-me de mim.
Ela abre a porta da casa-de-banho, coloca a cabeça dentro e diz Demoras muito? e eu sinto-me despertar da minha letargia, forço um pequeno sorriso e digo Saio já! e ela ainda comenta Banho de imersão, hum? Lorde!, sorri e eu volto a dizer Saio já!
E saio. Saio já. Seco-me. Vou vestir-me no quarto. Não me cruzo com ela. Nem com eles. Visto-me. Umas calças de ganga e uma camisola. Ouço-a entrar na casa-de-banho. Ouço-os a eles na brincadeira na cozinha. Desço as escadas e dirijo-me à porta da rua. Grito alto para toda a casa ouvir Adeus! Estou atrasado! Beijos! e ainda os ouço gritar, chamar por mim Pai! Pai!, mas saio a correr, rápido, não os quero ver, não os quero encarar, e entro dentro do carro e arranco pelas ruas do bairro. Olho para o espelho retrovisor e vejo os olhos molhados. Páro o carro na berma de uma rua qualquer e desato a chorar. Choro compulsivamente. Grito. Ainda aqui estou e já sinto saudades. Saudades dela. Deles. Da minha vida. Da vida.
Tento respirar. Tento respirar com calma. Acalmo. Páro o choro compulsivo. Mas choro. Ainda choro. Acendo um cigarro. Abro a janela do carro e deixo o fumo sair para a rua.
Vejo as crianças a pé a caminho da escola. Uma mulher, de robe, passeia um cão pequenino pela berma da estrada. Passam carros. Carrinhas. Um jipe. Motas. Várias bicicletas. Miúdos de bicicleta a caminho da escola.
Deito fora a beata ainda fumegante.
Olho o relógio. Vejo as horas.
Acendo outro cigarro.
Vejo os carros passarem. As pessoas passarem. Os cães passarem. As minutos passarem. A vida passar.
Volto a casa. Está em silêncio. Vazia. Já não está ninguém.
Deixo o carro. Deixo a carteira. O dinheiro. O telemóvel. As chaves. Tudo em cima da mesa da cozinha. O bloco aberto. Amo-vos! escrito numa linha de página do bloco como se fosse uma redacção da escola.
E vou embora. Outra vez. De vez.
Saio a porta. Olho a casa pela última vez. Penso que aguentei quase dois anos sem trabalho. Ela aguentou. Eles todos aguentaram por mim. Mas isto agora… Isto agora já é demais. Eles precisam de viver as suas próprias vidas. Sem âncoras que os prendam.
Faço as ruas do bairro a pé. Não me cruzei com ninguém conhecido. Pelo menos, não dei por isso.
Desço até à cidade. A pé até à cidade. Um bilhete de autocarro para fora da cidade. Não precisa de ser muito longe. Tem de ser é muito rápido. Para não ter tempo de me arrepender.
Vou até uma aldeia que nem conheço. Nunca ouvi falar. E fica aqui nos arredores da cidade. Saio do autocarro. Caminho ao longo da rua da aldeia. Saio da aldeia. Entro no pinhal. Caminho à deriva pelo pinhal. Vou andando enquanto consigo. Começo a chorar. Sinto saudades. Saudades deles. De tudo. Tenho uma dor de estômago e vomito. Vomito agarrado a uma árvore.
Sento-me no chão, em cima de uma manta de musgo, encostado a um pinheiro. Acendo um cigarro. Sinto uma grande angústia.
Penso em quando acompanhei o meu pai à quimioterapia. Penso em quando acompanhei a minha mãe. E penso que não quero que me acompanhem a mim.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o no musgo, entre as minhas pernas.
Agarro no canivete-suíço. Puxo a lâmina mais pequena. Está mais bem afiada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/09]

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Sexta-Feira, 13

Sexta-feira, 13. Hoje é Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições e azares. Como não acredito em Bruxas. Mas que as há, há.
Foi numa Sexta-feira, 13. Um dia como hoje. Há muitos anos. Tantos anos que já não sei quantos.
Estava no açude que havia ali em baixo, ao pé de São Romão. Ali a caminho das Cortes. Estava com uma miúda. Uma miúda de quem gostava muito. Era uma miúda da minha idade. Da minha turma. Éramos amigos já antes de sermos namorados. Foi a minha última namorada. Este dia, naquele dia, foi o último dia de namoro. Nunca mais namorei. Nunca mais quis nenhum relacionamento. Não queria ter um relacionamento coxo. Que me iria fazer lembrar, a todo o momento, que já não era homem. Já não era gente. Só um corpo atrofiado.
Estávamos no açude. Eu e ela. Era o fim das aulas e nós tínhamos faltado. Estávamos com o sangue quente e cheios de desejo. Fomos até ao açude. Eu era bom nadador. Elegante a mergulhar. E fazia gala disso. E então, mergulhei para ela. Para ela ver. Saltei do braço grosso da árvore para o meio do açude. Mas algo correu mal quando mergulhei. Fui mais fundo que o habitual. Tinha entrado muito a pique. E quando dei por mim, já tudo tinha acontecido e eu já estava no hospital. A minha vida ficou naquele mergulho. E eu nunca mais regressei ao contacto com os vivos. Não, não morri. Mas foi como se tivesse morrido.
Mergulhei mais a pique que o habitual e bati com a cabeça numa rocha no fundo do açude. Desmaiei. O meu corpo, inerte, subiu. Ela viu-me e puxou-me para fora. Parece que teve de me fazer respiração boca-a-boca e carregar forte nos pulmões. Parece que acordei e cuspi água. Depois foi à procura de ajuda. Eu não me lembro nada. Não me lembro de ter acordado. Nem de ter estado à espera de ajuda. Nem da ambulância. Lembro-me de ter acordado no hospital. Lembro-me de não me conseguir mexer. Lembro-me de a ver chorar. E lembro-me de uma conversa que a médica teve comigo. A primeira conversa. A dor da primeira conversa. O desespero. E a vontade de ter morrido. A vontade de ter ficado lá no açude.
E foi assim que me senti. Como se tivesse morrido. Tudo aconteceu numa Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições. Nem em azares do destino. Mas a minha vida foi abalroada pelo destino numa Sexta-feira, 13.
Mandei-a embora. Mandei toda a gente embora da minha vida. Saí da cidade. Fui viver para o campo. Os meus pais foram comigo. Eu isolei-me. E continuo isolado, hoje.
Às vezes tenho de descer à cidade. E custa-me. Custa-me ter de vir para o meio das pessoas. Algumas pessoas que eram do meu passado. Fingimos que não nos reconhecemos. Mas também me custa não reconhecer a cidade que era minha. Custa-me não andar por aqui a sorver esta cidade com tudo o que ela tem, tinha, para me dar. Mas eu não tenho forma de sorver nada disto. Continuo a existir, mas já não vivo. Sou um tipo zangado. Eu, na verdade, fiquei no açude.
Em dias como o de hoje, ainda mais zangado fico. Tive de vir à cidade. Tive de chamar o táxi para me trazer à cidade e fazer, por mim, umas coisas que precisava que fossem feitas. Mas o taxista é simpático. Já la vão uns anos que me ajuda.
Mas hoje!? Hoje o diabo saiu à rua para me azucrinar e fazer lembrar que as Sextas-feiras, 13 não gostam de mim.
Vou no carro com o taxista. Vou sentado quieto, sem me mexer. Nada em mim mexe. Sei que já há um procedimento, através de um implante no cérebro, que me poderá fazer recuperar as mãos e os braços. Mas ainda sou um tronco estático. Só a cabeça mexe. Mas sinto tudo o que anda, ou não, à minha volta.
Estou parado numa estrada na cidade. Há uma fila que não anda. Uma das principais saídas da cidade está fechada por causa de um evento automóvel. Uma espécie de exposição de carros antigos. Passeiam-se pela cidade. Fazem provas de perícia. Gastam combustível fóssil, queimam borracha e sentem as suas pilas enormes, do tamanho dos seu carros e dos seus motores.
Eu também gostava de sentir a minha pila. E conduzir um carro. Mas não posso. Não consigo. Estou aqui na cidade, enfiado numa fila de trânsito que não se mexe. Pareço eu. A cidade sou eu. Os motores a trabalhar. O cheiro insuportável. Estou preso. Preso em mim e na cidade.
Às vezes penso na minha namorada. E como a minha vida podia ter sido se não tivesse faltado as aulas. Mas também penso que aquele mergulho, com ela a ver o meu corpo a furar o espelho de água do açude, valeu por uma vida.
Só é pena ter de vir a esta cidade nestes dias. São dias que acordam a minha tristeza.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/13]

No Silêncio de uma Tarde de Domingo em Agosto

Estou no quarto, sentado na cama, com o iPad nas mãos. Estou farto das mesmas notícias. Farto dos incêndios no Brasil e na Sibéria. Farto do degelo no Árctico e na Gronelândia. Farto das birras de um idiota. Farto da estupidez do outro idiota. Farto das palhaçadas de mais um idiota. Farto do autoritarismo do mesmo idiota de sempre. Farto de Hong Kong. Da greve. Do mar frio no Algarve e quente na Nazaré. Farto da derrota do Benfica. E das petições no Facebook. Fecho o iPad e saio do quarto.
Passo na casa-de-banho e desligo o rádio. A hi-fi na sala. A televisão na cozinha, que está a transmitir para o boneco. Abro a porta para a rua e deixo-me envolver por aquele bafo quente que vem lá de fora.
Respiro fundo e saio para o alpendre. Desço as escadas e vou à pereira. Apanho uma pêra da árvore. Está madura. Rija mas madura. Limpo-a à camisola. Trinco-a. Volto para o alpendre.
Sento-me na cadeira a olhar lá para longe, para as montanhas.
É Domingo.
A casa está agora no silêncio. Ou quase. Ainda ouço o barulho do frigorífico a trabalhar. Ouço a minha boca a triturar a pêra.
Apuro os ouvidos para os sons que me cercam.
Ouço as galinhas nas traseiras da casa. Anda o cocó a querer saltar-lhes para cima. Por isso é que as ouço. Estão a fugir dele. Toda a gente foge do cocó. Até eu. O cocó só quer foder as galinhas.
Ao fundo, vindo de uma quinta lá de baixo, o latido de um cão. Algum estranho que passa do outro lado da vedação.
As cigarras em coro.
Não ouço os gatos. Um deles está deitado aqui ao meu lado. Nem lhe ouço a respiração. Não vejo o cão. Não responde ao outro que ainda ouço a latir.
Agora, percebo o moinho de vento do vizinho. Tac-tac-tac-tac. O moinho de vento no alto da chaminé.
Acabo de comer a pêra. Lanço o caroço para o meio do jardim. Acendo um cigarro.
Hoje não há morteiros. Se calhar não há festas. Já acabaram as festas de Agosto?
Há uns anos eram os anos do Sasha Summer Fest. O que lhe terá acontecido?
Hoje também há umas festas de Verão, mas diferentes. São festas de fim-de-dia, do lusco-fusco, disto e daquilo. Felizmente, longe daqui. Aqui não ouço essas músicas lúdicas à procura de criar um ambiente zen.
Será que acabaram as festas de Agosto?
Passa um carro lá em baixo, na estrada. É o primeiro carro que ouço passar em muito tempo. Está calor. As pessoas devem estar na praia. Debaixo de alguma árvore a piquenicar. A dormir a sesta. A fumar uma ganza. Gosto de árvores. Gosto da minha pereira.
E, então, ela chega. Traz uma pequena bandeja com uma tigela de fisális, uma garrafa de Alvarinho e dois copos de vidro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/25]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]

Fazer um Reset e Começar de Novo, mas Agora em Bom

Eu descia todos os dias lá de cima do bairro para ir ter com ela ao bairro lá em baixo.
Fazia aqueles quase dois quilómetros a descer a voar, e mesmo quando regressava, e tinha de os subir, não lhe dava pela dificuldade, pela lonjura nem pelo tempo que passava a dar às pernas para estar alguns momentos com ela. Em dias de chuva. Em dias de frio. Em dias de calor e sol de torrar.
Chegava lá abaixo, sentava-me no muro em frente ao prédio dela e esperava. Esperava que ela me visse da janela do quarto ou da janela da sala. Depois esperava que ela viesse ter comigo. Que descesse de elevador. Que abrisse a porta da rua. Que me fizesse um sinal para ir ter com ela, e não ela comigo, para que o pai não nos visse juntos, lá de cima da janela da sala, enquanto fumava um cigarro a acompanhar o café de cevada que bebia sempre depois de almoço. A mãe já sabia. As mães sabem sempre e sabem logo. Até já tínhamos ido à praia os três. Os quatro, quando o irmão dela também foi. Mas o pai… Ah, o pai era outra conversa. Ela era a filhinha.
Dávamos um beijo. Um leve roçar dos lábios. Os meus nos dela. Cheirava-lhe o perfume que lhe tinha dado pelo Natal. Dávamos as mãos. As minhas começavam logo a transpirar de ansiedade. Ela sorria. Seguíamos por baixo das varandas, junto aos prédios do bairro, e íamos para o terreno baldio que havia na periferia do bairro. Íamos até à árvore que lá havia. Subíamos às suas braças e olhávamos o castelo, ou ficávamos em baixo, sentados no chão, rabo na erva, as costas no tronco da árvore, a falar. Muito falávamos nós. Eu contava-lhe dos novos grupos que ia conhecendo e que quase mais ninguém conhecia. Falava-lhe das letras das músicas. O que elas diziam. O que elas queriam dizer. O que eu achava que elas queriam dizer. Ela contava-me dos livros que lia. Dos livros que andava a ler. Sempre mais que um ao mesmo tempo. Às vezes trazia-me um. Lê, dizia. E eu lia. Depois falávamos do livro. Discutíamos. Às vezes acabávamos zangados. Eu ia para casa e à noite fazia uma MixTape com as melhores músicas do mundo e levava-a no dia seguinte. E fazíamos as pazes. O que eu gostava de fazer as pazes!
Esculpi os nossos nomes no tronco da árvore. Esculpi um coração trespassado pela seta de Cupido.
Partilhámos palmiers recheados. Bolos da festa que partíamos ao meio e cada um levava uma metade para casa. A minha metade não chegava a casa que eu devorava-a toda na subida que fazia depois de a deixar.
Um dia chegaram as férias de Verão. Ela foi para um lado. Eu fui para outro. Ela chegou diferente. Eu também.
Nunca mais voltei ao terreno baldio.
Anos mas tarde encontrei-a por puro acaso numa cidade que não era de nenhum de nós. Ela tinha ido a uma reunião. Eu… Eu estava de passagem. Estou sempre de passagem. Bebemos um café. Falou-me dela. Três filhos, entre os vinte e os vinte e cinco anos. Divorciada. O ex-marido era oficial da marinha mercante. Andava sempre no mar. Em viagem. Um dia não voltou. Nunca lhe disse nada. Um dia chegaram, pelo correio, os papéis do divórcio. E foi só. Era funcionária pública. Alto quadro. Bom salário. Uma vida tranquila. Mas já não tinha tempo para ler. E ainda tinha de cuidar dos filhos, coitados. Não sabem fazer nada sem ela. Ainda estão todos por casa. A estudar, mas por casa. Ouve música na rádio. Não liga a nomes. Filmes no vídeo-clube do cabo mas, regra geral, adormece no genérico inicial.
Mas estão, e tu?! Fala-me de ti!, disse.
E eu não sabia o que lhe dizer. O que é que eu tinha para contar? Que vida é que eu tinha para lhe contar? Que também já não era nada do que tinha sido? Que tudo tinha morrido algures, nem sabia bem onde nem como nem porquê? Que eu estava sempre de passagem? Estava sempre de passagem entre lugares nenhuns?
Despedi-me dela. Tenho pressa!, disse-lhe. Desculpa!, pedi. Temos de nos encontrar um dia destes. Uma noite destas. Vamos jantar, menti.
E fui embora.
E enquanto ia embora, levava todo o vazio da minha vida. Um vazio que se torna tão pesado quando não sabemos dizer a alguém que já nos foi tão próximo, o que é que fizemos com toda esta vida que tínhamos para viver,
Naquela altura gostava de ser uma aplicação. Fazer um reset à minha vida. Começar tudo de novo. Mas agora em bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/25]

Uma Toupeira Morta

Calcei os chinelos nos pés, enfiei uma t-shirt e saí de casa. Deixei a porta no trinco. Aqui não se passa nada. Ia ao Intermarché comprar vinho. Estava calor. Tinha gasosa e limões em casa. Faltava-me vinho para um Tinto de Verano.
Fui a pé estrada fora. A bater os chinelos no asfalto quente. Cruzei a aldeia. As pessoas olhavam para mim. Estava calor.
No Intermarché olhei a prateleira dos vinhos. Não precisava de um vinho muito bom. Era para misturar. Podia ser uma zurrapa. Comprei uma caixa de Parente. Cinco litros.
Ainda não tinha saído do supermercado já estava a provar o vinho.
Saí. Comecei a bater o chinelo no caminho de regresso. Com a caixa na mão. Não cheguei a cruzar a aldeia.
Encostei-me a uma árvore. À sombra. A fugir do calor. E tentei matar a sede. Bebi. Bebi o Parente. Levantei a caixa e abri a pequena torneira sobre a boca. Bebi. Mais tarde já não conseguia levantar a caixa, embora estivesse mais leve. Mais tarde era a minha cabeça que se colocava por baixo da caixa. E tentava rapar o fundo.
Depois… Depois devo ter adormecido. O calor. O vinho. A dormência. O sono.
Senti-me ir.
Ouvi vozes. Parecia-me ao longe. Mas não percebia o que diziam. Eram vozes, somente. Não sabia se estava acordado. Não sabia se estava a dormir. Não sabia se sabia alguma coisa. Senti frio. Senti uma dor no estômago. Como algo que se movesse em mim. Se calhar algo que comi. Se calhar algo que bebi. O vinho?
Pareceu-me sentir dor. Um mal-estar. Mas não via nada. Não sabia nada. Não sabia se estava acordado ou a dormir. Podia ser um sonho. Um pesadelo. Uma loucura momentânea.
E depois… E depois nada.
Acordei.
Acordei caído no meio de uma estrada de terra batida. Abri os olhos devagar. Muita claridade. Não percebi onde estava. Não reconhecia nada à minha volta. Doía-me a cabeça. A barriga. Os braços. Tinha os pés descalços. Vi um chinelo ao longe. Caído no chão. Levei a mão à cabeça e vi que tinha sangue. Devo ter caído, pensei. Depois vi os braços. Tinha pequenas picadelas com sangue. Também vi sangue na camisola. Uma mancha. Uma mancha grande. Levantei-a e vi. Uma costura na barriga. Uma costura grande e mal feita. Ainda havia sangue. Comecei a tremer. De frio. De medo.
Pensei que nesse dia de manhã o gato tinha largado uma pequena toupeira à entrada de casa. Uma toupeira morta. Era para mim. Pensei na toupeira. Pequena. Pequenina. Parecida com um rato mas com o focinho em bico. Para furar.
Pus a mão sobre a costura na barriga. A mão ficou com sangue. Senti vertigens. Má-disposição. Vontade de vomitar.
A cabeça começou a andar à roda.
Senti-me ir.
Não sei o que aconteceu depois.
Agora acho que estou num hospital. Mas não tenho a certeza. Há umas máquinas. Mas também há uma certa sujidade.
Não sei onde estou. Mas estou com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/31]

Não Saber o que Fazer a Seguir

Saí de casa depois de almoço.
Pus os pés na estrada e fui por ali fora. O sol a dar na cabeça. Os carros a passarem rente a mim. Naquela zona não há passeio. Entre o asfalto e o campo de terra lavrada há uma vala para deixar correr as águas em dias de chuva. O que é feito desses dias?
Não sei onde é que ia. Ia, só.
Os Domingos são dias de uma certa melancolia. E quando não há bola, fico sem saber o que fazer. É que não posso ficar em casa o tempo todo. Não posso ficar dentro da cama o tempo todo. Não posso ficar debaixo dos lençóis o tempo todo.
Preciso livrar-me desta força que me prende. Faço um esforço. Às vezes penso que é um esforço inglório. Acabo sempre por voltar para lá. Sim, acabo sempre por voltar para lá, mas enquanto ando aqui por fora sinto-me bem. Relativamente bem.
Saí de casa e fui por ali fora.
O sol estava forte. Batia-me com força na cabeça. Eu caminhava pelo asfalto e, quando vinha um carro, afastava-me para a vala. A vala estava seca, mas era difícil caminhar na vala. O caminho não era direito e entortava-me os pés. Deformava-me as sapatilhas. Magoava-me os joelhos. Houve uma altura em que eram muitos os carros e tive de ir para o campo lavrado. Entre a vala de inclinada e os torrões de terra seca do campo lavrado não sabia qual o melhor caminho. Mas optei pelo campo de terra lavrada. Sujei as sapatilhas. Pensei que, mais tarde, teria de as lavar. Não consigo andar com as sapatilhas sujas. Não, não me incomodam as sapatilhas sujas. Tenho umas All Star todas porcas. A minha mãe até tem vergonha de sair comigo se eu usar as All Star tal o seu estado de sujidade. Mas não estas. Estas, umas New Balance 996 são muito boas para caminhar, mas não podem ficar sujas. Não ficam bem sujas. E isso incomoda-me. Mas anotei. Passei por cima da vontade e decidi que as limpava quando chegasse a casa. Logo que chegasse a casa.
O sol estava quente. Encontrei uma árvore no caminho. Não sei que árvore era. Não percebo nada de árvores. Mas tinha uma boa ramagem. Um tronco grosso. Sentei-me lá debaixo, à sombra. As costas contra o tronco. Puxei de um cigarro. Acendi-o.
E, depois de fumar ali sentado, o que é que iria fazer?
Essa era a pergunta que eu fazia ali sentado. Na verdade não conseguia descansar. Na verdade, nem conseguia saborear o cigarro. A minha preocupação era sempre o que é que iria fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem onde estou porque estou sempre a pensar onde vou a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a fazer o que faço porque estou sempre a pensar o que fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a gostar de ninguém porque estou sempre a pensar em quem vou gostar a seguir.
Por vezes sinto-me enlouquecer. É por isso que gosto de me enfiar na cama. Tapar-me com os lençóis. Não ver nada. Não ouvir nada. Deixar passar o Domingo. E os outros dias da semana todos, uns atrás dos outros. Depressa. O tempo a passar rápido.
Acabei o cigarro. Apaguei a beata na terra. Levantei-me.
Não sabia o que fazer.
Não sabia para onde ir.
Não sabia o que queria.
E estava ali assim, naquela imobilidade, quando chegou o carro.
O carro parou. Abriu-se uma janela. Ela olhou para mim a sorrir e perguntou Queres vir? E eu disse Sim, mãe. Ela abriu a porta do outro lado e eu entrei.
Enquanto ela engatava a primeira e o carro arrancava, ainda me disse Fiz um Bolo Veludo de Framboesa. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/24]