Lavar a Louça É Terapêutico

E o tipo, com um olhar muito sério, disse-me Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Estávamos na véspera da véspera do ano novo. Eu e um grupo de amigos tínhamos alugado uma casa em Vila Nova de Milfontes. Fomos uns dias antes. Para ir fazendo a despedida do ano. E eu já estava zangado com toda a gente, com o ano velho e com aquele que ainda não tinha chegado.
Naquela época eu zangava-me com muita facilidade. Era um rapaz muito sensível. Qualquer coisa, por mínima que fosse, mexia-me com os nervos.
Talvez por não fazer sexo. Naquela época não conseguia arranjar namoradas com facilidade. Eu era um tipo complicado. Muito chato. Picuinhas. Às vezes, até, um pouco arrogante. As namoradas não passavam dos primeiros dois ou três dias, de umas mãos dadas transpiradas e uns beijos sôfregos sem consequências. Talvez por não saber o que fazer da minha vida. Estava tentado a desistir do curso superior que frequentava mas também não sabia muito bem para onde ir. Muitos problemas. Muitas dúvidas. Muito vinho. Muita droga. Porra! que a vida juntou-se toda só para me chatear. Basicamente era assim, a minha vida. De problema em problema. E depois de explodir, depois de mandar toda a gente à merda, ficava sozinho. Curtia a minha depressão. A minha ressaca da zanga. Normalmente dava-me para lavar a loiça. E foi o que fiz depois da terrível discussão em Vila Nova de Milfontes sobre qualquer coisa de muito importante mas que já não me recordo hoje, passados todos estes anos.
Então, era véspera da véspera. Tínhamos acabado de almoçar. Saíram todos de casa, em grupo, e eu odeio grupos!, para irem beber café à rua. Eu fiquei em casa. Eu e a minha neura. Pus-me a lavar a loiça. A loiça de almoço de, quê? cerca de vinte pessoas? Talvez isso. Mais uma, menos uma. Durou uma hora. Ali, em pé, curvado sobre o lavatório da cozinha, de esponja na mão, embalagem de detergente a esguichar em abundância. Fazia muita espuma. Queria sentir a gordura a desaparecer dos pratos, das minhas mãos. Queria ver os copos brilhantes, sem dedadas nem lábios de batom ou de comida.
Quando acabei, doíam-me as costas e tinha os dedos enrugados.
Sentei-me no sofá a olhar para a televisão. Um programa de merda qualquer daqueles para matar horas e entreter os velhos. Um copo de vinho nas mãos. Um cigarro aceso. A neura estava a ir embora. Estar ali a esfregar pratos e talheres e copos e despejar os restos no caixote do lixo e apanhar todas as garrafas vazias de vidro de cerveja e de vinho espalhadas pela casa, tinha-me acalmado.
Depois de fumar o cigarro e beber o copo de vinho, fui à rua levar o lixo. Os caixotes já estavam cheios. Mandei tudo para cima do monte que já se erguia acima da boca do caixote. Pensei quando é que o lixo ia começar a cair para o chão. Vi que já havia muita gente da cidade em Milfontes. Os cabrões! E regressei a casa. Curtir a casa silenciosa e calma antes do regresso dos outros todos, a pensar que Vila Nova de Milfontes já estava a ser inundada de gentinha chata vinda da capital. Gente assim como eu, não é?
Acendi a lareira. Continuei a beber a garrafa de vinho tinto. Entre o calor da lareira e o embalo do vinho, deixei-me adormecer.
Fui acordado com a chegada dos outros. Disseram-me, aos gritos, que íamos fazer uma prova de vinhos cega, com os rótulos tapados. E eu, acordado assim de chofre, aos berros, por gente muito feliz e histérica, a correr de um lado para o outro para preparar a mesa disse Vão para o caralho! Eu não jogo!
Um deles sentou-se ao meu lado, no sofá, e perguntou-me Porquê, pá? e eu respondi Já bebi uma garrafa inteira, sozinho, porque estava sozinho, não estava aqui ninguém, foi-se tudo embora e eu bebi a garrafa sozinho e estou bêbado.
Ele riu-se, o filho-da-puta, e disse Estás bêbado, mas ainda não estás muito bêbado. Por isso não é grave. Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Eu levantei-me do sofá. Acendi um cigarro e fui sentar-me à mesa, à frente de um copo de vidro ainda vazio e várias garrafas de vinho tinto com os rótulos tapados. À vez iam chegando queijinhos e patés e tostazinhas integrais à mesa. Eu agarrei num bloco, numa caneta, e esperei que me servissem o vinho para começar a prova. Ainda não via aranhas.
Nessa passagem de ano continuei sem ter sexo. Lavei a louça todos os dias. Sozinho.
Nesse ano desisti do curso e fui trabalhar enquanto pensava no que fazer à minha vida.
Já passaram, o quê?, mais de trinta anos desde essa época, e eu continuo sem saber o que fazer à minha vida. Mas tenho fé que um dia descubro. Ainda gosto de lavar a louça.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/23]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Campo de Trevos

Em frente a casa há um pequeno terreno cheio de trevos. Todos os anos, por esta altura, está sempre tudo verde. Mas começa lá mais atrás, para o final do ano que ficou. Começa quando o tempo arrefece. Ou, pelo menos, a ficar menos quente.
É um manto de verde que se estende como um tapete, aqui em frente. Durante a noite, e até o sol nascer, os trevos são como uma seta, com as folhas recolhidas, transformando-se num triângulo aguçado, apontado a céu. Mal o sol desperta, as folhas também despertam e abrem-se para receber o dia.
Costumo deitar-me entre os trevos a fumar um cigarro. A olhar as nuvens a passar lá em cima. A ver formas. A descobrir animais. A reconhecer caras. Sinto as formigas a passar sobre mim. Há sempre uma formiga. São trabalhadoras. Estão sempre à procura de comida. Às vezes picam-me. Às vezes também passam por cima de mim outros bicharocos que não sei o que são. São besouros, acho. Talvez sejam outras coisas. Mas são descarados. Passeiam sobre mim. Sobre o meu corpo. Por cima da roupa. Pela cara. Já os apanhei a entrar-me pelas calças acima e a caminhar pelas pernas. Fazem-me cócegas. Só evitam a mão que agarra o cigarro. Acho que não gostam do fumo do tabaco.
Os gatos aqui de casa também gostam de vir para aqui brincar. Andam às turras uns aos outros. Às vezes também aparecem os gatos da vizinhança. Como ontem.
Não sei se é da Lua, se a gata-mãe anda com o cio ou se são os gatos que andam doidos. Vêm a gata-mãe a passear, a mover os quadris, de rabo levantado, focinho muito direito, arrogante, elegante, dona e senhora do seu nariz e ficam desvairados.
Ontem apareceu um siamês. Nem sei de onde é que ele veio. Não conheço nenhum siamês aqui perto. Abri a janela do quarto e o cabrão do gato estava em cima da gata-mãe. A gata miava. Olhou para mim, quando abri a janela, e miou. Fiquei furioso. Furioso que um gato, que não sei de quem é, me venha foder a gata e, ainda por cima, no meio do meu campo de trevos. O mesmo campo de trevos onde costumo estar deitado, em comunhão com a natureza enquanto me evado para sítios que não conheço. Saí de casa. Agarrei num seixo que estava no alpendre, corri para o campo de trevos e gritei Oh meu caralho! o que é que estás aqui a fazer? e ele olhou assustado para mim, saiu de cima da gata-mãe, que fugiu, e ficou parado a olhar para mim, sem saber o que fazer. Eu levantei o braço. Ele fugiu. Mandei o seixo e acertei-lhe no lombo. Andou um pouco de lado. Não lhe fiz mal. Mas devo tê-lo assustado. Espero que não volte aqui. Espero que não venha incomodar a gata-mãe. Espero que não me venha irritar outra vez. Ah, cabrão! Se te apanho!, gritei enquanto o via a fugir, lá ao longe.
A gata-mãe regressou. Roçou-se nas minhas pernas. Miou. Acendi um cigarro. Deitei-me entre os trevos. A gata deitou-se em cima de mim. Em cima da minha barriga. Acompanhava a minha respiração para-cima-e-para-baixo. Arranquei um trevo. Tinha três folhas. Nunca vi nenhum trevo de quatro folhas. Acho que não tenho sorte.
Tenho sorte, sim. Sorte de ter este campo de trevos debaixo de mim e de uma gata-mãe a fazer-me companhia. E um cigarro na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/04]

Um Tango Mortal no La Poesia, em Buenos Aires

Buenos Aires.
Estava no café La Poesia, no Barrio de San Telmo. Tinha Todos os Fogos, o Fogo nas mãos. Na mesa, um copo de vinho tinto. Tinha pensado em beber uma Quilmes, mas as madeiras que me rodeavam pediam vinho. E vinho foi. Alma Negra. Uma empanada de carne. Ainda restava lá na mesa um bocado de queijo. E pão. Que ia depenicando entre as páginas de Julio Cortázar.
A madeira das mesas, das cadeiras, dos armários, do balcão, tudo aquilo me fazia sentir aconchegado. Rodeado de garrafas de vinho. Dezenas de garrafas de vinho. Queijos. Muito queijos. Azeitonas. De todo o género e feitio. E inúmeros cartazes publicitários antigos que me faziam crer estar numa máquina do tempo.
Tinha ido a Buenos Aires dar um seminário no Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales. Aproveitei para pôr em dia o meu conhecimento de cinema argentino. E encher a barriga de misérias. Já tinha decidido jantar um suculento bife de chorizo cheio de chimichurri. Mas ainda era cedo. Depois das aulas regressei ao La Poesia para descansar e retemperar forças. Já lá tinha estado de manhã a tomar o pequeno-almoço. Café e medialunas com dulche de leche. De comer e chorar por mais. E eu nem gosto de doces.
Despachado das aulas, lá estava de novo no La Poesia.
Estava então com o Cortázar nas mãos quando entra um homem, jovem, elegante, de fato de bom corte e sapatos de lustro puxado, cabelo com brilhantina penteado para trás com um risco bem marcado de lado, barba feita e um pequeno bigode, fininho, sobre o lábio superior. Circulou rápido entre as mesas, parou no meio do café, olhou em volta, virou-se para o empregado dentro do balcão e estalou os dedos no ar. O empregado parou a música ambiente que estava a tocar, em que eu nem tinha reparado, e colocou um tango. Toda a gente no café parou o que estava a fazer e fixou os olhos na personagem. Silenciaram-se as conversas. Pararam as leituras de livros e jornais. O jovem, esquivando-se ao toque nos estreitos caminhos entre as mesas, foi até um casal de meia idade que lia o jornal e bebia vinho a copo. Estendeu a mão à senhora que sorriu, envergonhada, olhou para o homem ao seu lado, que fez má cara, e deu a sua mão ao jovem, que a segurou, enquanto ela se levantava.
O jovem levou a senhora para o centro do café. O apertado centro do café. Eu larguei o Julio Cortázar na mesa. Agarrei no copo de vinho. Trinquei um bocado de queijo e apreciei. O jovem agarrou na senhora e começou a dançar. A dançar o tango mantendo-a colada a ele. A dançar de uma forma muito sensual. Sexual. Erótica. Os olhos que se comiam. As ancas que se tocavam. Os movimentos que pareciam lançar os peitos da senhora para fora da camisa. O nariz dele que contornava o pescoço dela. Que a cheirava.
O homem, sentado à mesa, de jornal aberto à sua frente, olhava com desagrado a dança.
A música termina. O jovem aperta a senhora e beija-a na boca. Um beijo intenso. O homem levanta-se da mesa, larga o jornal no chão e corre para o centro do café. Puxa a mulher violentamente para trás. Ela cai sobre uma cadeira e resvala para o chão. O homem agarra o braço do jovem. Este leva a mão ao bolso das calças. Traz uma navalha-borboleta na mão. Abre-a. Espeta-a na barriga do homem. Este pára. Larga o braço do jovem. Leva a mão à barriga. Olha-se. Vê sangue a sair por entre os dedos das mãos. O jovem endireita-se. Enfia a navalha-borboleta no bolso traseiro das calças. Estica o casaco. Faz uma vénia à senhora que continua caída no chão. Levanta a mão num adeus arrogante para todo o café e vai-se embora.
O homem cai de joelhos sobre si próprio, com sangue a sair-lhe da barriga e a tombar sobre o chão.
O empregado de balcão faz uma chamada no telemóvel.
Os clientes que estavam no café começam a sair.
Eu meto o queijo na boca. Bebo o resto do vinho. Agarro no Cortázar e também saio do café.
Ainda vi a senhora a arrastar-se de joelhos para o homem que jazia deitado no chão. Ainda vi o empregado a olhar para mim enquanto me ia embora sem pagar. Ainda vi o sangue no chão. Ainda ouvi a sirene da polícia.
Acelerei o passo.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/20]

A Questiúncula

Senti o apelo. Recebi o convite e fiquei contente. Com vontade de ir. Uma espécie de magusto antes de tempo porque a Sexta-feira é sempre um bom início de fim-de-semana e não obriga a esperar por Domingo. Ao Domingo, dia de neura, dorme-se e recupera-se da Sexta-feira. Água-pé e castanhas assadas. O que eu estava a precisar para limpar o estômago dos Hambúrgueres e das Coca-Colas que têm sido as minhas refeições diárias. O Mac fica a caminho e é mais fácil estar dez minutos na fila, sem sair do carro, que ir para casa cozinhar sem ter vontade nenhuma de o fazer.
Tomei um banho quente e rápido para me desfazer da transpiração laboral e vesti roupa lavada. Liguei a rádio, coisa que faço cada vez mais. Bebi um copo de vinho tinto enquanto me vestia. Trinquei uns cajus. Procurei as botas que não uso há um ano. Revirei a dispensa à procura delas, mas encontrei-as. Mais tarde teria de voltar a arrumar aquilo tudo.
E, então, ouvi.
Ouvi aquela voz na rádio. Uma voz grave. Poderosa. Muito rápida. Quase que diria arrogante – e sim, mais tarde poderia confirmar que era mesmo isso que a voz era, arrogante. Imaginei a figura. O pé a bater na lage. Ritmado. A soca na mão. Ameaçadora.
No início não percebi muito bem do que se tratava. Até que lá cheguei. José Silvano 2.0. Ou a versão Emília Cerqueira, a jurista.
Ouvi a explicação através das ondas hertzianas, que também me trouxeram os perdigotos lançados através do espaço, não já da fake news, que não era disso que se tratava, mas da desfaçatez de alguém que me grita que a ética é algo de somenos. Uma questiúncula, portanto. Nada de ilegalidades. Parece que é assim que nascem os Bolsonaros. Assim e assado. Com questiúnculas, mentiras e touros. Até parece o nome de um filme pornográfico dos anos setenta, época em que as senhoras ainda usavam matagal e os senhores bigodes farfalhudos. Era tudo uma questão de pêlo. Em pêlo anda agora a honra. Com os tintins a dar-a-dar à espera de passar despercebida a sua ausência. Que bom que ainda há jornalismo. Jornalistas. Gente que, mais que indignada, se preocupa em não deixar morrer o nojo. Gente que não é virgem, mas sente-se ofendida.
Mas o que é que estava para ali a dizer? A filosofia não me assentava. A honestidade estava fora de moda. A verdade uma quimera. O objectivo de vida era ser o melhor e sacar o máximo. Isso sim, era o que eu era. Mas não, não era. Às vezes gosto de tentar ser normal. Não é isto o novo normal? Ser aldrabão? Falar mentiras com a indignação da verdade? Convictamente?
Desliguei a rádio. Tenho voltado a gostar bastante de a ouvir. Atirei o Silvano e a Emília para trás das costas e pensei no magusto antecipado que me esperava. Já salivava pela água-pé e pelas castanhas. E com um pouco de sorte, alguém me viria aconchegar a bebedeira à cama.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/09]