Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

Aguardo

Aguardo. Tenho a vida em suspenso. Posso ir ou não? Devo fazer ou esperar?
São tempos de enormes incógnitas. Não sei como vai ser a minha vida amanhã. Daqui a uma hora. Dentro de cinco minutos.
Tudo pode mudar. Ou tudo pode ficar na mesma. Não, na mesma não vai ficar. Já há demasiadas alterações à ordem das coisas para considerar que a vida retome a sua normal cadência diária. Os dias já não são iguais. Os dias já não são iguais a nada.
O país pode fechar.
O mundo pode encerrar para limpeza.
Eu posso ficar preso dentro do país. Do meu país. Na minha cidade. Em casa. Fechado em casa à espera de melhores dias. Mas aguardo. Aguardo em casa como me aconselham a fazer. Não estou de férias. Estou na corda bamba. Estou funâmbulo. Aguardo.
E se for eu? E se for eu o contagiado? Em segunda ou terceira via mas, e se eu for o contagiado?
Não vou para a praia. Isto não é uma brincadeira. Isto é a alteração do nosso modo de vida. Que pode passar a nosso modo de morte.
Gente que não sabe de nada opina com uma sapiência adquirida em conversas de café. Toda a gente sabe de tudo, mesmo que não saiba de nada. Brinca-se com a morte. O medo é terrível e leva ao disparate.
Vejo nos noticiários a busca desenfreada por papel-higiénico. Papel-higiénico? Por vezes não consigo perceber os caminhos que os homens percorrem.
Se tenho medo. Sim, tenho. Mas estou tranquilo.
O bom-senso manda aguardar. Aguardo.
Aguardo as sugestões, as ordens de quem sabe. Aguardo as ordens de quem estuda o assunto. Dos técnicos preparados para tomarem decisões por mim que não sei de nada, a não ser aquilo que me dizem, aquilo que querem que eu saiba. E eu não quero saber mais. Só quero saber o suficiente.
Recuso o pânico. A arrogância de que sei quando nada sei.
Aguardo. Tenho a vida em suspenso mas aguardo.
Aguardo com calma que me informem do evoluir da situação.
Aguardo que me digam que vou continuar vivo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/11]

Já Sei Mentir Melhor

Fazia um grande esforço para não chorar. Entoava um mantra em silêncio, ecoado na cabeça, para me impedir de chorar. Ficava no meu canto em silêncio. Silêncio que toda a gente interpretava como arrogância. Eu era o tipo que não dava cavaco a ninguém. Estava na minha inacessível torre de arrogância e má-disposição e não falava com ninguém. Na verdade estava cheio de medo, metido no meu canto, à espera que tudo passasse, que tudo passasse e eu pudesse regressar ao meu quarto, à minha cama, ao meu mundo onde não tinha que ser forte nem querer da vida o mesmo que todos os outros e que era o que toda a gente deveria querer e quem não quisesse tinha um qualquer problema dos quais a arrogância era o mais inócuo, não fazia mal a ninguém, só afastava ainda mais as pessoas de mim mas era coisa que também não me importava pois o que eu queria era que não me chateassem, mas tinha amigos de infância que me conheciam antes de todos estes medos e que achavam que eu merecia bem mais do que aquilo que estava disposto a agarrar por, sei lá, desleixe, desinteresse ou falta de empatia.
Hoje sei mentir. E sei mentir bem. Não sou o rei da festa, longe disso. Mas já consigo estar ao pé das pessoas. Beber com elas. Dançar com elas. Desejar coisas que não desejo com elas. Receber desejos com um sorriso e desejar o mesmo ou similar e parecer mesmo que desejo. Bom, é claro que desejo. Desejo toda a sorte e fortuna às pessoas que me são próximas. É a mim que me custa sentir qualquer desejo, principalmente quando sei da impossibilidade de conseguir concretizar esse desejo. Como sair-me o euromilhões, por exemplo. Ou ganhar o Nobel da Literatura. Ou a Palma de Ouro de Cannes. Ou o Grammy Latino. São impossibilidades efectivas. Não sou escritor, nem cineasta, nem músico. Sou só um tipo que tenta sobreviver aos dias, vivendo um dia depois do outro, mesmo que na maior parte das vezes não me apeteça sair da cama nem sobreviver aos dias que nascem nas manhãs seguintes.
Acho que a minha grande ambição na vida é não acordar na manhã seguinte.
Mas não se pode dizer isso. Não se pode dizer isso alto. Não se pode fazer chegar esses desejos aos ouvidos de ninguém. Porque a vida é sagrada. E não aceitar a sagração da vida é de uma grande ingratidão. E eu sou um ingrato. Mas eles não sabem. Ninguém sabe. Porque agora sei mentir. Sei mentir bem. Agora sou uma pessoa feliz e cheia de empatia com toda a gente.
Quando regresso a casa, regresso sozinho. Regresso ao quarto. Regresso à cama. Liberto-me de todas as normas. Deixo a mentira lá fora. Fora da porta da rua da minha casa. E posso voltar a ser o que sou quando estou sozinho. Um tipo sem perspectiva de futuro que se vai arrastando nas vontades dos outros, enquanto se arrasta pelos corredores frios e vazios de uma casa solitária e triste.
Vou à varanda fumar um cigarro e acabo sempre a pensar que a minha casa devia ser mais dois ou três andares acima do que é.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/01]

Éramos Jovens

Éramos todos jovens. Jovens, bonitos, elegantes e muito sensuais. Eu também era assim. Era o futuro. Aquele que, no presente, representava o futuro e nunca, nunca por nunca, seria passado.
As calças apertadas. As camisas abertas. A barba de três dias. O cabelo revolto ou o gel no cabelo. As discotecas. Os bares dançantes. As saídas de casa. O teatro. O cinema. Os concertos. As bebedeiras. As drogas. As noites de sexo que os pais, coitados, nunca tinham tido. Eram namoradas, amigas, amigas muito coloridas, conhecidas.
No alto da minha arrogância apontava o dedo acusador aos velhos que me tinham precedido. Não sabiam. Já não sabiam. Ria-me de os ver curvados, gordos, carecas. De perderem o fôlego numa pequena corrida. De não entenderem a tecnologia. De terem dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. De esquecerem onde tinham largado os óculos e não verem nada sem eles. Das roupas sem graça que usavam. Dos livros esquecidos que citavam. Das músicas parolas que dançavam. E como dançavam. Colados. Uns aos outros. A sentirem a transpiração uns dos outros.
Eu nunca usaria óculos nem bengala. Nunca mijaria nas calças nem na cama. De corpo direito e cabeça erguida nunca receberia ordens. Seria eu a dá-las.
O mundo era meu. Nosso. Nosso, dos jovens. Os que tinham futuro. Íamos ter trabalhos de grande responsabilidade mas cheios de glamour, com salários com que os nossos pais nunca puderam sonhar, e podíamos ir de férias para todo o lado. O mundo era o nosso quintal. A globalização tinha-nos dado a ideia de que podíamos ir a todo o lado. A internet levou-nos lá. As low-cost levaram-nos, de facto, a quase todos os lados. Mais a uns lados que outros que temos tendência para ir onde vai toda a gente. Precisamos de eco. Ver o que os outros vêm. Ouvir o que os outros ouvem. Ler o que os outros lêem. Ir onde os outros vão. Mas não uns outros quaisquer. Os nossos outros. Os meus outros. Os meus amigos. A minha tribo. O meu parâmetro de comparação. Fomos às mesmas ilhas das caraíbas, em resorts assépticos que a realidade é uma merda. Às mesmas cidades de cartaz. Quem não foi a Veneza? A Barcelona? A Paris? A Londres? Quem não passou férias na República Dominicana e em Cuba? Quem não foi a Jericoacoara? A Natal? Quem não sonhou em ir à Nova Zelândia? Mas já não chegámos lá.
Éramos a geração escolarizada. Todos aprendemos a ler e a escrever. A ter opinião e a deixar de a ter. Éramos superiores aos nossos pais que não sabiam ler ou tinham uma quarta classe tirada em adulto. Fomos os primeiros a levar livros para casa. Falávamos várias línguas. Íamos conquistar o futuro.
E saímos de casa dos pais para ir estudar. Estudar longe de casa – ainda se podia. E a pensar nunca mais voltar.
Como estávamos enganados.
E depois, depois de muitos anos de tudo a que nos julgávamos com direito, depois de muitos anos a tratar o mundo por tu, percebemos que nós éramos os nossos pais.
Eu percebi isso quando voltei para casa deles. Quando regressei, porque não podia ter sido de outro modo. Todo o meu conhecimento não foi suficiente para conseguir um trabalho bem pago. Sem capacidade de pagar uma renda de casa. Mais água. E gás. E electricidade. E o cabo. Como viver sem internet? Sem férias. Sem viagens. O mundo era meu, mas era digital. Estava lá, não estando. Um sonho que que só existia no Facebook, no Instagram.
Então, descobri que eles era eu. Eu era o velho. Era o gordo. Eu é que tinha os dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. O meu presente já não tinha futuro, só passado. Um passado cheio de esperança e ambição que não chegou ao presente.
Agora uso calças largas porque me são mais confortáveis. Óculos para perceber quais os comprimidos a tomar. Já não tenho cabelo. O sexo só por marcação e com ajuda do comprimido azul. Já não saio de casa sem a bengala. Na verdade, já não saio de casa. Tenho frio. E medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/04]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Um Corpo Flácido e Enfraquecido

Convivo mal com a decadência do meu corpo. Os anos passam por mim, na sua cadência segura, e vão deixando um rasto de velhice que se aproxima perigosamente da morte.
Sinto-me dividir em dois. Os anos passam, a cabeça continua arrogante e lúcida mas o corpo está flácido e enfraquecido. Sou dois homens num corpo só. E o que me entristece é que sinto a decadência do corpo a ganhar vantagem sobre a lucidez da cabeça.
Levanto o braço para agradecer os parabéns e sinto os músculos dos braços a abanar, descaídos, sem forma, sem força.
Urino na casa-de-banho e começa a ser normal pingar os pés, as calças. Às vezes sinto vergonha quando saio da casa-de-banho todo pingado. Por vezes sinto que não deitei fora tudo o que devia deitar e percebo que o perigo se alastra pelo algodão suave das cuecas. Trago uma mancha colorida. Sinto vergonha pelo cheiro que devo arrastar comigo. Sinto vergonha por aquilo que me estou a tornar.
Descobri um quisto sebáceo nas costas. Não lhe conseguia chegar. Foi crescendo. Mas cresceu tanto que foi alargando a pele e a pele tornou-se mais fraca. Rebentou sozinho. Um cheiro fétido saiu-me pelas costas, junto com uma massa pastosa. Só o consegui expurgar debaixo do duche. Não sei quantas horas lá estive. Com a água a lavar o meu nojo. E depois… E depois o buraco nunca mais se fechou. O meu corpo já não se regenera. O que perco, fica perdido. Já não recupero nada do que fui perdendo. Foram-se os dentes. Foi-se o cabelo. Foi-se a vista. Tenho de actualizar constantemente as lentes. As unhas partem-se. A barba está branca. Tenho manchas no corpo. Saem-me pêlos por todos os buracos. Ouço mal. Coxeio.
Hoje o meu corpo já mal reage a estímulos. Fujo ao contacto físico com outros corpos para não me envergonhar. Tenho medo do que possa acontecer. Ou melhor, do que possa não acontecer.
É um cansaço constante. E de físico também passa a intelectual.
A preocupação com a perca das qualidades do corpo começa a tomar conta da minha cabeça. Não consigo não pensar nisso.
Evito ir à praia. Vestir calções. Despir a camisola. Tenho vergonha da barriga que tomba sobre os calções. Das veias que ganham dimensão nas pernas. São as varizes. Já nem o moreno do sol as esconde. Agora tenho de usar um factor pelo corpo. Senão, queima. Faz-me mal. Perigo dos melanomas, diz o médico. Sim, agora passo a vida no médico. Colecciono mazelas. Algumas vêm dos excessos da juventude. Outras, porque sim.
Doem-me as costas. Doem-me sempre as costas na cama, por causa do colchão. Doem-me as costas a caminhar porque tenho o vício da postura. O vício de anos com as costas tombadas sobre os pés. Não posso acartar pesos. Não consigo dobrar-me. Não posso fumar. Não devo beber vinho. Nem cerveja. Muito menos café. Tenho de ter cuidado com o açúcar. Fugir dos fritos. E das gorduras. Carne vermelha só muito raramente. Mas não é difícil que não a posso pagar. Devia comer mais peixe cozido. E enfardo cavala, o mais barato. Mas já estou enjoado.
Chega uma altura em que o corpo começa a dizer à cabeça que já chega. Já chega de aventuras. A cabeça resiste. Mas sente-se a ser perfurada. Aos poucos a cabeça começa a ceder ao corpo. Aos poucos começa a perceber que, se calhar, já não vale a pena continuar a lutar por algo que já não regressa. A juventude do corpo ficou no passado. Hoje é só uma memória. E a cabeça começa a cansar-se de memórias. Começa a sentir que isso é viver por procuração.
Tomo vários comprimidos repartidos ao longo do dia. Há dias em que não os tomo. Há dias em que quero parar a marcha inevitável do tempo. E regressar ao passado.
Mas esta não é uma história de ficção.
Sinto o meu corpo a morrer. E a cabeça com ele.
E é nessa altura que regresso à varanda. Com um copo de vinho numa mão e um cigarro aceso na outra. E digo baixinho, para mim É sempre inevitável.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/26]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão espremido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

Chateei-me com a Cidade

Chateei-me com a cidade. Com as gentes da cidade. Com as manias da cidade. Com a arrogância da cidade.
Peguei numa mochila e saí. Fui passar uns dias ao campo. Fui para passar uns dias e ainda estou por cá. Respiro calma. Tenho tempo. Larguei os comprimidos. Bebo mais vinho. Garrafas sem rótulo. Directo do produtor para o meu prazer. Às vezes é muito agressivo. Às vezes arranha. Às vezes preciso de um Kompensan para matar a acidez que me inflama a garganta.
Tenho por companhia uns gatos sem nome. A gata-mãe. Os gatos filhos da gata-mãe. Um é preto. Outro amarelo. O outro é malhado. Se calhar são gatas, não sei. Chamo-lhes gatos, genericamente. Também tenho a companhia do piruças. O piruças é um cão e está preso a uma casota. A casa não tem muro e ele não pode andar por aí à solta. Os gatos andam soltos e não saem daqui. O cão, liberto-o de vez em quando. Ele sai disparado, está ausente por um bocado, visita os amigos da vizinhança, e depois regressa. Há por aqui, também, o Óscar. Mas não sei por onde anda. Deve estar hibernado. Já não o vejo desde o fim do Verão. O Óscar é um sardão, verde, bonito, arisco. Mas não liga nada a ninguém. É um solitário.
Quando vim da cidade trouxe poucos livros. Não esperava ficar cá muito tempo. Mas fiquei. Já li tudo o que trouxe. Mais que uma vez. Pus-me a vasculhar as gavetas aqui de casa. Encontrei umas edições das Selecções do Reader’s Digest. Umas revistas de banda-desenhada de cowboys, antigas, a preto e branco. E um livro do Raymond Carver. Catedral. Numa tradução do João Tordo. Uma edição relativamente recente, portanto. Fiquei admirado, mas foi assim como um raio de luz a entrar cá dentro. Cá dentro da alma. Iria ser um prazer relê-lo.
É Domingo.
Levantei-me cedo. Fui à missa. Aqui, às vezes vou à missa. É uma das minhas acções sociais. Depois passei pelo café da aldeia e bebi um Martini branco, com gelo e um bocado de gin. O gin era Bosford, o que não me trazia boas recordações. O fígado retraiu-se. Mas não havia outro. Não podia ser mariquinhas! Bebi aquele Martini e pedi outro. O fígado há-de habituar-se.
Regressei a casa e almocei galinha guisada. Com grelos. A vizinha que mora no início da rua, ao saber que um homem morava sozinho nesta casa, vem cá de vez em quando saber se preciso de alguma coisa. Traz-me sopa. Guisados. Fruta. Legumes. Uma ou outra garrafa de vinho do marido. São produtores para consumo próprio. Têm uma pequena vinha. O vinho é mau. Mas mata a bicharada que tenho dentro de mim. Às vezes também me lava a roupa. Mas tenho sempre pouca para lavar. Mudo menos de roupa, por aqui. Às vezes nem tomo banho. Ajuda com o frio. Ando dias inteiros sem me aproximar da banheira. Os dentes sim. Lavo-os três vezes por dia. Às vezes quatro.
Hoje dava o Benfica. Ia ver o jogo ao café. Mas era só ao final da tarde.
Aproveitei este tempo, entre o almoço e o jogo, para começar a ler a Catedral. E comecei:
“O marido de Sandy tinha estado sentado no sofá desde que fora despedido, três meses antes. Naquele dia, há três meses, chegou a casa pálido e assustado e com as suas coisas do trabalho dentro de uma caixa.”
Este cabrão do Carver! Tenho sempre a sensação que está a falar de mim. A expor a minha vida. A tecer considerações sobre as minhas opções. Sobre os vazios da minha vida. Sobre os meus erros. Que porra!
Ou então sou eu que ando a transformar-me numa personagem do Raymond Carver.
Fui buscar uma garrafa de vinho daquele meu vizinho que produz para consumo próprio. Um maço de cigarros. Sentei-me à lareira. Continuei a ler. A beber. A fumar. E esqueci o mundo.
Era já noite quando parei de ler. Tinha esquecido o jogo do Benfica. Os gatos miavam aqui à porta. O cão ladrava na casota. Queriam comer. Fui levar-lhes ração, que era o que tinha. Havia uns restos de ossos da galinha, mas ia dá-los ao cão só amanhã.
Gosto de estar por aqui. Ainda não fiz as pazes com a cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/06]

A Mulher que Canta

Estamos no deserto. Num deserto do Médio Oriente. Naqueles desertos de pó. Uma pequena aragem levanta nuvens de poeira. E um ambiente bege. O céu e a terra confundem-se no horizonte. O plano é largo. Bastante largo. Abarca a acção, os protagonistas da acção e o ambiente onde a acção decorre. Vê-se um soldado-cristão levantar a mão. Uma arma na mão do soldado-cristão. À frente do soldado-cristão, pequenino no plano, e na vida, uma criança corre. Corre desalmada. Corre para os braços da mãe carbonizada no autocarro em chamas. Um autocarro com famílias muçulmanas que os soldados-cristãos mataram a tiro. Mulheres. Crianças. Velhos. Tudo morto a eito a tiros de metralhadora. Depois gasolina para a combustão e queimar tudo. Tudo menos esta criança retirada por uma cristã sobrevivente que estava no autocarro. Mas que quis a mãe. No fim, a mãe. E corre para os seus braços carbonizados. Mas não chega lá. O soldado-cristão levanta a mão com a arma e dispara. A criança é projectada para a frente. Como se levasse uma paulada na cabeça. O tiro atinge-a por trás. A criança não chega aos braços carbonizados da mãe.
Estou num filme de Denis Villeneuve. Estou a descobrir o cinema de Denis Villeneuve. E descubro um cineasta urgente. Que urge descobrir. Quase todos os anos tem aparecido na cerimónia dos Óscares com filmes nomeados. Mas poucos o conhecem. O reconhecem. Poucos guardam o seu nome e, no entanto, aqui está um cineasta cheio de cinema. De um cinema obrigatório. Forte. Político. Humano.
Estou em Incendies, A Mulher que Canta. E vejo essa Mulher que Canta na prisão. Na prisão onde esteve quinze anos, numa cela de um por dois metros. Na prisão onde foi humilhada, torturada, violada. Onde foi violada pelo pai dos seus futuros dois filhos. Gémeos. Frutos dessa violação. Violada pelo próprio filho primogénito, veio a descobrir mais tarde. Próprio filho que tivera anos antes e que fora roubado dela, tirado dos seus braços, levado para um orfanato por desonra da família. Oh quanta honra nas famílias! Puta que pariu as famílias e a sua honra! E tornado guerreiro. Soldado. Criança-soldado. Que acaba por se tornar naquilo. No terror. Na miséria. Na desgraça.
Que merda de humanidade somos!
Estou na prisão com a Mulher que Canta. A Mulher que Canta está deitada no chão, semi-nua. O filho-violador vai a sair da cela, vira-se para trás e, do alto da sua arrogância de soldado-vencedor, diz Canta lá agora!

[escrito directamente no facebook em 2018/11/04]

O Medo

Ando com medo. Não reconheço esta gente.
Espreito pelo óculo da porta. Há pouca gente na rua. É, talvez, a melhor altura. Abro a porta. Os olhos no chão. Não podem cruzar outros olhos. Outros olhares. Os olhos em baixo. No chão. Caminho, nem devagar nem depressa. Em passo decidido. Faço os quinhentos metros que me separam do café de olhos no chão. Não posso cruzar-me com ninguém. Não posso conhecer ninguém.
Entro no café e sigo até ao balcão. Olho para o cesto do pão e peço Quatro papo-secos, se faz favor!, à rapariga que senti, pelo canto do olho, abeirar-se de mim do outro lado do balcão.
Atrás de mim ouvia-os falar, alto e bom som. Os novos senhores. A arrogância de quem manda. Estavam a beber. Notava-se que alguns já estavam ébrios. Estavam em casa. Em todo lado estavam em casa. Tudo era casa. Deles.
Agarro o saco do pão estendido por cima do balcão. Largo umas moedas. E saio. Quero sair. Ir embora dali. Voltar para casa.
Viro-me. Largo o balcão. Os olhos no chão. O saco de pão na mão. Linha recta até à porta da rua. Depois mais quinhentos metros até casa. Vou andando. Um pé à frente do outro. Um passo e outro passo. E, a meio do café, a meio do caminho, uma perna esticada. Uma perna esticada à minha frente. E caio. Caio no chão do café. O saco salta-me das mãos. Abre-se. Os papo-secos espalham-se pela sala. E eu caído. De quatro. O silêncio. No café, o silêncio. Até eles, os novos senhores, em silêncio. Aguardavam. Eu levanto-me. De olhos no chão. Desculpe! Foi culpa minha, disse. Procurei os papo-secos. Apanhei-os. De volta para o saco.
E então desatam a rir. Os novos senhores, donos do espaço e do tempo, desatam a rir, satisfeitos com a situação. Quem pode, manda. E retomam as suas conversas. Alto e bom som. Mostram quem manda. Quem obedece. O café inteiro reconhece a ordem das coisas e ri. Ri sem vontade, mas ri. Sabe que amanhã, qualquer um deles, um aleatório, pode ser o centro de alguma acção como aquela, ou pior, mas ri. Tem de rir.
Saio do café.
Mantenho os olhos no chão. Acelero o passo naqueles quinhentos metros até casa. Abro a porta e entro. Fecho a porta nas minhas costas. Largo o saco de pão no chão e corro para a casa-de-banho. Abro o tampo da sanita e vomito. Na cabeça o riso. A gargalhada. Deixo-me ficar ali tombado, agarrado à sanita. A ouvir o riso. A ouvir a merda do riso.
Até quando? Até quando, o medo?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/26]