Gosto de Dançar Músicas Bonitas da Minha Infância

Hoje andei cá por casa a dançar.
Acordei cedo, com o sol a bater-me nos olhos e uma fome dos diabos. Liguei o rádio da mesa-de-cabeceira e espalhou-me The Windmills of Your Mind, na versão de Dusty Springfield, por toda a casa. Mandei o edredão para o fundo da cama com os pés e levantei-me de um pulo. Tinha vontade de mijar mas tive de refrear a vontade. Primeiro a dança. E foi a dançar que saí do quarto, percorri o corredor todo até à cozinha, fiz café, uma torrada, fumei o primeiro cigarro do dia enquanto esperava pelo café e pela torrada, no balanço de uma dança muito minha que me punha a bailar como me apetecia bailar ao som da música saída do rádio e que me inundava a casa como um perfume caro de boa disposição.
No fim da música lá fui mijar.
Desliguei o rádio, que não queria saber de noticiários, e acabei a beber a caneca de café e a comer a torrada cheia de manteiga Milhafre, manteiga que me escorria pelo queixo abaixo a cada dentada que lhe desferia.
Aproveitei a boa-disposição para aspirar a casa. Abri todas as janelas de todas as divisões da casa. A corrente-de-ar que sentia percorrer-me o corpo agradava-me. Fui à rua levar o saco do lixo. Só quando lá estava é que me lembrei que estava de cuecas. Na verdade eram boxers e passavam bem por calções. Estava calor e ninguém se sentiu incomodado com as minhas intimidades.
No regresso a casa tudo mudou.
Foi logo ao franquear a porta.
O sol foi coberto por uma nuvem cinzenta. A corrente-de-ar em casa tinha arrefecido e causava-me arrepios. Fechei as janelas todas. Começou a chover. Uma chuva que começou logo por cair violenta. Fiquei à janela da cozinha a ver a chuva a cair forte lá fora. E pensei As coisas boas nunca duram. E acabei a concluir E o Domingo é sempre o Domingo.
Agarrei num cigarro. Não cheguei a acendê-lo. Olhei-o, não senti vontade de o fumar, e acabei a amarfanhá-lo na mão. Lancei-o para o lava-loiça com um desprezo que nem parecia meu. Eu gosto de fumar.
Senti o meu corpo a desfazer-se. Senti o meu corpo a ir por mim abaixo até ao chão que tinha acabado de aspirar e desaparecer entre as frinchas das ripas de madeira.
Regressei ao quarto. Demorei a fazer o corredor. Parecia maior, mais comprido, sem fim, com um horizonte que se projectava para além de si próprio a cada passo que eu dava na tentativa de lá regressar.
Cheguei de novo à cama. Deitei-me. Puxei o edredão sobre mim, sobre a cabeça, e nem os olhos ficaram de fora.
E enquanto tentava adormecer, no quentinho confortável do edredão, pensei como gostava de dançar. Dançar sozinho. Só para mim. Sem ninguém ver. Gostava muito de dançar estas músicas bonitas da minha infância.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/29]

O Controle

Hoje pensei em M.
Hoje lembrei-me do que aprendi com M. ao escutar uma conversa alheia. Viajei no tempo, regressei a uma época de juventude e à descoberta do meu eu sádico. Sexualmente falando, claro.
Descobri o meu sadismo através do masoquismo de M. Tive medo. Nunca mais lá regressei. Pelo menos àquela dimensão.
Hoje fui almoçar à cervejaria no rés-do-chão aqui do prédio. O prato do dia era Ovos Escalfados com Ervilhas. Motivo mais que suficiente para me fazer sair de casa. Desci as escadas. Não tive lugar ao balcão, o meu lugar por excelência. Estava cheio de comensais. Acabei por me sentar solitário numa mesa no meio da sala. Fui olhando a televisão lá ao fundo enquanto esperava pela minha meia-dose do prato do dia e do pequeno jarro de vinho tinto da casa (da região das Cortes, aqui nas berças da cidade).
Ouvia várias vozes. Várias conversas. Coisas soltas. Coisas sem grande interesse. Até que algo me captou a atenção. Entre um bocado de pão com manteiga e uma azeitona, algo captou-me a atenção. Um pedaço de conversa. Uma voz feminina que contava E ele só dizia para me controlar. Controla-te que controlas tudo o resto, dizia-me isto ao ouvido, e toda eu era arrepios. Estava com os braços e as pernas arrepiadas e a perder a força nos joelhos ao ouvir a voz sussurrada dele ao meu ouvido, Controla-te.
Virei a cabeça. Foquei o olhar. Tentei perceber de onde vinha aquela conversa que me chamara a atenção. Havia uma mesa próxima da minha com duas senhoras. Senhoras jovens. À volta dos seus quarenta anos. Supus que a conversa viesse de lá. Imaginei-as. Primeiro uma. Depois a outra. De encontro a uma parede. E uma voz de homem sussurrada a arrepiá-las. Mas não tive certeza de nada. Apurei os ouvidos. Não voltei a captar nada com o mesmo grau de interesse. Não que me interessasse a vida sexual da senhora, das senhoras, ali do lado. Era a curiosidade de saber para onde evoluía aquela conversa que me tinha captado o interesse. Debalde.
Chegou a minha meia-dose. O jarro de vinho. Enchi o copo. Comecei a beber. E foi aí que me lembrei de M. O controle de M. O controle para atingir um fim.
M. gostava que lhe desse umas palmadas. Com força. E dei por mim a descobrir que gostava de lhe dar umas palmadas. Gostava de ver as minhas mãos marcadas no rabo dela. Mas havia um ritmo. Uma ordem. Uma cadência. No início ela dirigia-me. Dizia-me o que fazer. E como o fazer. E dizia-me precisamente isso É tudo uma questão de controle. Fui adquirindo esse controle. E, por uns tempos, as coisas andaram equilibradas. Ela gostava que lhe batesse. Eu descobri que retirava algum prazer em fazê-la feliz daquela forma. Aprendi que gostava de lhe bater.
Um dia passou-me uma caixa para as mãos. Pediu-me que a espetasse. Eu não percebi. Abri a caixa. Tinha agulhas. Várias agulhas. Agulhas mais grossas que as de acupunctura. Fiquei sem saber o que fazer. Ao início assustei-me. Ela insistiu. Experimentei. Uma. Duas. Três. Quarto. No rabo. Depois queria nas pernas. Fui espetando.
Comecei a sentir-me excitado.
Percebi que estava a gostar de espetar as agulhas no corpo dela. Percebi, assustado, que estava a gostar. E não fui capaz de continuar. Assustei-me comigo. Retirei as agulhas. Coloquei-as na caixa. Ela virou-se para mim e perguntou Então?!
Eu abanei a cabeça.
Levantei-me da cama. Vesti-me e saí do quarto dela. De casa dela. Da vida dela. Perdi o controle.
Nunca mais a vi. Há muitos anos que não pensava nela.
Comecei a comer as ervilhas. Beberiquei o vinho. Olhei para a televisão. Via umas imagens a passar mas não percebia nada do que é que se tratava.
Olhei à volta. Muitas conversas. Muito barulho. Muita gente.
Continuei a comer as ervilhas com o ovo escalfado. Perdi o controle. Foi isso.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/13]

Ataques de Pânico

Já não sabia dela há uns dois, três anos. Desde que me pôs fora de casa. Nem chegou a olhar para mim. Pôs-me fora de casa por mensagem. Enviada para o telemóvel. Assim Muito sinceramente, não me consigo sentir bem contigo cá em casa. Gostava que arranjasses outro sítio para ficar e se conseguisses até ao fim-de-semana era o ideal. Pede a um dos teus amigos. Ou amigas. Tens tantos.
Não respondi. Senti arrepios pelo corpo. E não eram arrepios de frio. Era início de Outono. Um Outono quente. Estava na rua. Na cidade. No meio da cidade. Quando li a mensagem. Encostei-me a uma parede e vomitei. Fui olhado de lado por quem passava. Eu via-os a olharem para mim. O que foi, oh caralho? apetecia-me perguntar-lhes. Mas não disse nada. Nunca digo nada. Viro costas. Não por cobardia. Mas porque não gosto de me chatear.
Fui directo a casa. A casa dela. Ninguém. A casa estava vazia. Enchi uma mochila com umas roupas. Trouxe uns sacos de plástico com uns livros. O resto deixei por lá. Não tinha como os levar. Nem queria saber. No momento, estava furioso.
Sentei-me no sofá. Um último cigarro antes de me ir embora. Ela não gostava que eu fumasse lá em casa. Só à janela. Olha!… Azar!
Encontrei uma garrafa de vinho. Um Douro. Já não me lembro o que era. Abri-a. Bebi-a. Fumei todos os cigarros que tinha. E pensei. Pensei em coisas. Pensei em como tudo tinha começado a acabar. Pensei naquele dia em que estávamos no café. No centro da cidade. Íamos embora. Eu levantei-me da mesa. E ele continuou sentada. Estava branca. Muito pálida. Voltei a sentar-me. Perguntei-lhe O que se passa? Agarrou-me a mão. Com força. E continuou lá sentada. Sem falar. A tremer. A boca a mexer como se quisesse dizer alguma coisa mas sem dizer nada. Fiquei assustado. Pedi um copo de água. Consegui que bebesse um gole. E finalmente, passado um bom bocado, disse-me Vamos! E fomos. Mais tarde tentei abordar o assunto. Evitou-o sempre. Aquilo repetiu-se. Várias vezes. Mais tarde vim a saber que eram ataques de pânico. Porra! O que é que eu devia fazer? E ela não me ajudava a ajudar. Eu estava lá. Só! Só estava lá. Mas não sabia ao que estava. Ou como devia estar.
Tentei que fosse ao médico. Mais tarde percebi que era o pior que se podia fazer. E eu pensei E então? O que é que devo fazer? Como é que devo agir? Mas ninguém me disse. Ninguém sabia. Se calhar nem ela. Mas não me devia ter deixado de fora.
A última vez que aconteceu uma coisa do género tinha sido na semana anterior. Íamos a um concerto. Mas não fomos. Chegámos até ao parque de estacionamento. Estacionámos o carro. Bebemos uma cerveja. Chegámos até à entrada da sala. Estava cheia de gente. O concerto estava esgotado. Ela virou-se para mim e disse Vamos embora! Embora para onde? perguntei. Para casa! respondeu. Fiquei a olhar para ela. Acendi um cigarro. Lembro-me que ela tossicou. E fomos embora para casa. Nessa noite não voltámos a falar. Mas nessa semana discutimos muito. Eu achava que ela devia ir ao médico. Ela achava que devia fazer o que achava que devia fazer. E fomos ao limite. E ela disse Muito sinceramente, não me consigo sentir bem contigo cá em casa. Gostava que arranjasses outro sítio para ficar e se conseguisses até ao fim-de-semana era o ideal. Pede a um dos teus amigos. Ou amigas. Tens tantos.
Apaguei o cigarro num prato. Larguei o copo na mesa da cozinha. Ao lado da garrafa vazia. Deixei as chaves lá caídas. Saí de casa dela. Entrei em casa de um amigo. Fiquei por lá uns tempos. Depois mudei de trabalho. Mudei de cidade. Mudei de vida. Esqueci. Esqueci-a.
Até hoje.
Hoje recebi um mail. Dizia assim Desculpa por ter sido tão cabra. Desculpa por ter terminado assim, daquela maneira. Desculpa não ter falado contigo. Não estava bem. Estou melhor. Preciso que me desculpes.
Eu respondi de imediato ao mail Claro que desculpo.
O que é que eu havia de dizer?
Mas na verdade não queria saber. Não queria saber mesmo nada. Aquela já não era a minha vida.
Depois pensei por umas horas nela e naquela época. E esperava realmente que estivesse melhor.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/05]