A Porta Fechada ao Cimo da Escadaria de Pedra

Desperto com o bater da porta. Alguém saiu de casa. Quem é que saiu de casa? Ela saiu de casa?
Abro os olhos e percebo que não estou em casa. Estou sentado numa escadaria de pedra. À minha frente passam carros. Estou na cidade. Viro-me para trás e vejo, no alto da escadaria, um homem a fechar as portas e penso São quatro da tarde.
Levo a mão ao bolso das calças e agarro o telemóvel. Olho e vejo escrito em numerário dezasseis horas. São pontuais.
Cai-me um pingo na mão. Um pingo vermelho. Sangue. Estou a deitar sangue do nariz. Apanhei muito sol. Levanto a cabeça para trás. Guardo o telemóvel e procuro um lenço de papel no outro bolso. Só tenho um lenço sujo. Um lenço já usado. Coloco-o no nariz e aguardo assim, com a cabeça lançada para trás. Ponho-me a pensar se esta é a melhor maneira de colocar a cabeça. De repente chega-me a dúvida e penso se não devia ter a cabeça virada para baixo. Deixo-me estar como estou. E estou assim durante algum tempo. Vejo o lenço de papel. Vejo o sangue no lenço de papel. Volto a dobrá-lo e a colocá-lo no nariz. Repito esta operação até deixar de ver sangue no lenço.
Levanto-me do degrau de pedra, do degrau daquela escadaria que leva, lá no cimo, a uma porta que já está fechada. Já passa das quatro da tarde.
O que é que vou fazer?
Acendo um cigarro. Sinto perder as forças nas pernas e volto a sentar-me no degrau de pedra. Fico ali sentado a fumar o cigarro. De vez em quando, a porta lá de cima abre-se para sair alguém. Eu não saio porque não cheguei a entrar.
Abro a boca. Abro muito a boca mas não estou a bocejar. Abro a boca como se quisesse abocanhar o mundo. Abro muito a boca como se quisesse gritar. Mas não grito. Estou no meio da cidade. Há muita gente a passar. Não quero que me achem maluco. Já basta o que basta.
Acabo o cigarro e deixo-o cair no degrau abaixo de mim. Vejo a ponta incandescente a consumir-se devagar.
Levanto-me. Sacudo as calças no cu que esteve sentado no degrau de pedra. Entro no circuito de gente que caminha para algum sítio. Eu não sei para onde deva ir. Não tenho para onde ir. Sinto-me no limbo. Viro-me para trás e vejo a porta ao cimo dos degraus de pedra, fechada. Não sei o que fazer nem para onde ir.
Caminho à sorte pelas ruas da cidade. Ruas barulhentas. Ruas mal-cheirosas. Ruas sujas. Descubro-me junto ao rio. Sento-me num muro que marca uma das margens nesta passagem do rio pela cidade. Olho para a água estagnada e suja. O leito deve estar bloqueado lá mais à frente e o rio está parado. Há uns patos a passearem-se lá no meio.
Sinto um arrepio nas costas e não será do frio. Tenho uma tontura. Sinto-me fraco. Aos meus pés o rio. O mundo parece girar em torno de mim. Sinto o estômago às voltas. Sinto a cabeça às voltas. Eu estou às voltas. Os patos parecem nadar no céu. Uma vertigem parece que me puxa. E eu deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/11]

Numa Festa, Possivelmente

Acordo à borda de uma piscina. Tenho os pés dormentes dentro de água. Os dedos dos pés estão enrugados. Sinto um arrepio de frio.
Onde estou?
Tenho uma cabeça loira pousada no meu ventre. A camisa aberta. A pele está viscosa. Os olhos piscam perante a claridade. O excesso de claridade. É manhã. É manhã e está sol. Tenho dificuldade em manter os olhos abertos.
Agarro a cabeça loira e deposito-a no chão, nas lajes que contornam a piscina. A cabeça loira está presa a um corpo de rapariga nu. Com a cabeça no chão, o corpo ergue os braços para apoiarem a cabeça e o corpo encolhe-se. Sinto outro arrepio. Fecho os botões da camisa. Descubro que não tenho calças. Nem cuecas.
Os meus pés descalços pisam algo. São uns óculos. Uns óculos escuros. Apanho-os e coloco-os na cara. É então que vejo a piscina, várias boias na piscina, pessoas em cima das boias, corpos caídos um pouco por todo o lado, garrafas vazias, garrafas cheias, copos tombados, copos partidos, fatias de pizza caídas nas lajes, um bocado de pó espalhado numa mesa de vidro. Passo o dedo pelo pó e levo-o à boca. Esfrego o pó nas gengivas. Encontro um maço de cigarros. Acendo um.
Entro em casa a fumar o cigarro. Não parece haver gente em casa. Tento abrir uma porta. Fechada. Tento a seguinte. Um quarto. Vazio. Abro o guarda-fatos. Escolho umas calças de ganga. Visto-as. Encontro uns chinelos tombados sobre o tapete. Calço os chinelos. O cigarro cai-me da boca. Tento agarrá-lo, mas não consigo. Estou lento. Vejo o cigarro cair em cima do tapete. Vejo-o queimar o tapete. Quero baixar-me, quero apanhar o cigarro, mas não consigo fazer nada. Fico ali a olhá-lo. Fico ali a olhar o cigarro enquanto ele queima o tapete.
Saio do quarto. Ainda olho para trás quando estou a sair, e vejo uma pequena chama a queimar o tapete. Fecho a porta nas minhas costas. Percorro o corredor devagar.
Que casa é esta?
Não há ninguém em casa. Está toda a gente lá fora, na piscina, à volta da piscina, à volta da volta da piscina. Encontro a cozinha. Entro. Está vazia de pessoas mas cheia de restos de comida e bebida. Restos de garrafas meio-vazias. De copos meio-cheios. Travessas com restos de comida. Agarro no que será um pedaço de salmão fumado e levo-o à boca. Cuspo-o fora. Tenho a boca a saber mal. Está pegajosa. Seca. Agarro numa garrafa de vinho tinto e levo-o à boca. Bebo um grande gole. Limpo a boca às costas da mão. Volto a pegar num bocado de salmão fumado. Desta vez como-o. Pego noutra fatia. Agarro em dois pedaços de queijo seco. Levo-os à boca. Apanho um bocado de pão e faço-o acompanhar os pedaços de queijo. Vou até à janela da cozinha. Da janela avista-se a cidade ao fundo.
Que cidade é aquela?
Viro-me para a cozinha. Vejo restos de leitão numa travessa. Agarro as peles. Desfaço os pedaços de leitão para comer só as peles. Volto a agarrar a garrafa de vinho e bebo outro gole. Limpo as mãos à toalha da mesa. Baixo a cabeça e também limpo a boca. Acendo outro cigarro. Volto ao corredor. Continuo. Outra porta. Empurro a porta para trás. A casa-de-banho. Entro na casa-de-banho e ponho-me a mijar na retrete. Sinto um enorme alívio. Um arrepio percorre-me o corpo mas é um bom arrepio. Sinto-me renascer à medida que mijo. Sinto-o a chegar ao fim. Sacudo-me. Ouço os último pingos a cair no fundo da retrete. Puxo o autoclismo. Dirijo-me ao lavatório e lavo as mãos. No canto da boca, o cigarro acesso leva o fumo até aos meus olhos. Olho-me no espelho à minha frente e vejo-me mal através do fumo do cigarro. Vejo também qualquer coisa atrás de mim, mas mal. Vejo qualquer coisa. Viro-me enquanto lavo as mãos. Parece a banheira. A banheira e a cortina de plástico. Acabo de lavar as mãos. Seco-as numa toalha. Vou até à banheira. Agarro na cortina de plástico e puxo-a para o lado.
O cigarro cai-me da boca para o chão.
Um arrepio percorre-me o corpo. Levo a mão à cara é retiro os óculos escuros.
Um corpo está deitado na banheira. Um corpo aberto, rasgado. Há sangue por todo o lado. Em cima do corpo. No esmalte da banheira. A escorrer pelo ralo.
O meu corpo agonia-se. E sinto uma revolução nas minha entranhas. De repente sinto-me acordado. E então, vomito sobre o corpo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/15]

A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

Repito-me

Repito-me.
Não sei se é da velhice ou da senilidade. Eu sou já os dois. Velho e senil. Esqueço-me do que digo e volto a dizê-lo. Esqueço-me do que gosto e deixo de gostar.
Volto a falar do tempo. Que está quente. E frio. E chove. E faz sol. E conto as mesmas histórias. As mesmas histórias de sempre. Contos as mesmas histórias que tenho na cabeça. São as únicas que conheço. São histórias que inventei? ou são histórias que vivi? Perco-me na minha própria existência. Já não sei o que vivi ou inventei. Tento regressar, mas regresso demasiado lá para trás e não consigo perceber o que queria perceber.
Repito-me.
Mostro outra vez The Windmills of Your Mind em versão de Dusty Springfield à rapariga que tenho ao meu lado. Depois percebo que é a minha mulher e que foi assim que meti conversa com ela há… Não sei, mas muitos anos.
E ela abana a cabeça e diz Não era eu! e sorri, um sorriso complacente, um sorriso de quem percebe a minha confusão.
Se não eras tu, quem era? pergunto-me.
Mas não sei que resposta dar-me. Eu tento. Tento buscar lá no fundo de mim os pedaços da minha vida. Eu tento mas não consigo. Talvez amanhã quando não estiver a pensar em nada disto. Talvez quando já não precisar ou não me fizer sentido nenhum.
Repito-me.
Já tive esta conversa, não já?
Acendo um cigarro. Ela diz Já não fumas! e eu tusso e percebo que ela tem razão. Sinto um ataque de asma. Tusso outra vez. Tento puxar ar para os pulmões que parecem fechar-se aos meus desejos.
Olho para ela inquisidor e ouço São do teu filho.
Eu tenho um filho?
Eu sou pai?
Não sou eu o filho?
Olho em volta. Vejo a janela. Quero ir à janela. Levanto-me. Não. Tento levantar-me. Empurro o meu corpo para cima. Com os braços a impelirem-me da cadeira. Tento empurrar o meu corpo. Não consigo levantar-me. Estou preso. Estou preso numa cadeira-de-rodas. Na minha cadeira-de-rodas.
Ela levanta-se agarra na cadeira e empurra-me até à varanda. Leva-me lá para fora.
E eu vejo a rua. As pessoas a caminharem ao longo da rua. As pessoas a conversar enquanto caminham. Uns correm. Jovens. Jovens de manga curta. E eu sinto um arrepio de frio nas costas. E sinto as lágrimas que escorrem pela cara. Mas nem chorar consigo. O melhor que faço é deixar cair as lágrimas.
Sinto a mão dela no meu ombro.
Repito-me, não é?
Queria repetir o primeiro beijo. A primeira mão transpirada na mão. A primeira noite. Mas isso não repito.
Já chorei antes, não já?
Sou um esquecimento.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/02]

E Ela Disse…

E ela disse Fica à vontade, e eu vi, pela primeira vez, que lhe faltava um dente à frente, mesmo à entrada da boca, e que se via cada vez que ela falava, porque ela esboçava um pequeno sorriso cada vez que falava, abria a boca, rasgava o sorriso como se fosse uma pessoa sempre feliz, mas eu ainda não tinha reparado na falta do dente até àquele momento, ela abria a boca e notava-se a ausência do dente, e só o percebi naquele momento e também percebi que ela não devia ser assim sempre tão feliz, talvez fosse mais um esgar da boca, talvez um erro na matriz, talvez fosse ela a tentar fugir à tristeza.
E ela disse, enquanto se despia, enquanto tirava a camisola pela cabeça e começava a desapertar o soutien Tens ali um bidé e podes lavar-te, e eu olhei para o canto do quarto onde estava plantado um pequeno bidé, em cima de umas pequenas lajes cinzentas numa espécie de ilha com as paredes forradas de oleado com desenho de azulejos brancos, como se fosse uma casa-de-banho, uma verdadeira casa-de-banho, e estava tão encardido como estariam os verdadeiros azulejos se estivessem realmente ali, no canto daquele quarto, a serem utilizados a cada duas horas, ou uma hora ou, porque não, a cada meia-hora, o tempo que cada homem se demorava por lá. Também vi um toalha colorida em cima do bidé e pensei se a cor não seria para esconder as misérias.
E ela disse Não tenhas vergonha, mas não era vergonha o que eu tinha, era mais arrependimento, arrependimento por estar ali, por estar ali com ela, naquele quarto de odores pesados de after shave misturados com água de colónia barata e suores entranhados nos lençóis e cobertores e paredes. Ela, pressentindo o cheiro que me estava a enjoar, abriu as janelas de par-em-par e eu pude ver a cidade, o resto da cidade, lá em baixo, ao fundo, para além da janela daquele quarto onde eu já tinha decidido que não queria estar, quando senti as mãos dela pousarem nos meus ombros e o bafo que a boca projectava ao aproximar-se do meu pescoço como se me fosse beijar mas sem o fazer porque, naquele negócio, não se transacionam beijos.
E ele disse Vem! e começou a desapertar-me o cinto das calças e eu afastei-me dela, afastei-me até à janela e olhei para a cidade, para a cidade banhada pelos raios de sol das três da tarde e senti um frio desgraçado, um arrepio ao longo das costas e depois virei-me para ela e abanei a cabeça enquanto apertava o cinto que ela tinha começado a desapertar.
E ela disse Tens de pagar na mesma, não é? e eu procurei nos bolsos das calças, enfiei as mãos pelos bolsos das calças e encontrei duas notas de vinte e deixei-as na mesa-de-cabeceira manchada dos copos e uma pequena estátua da Nossa Senhora de Fátima em baquelite luminosa, cheia de pó, e quando olhei para ela outra vez, pensei que estava a rir-se e depois lembrei-me que, se calhar era um esgar da boca, talvez um esgar para esconder, afinal, toda a tristeza da vida que levava naquele quarto de odores fortes.
E eu disse Desculpa!, enquanto abria a porta do quarto e saía e a deixava sozinha, quase-nua, de cuecas, num quarto onde não queria estar, e saí pelo corredor e passei por inúmeras portas fechadas e perguntei-me que vidas se contavam atrás delas e saí da pensão e cheguei à rua e pus-me a respirar com força para deitar fora o ar viciado que trazia comigo e, então, comecei a descer a ladeira que levava ao centro da cidade e que eu tinha vista lá de cima, do quarto dela.
E ainda pensei como não tinha visto logo a falta do dente?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/22]

Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

O que É que Eu Hei-de Fazer?

Agarro-me ao espelho da casa-de-banho como se fosse a coisa mais importante do mundo. Passo-lhe a mão por cima para tirar o embaciado provocado pelo banho, mas não consigo grande coisa. A mão tira o embaciado mas cria um manto de centenas de gotinhas de água que tapam o espelho de igual forma. Pego na toalha das mãos e esfrego o espelho com ela. Melhor. Mas não está completamente limpo. Aproximo a cara. Vejo as olheiras. Os olhos amarelos. Os pêlos brancos da barba mal crescida. Vejo alguns pontos negros. Mas não os espremo. Vejo os lábios gretados. Os cantos da boca infectados não sei como nem porquê. Os dentes nunca foram muito brancos, mas estão cada vez mais cinzentos. É o tabaco. Devia fazer uma destartarização, penso.
Olho-me ao espelho e penso ainda As merdas que faço quando não estou a trabalhar.
Largo a cara. Vou à janela, nu, e deixo o frio deste Agosto em plenas alterações climáticas cortarem-me o corpo. Sinto um arrepio. E gosto.
Visto uns calções. Uma t-shirt. Calço uns chinelos.
Faço café na cafeteira. Gosto do cheiro do café de manhã. Mesmo que já seja quase meio-dia. E mesmo que o café seja uma merda cheia de chicória.
Bebo o café à janela.
Ainda há pessoas na rua, penso.
Eu estou em casa. A Estação de Serviço só funciona no dias pares. Duas horas por dia. Dois empregados de cada vez. E um grupo de fuzileiros para acalmar os clientes desesperados por gasolina.
Passo a maior parte do tempo em casa. Eu e muita gente.
Venho à janela. Olho a rua. Coço os tomates. Fumo um cigarro, enquanto tenho. Já não bebo vinho que se foi já todo. Ainda vou tendo este café.
Sento-me no sofá a fazer zapping. Não consigo ver um programa inteiro. A cabeça não consegue acalmar. Não me consigo sintonizar. Perco-me.
Estou preocupado. Mas não digo nada a ninguém para não gozarem comigo. Ninguém parece preocupado, porque haveria eu de ser o único?
Ponho as mãos nos bolsos dos calções. Apanho umas moedas. Tiro-as para fora e vejo quanto é. Olho para a rua. Vejo a pastelaria. Sorrio.
Saio de casa. Desço as escadas. Desço à rua. Vou à pastelaria. Está quase vazia. Há uma mesa com um grupo de quatro velhotas. Um bule de chá e quatro chávenas na mesa. A montra está um pouco menos que vazia. Dois pastéis de nata. Um russo. Uma broa de mel. Um pão de deus. É mesmo isso. Peço Um pão de deus, se faz favor. E a rapariga avisa-me, baixinho, É de ontem. Não faz mal, respondo. E a broa de mel. Corte-a em quatro. E leve ali aquelas senhoras.
Pago e vou embora antes que as velhas percebam e queiram agradecer e dar beijinhos e falar das famílias e dos filhos que não lhes ligam nenhuma e a reforma que não chega para nada A minha nem chega a meio do mês haveria de dizer uma delas e outra Tantos anos de trabalho para os outros, e agora isto e eu não queria chorar com a vida dos outros já me bastava a minha e tinha de fazer um esforço para me aguentar inteiro sem me desfazer na merda em que me sentia.
Entro em casa. Abro o pão de deus. Barro-lhe um pouco de manteiga. Corto-o ao meio. Guardo uma metade para mais tarde. Ou para amanhã. Sento-me a fazer zapping enquanto como. Apanho as migalhas que deixei cair na t-shirt e enfio-as na boca. Olho para os cigarros mas penso Tenho de os guardar.
Levanto-me. Vou à janela. Olho a rua. Volto para o sofá. Sento-me. Digo em voz alta O que é que eu hei-de fazer?
Descalço os chinelos. Deito-me no sofá. Suspiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/03]