Águas-Furtadas

Estou a meio das escadinhas. Dobro o corpo sobre mim. Tento recuperar a respiração. É cansativo subir estas escadas da cidade. Olho para cima e não lhes vejo o fim. Imagino os velhos que foram envelhecendo a subir e a descer estas escadas. Imagino os velhos mortos antes de tempo. Mortos aqui nestes degraus. A transpirar nos dias de calor. A escorregar nos dias de chuva. A mão agarrado ao peito. Aqui, assim, onde está o coração. Porra!, que canseira subir estas escadas.
Agarro-me ao corrimão central. Recupero o fôlego. Ergo o corpo. Viro-me para trás para contemplar a minha conquista e vejo um mar de telhados que se prolonga pela cidade fora até ao rio.
Esta é outra cidade. Uma cidade feita de telhas, telhados, varandas, quintais com pequenos jardins aéreos, piscinas e agora, os famosos roof tops, bares com vista sobre a careca do povo que não ousa ascender.
Vejo muitas janelas. Janelas que se erguem dos telhados. Como furúnculos. Clarabóias. Telhas de vidro. De acrílico. A cidade a pôr-se na ponta dos pés. Aproveitar a casa até ao limite. Como um osso.
Gosto muito de águas-furtadas. Já vivi em águas-furtadas. Por duas ou três vezes vivi em águas-furtadas. Guardo boas memórias dessas casas. Dos locais onde estavam erguidas. Dos bairros castiços. Da arquitectura dos seus espaços. A volumetria. Os desenhos interiores. Até das paredes tortas. E as telhas quebradas.
Uma dessas casas tinha um pé-direito de várias alturas. Algumas delas obrigavam-me a dobrar as costas. Mas tinha uma vista fabulosa sobre a ponte. Sobre o Tejo. Sobre o Cristo-Rei. Era uma casa de legos. As divisões sucediam-se umas às outras, ordenadas. Casa-de-banho. Cozinha. Sala. Quarto. Escritório que também era biblioteca, arrumação, quarto-de-vestir, de visitas e de tudo o mais que se pudesse imaginar. Era quase metade da casa. Um corredor comprido cozia todas as divisões. Mas era muito fria no Inverno. Era muito quente no Verão. E foi este o motivo de a deixar. Custou-me bastante deixar a casa.
Há poucos anos passei por lá. Ergui a cabeça até lá cima. Ao último andar do prédio. A janela do antigo escritório estava aberta. E saíram inúmeras memórias do tempo em que lá vivi. As memórias boas, claro. Das más não me reza a história. Acabei a ler a placa que me informa que ali viveu o Alfredo Marceneiro, e sinto uma pontinha de saudade. Podia informar que eu também lá vivi.
A outra casa era uma espécie de refúgio de um homem casado. A casa para onde levava as amantes. Mas o tipo envelheceu. A pila deixou de lhe dar ordens. Deixou de se agitar com as jovens beldades que lhe passavam à frente. Entretanto, cansada, a mulher ameaçou-o com o divórcio e com ficar-lhe com tudo o que tão avaramente amealhou ao longo da vida. Arrendou-me a casa. Também lá levei mulheres. Mas as minhas eram namoradas. Também eram amantes. Mas não era proibido. Não estava a cometer nenhuma infidelidade. Só a dar azo a todo o amor que tinha para dar na minha furiosa juventude, oh! raio onde é que ela já vai!
Esta casa tinha a particularidade de ter uma pequena janelinha, no cubículo do duche, aberta sobre a baixa da cidade. E que bonita era a cidade vista dali e o que me deliciava quando eram duas caras, coladas lado a lado, em êxtase, a apreciar a beleza do nascer do dia depois de uma noite sem pregar olho.
Sorrio enquanto recordo esta última casa e algumas das mulheres que por lá passaram. Lembro-me perfeitamente de algumas delas. Outras, já nem sei quem foram. Já foram perdidas. Mas as que me lembro, as que teimam em regressar, de tempos-em-tempos em forma de memória, essas deixam-me satisfeito e em paz com a vida que vivi.
Já tenho a respiração normalizada. Dou uma última olhadela ao mar de telhados laranja da cidade. E viro costas. Preparo-me para atacar o resto das escadinhas. E maldizer a cidade pelas suas sete colinas.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/29]

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Andar às Voltas, de Carro, em Silêncio

Íamos os dois em silêncio. Íamos os dois no carro. Eu a conduzir. Ela no banco do lado. Íamos em silêncio. Não estávamos chateados. Estávamos só em silêncio. Estamos muita vez em silêncio. Não precisamos de falar para nos compreendermos. Às vezes bastava olharmos um para o outro. E percebíamos. Tínhamos conversas enormes em silêncio. Eram conversas tranquilas. Mas cheias.
Íamos em silêncio no carro. Ouvíamos o rádio. Ou não ouvíamos. O rádio ia ligado. Mas acho que nenhum de nós estava a ligar ao que o rádio transmitia. Eu passava de estória em estória. A minha cabeça voava. Viajava. Constantemente. Como não sonho, no sono, sonho quando estou acordado. Sonhos estúpidos e muitas vezes incoerentes. Saltito de um para outro, sem me aperceber disso. Por vezes agarro-me a pequenas notícias de jornal. Outra vezes, em vidas alternativas. Se…
Ela não sei. Talvez saltite de estória em estória, como eu. Ou não. Talvez pense em coisas sérias. Talvez pense nos problemas. Todos temos problemas. Alguns de nós ignoram-nos. Outros tentam resolvê-los. Mas não sei. Nunca lhe perguntei.
Entrámos por uma pequena aldeia dentro. A estrada cruzava a aldeia. Um semáforo a meio para desencorajar a velocidade. Estava vermelho. Parei. O carro a trabalhar. O pé na embraiagem. A primeira engatada. A mão na alavanca das velocidades. E, depois, a mão dela sobre a minha. Acontecia muito. A mão dela sobre a minha sobre a alavanca das velocidades. A mão dela quente. Sobre a minha mão fria. Aquela mão dava-me conforto.
O semáforo passava a verde. Eu largava a embraiagem. Carregava levemente o acelerador, o carro arrancava e, antes de engatar a segunda, agarrava com os dedos da minha mão a mão dela, que estava sobre a minha, para que não se perdesse quando eu puxasse a alavanca para trás, ao engatar a segunda.
Saímos da aldeia. Já não sei para onde íamos. Andávamos muitas vezes assim. Ao deus-dará. De carro. Às voltas. A passear. A olhar o mundo que nos rodeava. Depois parávamos o carro e deixávamos que o mundo nos engolisse. Eu sentava-me num sítio qualquer e fumava um cigarro. Ela dava uma volta e tirava fotografias. Algumas vezes com o telemóvel. Para alimentar as redes sociais. Outras vezes com a câmara. Nessas alturas era mais cuidadosa com o que fotografava. Espaços. Objectos. Arquitectura. Pedaços de arquitectura. Memórias. Sobretudo memórias. Às vezes fotografava-me a mim. Mas eu não gostava de ser fotografado. São as minhas melhores fotografias.
Às vezes dava grandes voltas, enquanto eu fumava cigarro atrás de cigarro, e depois aparecia com uma garrafa de vinho. Com um queijinho seco. Um pão caseiro. Às vezes ainda quente. Eu deitava fora o cigarro e bebíamos e comíamos e, às vezes, muitas várias vezes, acabávamos enrolados um no outro. Chegámos a fazer amor assim, debaixo do sol, numa qualquer ruína, num qualquer miradouro, à sombra de uma árvore velha e frondosa.
Tudo em silêncio. Sempre em silêncio. Não precisávamos de falar para nos compreendermos. Não precisávamos de falar para dizer tudo o que queríamos.
Ainda hoje é assim. Ela continua aqui ao lado. Eu estou a conduzir. O rádio ligado. E os meus pensamentos andam assim, de um lado para o outro, numa roda-viva, a pensar em coisas simples e sem jeito nenhum.
Ela não sei. Nunca lhe perguntei. Mas tem um ar feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/27]