Queimado pelo Sol num Dia de Praia

Abri um olho e vi o dia. Senti calor. Empurrei o edredão com os pés e deixei o frio da manhã lavar-me a transpiração nocturna. Mas afinal não estava frio. Eu é que estava demasiado quente do edredão. Levantei-me da cama. Caminhei descalço ao longo do corredor até à cozinha. Abri a porta da rua e saí. Saí para o alpendre. Estava um sol luminoso. Quente. O céu azul. Um azul bebé e sem nuvens. Os pássaros numa orgia sonora nas árvores à volta. Os gatos dormitavam à sombra e nem levantaram a cabeça quando saí. Peguei nas tigelas dos gatos e do cão e despejei-lhes água da torneira. Os gatos nem ligaram. O cão apareceu e pôs-se a beber água, sofregamente. Eu decidi Vou à praia.
Entrei em casa. Agarrei num boné. Peguei numa toalha. E voltei a sair de casa. No pequeno relvado do quintal estendi a toalha e deitei-me ao sol.
Pus o boné entre a cabeça e a cara. O calor adormecia-me o corpo. Fechava-me os olhos. Embalava-me os pensamentos.
Fui levado de regresso a São Pedro de Moel. Deitado na areia, em baixo das piscinas que já não existem. Deitado de barriga para baixo na toalha sobre a areia da praia. Os olhos abertos, manhosos, espreitam a miúda ao meu lado. Mas eu sei que ela também está a olhar para mim. Também espreita para mim por baixo dos braços, sorrateira, a pensar que eu não percebo que ela está a olhar para mim. Depois eu tiro o braço da frente e olho descarado para ela. Ela faz o mesmo. Sorrimos. Estamos com os braços estendidos nas toalhas e as mãos tocam-se. Quem tomou a iniciativa? Já não sei. Mas estamos de mãos dadas e ela agora fecha os olhos. Já me agarrou. Já estou ali. Já estou ali com ela. Já sou dela. Não precisamos de falar. De explicar nada. Está tudo implícito.
Depois ela levanta-se e puxa-me. Vamos ao mar, diz. E eu vou. Vamos os dois. Mas vamos com cuidado. O mar de São Pedro de Moel não é uma brincadeira. É preciso ter atenção. Mas vamos. Vamos os dois. Com cuidado. De mãos dadas. Molhamos os pés. As pernas. Sentimos os pés enterrarem na areia molhada com o recuo violento da água do mar. Ela larga-me a mão de súbito, corre para uma onda que se aproxima e mergulha. E eu, apanhado de surpresa, fico ali a vê-la fazer o que eu devia ter feito e digo para mim Conas!
Mergulho a seguir. Mas saio logo. E ela também. O mar está a puxar. Estamos parvos um com o outro, como estão os apaixonados, mas não somos estúpidos. Saímos do mar cheios de areia nos calções. Ela deita-se de costas. Eu deito-me de bruços.
Então sinto uma dor. Como se estivesse arder. Sinto o peito a arder. As pernas a arder. A pila a arder. Abro os olhos, e chamo-a. Chamo-a. Mas ela parece não me ouvir. Está a olhar para mim e sorri. Sorri apaixonada. Será que é agora que me vai dar um beijo? Mas eu sinto-me a arder. E então levanto-me. Sento-me na toalha. Não estou em São Pedro de Moel. Estou em casa. No quintal. Já não sou um adolescente apaixonado em São Pedro de Moel. Sou um velho em casa que não tem paciência para confusões e pessoas. E estou mesmo a arder. Tenho o corpo vermelho. Não pus creme protector. Adormeci. Deixei-me levar pelo tempo. O sol já está alto. Queimo.
Que horas serão?
Que dia é hoje?
Em que ano estou, afinal?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/17]

A Queda

É possível que ela já lá estivesse quando eu cheguei. Mas não reparei logo nela. Se estava, não a vi. Quando cheguei, queria ter saído do carro e descido a arriba até à praia e passear-me à beira-mar, se calhar até descalçar as sapatilhas e molhar os pés na água fria do mar do Vale Furado. Mas não saí nem desci nem passeei nem molhei. Agarrei na garrafa de vodka que tinha levado, uma garrafa de Stolichnaya, quente à temperatura ambiente que, estando em Fevereiro, parecia Agosto, emborquei uns goles, senti a garganta a arder e pensei Um cigarro. Preciso de um cigarro. E acendi um cigarro.
Na rádio, passava uma música qualquer intercalada com algumas conversas mas nem me lembro de quê. Não estava a tomar atenção. Aliás, não estava a tomar atenção a nada. Só às minhas egoístas dores.
Estava calor. Um Fevereiro que não parecia Fevereiro, mais um Agosto fora de tempo. Um tempo quente. Eu estava de t-shirt e ouvi a praia a chamar por mim. Telefonei para o trabalho e despedi-me. Não gostava do trabalho. Não gostava das pessoas com quem trabalhava. Ganhava mal. Por pouco não pagava para ter que trabalhar. Telefonei e disse-lhes Morri. Não posso ir trabalhar porque morri. Morri para sempre.
Abri o congelador. Agarrei na garrafa de Stolichnaya e saí de casa. Ainda não tinha chegado ao carro já a garrafa estava quente. Sim, estava calor. Estava um dia de grande calor. E eu fui até à praia. Fui até ao Vale Furado. Estava a pensar descer à praia, com um pouco de sorte não estava lá ninguém, ou pelo menos pouca gente, e despia-me, ficava nu, e mergulhava no mar frio, dava umas braçadas e saía para o sol quente e deixava-me estar ali assim, descalço e nu sobre a areia quente do Vale Furado a ser aquecido pelos raios deste sol de Fevereiro. Se calhar até fumava um cigarro ali assim de pé no meio da praia. Era isto que pensava enquanto fazia o asfalto que me ia lá levar.
Quando cheguei ao Vale Furado, parei o carro na arriba e deixei-me lá ficar sentado. Bebi uns goles de vodka. Fumei um cigarro. Senti o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embalava-me. Pensava no trabalho que acabara de perder, como já tinha perdido a mulher, os filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspirei. Senti-me adormecer a pensar que o dia seguinte nunca seria a véspera da véspera e havia de ser o que fosse.
Devo ter acordado quando a rádio se silenciou. Ou talvez não. O sistema de economia eléctrica do carro desliga a rádio mais ou menos quinze minutos depois do carro estar desligado. Devo ter dormido mais que isso. Mas acordei com um estranho silêncio na cabeça. Abri os olhos. O sol ainda estava brilhante. Eu transpirava. Agarrei na garrafa de vodka e levei-a-à boca. Foi quando acendi o cigarro que reparei na miúda.
Estava sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas. Não recordo se as vi ou não. Porque depois de acender o cigarro reparei na miúda. A miúda estava sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fumava um cigarro. Adivinhei-lhe o cigarro entre os dedos da mão que levava à boca. O fumo dissipava-se logo e mal o via. Mais que o adivinha. E lembro-me de pensar A miúda é gira. E era. Era bem gira. E ainda pensei O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorri e pensei O mesmo que eu. Lembro-me de ainda ter gargalhado às parvoíces que pensava.
E depois ainda ponderei se iria, ou não, descer à praia e tomar um banho no mar, nu. E estava a pensar nisto quando vi a miúda descer da cerca, caminhar em frente e desaparecer da minha vista. Assim.
Fiquei parado dentro do carro. Deixei de pensar. Deixei de respirar. Deixei de a ver. Deixei de tudo e, por uns breves momentos, nem percebi o que tinha acabado de acontecer.
Até que vi aparecer gente que devia estar na esplanada do Mad, debruçar-se sobre a cerca e olhar para baixo. Houve ainda quem se aventurasse a passar a cerca para o outro lado e chegar-se mais sobre o penhasco para ver se via alguma coisa. Mas ninguém viu nada. A miúda desapareceu. Deve ter desaparecido no mar. E iria ser desovada algures numa outra praia, talvez mais para norte, talvez mais para sul, conforme a maré e as correntes e eu não percebia nada de marés nem de correntes.
Fiquei no carro. Não saí. Não fui espreitar. Não fui falar com ninguém. Não fui comentar o que achava do que tinha visto. Não fui dar a minha opinião. Fiquei no carro. A tentar recuperar a respiração.
Não esperei que chegasse a polícia nem os bombeiros. Acabei o resto da garrafa de vodka, pus o carro a trabalhar e saí dali.
Vim devagar o caminho todo. Não conseguia tirar da cabeça a figura daquela miúda sentada na cerca sobre o mar.
Cheguei a casa e fui até à varanda onde ainda estou.
Estou debruçado sobre a amurada da varanda a olhar lá para baixo. E não consigo não olhar. Não consigo sair daqui. Sinto uma vertigem. Uma vertigem que me chama. Um apelo ao salto. À queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/04]

Ano Novo, Vida Nova

Já fiz quase dois dias inteirinhos deste novo ano que estreei ontem. Nada de novo debaixo do sol nem dentro de casa.
Queria acreditar que as coisas seriam diferentes. Não são.
Regressei ao trabalho. Entrei às oito da manhã. Estava ainda escuro. Frio. Mesmo em sistema self-service, as pessoas ainda me pedem para ser eu a encher os depósitos. A agarrar a mangueira de combustível e enfiar a agulheta dentro da entrada do depósito do carro. O cheiro. O óleo nas mãos. Tudo igual. Pagam em plástico. No final já nem espero uma moeda de gorjeta. Já lá vai o tempo. Agora é como se eu fizesse parte do preço do litro. O meu trabalho. Um trabalho de merda, mal pago e mal tratado.
Foi um dia de muito movimento. Os carros chegavam quase vazios e queriam voltar a partir cheios. Andou-se muito durante as festividades. Fez-se fila. Eu sozinho. Para encher os depósitos. Para receber os pagamentos. Para os trocos para a máquina de tabaco. Pediram-me para passar uma escova no pára-brisas. Para calibrar os pneus. Pediram-me duas latas de óleo. Uma embalagem de detergente para os vidros. Os que esperavam para o combustível, buzinavam. Eu olhava, mas não podia fazer nada. Estava sozinho. E assim continuei. Sozinho a servir toda a gente. Uma gente bem cheirosa, sabonete, champô, after-shave, perfume. A quererem agradar ao novo ano. Eu também vim de banho tomado. Durou até ao segundo carro.
Pude fazer uma breve pausa a meio da manhã. Bebi um café na máquina de venda automática e fumei um cigarro. Cheguei a imaginar pegar fogo à estação de serviço e ver tudo a arder. Eu sentava-me no lancil do passeio do outro lado da estrada a ver os depósitos de combustível a explodirem e a queimar tudo ali à volta. Eu sentado no passeio, a fumar um cigarro e a contar os minutos que os bombeiros demorariam a chegar ali à estação. O quartel dos bombeiros fica a cerca de quinhentos metros de distância da estação de serviço mas, o camião tem de dar a volta pelo outro lado, que a estrada é de sentido único. A sirene tocaria. A chamar os bombeiros que estariam ainda de cama. Agarrados às mulheres de penteado novo pela festa de Passagem de Ano. Alguns ainda de ressaca. Demorariam a responder ao apelo. Quanto tempo até chegarem ali à estação?
Cheira-me bem. Não é o cheiro a queimado. Não é o cheiro a gasolina. É um cheiro a dinheiro fresco.
A buzina a tocar. A buzina a tocar e ninguém a responder ao apelo. A buzina afinal era do carro de um cliente que me chamava. Um Mercedes. Um homem de fato e gravata. Senti-lhe o cheiro de perfume do outro lado da estrada antes de perceber que a buzina era para mim. Apago o cigarro na estrada. Levanto-me. E lá vou eu.
Claro que sim. Claro que atesto o carro. Sim, sim, eu. Eu agarro na agulheta. Puxo a mangueira. Fico ali a agarrar na agulheta até encher o depósito. Café só na máquina. Eu tenho moedas. Sim. Olhe aqui. Sim. Já sai com açúcar. Pode escolher a quantidade. Sim, tem colher. É de plástico. Infelizmente. Mas irá mudar, sim. Quem sabe quando?
Ano novo? Vida nova? Não nestas latitudes. Não na minha vida. Aqui continua tudo igual. Tudo velho.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/02]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

Estou no Outono

Estava na casa-de-banho. Estava sentado na borda da banheira. Olhava para a rua através do quadro da janela da casa-de-banho. As árvores verdes, pontilhadas já com algum amarelo torrado. O céu azul com nuvens esbranquiçadas, num espécie de óleo renascentista, visto na dimensão, à distância, como pano de fundo das árvores que estavam em primeiro plano. Eram pinheiros. Pinheiros mansos.
Estava sentado na borda da banheira, nu, e via-me branco, branquinho, como há muito tempo não me via. O Verão tinha acabado e eu não tinha aproveitado os dias de sol e calor para me bronzear. O sol não queima fechado em casa.
Estava na casa-de-banho e via, na rua, através do quadro da janela, as árvores verdes, pontilhadas de amarelo torrado, a esvoaçar um pouco ao ritmo suave da aragem que se fazia sentir neste início de Outono ainda soalheiro.
O tempo já não era mas também ainda não era. Estava num limbo entre uma coisa e outra. O tempo estava como eu, sem saber muito bem como estar e ser. Indeciso entre mundos, funções, desejos. A querer ser uma coisa mas sem deixar de ser a outra.
Eu estava sentado na borda da banheira, nu, olhava para mim e via como estava flácido. Os músculos dos braços tombados para o chão. A barriga proeminente. Sentado, já me dificultava a visão da pila. Onde estás tu? perguntava, e tinha de lá ir com a mão para a sentir e descansar. Ainda a tinha comigo, ainda era homem e a barriga não desfez a minha masculinidade.
Estava na casa-de-banho, com a porta aberta. De um lado ouvia a aragem que agitava as árvores lá fora, na rua. Um som suave, discreto. Um embalo. Do outro lado o silêncio. O silêncio ensurdecedor da casa vazia.
Estava sentado na borda da banheira e ganhei coragem, baixei-me e comecei a cortar as unhas dos dedos dos pés. Não gosto de cortar as unhas. E as dos pés, menos ainda. Mas há alturas em que já não podemos fugir a certas obrigações. E logo ao primeiro corte, um golpe no dedo e o sangue a jorrar. Não percebi o que aconteceu. Pus o pé dentro da banheira, liguei a torneira e pus o pé debaixo de água. Ardeu-me. E vi um grande golpe no dedo. Mais um pouco e tinha cortado mesmo a cabeça do dedo.
Levantei-ma da beira da banheira, abri a gaveta do móvel e tirei gaze, água oxigenada e betadine. Limpei o dedo. Tentei estancar o sangue. Agarrei em fita-adesiva e fixei a gaze. E pensei É melhor ir ao hospital. E levantei-me e fui, a coxear, vestir qualquer coisa para ir ao hospital ver se precisava de pontos no dedo.
Estava mesmo no Outono.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/12]

Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Com um Curso de Sociologia

Quase todos os meus colegas de Sociologia estão desempregados. Os que não estão sem trabalho estão em call centers. Há dois deles a dar aulas de Filosofia. Um está a dar Comunicação Social. Todos no secundário. E ainda há um outro que é Bibliotecário, mas tirou um curso de especialização quando percebeu que com a Sociologia não ia a lado nenhum.
Eu sempre fui um ingénuo.
Porque é que há cursos de Sociologia? Porque raio fui eu para Sociologia?
Lembrei-me disto enquanto confirmava que o Verão foi violado pelo Inverno, na sua própria casa, e não há autoridade que lhe meta a mão e organize o que está desorganizado.
Estas alterações têm implicações em mim. No meu funcionamento. No funcionamento do meu corpo.
Estou com tanta bronquite que voltei ao Ventilan. O Xoterna não é suficiente. Mas estou com dores nos pulmões. Parece que estão a arder. Mas não é a arder de acidez, como às vezes acontece na garganta e tenho de chupar um Kompensan. Não. É como se os pulmões encolhessem e não houvesse espaço suficiente para albergar todo o ar que necessito em cada movimento respiratório. Depois sinto umas picadelas, insisto e parece que começam a arder.
Estou à janela, curvado sobre mim, com os polegares nas presilhas das calças para aguentar o meu corpo curvado, a olhar para a rua e a ver as nuvens escuras que passam sobre a casa, sobre as montanhas lá ao fundo, e trazem a promessa de chuva forte e furiosa.
Estou em Agosto e estou cheio de bronquite à espera que chova.
E foi assim que regressei à Sociologia. Porque a culpa é da Sociologia. Se estivesse a trabalhar, provavelmente não estava agora em casa à espera da chuva porque não iria tirar férias em Agosto, porque não gosto de férias em Agosto, ia estar a trabalhar, não pensava nestas alterações tão visíveis à minha frente, nem tenderia a ficar com bronquite porque o trabalho não me deixaria pensar nisso (e uma grande percentagem da minha bronquite é psicológica que se torna física porque não consigo desviar a cabeça daí), não pensaria que estas alterações de clima interferem na minha respiração, não teria dificuldade em respirar, não precisava de Ventilan e os pulmões não me iriam doer por excesso de cortisona.
Ah, porra! A culpa é da Sociologia e do desemprego para onde me despejou.
Tenho tentado concorrer aos hipermercados aqui da zona. Sou eliminado por excesso de formação. Na verdade acho que têm medo que leve a revolução aos lineares.
Faço uns biscates. Corto alguma lenha. Mas já tenho as costas muito velhas para conseguir forçar o machado nos veios do pinho. Ajudo os vizinhos na apanha da fruta. Faço de copy para as pequenas lojas das redondezas a tentar sobreviver aos hipermercados. Este ano também ajudei a limpar o mato. Mas se houver um incêndio, vai haver um incêndio. O que se limpou faz a mata ficar mais bonita, afasta o início de incêndios por incúria, mas se vier um fogo por aí a baixo, passa por cima de tudo isto na mesma.
Na verdade, a única coisa boa, nisto tudo, é o Inverno ter ocupado o lugar do Verão. É mais fácil evitar incêndios com dias de chuva do que com a mata limpa em dias com quarenta graus.
Andou um tipo a estudar Sociologia para isto.
E agora nem um cigarro consigo fumar. Raios me partam!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/05]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que se deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]

E Ainda Aqui Estou!…

Saí pela porta de vidro do edifício principal das consultas externas do hospital dos Covões. Abri muito a boca. Precisava de ar. Ar fresco. Estava há três horas dentro do edifício para saber uma notícia que já adivinhava. Podiam ter-me dito por telefone. Evitava esta viagem. Evitava estas horas sentado naquelas cadeiras rijas e desconfortáveis que me calejaram o rabo. Evitava ter de olhar para aquela gente quase-morta, cheia de olheiras, cara amarelada e sem cabelo.
Cheguei à rua. Abri a boca e inspirei golfadas de ar fresco. Doíam-me as costas. O rabo. As pernas. Tinha as mãos dormentes. E acho que me começavam a doer os dentes. E estava com sede.
O barulho de uma sirene anunciou a chegada de uma ambulância. Fiquei ali parado a vê-la chegar e parar. Saíram dois paramédicos. Abriram as portas de trás e retiraram uma maca. Um velho, deitado na maca, debaixo de um cobertor de algodão, gemia. Gemia de dores. Os paramédicos foram rápidos. Retiraram a maca pelas portas traseiras da ambulância e fizeram-na entrar dentro do edifício das consultas externas. Perguntei-me o que é que o velho viria ali fazer. Achava que devia ter ido para as urgências. Depois pensei Para que raio estou a mandar bitaites?, eu que não sabia nada disto. Não era assunto meu, raios me partam! Esta minha mania de querer saber sempre de tudo, saber sempre tudo, meter o bedelho onde não me diz respeito, era irritante. Mesmo para mim.
O velho já tinha entrado dentro do edifício. O motor da ambulância estava ainda a trabalhar mas a sirene já se tinha emudecido. Virei a cabeça para o parque de estacionamento. Lembrei-me que tinha lá o carro e comecei a dirigir-me para lá.
Cheguei ao pé do carro e descobri-o à torreira de sol. Lá dentro devia estar um inferno. O carro não tinha ar condicionado. Era uma carripana velha, comprada num leilão da PSP, e tinha a tinta a cair aos pedaços, descarnando-o e dando-lhe um ar assustador. Nunca me assaltaram o carro. Mesmo quando o deixo com as portas abertas. E tantas vezes que o largo por aí com as portas abertas.
Abri a porta. Entrei. Queimei logo o rabo. Abri as duas janelas da frente à manivela para deixar passar uma aragem. Mas não passou nenhuma. Agarrei na garrafa de água e levei-a à boca. Cuspi de imediato pela janela aberta. Era chá. Chá a ferver. Pus o carro a trabalhar. Arrancava sempre à primeira, graças a Deus. Agarrei o volante com a ponta dos dedos. Estava tudo a arder. Saí do parque a pensar se não seria a última vez que ali ia. Mesmo que me voltassem a chamar, não sei se voltaria. Não me apetecia regressar ali. Não para isto. Para estes… Para estes nadas.
Já ia na estrada e pensei Auto-estrada ou nacional? e numa decisão súbita escolhi a auto-estrada. De repente senti vontade de estar em casa. De estar fechado em casa com as janelas abertas e as persianas baixadas para fazer corrente-de-ar. Estar nu deitado no chão de madeira da sala. A televisão a debitar barulho, um barulho baixinho, a mentir-me uma ausência de solidão sem ter de enfrentar gente. Uma garrafa de Mouchão tinto aberto e um copo a molhar-me os lábios e a lubrificar-me a garganta seca pelas notícias. No dedos um cigarro a fumegar e a garantir-me sossego. Um cigarro. Era isso.
Agarrei num cigarro e coloquei-o na boca. Carreguei o isqueiro do carro para dentro. Ainda estava nas estradas municipais, a caminho da auto-estrada. O isqueiro disparou, mas saltou do seu encaixe e caiu para o chão. Estava aos meus pés. Olhei para baixo e vi-o junto ao calcanhar. Baixei-me. Agarrei-o. Levei-o ao cigarro na boca quando reparei num carro que corria desenfreado para mim. Percebi que não tinha tempo de me desviar.
Mas ainda tive tempo de pensar nisto tudo que aconteceu desde que saí do hospital.
E ainda aqui estou.
Sei que vou a caminho de bater contra aquele carro. Merda!…

[escrito directamente no facebook em 2019/06/27]