As Esplanadas da Minha Cidade São Fechadas com Acrílico

A Bola de Berlim e o Compal laranja à minha frente. Largados assim, na mesa à minha frente. O papelinho com a conta deixado em cima da mesa para me avisar que tenho de pagar. A caixa com os guardanapos, cortesia da Compal, colocada em cima do papel da conta para ele não voar. E fica ali assim, a olhar para mim. A dizer-me Tens de pagar!
Peço à rapariga que limpe a mesa. Afinal, está aqui um cinzeiro cheio e alguma da cinza voou para cima da mesa. A rapariga bufa, mas pega num pano seco e estende o braço, cansado, sobre a mesa. Eu levanto o prato com a Bola, o copo e o Compal para libertar espaço e não serem abalroados com a cinza que, antecipo, irá voar.
E voou.
As pessoas não vêm o que está mesmo à frente dos olhos. Estão sempre noutro lado. Na cama com o amante de ocasião. Com o ouvido no telemóvel. Com a cabeça no ar. E aprender Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido. Repetir Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido.
Esta é uma esplanada típica da cidade. Fechada. Fechada com acrílico. Nesta esplanada fuma-se. Quando está calor, abrem-se umas janelas. Quando está frio, fecham-se. Toda agente que está na esplanada, fuma. Queira ou não. Como é fechada, não tem chapéus de sol. Quando o sol está baixo, é impossível estar nesta esplanada porque está em chamas. O calor e a luminosidade do sol ocupam tudo e expulsam os clientes. É uma sauna onde não se consegue abrir os olhos.
Despejo o Compal no copo. Agarro num guardanapo de papel e pego na Bola de Berlim. Dou uma trinca e sinto o açúcar a cair para dentro da barba. Detesto quando isto acontece. Com a língua dou uma lambidela ao creme que ameaça cair. Não cais que eu não deixo.
Dois miúdos fazem desta esplanada um parque infantil. Olho pela janela e a vinte metros daqui há um verdadeiro parque infantil. Mas estas criancinhas não têm autorização para ir para o parque. As mães estão ocupadas a conversar e não podem olhar pelos miúdos. E os tempos são perigosos. Estas foram mães criadas na rua. Largadas na rua. Que brincaram na rua. Os filhos brincam na esplanada. Na esplanada fechada. São aviões de braços abertos a gritar os motores numa esplanada fechada que amplia os sons que me entram cabeça dentro e estão a tornar-me um possível homicida. As mães não dizem nada. Afinal, as crianças têm direito a tudo. Até a infernizar a vida dos outros.
Desperto para uma voz atrás de mim. Estou! Estou! Estou, porra! Viro-me e vejo um velhote a tentar falar com um telemóvel que não lhe traz resposta. As crianças-avião voam em círculo à volta do velho. Ele ri para os miúdos. Talvez lhe lembrem os netos. Talvez lhe lembrem a ele próprio. Talvez só precise de companhia.
Continuo a comer o resto da Bola de Berlim. Chego a boca para a frente para o açúcar cair no prato e não na barba. Lambo os dedos. Às vezes gosto de ser guloso.
Ao fundo, a televisão de dimensões generosas está num qualquer canal de música. Mas está em silêncio. A esplanada é fechada, há fumo de cigarros e uma televisão debita música em silêncio.
Como amar esta cidade? Como não amar?
Uma das crianças vai em voo rasante, e a rapariga tem de parar de repente com a bandeja cheia de copos de vidro sujos para não ser acidentada, avisar a mãe que quer fazer chichi. A mãe pergunta se o miúdo aguenta. Ele abana a cabeça. A mãe levanta-se e vai com o miúdo ao jardim no exterior do exterior. Saem da esplanada fechada e vão ao jardim ao lado. A mãe põe o miúdo a mijar para uns arbustos. O mijo é orgânico. Mas o café tem casa-de-banho. É do outro lado. Longe da vista.
Acabo de beber o sumo de laranja. Procuro a rapariga. Não a vejo em lado nenhum. Há duas raparigas a escrever em computadores. Um homem folheia o Correio da Manhã. Uma senhora de idade come uma torrada e bebe uma meia-de-leite. Olha para as imagens que passam na televisão de dimensões generosas. Esta esplanada é um microcosmos. Não falta sequer o mendigo que vem deixar um isqueiro e um papel com uma história de vida capaz de fazer chorar as pedras da calçada.
A rapariga aparece à porta da esplanada a ver se é preciso alguma coisa. Faço sinal com as mãos a pedir um café. Espero que perceba.
Acendo um cigarro. Digo ao mendigo que não quero o isqueiro e não tenho moedas. E é verdade que não tenho moedas.
A rapariga aparece com o café. Afinal percebeu.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/29]

Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]

Num Banco de Jardim que Estava numa Praça

Sentei-me no banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. Numa pequena praça. Numa pequena praça com meia-dúzia de arbustos e algumas flores, mas sem árvores. Uma pequena praça a caminho da entrada do metropolitano. Eu sentei-me ali, naquele banco, no meio da cidade que por ali passava, apressada, a caminho de qualquer coisa, com a mochila ao meu lado.
Sentei-me naquele banco porque dali podia ver as janelas da casa. Da casa dela. Sabia quando estava na cozinha a fazer um chá, a única coisa que se sentia habilitada a fazer – nem a porra de umas torradas! Da última vez teve de chamar o porteiro para lá ir apagar as chamas. Sabia quando estava na sala, pelas luzes que piscavam, as luzes das imagens da televisão onde seguia sempre, atentamente, os programas noticiosos. Sabia quando estava na casa-de-banho porque se acendia a luz da janela mais pequenina, aquela que ficava entre a janela da sala e a do quarto. E sabia quando é que estava no quarto. Porque todas as luzes da casa estavam desligadas. Era hora de dormir.
Sentei-me no banco de jardim por alguns dias. Eu via-a dentro de casa. Olhava para ela a cirandar de um lado para o outro, via-a a olhar cá para fora, para a rua, para aquele banco e, no entanto, sentia que ela não me via. Isso moía-me o coração. Eu estava lá sentado, no banco, no banco de jardim, na pequena praça a caminho da entrada do metropolitano, com a mochila ao meu lado, a olhar para ela e ela não me via. Eu abria a mochila e tirava um livro. E lia. E quando me cansava de ler, tirava um caderno da mochila, uma caneta, e escrevia. E quando chegava a noite, e eu não tinha luz suficiente para ler e para escrever, tirava da mochila o iPod e ouvia música. E sempre com um cigarro a queimar entre os dedos da mão. Parecia que o maço de cigarros não tinha fundo. Havia sempre um cigarro para me acompanhar. E assim passei alguns dias, e algumas noites, naquela pequena praça à entrada do metropolitano, sentado num banco de jardim. Tive sorte. Não choveu. Não fez muito frio. Só tinha de vestir um casaco de lã, velho, que tinha comigo. E a noite passava suave por mim. E eu permanecia sentado no banco de jardim. Fumava um cigarro. Olhava-a. E esperava que ela me olhasse e me visse.
Foi na terceira noite. Na terceira noite que estava sentado no banco de jardim que não estava num jardim, mas sim numa praça. Estava a fumar um cigarro e a perguntar-me Porque raio não tenho fome? Parecia-me estranho estar ali há tantos dias sem comer. Sem ir à casa-de-banho. Nem sequer um xixi nos arbustos à entrada do metropolitano. Quando a vi chegar. Ela chegou num carro que eu não conhecia. Conduzido por alguém que eu também não conhecia. E senti o coração a bater. A bater muito rápido. E vi-a debruçar-se para o lado. Para o lado do tipo que eu não conhecia. E trocarem um beijo. Um beijo que foi mais um toque de lábios, mas um beijo.
Levantei-me do banco de jardim, a tremer, e dirigi-me ao carro que não conhecia. Vi-a dizer qualquer coisa ao homem. Vi o homem dizer-lhe qualquer coisa a ela. Vi-a sorrir. Voltar a emprestar os seus lábios aos lábios do homem. E eu aproximava-me do carro. E ela abriu a porta do carro. E eu cheguei lá. Cheguei ao pé do carro que não conhecia. E ela saiu do carro. E eu estiquei a minha mão para agarrar a mão dela. Mas a mão dela fintou-me e não se deixou agarrar. E ela saiu do carro. Fechou a porta. Eu pus-me à frente dela para lhe bloquear a passagem e senti-a passar por mim. Por dentro de mim. Como se não me visse. Como se eu fosse invisível. Inexistente. Como se eu não estivesse ali.
Fiquei parado. Parado entre ela e o carro que eu não conhecia de lado algum. Fiquei ali a vê-la caminhar até à entrada de casa. Vi-a tocar a campainha. O porteiro a abrir a porta. E ela virar-se. Virar-se para mim. Ela virar-se finalmente para mim, e acenar com a mão, enquanto me mandava um beijo pelo ar. E eu vi o beijo a voar, a voar desde os lábios dela, e dirigirem-se a mim. Eu sorri. Finalmente ela tinha-me visto. E o beijo passou por mim e não parou. Continuou. Continuou a voar até entrar dentro do carro e pousar, suave, doce, sobre os lábios do homem que eu não conhecia. E vi a cara de parvo que o homem fez quando sentiu o beijo dela nos seus lábios. E reconheci aquele sorriso parvo.
Ela entrou em casa. O carro arrancou pela cidade. Eu fui buscar a minha mochila ao banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. E desci as escadas para o metropolitano.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/26]