Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

As Pessoas São Porcas

Estou atrás da velha e olho-a a comer o gelado. Ela agarra o pau do gelado com o papel que o embrulhava para não se sujar se começar a derreter. E eu estou à espera. Estou à espera para ver o que é que ela vai fazer. Mas não tenho muitas dúvidas.
As pessoas são porcas. Porcas e más. E só pensam nelas. As que pensam. Há quem simplesmente nem pense. As coisas são assim porque sempre foram assim. Nem é por mal. É só por rotina ou, como é costume dizer-se nos dias que correm, por tradição.
Eu estou muito irritado. Por isso estou atrás da velha à espera para ver qual o fim daquele prazeroso gelado que lhe refresca as goelas.
Estou no Sítio da Nazaré e estou muito irritado.
Comecei a irritar-me logo de manhãzinha a caminho da cá.
Antes de chegar a Pataias apanhei um Renault Clio com a chapa toda comida pela ferrugem. Nem percebi qual a cor do carro. Que cor estaria no Livrete? Deitava uma nuvem de fumo. Pelo cheiro, óleo queimado com certeza. Obrigou-me a fechar os vidros do carro e a ligar o ar-condicionado. Coisa que nem gosto de utilizar, que me faz constipar.
Primeiro foi um pedaço de papel de alumínio que saiu pela janela do lado esquerdo e esvoaçou estrada fora até se perder no interior do Pinhal. Logo depois foi uma embalagem de iogurte lançada pela janela do lado direito. Esse caiu a pique e andou a rebolar pela estrada, passei-lhe por cima e perdi-o de vista.
Espremi a buzina. Bati várias vezes com a mão no centro do volante para chamar a atenção ao interior do Clio. Debalde.
Continuei atrás do carro.
Ainda vi sair uma casca de banana que atingiu a berma da estrada e sobre a qual pensei É biodegradável.
À chegada a Pataias parámos num semáforo vermelho. Eu atrás do Renault Clio. Um braço, na janela esquerda, cuja mão segurava um cigarro que entrava e saía do interior do carro. Quando o semáforo passou a verde, antes de arrancar, a mão largou a beata acesa que caiu no asfalto.
Irritei-me ainda mais. Acelerei atrás do carro e, no meio da vila, com traço contínuo, ultrapassei o Clio e, no momento em que estava mesmo ao lado do condutor disse Porca!, para a mulher que descobri a conduzir. Não vi quem ia ao lado da Porca.
E tive de guinar, rápido, o volante para a direita que me ia espetando na carrinha Renault Trafic que vinha no sentido contrário e que teve de se chegar à esquerda e fartou-se de apitar para mim e com razão. E eu, enquanto voltava à minha faixa só conseguia pensar Só há Renaults na estrada, hoje? É que, até eu próprio conduzia um Renault Twingo comprado através do OLX.
Continuei em frente. Deixei o Renault Clio com cor confusa para trás e segui para a Nazaré. Zangado. Furioso com esta gente. Gente porca e estúpida. Gente egoísta.
Não desci logo à Nazaré. Subi primeiro ao Sítio para comprar uns tremoços e umas pevides. E foi aí que a vi. A velha. A velha a comer o gelado junto ao penhasco. E percebi o que ia acontecer.
E está a acontecer. A velha chupou o gelado todo. Resta-lhe o pau e o papel, a envolver o pau, na mão. Olha em volta. Imagino à procura de um caixote do lixo. E não há nenhum. Sim, a velha tem razão. Mas então, larga o papel do gelado sobre o penhasco. Um penhasco cheio de lixo, de outros papéis de gelados, garrafas de plástico de água, raspadinhas, sacos de plástico das pipocas.
Estico o braço com força e empurro a velha do penhasco abaixo. E digo Porca! Ouve-se um pequeno grito abafado pela queda. Espreito para baixo e ainda a vejo a cair.
Vou-me embora. Vou à Batel comer uma sardinha e beber um café antes de ir para a praia. Ainda é época balnear? Olha, nem sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/17]

Uma Co-Produção

Já conhecia Z. há muitos anos. Já tínhamos trilhado muitos caminhos juntos muitas vezes. Alguns deles eu já nem me lembrava. Apareciam assim, por acaso, quando alguém referia algo e isso despoletava uma memória, um regresso, e então fazia-se luz e percebia que já tinha lá estado, já lá tinha feito alguma coisa. Com algumas pessoas. Nomeadamente, com Z.
Daquela vez, estávamos num país africano. Num país africano que já não me lembro qual, tal a quantidade de África que fomos conhecendo ao longo de tantos anos.
Lembro-me que estávamos numa esplanada. Numa espécie de esplanada. Bebíamos umas cervejas. Quer dizer, eu bebia uma cerveja. Ele bebia uma Fanta. Estava calor. Estávamos de calções e chinelos. Sem carteira. Sem mala ou mochila. Sem relógio. Só o telemóvel enfiado no bolso dos calções e algum dinheiro dividido em vários bolsos. Não era por medo. Era só para não criar a ocasião.
Já tínhamos bebido várias garrafas, e fumado vários cigarros, quando ele disse Anda! Temos uma reunião. E eu pensei Reunião? Afinal estávamos de calções e chinelos. Ainda lhe perguntei com um gesto de cabeça o que é que se passava. Ele respondeu-me também com um gesto de cabeça para o seguir. E segui. Às vezes é melhor não fazer muitas perguntas. Às vezes a comunicação em silêncio é suficiente. Mesmo que eu não soubesse onde íamos e fazer o quê nessa reunião, onde podia ir de calções e chinelos, o melhor mesmo era ir. E fui.
Fomos a pé, com os chinelos tipo havaianas a bater nos pés, schlap-schlap, a passar por estradas quase sem asfalto, com muita terra batida pelo meio, a saltar por cima de esgotos a correr a céu-aberto, a transpirar, a percorrer quase metade da cidade até chegarmos a uma zona de prédios muito altos, com muitos andares e muitas janelas.
Entrámos num desses prédios. O confronto com o ar-condicionado do prédio deixou-me com frio. Z. não. Z. nunca tinha frio ou calor. Z. estava sempre preparado para tudo. Cruzámos a cidade sem que lhe caísse uma gota de transpiração pela fronte. Entrámos no prédio e não lhe vi nenhum arrepio ao choque com o ar fresco, demasiado fresco para quem vem das ruas da cidade.
Subimos umas escadas. Umas escadas sem fim. Quando parámos, eu já deitava os bofes pela boca. Z. olhava para mim e perguntava Então? Então o caralho!, pensava eu. Então o quê? Se estou cansado? Estou. Acabei de subir não-sei-quantos degraus. É normal que esteja cansado. Mas ele também os tinha subido. Também fumava como eu. Talvez mais que eu. E não o via assim. Cansado como eu. E não disse nada. Segui-o.
Entrámos por um corredor. Batemos a uma porta. Ouvi um clic de abertura. Entrámos. Disse quem éramos. Ao que íamos. Esperámos. Esperámos em pé, frente a uma janela aberta sobre a cidade africana aos nossos pés. E vista dali, do alto daquela janela, a cidade era bonita. Lindíssima. Claro que, ao pormenor, quando descíamos à rua, encontrávamos os problemas. Mas, dali, dali era realmente muito bonita.
Franquearam-nos a porta. Entrámos. Estava um saco de plástico em cima de uma mesa. Z. cumprimentou alguém. Agarrou no saco de plástico e fomos embora.
Voltámos às escadas. Começámos a descer. A meio parou. Abriu o saco. Retirou uns maços de notas e disse para os distribuirmos pelos bolsos. Eu ainda fiquei boquiaberto a olhar para aquelas notas todas. Mas depois ele disse Despacha-te. E eu despachei-me. Distribuímos várias notas pelos bolsos dos calções dos dois. O resto foi mesmo no saco de plástico, a dar-a-dar na mão de Z. enquanto regressávamos à mesma esplanada do outro lado da cidade. Fomos a pé. A bater chinelo pelos restos de asfalto e terra batido. A saltar por pequenos ribeiros de esgoto a céu-aberto. Eu a transpirar. Ele não.
Chegámos à esplanada. À espécie de esplanada. Acendemos um cigarro cada um. Era preciso recuperar os níveis de nicotina no corpo. Pedimos uma cerveja para mim e uma Fanta para Z.
Apareceu um miúdo. Pediu dinheiro. Z. disse para se sentar na mesa connosco. Perguntou-lhe se tinha fome. O miúdo acenou a cabeça. Um fio de ranho caía para a boca. O miúdo limpou-o com as costas da mão. Z. pediu um hambúrguer e uma Fanta para o miúdo.
E assim estávamos nós. Eu a beber uma cerveja. O miúdo a comer um hambúrguer. E eles os dois a beberem uma Fanta de uma cor tão fluorescente que parecia radioactiva.
Em cima da mesa o saco de plástico com os maços de dinheiro. Eu, de vez em quando, levava as mãos aos bolsos dos calções para ver se o dinheiro que lá estava ainda lá estava. Z. continuava a fumar sem se preocupar com nada disto.
No dia seguinte íamos começar a filmar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/05]

Abaixo de Humano

Demasiado calor para ir à praia. Demasiado calor para sair, procurar e experienciar o ar condicionado de um qualquer centro comercial. Demasiado calor para fazer o que quer que seja. Mesmo levantar um dedo exige demasiado de mim.
Abro as janelas todas e espero o milagre da aragem, da corrente-de-ar, da ventania. Fresca de preferência. Esparramado no sofá dedico-me ao zapping enquanto tenho paciência. Mas já viram televisão ao Domingo? Sim! É mesmo assim tão bera.
Escolher um filme.
E maldita a hora da escolha.
Estou deprimido.
Dividi-me em três para seguir o tríptico da prostituição Whores’ Glory de Michael Glawogger. Vou para a Tailândia. Para o Bangladesh. Vou para o México. Não volto inteiro. Fiquei perdido na Zona de Tarkovsky. Não sei como voltar atrás e esquecer o que vi. Não que não conhecesse o que vi. Mas porque o que vi ultrapassa, em muito, tudo o que eu queria saber. Não ver é não saber. Não querer saber é não existir.
Mas… Foda-se!
Somos uns cães.
Uns cães gananciosos.
Uns cães à procura de sobreviver a cavalo dos mais miseráveis dos miseráveis, porque há sempre um miserável mais miserável que outro, e que lhe serve de sustento.
Na Tailândia encontro o Aquário. Mostruário de carne. Carne feminina para consumo no local. Por locais e alguns turistas. Há um norte-americano por lá. Mas não é nada de novo. A Tailândia é conhecida por ser um destino de turismo sexual. O que impressiona é a forma mercantil como a coisa acontece. Lembro-me do Decades dos Joy Division e da prece de Ian Curtis:

“Here are the young men, a weight on their shoulders
Here are the young men, well, where have they been?
We knocked on doors of hell’s darker chambers
Pushed to the limits, we dragged ourselves in

Watched from the wings as the scenes were replaying
We saw ourselves now as we never had seen
Portrayal of the traumas and degeneration
The sorrows we suffered and never were freed”

Chego ao Bangladesh e descubro que descemos todos os degraus possíveis e imaginados. Num país que já por si é miserável, ainda há quem esteja abaixo dos cães, abaixo da humanidade.
Entro no Bazar. Uma cidade dentro da cidade onde vivem as mulheres que não esperam nada mais da vida que sobreviver a mais um dia. Aqui encontro crianças. Crianças vendidas pelas famílias. Por tostões. Para serem alugadas por outros tostões a outros miseráveis que não têm possibilidade de ter outra vida que não aquela. As prostitutas a quem pagam são chamadas de namoradas. Escolhem as mesmas, mesmo que às vezes escolham outras. Porque têm birras de namoro. Como entender isto? Como aceitar estas crianças em tarimbas nojentas, sujas, obrigadas a venderem-se por uma peça de roupa, um bocado de comida, uma enxerga onde dormir, mesmo que, a partir de certa hora a luz do local se apague porque chega a hora do senhorio cobrar pelos quartos, pela actividade, pela mercadoria? Num Bangladesh onde são feitas as peças de roupa que vestimos, aqui, no Ocidente…
Foda-se!…
Descubro-me no México. Aqui respira-se melhor ar, mesmo que continue azedo, enlameado, pobre. Aqui fala-se pela primeira vez de droga – crack -, que as prostitutas consomem para se evadirem. Aqui parece haver alguma vida para além da tristeza miserável da venda do corpo por quem não tem mais nada para vender. Mas não deixa de ser medonho. Cruzo-me com uma louca que dança, despida, para a câmara. Mas aqui, mesmo assim, há vida para além da miséria. Fala-se, veladamente, de algum amor, de carinho.
Há algo de comum às três diferentes realidades: a religião. Para uns, a esperança, para outros o limite (no Bangladesh as mulheres não fazem fellatio porque a boca serve para rezar o Al-Corão), para outros, ainda, o escape, como uma droga.
Acaba o filme e sinto-me despedaçado. Acaba o filme e sinto que somos menos que zero. Acaba o filme e sinto que somos uma merda de civilização. Somos alguém à espera de usar o outro. De foder o outro. De ser mais que o outro. De vender o outro.
Que vergonha de mim próprio.
Devia ter ido à praia mesmo com este calor infernal.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/05]

Caixa de Cartão

Estava em modo pára-arranca. Mais pára que arranca. E cada vez que arrancava, ou tentava arrancar, parava.
Estava um calor infernal. Tinha o ar-condicionado do carro avariado e ia com as janelas abertas. A levar com os gazes dos carros todos que iam à minha frente também em constante aceleração.
Liguei a rádio. Passei por todas as estações. Nada de jeito.
Enfiei o dedo no nariz. Raspei ranho seco. Fiz uma bolinha. Olhei para ela. Mirei-a e, depois, mandei-a janela fora.
E foi nessa altura que a vi.
De calças de fato-de-treino puxadas até às mamas. Camisolão grosso e, o que me chamou a atenção, um barrete de lã enfiado pela cabeça abaixo.
Estava parada à beira da estrada, com um molho de cartões ao lado, e olhava para os carros que passavam, parados. Ria-se. Ria-se sozinha. Virava-se para o lado e dizia qualquer coisa que eu não ouvia.
Estava a falar com quem?
Virei-me para trás no carro. Não vi ninguém. Um muro de uma casa. Um pequeno jardim. Uma carrinha parada em cima do passeio. Um caixote do lixo.
E, então, vi sair coisas do caixote do lixo. Coisas a voar para fora. Papéis. Cartões. Uma laranja. Alguém que surgia lá de dentro com um caixote de cartão nas mãos. Lançou o caixote de cartão para o chão e saiu lá de dentro deixando-se deslizar pelo caixote de lixo até cair no passeio.
Era um rapaz. Novo. De camisola de alças do Barcelona. E um cap com o X de Malcolm X. Levantou-se do chão. Juntou os cartões e os papéis todos, colocou-os na caixa de cartão, apanhou a laranja e guardou-a no bolso das calças de fato-de-treino, e colocou a caixa de cartão ao ombro.
Entretanto, a mulher puxou de uma escarreta lá bem do fundo e cuspiu-a para a frente do carro. Do meu carro. Agarrou nos cartões, colocou-os às costas e arrancou pelo passeio. O rapaz seguiu-a à distância.
E fui acompanhando-os a ultrapassarem os carros que continuavam num pára-arranca estúpido. Iam devagar mas mais depressa que eu.
Lá muito à frente, quando estava já a deixar de os ver, viraram à direita e desapareceram entre as casas.
Eu continuava no pára-arranca. Levei um dedo ao nariz mas já não tinha ranho seco para tirar. Cocei a cabeça. Descobri um montinho de caspa e comecei a tirá-lo.
Acendi um cigarro. Olhei o maço e vi que ainda tinha metade. Esperava que fossem suficientes até chegar à praia. Mas não sabia se conseguiria lá chegar enquanto ainda era Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/15]