Ericeira

A última vez que fui à Ericeira, a vila ainda existia. Estávamos em dois mil e dezanove. Fui de passagem. Ia de Lisboa até à Figueira da Foz, em trabalho, e resolvi subir o país pelo Litoral Oeste de carro. Primeiro pensei em ir de comboio, mas depressa percebi que a Linha do Oeste não existia. Era uma linha-de-comboio fantasma. A linha estava lá, passavam por lá comboios, mas não serviam a ninguém. Nem às populações nem à própria CP. A quem serviria aquele montículo ferroviário de estações abandonadas, horários perdidos e viagens eternas? Ainda me lembrava de uma viagem de Lisboa a Leiria que me tinha levado cinco horas. Mas naquela altura andava apaixonado e a viagem serviu para o namoro. Entretanto acabou-se a paixão e cinco horas de comboio por cento e vinte quilómetros é demasiado.
Adiante.
Cheguei cedo. Fui à Praia do Sul. Estive deitado ao sol. Mergulhei nas águas calmas e frias da praia. Bebi uma cerveja no Quiosque da Praia do Sul. Passeei pelos Foles. Ouvi o mar a gritar. Senti aquele cheiro a iodo, a maresia. Almocei na Marisqueira das Furnas. A entidade patronal patrocinou o almoço e soube-me bem.
Depois de almoço dei uma volta higiénica e subi até à Praça da República para beber um café e comer um Ouriço no Pão da Vila. Escolhi precisamente o único café que não tinha o doce típico da terra. Acabei por não comer doces. Fumei um cigarro. Acabei por fumar outro cigarro enquanto bebia um segundo café e reparava nas moças de prancha de surf debaixo do braço com o buço aloirado, penugem mal aparada nas pernas e rastas no cabelo. Eram giras as miúdas, estavam queimadas do sol e do sal, mas um pouco peludas demais para os meus gostos.
Retomei viagem. Antes ainda comprei uma lata com Ouriços e outra com Areias. Para oferecer. Pequenas lembranças de um país cheio de pequenas particularidades.
Nunca mais lá voltei.
Entretanto, aconteceu o tsunami.
A Ericeira foi varrida do mapa.
Lembro-me das notícias. Lembro-me de ver algumas imagens do tsunami a atingir a Ericeira. Não houve uma destruição imediata. A enorme onda que atingiu a vila destruiu algumas casas, mas o facto de uma grande parte estar muito acima do nível do mar, só sofreu com a queda de água da explosão da onda contra as arribas. Uma espécie de chuva que, não vinda do céu, vinha do mar. De baixo para cima. E depois, em furiosa queda. O problema foram mesmo as arribas. O mar entrou pelos foles. Forçou o interior das rochas. Bateu nas arribas e provocou ondas de choque que fizeram tremer a terra e provocou sismos superficiais que levaram ao deslizamento das arribas e ao arrastamento da vila da Ericeira e das outras terras que já lhes viviam coladas como se fosse já só uma.
A Ericeira desapareceu do mapa. Ficaram uma dúzia de casas para contar a história. Com os anos essas mesmas casas foram preservadas e tornadas uma espécie de museus da memória do que tinha existido ali, desde o tempo dos fenícios, e deixado de existir devido à acção terrorista da natureza.
É a primeira vez que aqui regresso depois da minha viagem em dois mil e dezanove. Como isto era e como isto é. Agora, o que era a Ericeira é um penhasco vazio e deserto sobre o mar agitado do Atlântico. O que era a Reserva Mundial de Surf é hoje só uma placa numa das novas arribas onde grassam placas alusivas à história da vila, ao lado de outras que avisam para a possível queda dessas mesmas arribas.
Ainda me lembro das imagens que vi na televisão. Uma onda gigantesca que se deslocava em câmara lenta no mar e se aproximava ameaçadora de terra. O confronto da onda com as arribas. O choque. A explosão de água como uma nuvem cheia de água que termina em chuveiro sobre o alto das arribas. O silêncio. A calma. As pessoas surpresas a saírem das suas casas. E depois o barulho ensurdecedor, vindo das tripas da terra. E as arribas a deslizarem para o mar, como um pequeno monte de areia no estaleiro de uma casa em obras, e a vila inteira a ser arrastada pelas arribas abaixo. E as pessoas. As pessoas que se viam no meio da enxurrada. O pó que se levantou. E depois, o nada. As águas acalmaram e a terra tinha recuado. A Ericeira já não existia. E tudo tinha sido gravado. E eu tinha visto. E nunca mais cá tinha voltado.
Até hoje.
E depois de tantos anos, ainda parece que ouço os gritos das pessoas que foram arrastadas pelo deslizamento das arribas para dentro dos foles. E ainda as imagino vivas, a viverem em bolhas de ar, a comerem os moluscos agarrados às rochas, à espera de um outro tsunami que os traga de volta à terra e reerga a antiga vila da Ericeira. Mas isto é só um sonho desesperado. Na verdade, a Ericeira foi-se e nunca mais irá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/15]

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O Meu Futuro em Dois ou Três Segundos

Fui às compras ao Continente. Aquelas compras mensais. Normalmente frequento os pequenos supermercados e as mercearias ao pé de casa para aquelas coisas diárias mas, para as grandes quantidades, detergentes e assim, vou ao Continente porque fica mais barato.
Estava então no Continente, na zona dos congelados, quando, ao pegar numa embalagem de lasanha individual, reparo numa mão que retira, mesmo ao lado, uma embalagem de cannellonis também individual.
Olhamos um para o outro, e sorrimos assim um bocado tímidos. Ela era lindíssima. Não sei o que achou de mim, mas eu achei muito dela.
E durante aqueles breves segundos em que os nossos olhares se cruzaram, e eu descobri que estava apaixonado, vi o filme todo.
Queria convidá-la para vir partilhar a minha lasanha. Mas imaginei que teria dois ou três filhos que estariam com o pai, daí os cannellonis individuais. Imaginei que na vida complicada dela, não haveria tempo nem disponibilidade para outra pessoa. Mais ainda, pensei que defeitos teria para, sendo uma senhora bastante bonita e elegante, estar sozinha. Algum defeito teria. Bipolaridade, ansiedade, depressão ou simplesmente chata e com mau hálito. Ou então era só uma viciada no trabalho que não teria tempo para se dedicar ao amor e então apanhava assim uns tipos no supermercado só para despachar as necessidades sexuais e dar cabo da libido. Também imaginei que, afinal, faria parte de um grupo internacional de contrabando de orgãos e que o que ela queria de mim era retirar-me um rim, ou outro orgão importante qualquer para vender a alguém muito rico e necessitado e que quereria contornar o processo moroso e normal das coisas. Uma vez vi na televisão um filme, que se passava no Brasil, onde um grupo de turistas americano, jovem, era raptado para prover as necessidades dos um por cento da população que pode pagar por isso.
Também me passou pela cabeça que ela era uma brasileira que queria arranjar maneira de ficar por cá e então ia comigo para a cama, engravidava e depois queria casar e ganhar a nacionalidade.
Enfim, no fim de tudo, depois daqueles dois ou três segundos em que vi a morte à minha frente, sim, porque ela era portadora de HIV e andava a transmitir a seropositividade a toda a gente com quem se cruzasse, percebi que, afinal, depois desses dois ou três segundos em que nos olhamos e sorrimos, ela virou as costas e seguiu o seu caminho sem sequer se virar para trás.
E eu fiquei triste por ela não me ter convidado para partilhar dos seus cannellonis. Acho que vou deixar de ir ao Continente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/13]