Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

Westworld

Tinha acabado de ver o Westworld. Tinha acabado de ver o último episódio da temporada. O oitavo episódio da terceira temporada. O genérico passou. A televisão ficou a transmitir uma imagem qualquer, uma imagem parada, à espera que eu desse seguimento à coisa. Um play qualquer. Um return. Uma escolha de menu. Mas, no momento, nem me apercebi. Não estava ali. Estava ali, no sofá, de cu enterrado no buraco do sofá a precisar de ser estofado, de cigarro consumido na mão, a cinza do tamanho do cigarro à espera de cair, à espera que eu a depositasse no cinzeiro antes de tombar livremente sobre o tapete da sala já de si bem sujo e a precisar, não já só de uma aspiradela, mas de uma limpeza a fundo, de escova e água com detergente, como a minha mãe me pagava para eu fazer, e foi assim que fui comprando os discos mais caros da minha vida, quando os discos eram em vinil, caros, de capas bonitas, e os ao vivo e duplos, coisa rara, e só raramente bons, esses raros mereciam todo o esforço que fizéssemos, como esfregar os tapetes de casa à mãe, assim, de cu para o ar, a esforçar os músculos ainda adolescentes, mas cheios de vontade de fazer a vontade e poder ter mais um disco fabuloso. Foi assim que consegui o Still. O Alchemy. Mas não estava lá. Estava ainda no interior daquela guerra entre humanos e androides, entre máquinas do destino e um qualquer ditador de algoritmos e razões de ser antes de verdadeiramente o ser. Quem é quem?
Despertei para a vida ao notar uma pequena baba a escorrer pela boca aberta. Estava de boca aberta de espanto. Não estava à espera da volta que Westworld viria a dar depois daquela primeira temporada tão sensaborona a fazer lembrar o Jurassic Park com mais dinheiro, melhores efeitos especiais e uma mais imaginativa equipa de argumentistas, com J.J. Abrams a segurar os fios para que tudo não se estilhaçasse. E, no entanto, aqui estamos.
Foda-se! foi o que me saiu sonoro. Foda-se!
Estava aterrado pelas possibilidades.
E se tudo fosse verdade? E se tudo é verdade?
Esqueci a cinza do cigarro e o cigarro e vi-os caírem sobre o sofá, não fizeram um buraco porque já estava frio, mas fizeram uma enorme mancha cinzenta, que tentei limpar com a mão e que acabei por espalhar ainda mais e tornar aquela mancha de sujidade numa mancha ainda maior. Levantei-me do sofá e fui até à mesa da cozinha onde tinha o computador e comecei a escrever o que me ia na cabeça assim, de jorro, sem ler nem reler o que estava a escrever, embora, ao escrever, tudo fizesse sentido e, no fim, publiquei-o no Facebook, sem ler nem reler, coisa que se pode confirmar, nem sei já o que é que lá está, nem as gralhas que possa ter, mas foi o que precisou de sair de mim naquele momento, naquele preciso momento, em que estava possuído pelo espírito da estória e pelo espírito digital de Dolores.
Depois parei. Respirei fundo. Tinha um resto de Herdade dos Grous que estava na bancada ao fundo a olhar para mim e servi-me de um copo. Acendi um cigarro, na esperança de me poder dedicar a espreitar os jornais online para bisbilhotar as notícias do dia quando dei por mim, de novo, ou talvez sem ter saído de lá afinal, naquele mundo de possibilidades.
Elon Musk já tinha avançado com a possibilidade de vivermos uma simulação. E se, mais que uma simulação, não passássemos de androides de última geração? Um mundo fabricado? Com 0s e 1s? E se o útero de uma mulher não for mais que uma impressora 3d que imprime crianças? Que a informação para essas crianças e para a sua impressão vai no esperma do homem?
Foda-se!
E toda esta guerra de informação, de dados pessoais, conquistados através de aplicações aparentemente tão inocentes como o FaceApp, não estarão a construir uma enorme base de dados que irá criar uma máquina tão potente e perversa como a Rehoboam, uma máquina transformada em deus, e se a máquina pode ser deus, porque é que nós não podemos ser máquinas? E já agora?… Não!…
Tinha acabado o copo de vinho. Tinha acabado o cigarro. Estava a enrolar um anel de cabelo nos dedos da mão direita.
Estava nervoso. Ansioso. Já não tinha mais vinho. Nem cigarros. Nem a porra de um Xanax.
Levantei-me da mesa e saí de casa. Precisava de mais vinho e cigarros para continuar a organizar as minhas ideias. Organizar as ideias antes que elas me abandonassem.
E foi nesse entretanto, entre o ir à mercearia e o regressar, que toda a estrutura da ideia que estava a construir se esboroou. O início estava cá. Tanto estava cá que consegui regressar a ele. Mas já não sabia para onde é que estaria a dirigir-me, para onde é que estava a ir. Ou a querer ir. Como se um algoritmo tivesse aproveitado esta pausa para me colocar no caminho de outra coisa qualquer. Uma coisa qualquer que não interessava para nada. Uma coisa inócua. Mas que deveria desviar-me do caminho que levava anteriormente.
E foi então que me lembrei que hoje era Domingo. Embora agora os jogos de futebol se prolonguem por toda a semana, e não haja um só dia sem futebol, a verdadeira forma de manter a adicção, hoje era o dia do Trio de Ataque, onde se fala de futebol por quem não o joga, mas por quem o analisa. Sim, hoje tenho de ver o Trio de Ataque. Beber aquela sapiência futebolística. Perceber o que se passa com o Benfica. Não é isso que importa na vida? Não?…
Há, no entanto, qualquer coisa cá dentro de mim que está a tentar esgravatar. Está a querer sair. Está a tentar dizer-me coisas. Como se o Trio de Ataque não fosse importante. Algoritmo. Desejo. Androide. Philip K. Dick. Westworld. Máquina. Deus. Porra. Porra. De repente tenho uma sopa de letras a formar-me palavras na cabeça.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/21]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]

No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]

A Boneca Insuflável

Comprei uma boneca insuflável. Não era para ter sexo. Era só mesmo pela companhia.
Tento não ligar muito ao que vejo nas redes sociais e nos programas vespertinos de televisão onde ancoro tantas vezes depois de almoço entre o café expresso que deixo arrefecer por esquecimento e um trabalho de merda que não consigo desengatar. Sentado no sofá, às vezes sentado à mesa frente ao computador ligado e uma folha do Word em branco à espera que os dedos descortinem letras que, em conjunto e sequencialmente me resolvam o problema de coisas para dizer que não saem nem à lei da bala, olho para os programas feitos a pensar em donas-de-casa e velhos sem amigos com quem jogar à sueca, sinto que estou nos dois grupos, e tento inspirar-me sabendo, desde logo, que nunca há ali realmente nada para mim.
Mas insisto.
Neste últimos dias tenho levado com uma massiva campanha comercial do Dia dos Namorados. Quem não tem namorado namorada mulher esposo consorte amante amigo-colorido é um pária que não merece viver debaixo do mesmo céu azul-brilhante que todas aquelas pessoas belas e bonitas inteligentes e bem-parecidas, frequentadoras de ginásios e atletas de jogging diário, de manhã preferencialmente, antes de ir trabalhar para aparecerem no estúdio bem tonificadas, e sexualmente bem resolvidas na vida, que me querem enfiar opiniões pela goela abaixo. Eu tenho trocado todas essas escolhas atléticas por garrafas de vinho tinto e cigarros sem filtro que me fazem a voz sexy mas sem companhia matinal para a apreciar. Mas tanto os ouvi falar que deixei que me enfiassem o enorme prazer da companhia que quer um só dia no ano para se fazer existir que, derrotado, acabei por me deixar entrar na onda, dei por mim ansioso por não ter namorada, cocei os braços como um caruncho à espera da próxima dose e a tentar descobrir onde ir buscar o papel para o cavalo, que peguei no carro, desci à cidade, a cidade de Leiria, ali mesmo em baixo, entrei numa sex-shop e comprei uma boneca insuflável. Ufa! Ao pagar percebi que convidar uma mulher de carne-e-osso, talvez mesmo daquelas que percorrem o Marachão, nas margens do Liz, para-trás-e-para-a-frente a olharem-me nos olhos, me teria saído mais em conta mas, ao mesmo tempo, pensei que, assim, não tinha de manter conversa e podia ser que esta relação durasse para além do dia 15 de Fevereiro ou, pelo menos, até se romper que, cá por casa, quando era mais novo, as bóias não duravam mais que a primeira semana de férias, e isto em anos bons.
Foi durante a noite que as coisas começaram a ficar mais esquisitas.
Para me habituar à companhia, e como ainda faltavam dois dias para o Dia dos Namorados, convidei-a a dormir comigo.
Na penumbra do quarto, iluminado por vezes pelos faróis dos carros que passavam no exterior e invadiam a minha privacidade, olhava para o lado esquerdo da cama e via uma boca aberta, parecia estar mesmo à minha espera.
O desejo é uma coisa muito esquisita. Esquisita e estranha. E mais estranha fica, à medida que lhe vamos dando lastro.
Malditos programas vespertinos de televisão. Maldito Dia dos Namorados.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/12]

O Advogado

Ainda o autocarro não tinha saído de Sete Rios, já o tipo se anunciava ao mundo. Sim, era advogado, mas estava sem farda. Já era entradote e não estava de fato, o que complicou um pouco o imaginário. O meu imaginário. Sim, eu sei, as coisas já não são como eram. O mundo é outro. As pessoas evoluíram e os estereótipos são redutores, além de serem estúpidos e preconceituosos. Pronto, mas eu sou um tipo um bocado estúpido e cheio de estereótipos que me ajudam a balizar o mundo. Preciso de me manter em equilíbrio. O homem usava umas calças de sarja, salmão (quem é que usa umas calças salmão?). Calçava umas botas de pele, de meio-cano, com atacadores e fecho atrás, no calcanhar, umas botas daquelas com furinhos em forma de cornucópias na biqueira e de um castanho-amarelado quase-Camel. Na parte de cima, e por baixo de um anoraque cinzento, daqueles muito barulhentos que orquestram o ar a cada movimento, vestia um pulôver vermelho. Talvez tivesse uma camisa, não sei, mas não consegui ver por baixo do cachecol às riscas, em vários tons cinza, que tinha enrolado à volta do pescoço. Aquelas cores, muito próximas e, no entanto, tão diferentes, criavam assim uma espécie de ton-sur-ton bizarro e louco, demasiado colorido para alguém que se queria advogado, isto segundo as minhas leis pré-estabelecidas sobre a ordem do mundo, e antes de ser jogado para outra dimensão.
Então, ainda o autocarro estava em Sete Rios, o advogado dizia, num tom de voz jorrado do palco sobre a plateia, que estava a conduzir, tinha parado para uma mijinha (palavra dele), estava a ver o processo pelo WhatsApp enquanto bebia um cafezinho, mas que aquele tipo de assunto merecia ser visto num computador, com ecrã grande, que o deixasse pensar, o que iria fazer assim que chegasse ao escritório.
Eu estava zangado com a algazarra ao telemóvel, mas não deixei de sorrir à mentira gritada frente a tantas testemunhas. E pensei, É mesmo advogado?
O tipo estava sentado ao meu lado, no outro lado da coxia central. Cofiava a barba de três-dias, grisalha. Acenava com a cabeça como se o interlocutor o estivesse a ver. Mas aquela não era uma vídeo-chamada. Despediu-se com um Com certeza! e desligou a chamada.
À nossa volta, minha e dele, uma série de passageiros, quase todos com ar de estudantes universitários, todos agarrados a computadores e tablets e umas meninas, bastante coloridas nas roupas e na decoração, que falavam baixinho entre si e passaram o tempo todo a escrever nos telemóveis com dedos encimados com unhas-de-gel que faziam tec-tec-tec no ecrã, estavam em trânsito de uma cidade para outra.
Pensei no que esta gente fazia com os computadores e com os tablets porque não havia internet no autocarro. O wireless é uma miragem mais prometida que oferecida. Estava tudo morto. Só o telemóvel do advogado continuava a apitar.
Gritava para se fazer ouvir do outro lado. Está?, perguntava. Não era nenhum constituinte. Era a mulher. Sim, claro que a mulher sabia que ele ia de autocarro. E sim, sabia que tinha de o ir buscar. E sim, ainda tinha tempo para fazer o que precisava de fazer. Ele ainda estava em Lisboa, dizia quando se aproximava já de Loures, mas ainda não tinha passado a portagem. Eu não ouvia a mulher. Mas ouvia-o a ele e percebia-a a ela.
O autocarro não ia cheio. Qualquer coisa para cima de meio. Mas quem ouvisse o homem, julgaria que o autocarro estava vazio e que se tinha transformado em escritório de advogado que trabalhava por WhatsApp, embora o computador fosse melhor para analisar alguns casos.
E à mulher ainda disse Sim, querida, vamos jantar… O que tu quiseres… Pode ser uma sopinha. Ainda estou cheio do almoço, vê lá tu.
Depois uns beijinhos enviados em rapidez e, finalmente, desligou.
Fez-se um silêncio que me pareceu estranho. Já me tinha habituado.
Mas logo ouvi Oh, foda-se! quando o advogado percebeu que o wireless do autocarro não estava a funcionar. Olhou em volta para ver se alguém tinha internet, mas tal como eu não deve ter percebido nada. Toda a gente que se avistava estava a fazer coisas nos computadores, nos tablets ou nos telemóveis. Eu vi isto pelo canto do olho.
O silêncio não durou muito tempo. O telemóvel começou a tocar uma música clássica muito alto. O homem foi apanhado de surpresa. Vejo-lhe os dedos a tocarem no ecrã. Está aflito. Devia estar a fazer alguma coisa no WhatsApp, fora surpreendido com a música de chamada e não estava a conseguir responder à situação.
Finalmente consegue atender o telefone. Troca o barulho da música por um português que balança o samba. Percebo que fala com alguém brasileiro. O seu português ganha as curvas musicais adocicadas do hemisfério sul. E diz Não pude fazer a transferência porque o seu IBAN só tem 20 números e o nossos tem 21. O ATM não aceitou a transferência. Veja lá isso.
Sim, pensei eu, veja lá isso e dê-me tempo.
Depois desculpa-se e diz que tem outra chamada. Atende a outra chamada. Fica mais alegre. Ouço-o dizer O bom que há aqui é que não há ninguém no meio. Estou directamente com a empresa. Isto é cinquenta por cento para cada lado. Exactamente. Ok? Um abraço.
Quando era mais novo, não novo de adolescente, mas ainda jovem, conseguia dormir em qualquer lado e em quaisquer condições. Sentava-me sobre o cóccix, os joelhos presos nas costas do banco da frente, deixava-me embalar pelos solavancos do autocarro e passava pelas brasas. Recuperava forças. Dormitava um pouco e, quando chegava ao destino, estava pronto para o que o destino me quisesse aprontar. Agora era mais difícil. Estou maior. Mais gordo. O espaço entre os bancos encolheu, não encontro conforto e já não consigo dormir em andamento. Mesmo ler qualquer coisa provoca-me vómitos. Mas gosto de ir sossegado. A pensar com os meus botões sobre as vicissitudes da minha vida.
Mas aquele advogado ali ao lado, aquele advogado-actor que parecia estar em cima de um palco a falar para a última fila da plateia, estava a dar comigo em doido. E foi assim até ao destino.
Ao chegar ao destino, o advogado ansioso já em pé durante as manobras de estacionamento do autocarro, voltou a receber uma chamada telefónica do brasileiro do IBAN. Dizia que estava no ónibus e não podia tratar de nada. Agora não posso tratar de nada, dizia. Estou no ónibus. Amanhã, dizia. Mas tem de arranjar alguém com uma conta portuguesa com um IBAN de 21 espaços para 21 números. Veja lá. Amanhã… Amanhã…
E enquanto descia as escadas da porta traseira do autocarro, e eu atrás dele, o advogado continuava a dizer Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, como um final de peça, Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, quase até ao limite da audição. Amanhã… Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2020/01/28]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

Não É Nada de Grave

Ouço os gritinhos histéricos das miúdas na cama elástica nas traseiras da casa.
Quando vim para esta casa, a cama elástica já cá estava. E ficou. Não a uso. Nunca a usei. Estou velho para andar aos saltos em cima de uma espécie de trampolim gigante, para cima e para baixo, a deixar o coração e os pulmões longe do corpo.
Mas as miúdas aqui da zona sabiam da cama. Um dia apareceram aqui a pedir para vir dar umas cambalhotas e eu deixei. Agora estão por aí quase todos os dias. Vêm ao final da tarde e passam lá cerca de uma hora aos pulos, a rir que nem umas perdidas e a filmar brincadeiras com os telemóveis que depois mandam para o Instagram.
Eu tento sempre abstrair-me das brincadeiras delas, mas não consigo. Não conseguem estar caladas um minuto. Durante essa hora fico aqui assim, a fumar uns cigarros e a beber uns gins tónicos. Quando elas se vão embora, regresso às minhas leituras.
Gosto de as ter por cá. São simpáticas. Alegres. Trazem cor aqui a casa. Compensam a minha natural má-disposição. Às vezes trazem-me umas uvas, umas ameixas, uns pêssegos que roubam em casa dos pais para me serem simpáticas. Eu aceito sempre com prazer. E até sorrio quando lhes agradeço.
De repente os gritinhos mudam. Agora não parecem de alegria. Há gritos assustados. Ouço um choro. Levanto-me e contorno a casa. Corro até às traseiras. Corro até à cama elástica.
Uma miúda está caída no chão a agarrar o joelho e a soprar-lhe. Aproximo-me. Tem o joelho em sangue e algumas escoriações nas mãos e nos braços. Pergunto O que aconteceu? E uma delas diz Caiu pelo buraco da rede de protecção para fora da cama elástica. Um pequeno azar, penso eu. Mas não me parece nada de muito grave. Olho a cara e a cabeça da miúda. Foi mais o susto. Volto ao interior de casa para buscar a farmácia.
Limpo as feridas com água oxigenada. Sopro. Só pequenos arranhões. No joelho arranhou mais fundo e fez mais sangue mas, depois de limpo, percebo que é superficial. Ponho betadine no joelho e faço um penso com gaze. E digo-lhe Não é nada de grave.
Telefono aos pais da miúda que se magoou. O pai parece-me muito ansioso.
Chegam cá a casa em pouco tempo. Descarrega a buzina do automóvel para eu abrir o portão. Eu desço a alameda. Abro a porta. O pai entra sem me dirigir a palavra e vai a correr, a subir a alameda a correr, à procura da filha. A mãe vai devagar, ao meu lado e diz Desculpe, ele fica sempre muito ansioso com a filha.
E estamos a chegar ao cimo da alameda quando o pai já vem com a miúda pela mão. Ela vem a chorar. O pai puxa-a. Olha para mim com um olhar de morte. Se pudesse, penso, fuzilava-me.
O pai vira-se para a mãe e diz-lhe A culpa é tua! E continua a descer a alameda a puxar a filha que vai a toque-de-caixa. A mãe ainda se vira para mim, com ar muito preocupado e diz-me, outra vez Desculpe! e vai atrás do marido.
Eu vejo-os cá de cima até saírem pelo portão. O carro arranca, nervoso.
Noto as outras miúdas, todas juntas, na esquina da casa. Não sabem o que fazer. Não sabem o que dizer.
Eu viro-me para elas e digo Acontece! e sento-me na minha cadeira no alpendre.
Uma delas pergunta Podemos cá voltar, amanhã? e eu sorrio e respondo Claro que sim.
Elas sorriem e dão pequenos gritinhos entre elas, em grupo, num qualquer ritual adolescente. Viram-se para mim e dizem Então adeus! Até amanhã! e eu digo Até amanhã! e vejo-as descer a alameda. Saem pelo portão e fecham-no nas suas costas.
Eu pego finalmente no Público e começo a ler o editorial de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/18]