Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

Não É Nada de Grave

Ouço os gritinhos histéricos das miúdas na cama elástica nas traseiras da casa.
Quando vim para esta casa, a cama elástica já cá estava. E ficou. Não a uso. Nunca a usei. Estou velho para andar aos saltos em cima de uma espécie de trampolim gigante, para cima e para baixo, a deixar o coração e os pulmões longe do corpo.
Mas as miúdas aqui da zona sabiam da cama. Um dia apareceram aqui a pedir para vir dar umas cambalhotas e eu deixei. Agora estão por aí quase todos os dias. Vêm ao final da tarde e passam lá cerca de uma hora aos pulos, a rir que nem umas perdidas e a filmar brincadeiras com os telemóveis que depois mandam para o Instagram.
Eu tento sempre abstrair-me das brincadeiras delas, mas não consigo. Não conseguem estar caladas um minuto. Durante essa hora fico aqui assim, a fumar uns cigarros e a beber uns gins tónicos. Quando elas se vão embora, regresso às minhas leituras.
Gosto de as ter por cá. São simpáticas. Alegres. Trazem cor aqui a casa. Compensam a minha natural má-disposição. Às vezes trazem-me umas uvas, umas ameixas, uns pêssegos que roubam em casa dos pais para me serem simpáticas. Eu aceito sempre com prazer. E até sorrio quando lhes agradeço.
De repente os gritinhos mudam. Agora não parecem de alegria. Há gritos assustados. Ouço um choro. Levanto-me e contorno a casa. Corro até às traseiras. Corro até à cama elástica.
Uma miúda está caída no chão a agarrar o joelho e a soprar-lhe. Aproximo-me. Tem o joelho em sangue e algumas escoriações nas mãos e nos braços. Pergunto O que aconteceu? E uma delas diz Caiu pelo buraco da rede de protecção para fora da cama elástica. Um pequeno azar, penso eu. Mas não me parece nada de muito grave. Olho a cara e a cabeça da miúda. Foi mais o susto. Volto ao interior de casa para buscar a farmácia.
Limpo as feridas com água oxigenada. Sopro. Só pequenos arranhões. No joelho arranhou mais fundo e fez mais sangue mas, depois de limpo, percebo que é superficial. Ponho betadine no joelho e faço um penso com gaze. E digo-lhe Não é nada de grave.
Telefono aos pais da miúda que se magoou. O pai parece-me muito ansioso.
Chegam cá a casa em pouco tempo. Descarrega a buzina do automóvel para eu abrir o portão. Eu desço a alameda. Abro a porta. O pai entra sem me dirigir a palavra e vai a correr, a subir a alameda a correr, à procura da filha. A mãe vai devagar, ao meu lado e diz Desculpe, ele fica sempre muito ansioso com a filha.
E estamos a chegar ao cimo da alameda quando o pai já vem com a miúda pela mão. Ela vem a chorar. O pai puxa-a. Olha para mim com um olhar de morte. Se pudesse, penso, fuzilava-me.
O pai vira-se para a mãe e diz-lhe A culpa é tua! E continua a descer a alameda a puxar a filha que vai a toque-de-caixa. A mãe ainda se vira para mim, com ar muito preocupado e diz-me, outra vez Desculpe! e vai atrás do marido.
Eu vejo-os cá de cima até saírem pelo portão. O carro arranca, nervoso.
Noto as outras miúdas, todas juntas, na esquina da casa. Não sabem o que fazer. Não sabem o que dizer.
Eu viro-me para elas e digo Acontece! e sento-me na minha cadeira no alpendre.
Uma delas pergunta Podemos cá voltar, amanhã? e eu sorrio e respondo Claro que sim.
Elas sorriem e dão pequenos gritinhos entre elas, em grupo, num qualquer ritual adolescente. Viram-se para mim e dizem Então adeus! Até amanhã! e eu digo Até amanhã! e vejo-as descer a alameda. Saem pelo portão e fecham-no nas suas costas.
Eu pego finalmente no Público e começo a ler o editorial de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/18]

Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

Refaço os Passos

Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Olho em frente e tenho dois Rothko a olharem para mim. Não são mesmo Rothko, mas alguém os pintou como se fossem. Um é preto com um rectângulo, mais acima, cinzento. O outro é castanho, castanho escuro, com um rectângulo, mais abaixo, castanho mais claro.
Como é que tudo começou, mesmo? Com a luz, pois. E fez-se luz. Eu abri os olhos. Fez-se luz. Gritei. O mundo começou a ser mundo. Uma velha gorda agarrou-me pelos pés, de cabeça para baixo, e deu-me duas palmadas no rabo. E eu gritei o meu primeiro palavrão. Foda-se! Chorei. Olhei em volta e vi uma mulher deitada na cama a olhar para mim. Vi-lhe o olhar ansioso. Ansioso por me abraçar. Salva-me, desejei! E foi aí que percebi que ia levar muita pancada na vida, mas iria curar as minhas mazelas nos braços das minhas mulheres. Das mulheres da minha vida. De todas. De todas as mulheres da minha vida. E a velha gorda virou-me outra vez. Agarrou-me ao colo e colocou-me nos braços da outra, a ansiosa, deitada na cama. Ela agarrou-me. Apertou-me. Ofereceu-me os peitos e eu chupei-os logo. Esfomeado.
As pinceladas são visíveis. Notam-se bem os caminhos. As camadas. O querer ser. Como as de Rothko. Pinceladas seguras mas imperfeitas. Orgânicas. Sujas. Algumas parecem querer esconder alguma coisa lá por baixo. Outras parece que levam pouca tinta e ainda se percebe a tela lá por baixo, a querer ser também obra de arte.
E então eu estava agarrado aos peitos e mamava. Sôfrego. Engasgava-me. Tiravam-me a mama. Batiam-me nas costas, os cabrões! Eu chorava. E gritava. E voltava a mamar. Para me calar. Para me calarem.
Foi assim que tudo começou?
Foi esta a origem de tudo?
O Big Bang?
Tudo começou nas mamas de uma mulher. A mãe. A mãe que me alimentou.
E não consigo deixar de olhar para estes falsos Rothkos que me entram pelos olhos dentro. Enchem-me. Fazem-me sonhar. Contam-me histórias sujas, de crime e paixão.
Preciso de me concentrar. Porra! Preciso de me concentrar.
Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Sinto umas garras agarradas à minha cabeça. Sinto umas garras a quererem virar-me para fora. Estava escuro e agora está claro. Estava quente e agora está frio. Estava silencio e agora alguém berra e grita.
Quem estão a matar?
Levanto-me e endireito um dos dois quadros falsos do Rothko que me iluminam o dia. E como é que cheguei aqui? Ao falso Rothko? A esta sala onde estou a ouvir música com os pés estendidos sobre um pequeno banco enquanto desfaço um cigarro em cinzas e olho em frente, um, não! dois Rothko.
Mas preciso organizar-me. Organizar o pensamento. Preciso de saber como é que tudo começou. Preciso de saber.
Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Foi com a luz, pois. Sim. Fez-se luz! E depois? Onde é que tudo isto se fundiu? Preciso de me organizar. Refazer os passos.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/12]