Nervoso num Autocarro

Estou nervoso.
Há gente que quando está nervosa disfarça. Não diz nada a ninguém. Foge à condição. Não gosta que se saiba. Talvez para não se sentir diminuída. Talvez porque ninguém tem nada a ver com isso.
Há gente que quando está nervosa, anuncia por todo o lado. Não consegue fingir. Os nervos são bem evidentes. A perna não pára de abanar. O pé está sempre a bater no chão. As mãos transpiram. Há um dedo que está sempre a subir à cara. Há sempre uma angústia latente.
Eu sou destes últimos. Quando estou nervoso digo logo. E digo a toda a gente. Acho que para me exorcizar. Talvez para diminuir os nervos. Talvez para desculpar alguma asneira provocado pelo nervosismo.
Estou num autocarro. Estou a caminho da cidade grande.
O autocarro está cheio. Há gente mascarada. Há gente adulta mascarada. Com saias de tule. Caras muito pintadas. O cabelo armado. Estou no meio da loucura.
Há um palhaço sentado duas filas mais à frente que está sempre a voltar-se para trás. Para mim. Para olhar para mim. Se calhar conhece-me. Eu não consigo perceber quem é. Não assim, mascarado.
Sinto algum medo de palhaços. Talvez algum trauma de infância. Talvez algum espectáculo de circo não percebido. Talvez alguns desenhos-animados perversos.
O autocarro cheira mal. É o cheiro de muita transpiração junta. Mais os perfumes. Os bons e os maus. Nesta altura já é só tudo mau. Mau cheiro. Alguma flatulência, com certeza. E isto deixa-me mal-disposto. Nervoso.
O autocarro não tem Wi-Fi. Não consigo ver as últimas notícias.
Agora entro numa estação. Uma pausa de dez minutos. Para o motorista fazer chichi. Fumar um cigarro. Também fumava um cigarro. Mas estou demasiado nervoso para fumar.
Há gente a sair. Há gente a entrar. Mais mascarados. Há uma mulher-barbuda. Não sei se é a sério ou de Carnaval.
Lá fora um homem mostra castanhas assadas. Pergunta se quero. Eu finjo que não o vejo. Olho em frente. Para a cabeça do tipo que está sentado à minha frente e não se levantou nesta pausa.
Chega uma mulher que fala alto. Fala alto e não se cala. Conta a sua vida. A sua vida hoje. Andou a sambar. Mas é portuguesa. E não se cala.
Não há Wi-Fi no autocarro.
Não era suposto haver Wi-Fi na Rede Expressos?
Estamos de regresso aos anos ‘80 do século passado. Mas sem poder fumar em sítios fechados.
Tudo isto me deixa ainda mais nervoso.
A mulher não se cala. Agora fala ao telemóvel com alguém. Estás no Pingo Doce? Eu chego daqui a uma hora. Leva comida para o cão, coitado.
Eu fecho os olhos. Tento abstrair-me. Tento dormir. Tento esquecer a voz da mulher. Mas não consigo.
O cão foi deixado no Pingo Doce. Abandonado. A mulher disse ao segurança Pode agarrar-me o cão enquanto vou comprar umas coisas? E nunca mais voltou. Um cão muito giro. Com franja. Bom para os penteados.
Porra. Cala-te, mulher, penso.
Começo a ficar mal-disposto.
Não há Wi-Fi no autocarro. Não consigo dormir no autocarro. Não consigo descansar no autocarro. Malditos mascarados. Malditos cães. Maldita mulher que não te calas. Pum!
Estou nervoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/03]

É Importante Mostrar que Sofremos

Há anos que não a via. Tinha deixado de a querer ver. Na verdade ela estava para mim aquilo que se diz muitas vezes de pessoas com quem quebrámos todos os laços: estava morta. Para mim. Sim, para mim estava morta.
As pessoas são boas. Quero dizer, na sua essência. Mas depois deixam de ser. Algumas delas até querem ser. Mas não conseguem. Não é sequer o instinto de sobrevivência que as condiciona. É porque têm de ser melhor. Maior. Mais comprida. Mais brilhante. Mais rica. Mais esperta. Mais amada. Mais desejada. Elas são princesas e suspiram. Eles são gestores, vão ganhar rios de dinheiro e enriquecer antes dos 30 anos. No intervalo fazem um interlúdio e fodem-se uns aos outros. Lembro-me sempre do Psicopata do Bret Easton Ellis.
Mas isso foi nos anos ’80. Isso foram os yuppies. Sim, claro, os grandes homens de grandes negócios especulativos. Vejam onde isso nos levou.
Hoje também é assim. Continua a ser assim. E vejam para onde vamos.
Nunca mais a quis ver. Estava morta.
Ressuscitou.
Encontrámos-nos agora. No funeral da mãe. Da nossa mãe.
Agora chorou. Gritou. Arranhou a cara. Puxou os cabelos. Mostrou que sofria a saudade. É importante mostrar. Mostrar saudade.
Veio falar comigo. Que não podíamos estar assim. A vida era dois dias. Se não for a família o que nos resta? Que devíamos reatar relações. Tinha saudades. Saudades minhas. Também já tinha dela, da mãe, claro. Viram? Viram as minhas lágrimas? Viram como sofro a sua ausência? Deixem-me tirar uma selfie para mostrar ao mundo a minha dor. Anda para aqui, dizia ela. Anda para aqui tirar uma selfie comigo. Anda.
Eu vi uma figura pequenina e perdida. Só. Triste. Triste mas cheia de lantejoulas e purpurinas porque a vida é cor e brilho.
Eu deixei-a falar. Estava assim um pouco histérica. Deixei-a falar até se cansar. Eu não disse nada. Depois virei costas e fui embora.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/01]