(Des)Concentração

Não consigo concentrar-me.
Descubro-me frente ao computador a olhar para um formulário, a tentar ler o que lá está escrito, a tentar perceber o que me é pedido, e parece que estou a olhar para uma página escrita nalguma linguagem desconhecida. Pronuncio as palavras alto para as ouvir e entender, mas não dá resultado. Esqueço-me do que acabei de falar. Esqueço-me do que acabei de ouvir.
Baixo a tampa do computador. Levanto-me e acendo um cigarro. Olho em volta. Noto que estou na cozinha. Trabalho muito na cozinha, digo em silêncio para mim.
Coço o rabo. Suspiro.
Abro a porta da rua, do alpendre. Os gatos vêm logo ter comigo a miar. Olho para as tigelas deles e vejo que têm comida e água. São uns pedinchões, vocês, ralho-lhes. Vejo o cão ao fundo, no quintal, parado a olhar para mim. Ela não vem ter comigo. Dá o espaço aos gatos.
Disparo a beata do cigarro para longe com um golpe do dedo médio como uma mola. Como se estivesse a jogar com berlindes nas traseiras do pavilhão de ginástica do colégio, quando ainda tinha idade para andar no colégio e jogar ao berlinde e ainda não tinha medo do futuro. Este futuro.
Entro em casa. Vou até à sala. Sento-me no sofá. A televisão desligada. A janela aberta. As persianas e os vidros. Gosto da aragem que entra em casa e me afaga. Sinto um certo conforto. Ao meu lado, pousado no sofá, um livro de banda-desenhada. Os Vampiros do Filipe Melo e Juan Cavia. Pego-lhe. Tem uma marca. Retomo a leitura na marca. Não sei o que estou a ler. Recuo duas páginas. Quatro páginas. Seis páginas. Não recordo aqueles desenhos. As pranchas parecem-me desconhecidas. Não me lembro daquela estória. Tento ler mas não consigo. A cabeça foge para outros lados. Não consigo concentrar-me.
A cabeça começa a doer-me.
Levanto-me e regresso à cozinha. Olho a mesa e o computador em cima da mesa. Penso que há qualquer coisa no computador que requer a minha atenção. Não consigo lembrar-me do quê.
O coração começa a bater muito rápido. Cai-me uma enorme angústia em cima. O que é que se passa? O meu corpo começa a contorcer-se. Quer chorar. Mas antes que comece a chorar, o chão começa a tremer. Sinto a casa a abanar. A portas dos móveis abrem-se e fecham-se com fortes pancadas sonoras. Ouço, vindo lá de dentro, talvez da sala, o som do que me parece uma garrafa a cair no chão e a estilhaçar-se.
Não sei quanto tempo está o mundo a abanar, mas parece uma eternidade. Devia estar com medo. Não estou. Sinto mesmo um certo alívio. O tremor-de-terra é a minha trepanação. Liberto a pressão.
Sopro. Deito fora o ar que me enche os pulmões. Acendo outro cigarro. O chão ainda treme. Uns pratos escorregam no lava-loiças e caem para dentro da pia. Acho que não se partiram. Coloco a mão na mesa.
Suspiro. De repente deixo de sentir o chão a tremer. Acabou sem eu dar por isso.
Olho para o computador fechado em cima da mesa da cozinha. Deixo-o assim. Não o vou abrir. Não consigo. Não consigo ler. Não consigo perceber.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Não vejo os gatos nem o cão. Devem estar com medo. Sento-me no alpendre. Os gatos aparecem de onde estavam e vêm para cima de mim. O cão vem atrás deles e deita-se aos meus pés.
Estamos todos juntos. Juntos e vivos.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/15]

Persisto ou Desisto?

Persisto ou desisto?
Estou aqui no alto das escadas, acima da cidade. Ao fundo, na linha do horizonte, elevado e a roçar as nuvens que se atravessam neste céu azul de um Verão que está para durar, o castelo. Vista daqui, Leiria até é uma bonita cidade. O problema é quando nos aproximamos dela.
Acendo um cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões.
Faço uma panorâmica sobre os telhados da cidade. Uma cidade envelhecida. Mesmo a sua modernidade é velha. Uma mancha verde que diminuiu. Assim, vista daqui, não parece uma cidade velha e triste.
Começo a descer as escadas de pedra. Degrau a degrau. Escavadas pelo anos. Pelos pés ao longo dos anos. Enquanto tento pensar. Enquanto tento tomar decisões. Temos sempre de tomar decisões.
O meu corpo chocalha enquanto desço. Pequenos saltinhos agitam o meu corpo já pouco musculado e com excesso de gordura. Cada passada abana-me a barriga, o peito, as peles dos braços. Muita comida de merda. Muito pão. Muitos fritos. Muita gordura. Muita comida barata. Comida para encher a barriga, não para alimentar o corpo.
Desisto?
Sinto um soluço bloquear-me a voz interior. Acaba-se o monólogo. Continuo a descer as escadas com a angústia a apertar-me a garganta e tento recuperar a calma, a lucidez. Não, não devo desistir. Não posso desistir.
Desço o último degrau. Coloco o pé na baixa da cidade. Entro pelas traseiras da esplanada do Liz Bar. Umas mesas por levantar. Há restos de marisco. Deixaram as cabeças do camarão. As pessoas não comem as cabeças do camarão. É a melhor parte. A mais saborosa. Onde todo o sabor se fixa.
Sento-me numa das mesas e começo a comer as cabeças dos camarões ali deixadas por quem não sabe apreciar. Bebo o resto da cerveja dos copos abandonados. Chupo as cabeças. Lambo os dedos sujos. Limpo as mãos às calças rotas e sujas. Limpo o nariz à toalha da mesa, à toalha de pano branca que está sobre a mesa, sob as taças com as cabeças de camarão que acabei por chupar e comer. Assoo-me. Há quantos anos não como uns camarões?
Vale a pena persistir?
Vindo lá de dentro, de camisa branca e calças pretas, a abanar um guardanapo branco, o empregado enxota-me. Se calhar tem medo que eu lhe roube a gorjeta. Mas não há dinheiro nas mesas. Nem notas nem moedas. Só as cabeças de camarão destruídas que eu já devorei.
Levanto-me da mesa e continuo pela cidade fora. Ou será pela cidade dentro?
Acendo outro cigarro. Soube-me bem, as cabeças dos camarões. Mas lembra-me outros tempos. Tempos em que eu também era outro. Em que eu podia pagar os camarões. E já nessa altura comia as cabeças. Sempre gostei das cabeças dos camarões.
Páro junto ao lancil do passeio. Há muitos carros a cruzarem a cidade. Passam depressa. Grandes carros. Boas marcas. Há dinheiro, em Leiria. Eu não tenho pressa. Mas pergunto-me se vale a pena. Desisto? Persisto? Tenho um pé em suspenso sobre a estrada. A estrada cheia de carros que voam com pressa para qualquer sítio. E eu? para onde é que quero ir?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/13]

O Dente e o Berbigão

Fui cimentar um dente. Um dente que andava a chatear-me. Doía-me com o frio. Doía-me com o calor. Três sessões de tratamento de um total de quatro. A Pandemia meteu-se pelo meio e não cheguei à última sessão. Fiquei com um protecção provisória que está a tornar-se definitiva se não se desintegrar entretanto. Não sei em que estado está o dente, nem quero saber. Recuso-me a olhar para ele. Não me dói e chega-me. Mas às vezes penso se não terei de voltar ao ponto zero e repetir as outras sessões já feitas e, entretanto, e provavelmente, destruídas, como quase tudo durante este período de trevas que só tem enriquecido os do costume, especialmente as grandes superfícies, afinal não podem fechar, não é? as pessoas precisam de comer mesmo quando estão a morrer de outra coisa qualquer que não seja de fome. Mas há muita gente a morrer de fome, também, e a Segurança Social, um Estado dentro do Estado, que devia estar a tentar estancar os danos sociais está a contribuir para os agravar. Às vezes penso que a Segurança Social funciona com inteligência artificial e não com pessoas. A emoção e a empatia não entram naqueles gabinetes. É tudo frio. Gélido. Lá não nasce nada. Tudo mirra.
Penso sempre no meu dente quando como. Especialmente quando como pão de véspera, que é mais duro, e penso sempre que, um dia, talvez um dia, um bocado de pão duro possa dar cabo do que me resta do dente. Mas depois, acabo de comer, não aconteceu nada ao dente e eu esqueço-me dele.
Lembrei-me hoje do dente porque a vizinha da casa lá de baixo, a casa ao fundo da estrada, antes do cruzamento, veio vá trazer uma terrina com berbigão. Fiquei muito agradecido. Abri uma garrafa de Porca de Murça, que me leva de volta ao final da adolescência e às bebedeiras com Porca de Murça nas adegas das Cortes, e que agora voltei a encontrar no minimercado aqui da aldeia e um bocado de pão caseiro feito no Zé dos Frangos. Estava a meio do segundo prato de berbigão, e já lá ia mais de metade da garrafa, quando senti areia na boca. Os dentes a trincar areia. E o barulho crunch crunch. Pensei que a minha vizinha não tinha lavado o berbigão como devia ser. E foi então que também pensei se não seria o dente a desfazer-se. Senti um arrepio nas costas, logo seguido de uma certa angústia. Levantei-me da mesa e fui até o alpendre fumar um cigarro. Enquanto fumava, pensei isto tudo que está escrito aqui em cima. No fim do cigarro pensei que, dente ou não dente, não ia desperdiçar o resto do berbigão que estava feito à espanhola, muito saboroso, e que estava a saber-me muito bem. Pensei que a Segurança Social podia querer matar-me um dia destes e o melhor era aproveitar enquanto podia. E voltei para a mesa da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/12]

Segurança Social

Estou parado em frente à porta da Segurança Social. Conseguirei entrar? Olho em volta e vejo gente com ar desesperado, a abanar folhas de papel, parecem envelopes, a tentar fabricar alguma aragem, paradas debaixo do sol impiedoso. Devem estar à espera de entrar. Devem estar à espera de serem atendidos. Um papel avisa-me que só se atende mediante marcação. Há um número. Marco o número. Interrompido.
Mais longe, à sombra de uns arbustos, umas mulheres sentadas no chão, na relva, no lancil do passeio, com ar exausto. Também estão à espera da vez. Espera tudo vez.
Volto a marcar o número. Atende uma voz gravada a avisar-me que, Devido às solicitações, o tempo de espera é grande. Desligo.
Como é que se faz com as urgências?
E é urgente?
Para mim é, sim. Para mim é mesmo muito urgente.
Como é que se desconstrói o poder da burocracia? Como é que se pára uma máquina que já está em funcionamento e cuja ignição foi feita automaticamente? Haverá alguém para parar a máquina em andamento ou as alternativas são só as pré-gravadas e, portanto, não há alternativas?
Como é que se sobrevive à Segurança Social? Um Estado dentro do Estado?
Conseguirei eu entrar lá dentro? Conseguirei ser atendido?
O sol bate-me com força na cabeça. Sinto os pingos de transpiração a deslizarem por mim abaixo. Sinto uma tontura. Tenho a cabeça quente. Tenho a boca seca. Acho que começo a ter um ataque de bronquite. Tenho as mãos transpiradas. Sinto os sovacos inundados. Cheira-me mal. Devo ser eu. Deve cheirar mal.
As pernas tremem-me. Sinto-me angustiada. A Segurança Social angustia-me. Dá-me medo.
Meto um Valium na língua mas não consigo que desça pela garganta seca. Desfaz-se na boca e fico ainda com mais sede.
Olho para o segurança à porta e penso se devo ir lá falar com ele.
Conseguirei passar pelo segurança?
Alguma vez vou conseguir resolver o meu problema ou vale mais a pena cortar já os pulsos?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/09]

Desespero

Isto já se deu há muito tempo. Há mais de trinta anos. O pai de uma amigo, um amigo próximo, matou-se. Enfiou os canos de uma caçadeira na boca e disparou. Dizem, quem viu ou, pelo menos, quem ouviu dizer, que rebentou com a cabeça.
Na altura lembro-me de pensar Como é que um tipo se suicida com uma caçadeira? É que não deve ser fácil. Fisicamente, não é? Agarrar na arma. Naquela arma específica. Numa arma grande. Grande e comprida. E disparar o gatilho. Como é que se chega ao gatilho?
Lembro-me de ter recebido a notícia com alguma frieza. Talvez, desdém. Lembro-me de ficar condoído pelo meu amigo. Lembro-me de estar lá para ele. Não muito, na verdade. Acho que foi mais as palavras da praxe. Estou aqui, Se precisares de alguma coisa, Ânimo, esse tipo de frases feitas compradas numa coleccionável da D. Quixote para oferecer em alturas de Natal e Páscoa a pensar nos infortúnios anuais.
Os anos foram passando e passaram por entre mim e esse meu amigo e levou-nos para vidas diferentes e, provavelmente, longínquas. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Pode até já ter morrido, não sei. Sei que nada sei dele.
No entanto, de tempos a tempos recordo a morte do pai dele. Recordo a morte do pai, não pela morte do pai em si, mas pela minha indiferença à morte dele. Não sei se pelo suicídio, se pelo facto de ir embora e deixar cá o filho (mais uma filha e a mulher), se por outra razão qualquer que ainda não me tenha ocorrido. Mas ao longo dos anos tenho, quando me lembro desta história, ficado cada vez mais zangado comigo.
Desta vez chorei. Finamente chorei pelo meu amigo e, mais importante, pela morte do pai do meu amigo. Acho que este choro me libertou de alguma angústia aprisionada cá dentro por mais de trinta anos. Pelo menos foi o que me pareceu.
Finalmente percebi o desespero e a coragem que ele deve ter tido para fazer o que fez. Não é algo que se faça de ânimo leve. Não é algo que se decida fazer porque sim. Não é, como alguns querem fazer crer, uma saída fácil. E é preciso haver um enquadramento. Uma razão. Um motivo. E é preciso muita coragem. Uma coragem extrema.
Não vou falar sobre os motivos. Não os conheço. Nunca virei a conhecê-los, provavelmente. Quem se lembra da morte de alguém ao fim de tantos anos? Neste caso, talvez os órfãos e a viúva, se ainda forem vivos, e eu.
Hoje percebo que os motivos devem ter sido muito fortes. Só o peso de um drama sem saída empurra alguém para aquele desfecho. Alguém decidir deixar cá, sós, os filhos, a família, é porque o caminho das respostas está vedado – e está-o tantas vezes! bem mais do que nós sabemos, ou julgamos saber. Sim porque nós julgamos saber sempre da vida alheia e até temos a mania que sabemos as respostas e temos as soluções, como se elas viessem em saquetas de brinde nas caixas do Juá.
Mas posso falar sobre a coragem. Aquela coragem que muitos acham que é corbardia, medo, que é fuga. A coragem de decidir pôr um fim a tudo. E conseguir dar todos os passos. É que cada passo pesa toneladas. Cada passo tem o peso de uma vida. De várias vidas. Cada passo é uma ida sem regresso. Cada passo é mais um acelerador das batidas do coração. Cada passo é uma batalha entre todas as dúvidas e certezas que uma pessoa tem. E então imagino aquele homem, homem ainda novo, mais novo do que eu sou hoje, com filhos pequenos, a pegar numa arma, a carregar essa arma, a apontar essa arma a si próprio, lutar contra todas as conversas que lhe hão-de estar a consumir a cabeça, a dizer para o fazer, a dizer para não o fazer, manter a força da mão, do braço, do braço que suporta essa arma, pensar em tudo o que vai perder, pensar que tudo vai acabar, pensar que já não vai mais haver aniversários, nem Natal, nem cabrito assado, nem jogos do Benfica, nem netos, nem beijos, nem amor, nada, nada, nada, não vai haver mesmo mais nada e ainda assim ter força suficiente para mexer o dedo que está sobre o gatilho e disparar e, naquela fracção de fracção, naqueles nano-segundos entre o disparar o gatilho e o cartucho, a bala, sair disparado, disparada, pelo cano até atingir o alvo, pensar num possível arrependimento e saber que já é tarde, tarde demais, e depois já não é mais nada, nem o vazio, é apenas só uma ausência, o mundo acaba, desfaz-se, desaparece, e só continua para quem fica por cá, às vezes em que condições.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/04]

Os Comprimidos Cor-de-Rosa Já Não Fazem Efeito

Já tomei dois comprimidos rosa, mas não ajudou muito. Agarrei numa garrafa de Vidigueira tinto e fi-la marchar à velocidade da luz.
Sinto-me entorpecido.
Caminho entre o quarto e a cozinha. Faço o corredor. Faço o corredor entre os pontos mais longínquos da casa, o meu quarto e a cozinha. Cada vez me parece mais comprido. Cada vez pareço demorar mais tempo. Cada vez me sinto mais enjoado.
A meio de uma das viagens, faço um desvio à casa-de-banho e acabo a vomitar o syrah, os comprimidos cor-de-rosa e as iscas de cebolada que comi ao almoço. Não devia ter comido as iscas de cebolada.
Quem é que trouxe as iscas de cebolada cá para casa?
Vomito tudo o que tenho dentro de mim. E cuspo. Cuspo na retrete. Cuspo até não ter mais saliva. Lavo os dentes. Bochecho.
Sinto-me tonto. Tenho a cabeça um pouco à roda. Já não tenho nada para deitar fora mas ainda se sinto tonto.
Olho-me ao espelho da casa-de-banho. Vejo as olheiras. Dois papos negros, enormes, tombados sob os olhos. A barba com manchas de pêlos brancos. Algumas peladas. Vejo o cabelo a rarear. Tenho umas entradas grandes. A testa também parece ter crescido. Saem pêlos das orelhas. Tenho os lábios cada vez mais finos. Vejo os dentes amarelados do tabaco. E a espuma da pasta dos dentes nos cantos da boca. Baixo a cabeça e lavo a boca. Bochecho. Lavo a cara. Molho o cabelo. Respiro fundo. Levanto a cabeça.
Vejo uma lágrima a cair pela cara abaixo. Pode ser uma gota de água. Sinto um arrepio no corpo e não é um arrepio de frio. Sinto a angústia chegar. Começo a chorar. Faço uma cara feia ao chorar. Os olhos fecham-se e ficam pequeninos. A boca descai. As maçãs do rosto ficam encarnadas. A cara está luzidia. As lágrimas entram-me na boca e da boca sai uma baba que escorre pelo queixo. O pescoço parece enterrado no meu corpo.
Viro-me de costas para o espelho. Deixo-me escorregar para o chão, encostado ao lavatório.
Encolho-me. As pernas dobradas encostam-se ao peito. Enfio a cara entre as pernas. Dou um berro.
Sinto-me a aliviar. Deito o ar fora, sonoramente, em golfadas. Acalma-me.
Levanto-me. Evito olhar para o espelho da casa-de-banho. Lavo a cara outra vez. Lavo a boca. Bochecho. Esfrego os olhos. Assoo-me e faço barulho ao espremer o nariz para fazer sair a merda que lá está estacionada. Limpo a cara.
Vou até à cozinha. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Não consigo ver como é que está o dia. Se é dia ou noite. Se está de chuva ou de sol. Não consigo ver lá para fora. As portadas da cozinha estão fechadas. Olho para a garrafa de vinho vazia. Não tenho mais nenhuma! penso.
Deixo cair o cigarro no chão da cozinha. Esmago-o com o pé descalço. Regresso ao quarto. Volto a fazer o corredor. Agarro em mais dois comprimidos rosa. Não tenho água. Não volto à cozinha. Não vou à casa-de-banho. Engulo-os assim, a seco. Sinto-os arranharem-me a garganta, mas descem por mim abaixo.
Entro na cama. Tapo-me com o edredão.
Espero que passe. Espero que tudo passe.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/29]

É Verão, Caralho!

Acordo com as portadas a baterem nas janelas. Viro-me para o outro lado da cama e tento voltar a adormecer. Mas penso que as portadas estão a bater com tanta força nas janelas que as podem quebrar. Mando o edredão para o fundo da cama e levanto-me maldisposto. Faço o corredor a refilar e saio pela porta da cozinha. Na rua está vento, um vento forte, e cai uma pequena chuva que mais parece cacimbo ou a maresia das manhãs de São Pedro de Moel. Estou longe de São Pedro de Moel. Estou nu e descalço. Volto atrás. Continuo a refilar. Visto uma camisola. Uns boxers. Calço uns chinelos. Volto à rua. Já há luz, mas ainda é de madrugada. Está um pouco de nevoeiro. Não vejo as montanhas. Não vejo grande coisa para além do meu próprio quintal. Dou a volta à casa e fecho as portadas das janelas. Depois penso que devia abri-las. Prendê-las, mas deixar as janelas abertas. Já há luz do dia, mesmo que de dia cinzento. Não tarda é manhã. Volto a dar a volta à casa a abrir as portadas das janelas e a prendê-las bem às paredes.
Entro em casa e descubro-me molhado.
Dispo-me e entro no duche. Tomo um banho rápido. Seco-me. Regresso à cama. Dou voltas. E voltas. E mais voltas. Já não consigo voltar a dormir. Estou desperto.
Levanto-me da cama. Estou outra vez nu e descalço, mas estou em casa. Volto à cozinha. Ligo a máquina do café.
Sento-me à mesa da cozinha à espera do café. Acendo um cigarro. Tenho à minha frente A Noite em que Gwen Stacy Morreu, de Gerry Conway e Gil Kane, a morte do primeiro amor de Peter Parker, o Homem-Aranha. Pego na novela gráfica mas não tenho coragem para ler. Não hoje. Não agora. Não quero mais angústia. Já ando angustiado que chegue.
A máquina do café faz barulho. Levanto-me para ir tirar um café. Olho para a rua e está a chover com mais intensidade. Penso É Verão, caralho! e suspiro.
Apago o cigarro no cinzeiro. Desligo a máquina do café sem ter tirado nenhum café. Agarro na novela gráfica do Homem-Aranha. Regresso ao quarto. À cama. Deito-me e tapo-me com o edredão. Deito-me agarrado à novela gráfica. Tenho um olho aberto e vejo a janela por uma nesga do edredão. Agora chove copiosamente. As portadas estão abertas mas presas. Não batem. Não fazem barulho. O único barulho agora, é da chuva a bater nos vidros das janelas de casa.
Sinto-me embalar ao som da chuva a cair. Sinto-me embalar no conforto da cama ao ouvir e ver a chuva a cair lá fora.
Fecho o olho aberto e viro-me na cama. Penso na Gwen. Acho que estou a ser puxado para dentro do sono. Não discuto. Não forço. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/27]

De um Lado para o Outro

Eu passei aqueles últimos dias caído sobre a mesa da taberna.
Ao fim da noite, o dono pegava em mim e despejava-me na rua, à frente da porta. Largava-me no passeio onde, não poucas vezes, acabava a vomitar e a desejar um dia sufocar no meu próprio vómito e deixar de passar por toda aquela tristeza a que não conseguia fugir.
Entrava lá me manhã para beber um café. Depois era um bagaço. E acabava por ficar por lá. Naquela altura já nem bebia tanto assim. Já não tinha corpo para isso. Bastava-me o primeiro, ou os dois primeiros bagaços do dia, logo depois do café, para já não ter forças para me levantar da mesa. E ficava por lá o resto do dia. A cabeça tombada sobre a mesa, em cima dos braços que a amparavam, que me amparavam. A meio da tarde levantava os olhos e bebia outro que alguém me oferecia. Mas desaparecia logo outro vez, na voragem do tempo e da minha lassidão.
Ao fim da noite, despejado na rua, arrastava-me até casa. Às vezes não conseguia abrir a porta e ficava ali mesmo, à entrada, a dormir em cima do tapete onde, antigamente, tinha força para limpar a sola dos sapatos. Às vezes passava por lá alguém que me abria a porta e puxava-me lá para dentro. A maior parte das vezes ficava ali mesmo, caído, à entrada de casa. Depois, de manhã, voltava a levantar-me e arrastava-me de volta até à taberna onde bebia um café. Depois um bagaço. Depois haveria alguém que dizia que eu cheirava mal. Que estava todo mijado. Que viam os piolhos a saltar na minha cabeça. Mas que queriam? Aquele era o ambiente da taberna. No fundo, eu era a cor local. Haveria de haver quem lá fosse só para me ver a dormir em cima da mesa, rir da minha vida e rezar para que nunca se tornassem nisto, e ouvir o White Traffic dos Go Graal Blues Band, um blues rock dos anos oitenta de companhia ao cavalo. Era assim, eu, aquele sítio, aquela época e o blues do Paulo Gonzo. Mas não se deixem enganar. Eu não andava no cavalo. Muitos outros andavam por lá, até o dono da taberna. Apanhei-o algumas vezes na casa-de-banho a fazer a sopa. Eu não. Eu só bebia. Bebia para esquecer, até que esqueci porque é que bebia e então só bebia porque era o que fazia. Não havia mais vida na minha vida para além daquele espaço, do café de manhã e dos bagaços que me entorpeciam ao longo do dia.
Quando conseguia entrar em casa, corria para a cama e deixava-me cair lá em cima. Evitava tudo o resto. Tudo o resto que já não existia lá em casa. A televisão, a alta-fidelidade, o leitor de dvds, o computador, os livros, os cds, a maior parte dos móveis, as roupas compradas em boa altura da qual restavam meia dúzia de camisolas e dois pares de calças, mas nunca mudava de roupa. Para quê? Por quê? O que é que me esperava para além da mesa da taberna onde repousava a cabeça e onde tentava não pensar mais no vazio em que tudo se tinha tornado?
Naquela última noite, quando o dono da taberna pegou em mim para me levar para a rua, parou mal me tocou. Colocou a mão no meu pulso. Colocou a mão no meu pescoço. Largou-me. Largou-me a mão e o braço caiu pesado sobre a mesa.
Eu estava a ver cá de cima e senti o braço bater com força na mesa. Vi que não me mexia. Ouvi o dono a telefonar para o INEM e dizer Acho que está morto. E lembro-me de sentir uma grande angústia, a garganta fechar-se e não conseguir respirar. Senti as lágrimas abeirarem-se dos olhos. Vi chegarem os paramédicos. Vi-os auscultarem-me. Vi-os darem-me descargas com o desfibrilador. Vi-os abanar a cabeça para o dono da taberna. Vi-os levarem-me. Vi-me na ambulância. Na morgue. No cemitério, num enterro simples e deserto no cemitério. Ninguém, nem mulheres ou ex-mulheres, nem filhos, nem mesmo o dono da taberna, para me dizer adeus, o último adeus na minha última viagem.
Agora ando por aqui a tentar perceber o que é que posso fazer, mas não posso fazer grande coisa. Nem beber. Ando de um lado para outro. Como se estivesse à espera de qualquer coisa. Não sei de quê. Nem sei se estou realmente à espera de alguma coisa. É só uma sensação. Uma sensação para que não regresse de novo ao vazio. Mas tudo parece ainda pior do que estava.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/16]

As Águias São Imperiais

Às vezes dá-me para isto. Podia dar-me para outras coisas, mas dá-me para isto. Deito-me ali debaixo da laranjeira, enquanto ainda tem ramagens e folhas que me dão sombra, pego numa azeda que espeto na boca e chupo aquele suco amargo, ponho-me a olhar as nuvens a passar sonolentas no céu e recordo, recordo com saudade, pedaços de vida a que não voltei mais mas a que gostava de voltar.
Não sou muito nostálgico. Não choro pelo que passou. Mas às vezes dá-me assim aquele aperto no coração, acompanhado de uma certa angústia ou ansiedade e tento perceber o porquê. Às vezes é só fome. Outras vezes é falta de um copo de vinho tinto ou de um cigarro. A merda das adicções. Mas também já foi mesmo a saudade. A saudade pura e dura. Nessas alturas gostaria mesmo muito de ter uma máquina do tempo e regressar a esses momentos. Não sou muito de regressos, como já disse, mas às vezes, às vezes, às vezes a vida prega-me rasteiras e eu nem me reconheço.
Hoje não havia azedas, já não há azedas há muito tempo, peguei num cigarro, na almofada da cama e numa toalha de banho e fui estender-me debaixo da laranjeira, à sombra das braças da laranjeira, braças suficientes para me darem sombra, mas não tantas que me tapem a vista e, então, pus-me a olhar as nuvens e deixei-me embalar pelo ritmo cadente da sua passagem sobre mim.
Estava num piquenique. Há muitos anos que não tinha um piquenique. Estava num piquenique. Tinha um copo de vidro com vinho tinto numa mão. Um folhado misto na outra. Tentava falar mas não conseguia que tinha a boca atulhada com o folhado misto, fiambre e queijo, que estava uma maravilha. À minha volta riam-se. Gente que já não via há muito tempo. Alguns há anos. Outros, julgava-os mortos. Partilhavam comigo o vinho. Queijinhos secos. Um fio de azeite sobre os queijinhos. Umas fatias de pão alentejano a fazer companhia aos queijinhos. Ali tudo era companhia. Engoli o folhado misto e falei. Não ouvi o que disse, mas toda a gente à volta tomou atenção. Toda a gente se calou para me ouvir. Acho que gosto de ser ouvido. Nunca tinha pensado nisso. Nunca tinha pensado em mim assim. Nunca tinha pensado nesta minha necessidade de ser ouvido. Preciso disso? De ser ouvido? Que me ouçam?
Estávamos à volta de uma mesa de pedra debaixo de um pinheiro manso na encosta da montanha com vista sobre o vale. O verde predominava. Havia umas águias a planar sobre nós. Talvez fossem uns milhafres, não sei. Embora não conseguisse ouvir qualquer som, o ambiente parecia tranquilo e suave e, o único som, talvez fosse o produzido por nós, à volta da mesa. Os risos que saíram das bocas rasgadas no fim de uma conversa minha. Uma palmada nas costas. Uma mão que me afagou o rosto e senti o calor da mão, senti o calor da mão no lado de cá do sonho, uma mão leve e carinhosa.
Na mesa de pedra repousavam embalagens com iguarias várias. Húmus de beterraba, Pão alentejano. Queijinhos secos. Azeite. Folhados mistos de fiambre e queijo. Um chouriço caseiro cortado à navalha. Pedaços de morcela previamente assada. Ovos mexidos com espargos salteados. Garrafas de vinho. Várias garrafas de vinho. Garrafas vazias.
Eu levantei-me da mesa e acendi um cigarro. Avancei até à beira da estrada e da encosta que se precipitava lá para baixo.
Olhei as nuvens no céu por cima de mim e pensei Eu sei que me estou a ver. Eu sei que não sei se isto aconteceu ou irá acontecer. Mas também sei que a satisfação não vem só com o que existe ou existiu, mas também com o que sonho, com o que imagino. É por isso que faço filmes. É por isso que escrevo histórias. É por isso que componho canções. É por isso que pinto quadros e esculpo esculturas. Às vezes sinto-me deus. Um deus. Um pequeno deus. Um pequeno deus para as pequenas coisas da minha vida. Do meu dia-a-dia. Não preciso de agarrar na bíblia e mostrá-la às pessoas. Não preciso dizer que tenho Deus sobre mim, sobre nós. Eu sou deus e não preciso de proclamações.
Dei um pequeno grito quando o cigarro queimou por completo e chegou-me aos dedos. Abri os olhos e vi uma águia em forma de nuvem a pairar sobre a minha cabeça. Acendi outro cigarro e pensei Gosto de águias. São imperiais.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/06]

Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]