De um Lado para o Outro

Eu passei aqueles últimos dias caído sobre a mesa da taberna.
Ao fim da noite, o dono pegava em mim e despejava-me na rua, à frente da porta. Largava-me no passeio onde, não poucas vezes, acabava a vomitar e a desejar um dia sufocar no meu próprio vómito e deixar de passar por toda aquela tristeza a que não conseguia fugir.
Entrava lá me manhã para beber um café. Depois era um bagaço. E acabava por ficar por lá. Naquela altura já nem bebia tanto assim. Já não tinha corpo para isso. Bastava-me o primeiro, ou os dois primeiros bagaços do dia, logo depois do café, para já não ter forças para me levantar da mesa. E ficava por lá o resto do dia. A cabeça tombada sobre a mesa, em cima dos braços que a amparavam, que me amparavam. A meio da tarde levantava os olhos e bebia outro que alguém me oferecia. Mas desaparecia logo outro vez, na voragem do tempo e da minha lassidão.
Ao fim da noite, despejado na rua, arrastava-me até casa. Às vezes não conseguia abrir a porta e ficava ali mesmo, à entrada, a dormir em cima do tapete onde, antigamente, tinha força para limpar a sola dos sapatos. Às vezes passava por lá alguém que me abria a porta e puxava-me lá para dentro. A maior parte das vezes ficava ali mesmo, caído, à entrada de casa. Depois, de manhã, voltava a levantar-me e arrastava-me de volta até à taberna onde bebia um café. Depois um bagaço. Depois haveria alguém que dizia que eu cheirava mal. Que estava todo mijado. Que viam os piolhos a saltar na minha cabeça. Mas que queriam? Aquele era o ambiente da taberna. No fundo, eu era a cor local. Haveria de haver quem lá fosse só para me ver a dormir em cima da mesa, rir da minha vida e rezar para que nunca se tornassem nisto, e ouvir o White Traffic dos Go Graal Blues Band, um blues rock dos anos oitenta de companhia ao cavalo. Era assim, eu, aquele sítio, aquela época e o blues do Paulo Gonzo. Mas não se deixem enganar. Eu não andava no cavalo. Muitos outros andavam por lá, até o dono da taberna. Apanhei-o algumas vezes na casa-de-banho a fazer a sopa. Eu não. Eu só bebia. Bebia para esquecer, até que esqueci porque é que bebia e então só bebia porque era o que fazia. Não havia mais vida na minha vida para além daquele espaço, do café de manhã e dos bagaços que me entorpeciam ao longo do dia.
Quando conseguia entrar em casa, corria para a cama e deixava-me cair lá em cima. Evitava tudo o resto. Tudo o resto que já não existia lá em casa. A televisão, a alta-fidelidade, o leitor de dvds, o computador, os livros, os cds, a maior parte dos móveis, as roupas compradas em boa altura da qual restavam meia dúzia de camisolas e dois pares de calças, mas nunca mudava de roupa. Para quê? Por quê? O que é que me esperava para além da mesa da taberna onde repousava a cabeça e onde tentava não pensar mais no vazio em que tudo se tinha tornado?
Naquela última noite, quando o dono da taberna pegou em mim para me levar para a rua, parou mal me tocou. Colocou a mão no meu pulso. Colocou a mão no meu pescoço. Largou-me. Largou-me a mão e o braço caiu pesado sobre a mesa.
Eu estava a ver cá de cima e senti o braço bater com força na mesa. Vi que não me mexia. Ouvi o dono a telefonar para o INEM e dizer Acho que está morto. E lembro-me de sentir uma grande angústia, a garganta fechar-se e não conseguir respirar. Senti as lágrimas abeirarem-se dos olhos. Vi chegarem os paramédicos. Vi-os auscultarem-me. Vi-os darem-me descargas com o desfibrilador. Vi-os abanar a cabeça para o dono da taberna. Vi-os levarem-me. Vi-me na ambulância. Na morgue. No cemitério, num enterro simples e deserto no cemitério. Ninguém, nem mulheres ou ex-mulheres, nem filhos, nem mesmo o dono da taberna, para me dizer adeus, o último adeus na minha última viagem.
Agora ando por aqui a tentar perceber o que é que posso fazer, mas não posso fazer grande coisa. Nem beber. Ando de um lado para outro. Como se estivesse à espera de qualquer coisa. Não sei de quê. Nem sei se estou realmente à espera de alguma coisa. É só uma sensação. Uma sensação para que não regresse de novo ao vazio. Mas tudo parece ainda pior do que estava.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/16]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Sexta-Feira, 13

Sexta-feira, 13. Hoje é Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições e azares. Como não acredito em Bruxas. Mas que as há, há.
Foi numa Sexta-feira, 13. Um dia como hoje. Há muitos anos. Tantos anos que já não sei quantos.
Estava no açude que havia ali em baixo, ao pé de São Romão. Ali a caminho das Cortes. Estava com uma miúda. Uma miúda de quem gostava muito. Era uma miúda da minha idade. Da minha turma. Éramos amigos já antes de sermos namorados. Foi a minha última namorada. Este dia, naquele dia, foi o último dia de namoro. Nunca mais namorei. Nunca mais quis nenhum relacionamento. Não queria ter um relacionamento coxo. Que me iria fazer lembrar, a todo o momento, que já não era homem. Já não era gente. Só um corpo atrofiado.
Estávamos no açude. Eu e ela. Era o fim das aulas e nós tínhamos faltado. Estávamos com o sangue quente e cheios de desejo. Fomos até ao açude. Eu era bom nadador. Elegante a mergulhar. E fazia gala disso. E então, mergulhei para ela. Para ela ver. Saltei do braço grosso da árvore para o meio do açude. Mas algo correu mal quando mergulhei. Fui mais fundo que o habitual. Tinha entrado muito a pique. E quando dei por mim, já tudo tinha acontecido e eu já estava no hospital. A minha vida ficou naquele mergulho. E eu nunca mais regressei ao contacto com os vivos. Não, não morri. Mas foi como se tivesse morrido.
Mergulhei mais a pique que o habitual e bati com a cabeça numa rocha no fundo do açude. Desmaiei. O meu corpo, inerte, subiu. Ela viu-me e puxou-me para fora. Parece que teve de me fazer respiração boca-a-boca e carregar forte nos pulmões. Parece que acordei e cuspi água. Depois foi à procura de ajuda. Eu não me lembro nada. Não me lembro de ter acordado. Nem de ter estado à espera de ajuda. Nem da ambulância. Lembro-me de ter acordado no hospital. Lembro-me de não me conseguir mexer. Lembro-me de a ver chorar. E lembro-me de uma conversa que a médica teve comigo. A primeira conversa. A dor da primeira conversa. O desespero. E a vontade de ter morrido. A vontade de ter ficado lá no açude.
E foi assim que me senti. Como se tivesse morrido. Tudo aconteceu numa Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições. Nem em azares do destino. Mas a minha vida foi abalroada pelo destino numa Sexta-feira, 13.
Mandei-a embora. Mandei toda a gente embora da minha vida. Saí da cidade. Fui viver para o campo. Os meus pais foram comigo. Eu isolei-me. E continuo isolado, hoje.
Às vezes tenho de descer à cidade. E custa-me. Custa-me ter de vir para o meio das pessoas. Algumas pessoas que eram do meu passado. Fingimos que não nos reconhecemos. Mas também me custa não reconhecer a cidade que era minha. Custa-me não andar por aqui a sorver esta cidade com tudo o que ela tem, tinha, para me dar. Mas eu não tenho forma de sorver nada disto. Continuo a existir, mas já não vivo. Sou um tipo zangado. Eu, na verdade, fiquei no açude.
Em dias como o de hoje, ainda mais zangado fico. Tive de vir à cidade. Tive de chamar o táxi para me trazer à cidade e fazer, por mim, umas coisas que precisava que fossem feitas. Mas o taxista é simpático. Já la vão uns anos que me ajuda.
Mas hoje!? Hoje o diabo saiu à rua para me azucrinar e fazer lembrar que as Sextas-feiras, 13 não gostam de mim.
Vou no carro com o taxista. Vou sentado quieto, sem me mexer. Nada em mim mexe. Sei que já há um procedimento, através de um implante no cérebro, que me poderá fazer recuperar as mãos e os braços. Mas ainda sou um tronco estático. Só a cabeça mexe. Mas sinto tudo o que anda, ou não, à minha volta.
Estou parado numa estrada na cidade. Há uma fila que não anda. Uma das principais saídas da cidade está fechada por causa de um evento automóvel. Uma espécie de exposição de carros antigos. Passeiam-se pela cidade. Fazem provas de perícia. Gastam combustível fóssil, queimam borracha e sentem as suas pilas enormes, do tamanho dos seu carros e dos seus motores.
Eu também gostava de sentir a minha pila. E conduzir um carro. Mas não posso. Não consigo. Estou aqui na cidade, enfiado numa fila de trânsito que não se mexe. Pareço eu. A cidade sou eu. Os motores a trabalhar. O cheiro insuportável. Estou preso. Preso em mim e na cidade.
Às vezes penso na minha namorada. E como a minha vida podia ter sido se não tivesse faltado as aulas. Mas também penso que aquele mergulho, com ela a ver o meu corpo a furar o espelho de água do açude, valeu por uma vida.
Só é pena ter de vir a esta cidade nestes dias. São dias que acordam a minha tristeza.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/13]

E Ainda Aqui Estou!…

Saí pela porta de vidro do edifício principal das consultas externas do hospital dos Covões. Abri muito a boca. Precisava de ar. Ar fresco. Estava há três horas dentro do edifício para saber uma notícia que já adivinhava. Podiam ter-me dito por telefone. Evitava esta viagem. Evitava estas horas sentado naquelas cadeiras rijas e desconfortáveis que me calejaram o rabo. Evitava ter de olhar para aquela gente quase-morta, cheia de olheiras, cara amarelada e sem cabelo.
Cheguei à rua. Abri a boca e inspirei golfadas de ar fresco. Doíam-me as costas. O rabo. As pernas. Tinha as mãos dormentes. E acho que me começavam a doer os dentes. E estava com sede.
O barulho de uma sirene anunciou a chegada de uma ambulância. Fiquei ali parado a vê-la chegar e parar. Saíram dois paramédicos. Abriram as portas de trás e retiraram uma maca. Um velho, deitado na maca, debaixo de um cobertor de algodão, gemia. Gemia de dores. Os paramédicos foram rápidos. Retiraram a maca pelas portas traseiras da ambulância e fizeram-na entrar dentro do edifício das consultas externas. Perguntei-me o que é que o velho viria ali fazer. Achava que devia ter ido para as urgências. Depois pensei Para que raio estou a mandar bitaites?, eu que não sabia nada disto. Não era assunto meu, raios me partam! Esta minha mania de querer saber sempre de tudo, saber sempre tudo, meter o bedelho onde não me diz respeito, era irritante. Mesmo para mim.
O velho já tinha entrado dentro do edifício. O motor da ambulância estava ainda a trabalhar mas a sirene já se tinha emudecido. Virei a cabeça para o parque de estacionamento. Lembrei-me que tinha lá o carro e comecei a dirigir-me para lá.
Cheguei ao pé do carro e descobri-o à torreira de sol. Lá dentro devia estar um inferno. O carro não tinha ar condicionado. Era uma carripana velha, comprada num leilão da PSP, e tinha a tinta a cair aos pedaços, descarnando-o e dando-lhe um ar assustador. Nunca me assaltaram o carro. Mesmo quando o deixo com as portas abertas. E tantas vezes que o largo por aí com as portas abertas.
Abri a porta. Entrei. Queimei logo o rabo. Abri as duas janelas da frente à manivela para deixar passar uma aragem. Mas não passou nenhuma. Agarrei na garrafa de água e levei-a à boca. Cuspi de imediato pela janela aberta. Era chá. Chá a ferver. Pus o carro a trabalhar. Arrancava sempre à primeira, graças a Deus. Agarrei o volante com a ponta dos dedos. Estava tudo a arder. Saí do parque a pensar se não seria a última vez que ali ia. Mesmo que me voltassem a chamar, não sei se voltaria. Não me apetecia regressar ali. Não para isto. Para estes… Para estes nadas.
Já ia na estrada e pensei Auto-estrada ou nacional? e numa decisão súbita escolhi a auto-estrada. De repente senti vontade de estar em casa. De estar fechado em casa com as janelas abertas e as persianas baixadas para fazer corrente-de-ar. Estar nu deitado no chão de madeira da sala. A televisão a debitar barulho, um barulho baixinho, a mentir-me uma ausência de solidão sem ter de enfrentar gente. Uma garrafa de Mouchão tinto aberto e um copo a molhar-me os lábios e a lubrificar-me a garganta seca pelas notícias. No dedos um cigarro a fumegar e a garantir-me sossego. Um cigarro. Era isso.
Agarrei num cigarro e coloquei-o na boca. Carreguei o isqueiro do carro para dentro. Ainda estava nas estradas municipais, a caminho da auto-estrada. O isqueiro disparou, mas saltou do seu encaixe e caiu para o chão. Estava aos meus pés. Olhei para baixo e vi-o junto ao calcanhar. Baixei-me. Agarrei-o. Levei-o ao cigarro na boca quando reparei num carro que corria desenfreado para mim. Percebi que não tinha tempo de me desviar.
Mas ainda tive tempo de pensar nisto tudo que aconteceu desde que saí do hospital.
E ainda aqui estou.
Sei que vou a caminho de bater contra aquele carro. Merda!…

[escrito directamente no facebook em 2019/06/27]

A Mina

Ouvia o assobio, o Hey! soprado, alto, para o burro, e o burro a rodar à volta de uma espécie de nora a puxar, a puxar, a puxar a corda, o balde, o minério das profundezas da terra cá para cima, para a terra de Deus.
Lá em baixo, no Inferno, ouvia-se as picaretas a perfurarem as paredes do subsolo. As pás a apanharem os detritos, e tudo a tombar nos carros de metal que circulavam em linha de comboio miniatura, mas não de brincar, que levavam o minério, os detritos, tudo aquilo que tinha de ir embora do estômago da terra cá para cima, para a luz solar, fazer brilhar o seu dourado, o brilho do luxo nas costas de um burro, a toque de caixa de um chicote. Arre! Arre! Hey!
Não sei as horas. Lá em baixo é sempre noite. Não há janelas. Não vejo a luz do sol. Também não vejo a da Lua. Mas percebo-lhe o ambiente. A escuridão. A solidão. O ar é pouco. Pesado. Por vezes ganham-se vertigens. Embebedam-se com a falta de ar. Eu sinto-me levado. Para onde não estou. E esqueço que não estou lá. Sou sugestionado. Mas não estou lá. Percebo como é lá, com é estar lá, como é ser parte integrante de lá.
Vejo o balde a subir, puxado numa corda pelo burro, às voltas, à volta de uma espécie de nora, até lá acima. Os detritos. O lixo. O luxo.
Daquela vez dois acontecimentos tiveram lugar. Acontecimentos vulgares. Mas não em conjunto. Vulgares solitariamente. Daquele vez foi um a seguir ao outro. Primeiro o miúdo que tinha de apanhar o balde do poço, o balde que o burro puxava naquele seu ritmo cadente à volta de uma espécie de nora caiu dentro do poço. Desequilibrou-se e caiu ao fundo. Não conseguiu agarrar o balde. Não conseguiu agarrar-se ao balde. Não conseguiu agarrar-se à corda. Caiu. Até às profundezas do Inferno. Não sei em que parte do trajecto morreu. Nem como morreu. Nem se morreu na queda. Ou da queda. Já estava morto quando o encontraram. Pedaços dele. Do pouco que encontraram dele. Depois foi a explosão. Uma picareta perfurou uma bolsa de gás. Explodiu. A bolsa. A picareta. O homem da picareta. O túnel. O poço. A mina. Morreram vários homens. Não só o homem da picareta. Mas todos os outros que lá estavam. Morreram na explosão. Ou morreram no bloqueio provocado pela explosão. Ou morreram de fome e de sede presos dentro de túneis bloqueados pela queda das paredes que os sustentavam.
O burro continuava cá em cima. À espera das ordens. Arre! Arre! Hey! Estava parado. Depois viu o resto de uma maçã. Comeu uma maçã. Uma maçã encontrada ali pelo chão. Uma maçã tombada da lancheira de um qualquer trabalhador da mina. Talvez um dos mortos. Desmembrados. Desaparecidos.
Mais tarde vi uma ambulância parada na rua. Um homem. Duas miúdas novas. Olhavam a ambulância com nervosismo. Um paramédico saiu da ambulância e falou com o homem. As miúdas ouviram. Começaram a chorar. Uma delas caiu, sem forças, ao chão. A outra ajudou-a a levantar-se. O homem ficou petrificado. Sem reação. Alheado das miúdas a chorar.
Não é só nas minas que morre gente.
Lá em cima o burro tinha recomeçado a girar à volta do poço. A fazer girar uma espécie de nora. Um gajo dizia Arre! Arre! Hey!, enquanto assobiava ao burro.
Life goes on. E a mina não podia parar. A vida não se compadece da morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/06]

A Rapariga no Cemitério

Conheci-a no funeral do pai. Na verdade, depois do funeral. Também não a conheci de verdade. Mas estive com ela.
Eu estava no cemitério a limpar a campa da minha mãe. Assisti àquele gigantesco evento ali mesmo ao lado. Um sai-e-entra de gente vestida de preto. Bons cortes. De fatos e cabelo. Óculos escuros. Muito choro. Alguns cigarros acesos. Senhoras de idade, com véus pretos sobre a cara, amparadas por rapazes e raparigas novos, talvez netos, mas vestidos como gente grande. Gente com dinheiro. Devia ser alguém importante. O morto. Alguém querido de muita gente.
Sentei-me na campa da minha mãe e fiquei por ali um bocado. À espera que se fossem embora. À espera de um pouco de calma. Gostava de conversar com a minha mãe. Cada um de nós no seu lado do mundo. Ela tinha paciência para me ouvir. E eu contava-lhe, a ela, o que não contava a mais ninguém. Confiava que a conversa não sairia dali. Também estava à espera de poder mudar as flores e garantir que elas ficavam por lá. Pelo menos naquele dia. E não eram espezinhadas pela multidão. Por aquela enorme multidão. Sentei-me. Acendi um cigarro.
Acendi outro.
Deu-me a moleza.
Fechei os olhos.
Devo ter adormecido. Adormecido sentado na campa da minha mãe. A multidão do lado já se tinha ido embora. Ficaram as inúmeras coroas de flores e o seus cartões sociais. E estava lá uma rapariga. Só. Ela. De preto. Vestido preto. Casaco preto. Sapatos pretos de meio salto. Bem escovados mas com lama a sair debaixo da sola. A lama do cemitério agarrada aos pés.
Ela caiu.
Eu levantei-me e corri. Corri para ela. Saltei entre as coroas de flores. Baixei-me. Pus os meus dedos no pescoço dela. Tinha pulsação. Olhei em volta. Ninguém. Agarrei no telefone e liguei para o Cento e Doze.
Atenderam. Expliquei. Desliguei.
Acendi um cigarro. Olhei para ela ali caída aos meus pés. Pensei Devia pô-la confortável. Pensei É melhor não lhe mexer. Pensei É gira a miúda. Pensei Já não é bem miúda. Já é uma mulher, talvez já mesmo uma senhora. Pensei Que porra de pensamentos.
Ela abriu os olhos. Olhou para mim. Mas não se mexeu.
Eu mandei o cigarro fora. Baixei-me. Disse Desmaiou. Ela não disse nada. Eu tirei a camisola, dobrei-a, fiz uma almofada e coloquei-lhe por baixo da cabeça. Disse Chamei o Cento e Doze. Ela não disse nada. Cheirava bem. Um cheiro de banho tomado. E um perfume suave. Não muito doce.
Levantei-me. Olhei para a porta de entrada. Ninguém. Voltei a baixar-me. Perguntei Quer avisar alguém? Ela não disse nada. Senti um toque. A mão dela agarrou-me no pulso. Mexeu os lábios. Não ouvi. Baixei-me. Encostei o meu ouvido aos seus lábios. Senti um ligeiro sopro. E uma voz muito sumida, vinda lá do fundo e sem sair de lá, disse Obrigada. Afastei-me e vi os lábios dela forçarem um suave e breve sorriso.
Ouvi a sirene dos bombeiros. Chegaram dois paramédicos. Afastei-me. Um deles perguntou-me Como se chama? Eu?, perguntei. Ela!, respondeu. E eu disse Não sei. O outro baixou-se. Auscultou-a. Mediu-lhe a tensão. Olhou-a no olhos. Bem dentro dos olhos. Fundo nos olhos. Acho que lhe procurava a alma.
Colocaram-na numa maca. Prenderam uns cintos à volta dela. Levaram-na para a ambulância. O paramédico perguntou-me Vem? Eu abanei a cabeça.
E a ambulância foi. Fiquei a ouvir a sirene a tocar durante algum tempo. Até se extinguir por completo.
Agarrei na minha camisola e voltei a vesti-la. Fui limpar a campa da minha mãe. Conversar com ela. Contei-lhe o que tinha acontecido.
O tempo passou.
Fumei um cigarro.
Fui embora.
Na estrada cruzei-me com um acidente. A ambulância que tinha ido buscar a rapariga estava, feita acordeão, espetada de frente num camião TIR que transportava Porsches. Alguns dos Porsches tinham caído do camião abaixo. Estavam semi-destruídos no meio da estrada.
No dia seguinte li, no Correio da Manhã, sobre um acidente onde tinha falecido a filha do homem que tinha sido enterrado na véspera. Ela era a filha! Morreu no mesmo dia em que o pai fora a enterrar. Há gente que não tem muita sorte com a vida. Há coincidências que se tornam diabólicas. Há coisas que nos passam pelas mãos e escorrem entre os dedos.
Ainda me lembro do cheiro dela. Cheiro de banho tomado. Um perfume suave e não muito doce. E era gira, a miúda. Miúda não, já era uma mulher.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/18]

Um Acidente no Sítio da Nazaré

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera avisou-me. Vinha aí a Beatriz. Uma depressão. Vento forte e chuva. O mar agitado.
Peguei na câmara e fui até à Nazaré. Ao sítio da Nazaré. Ao farol. Mas não fui o único. Acho que toda a gente teve a mesma ideia que eu. Locais. Passeantes. Estrangeiros. Estava tudo de braço no ar a fotografar. Câmaras. Tablets. Telemóveis. Tudo servia a objectiva. As gaivotas. As ondas. A espuma das ondas. O Forte. O veado de pedra. A areia. Estava toda a gente à procura do melhor ângulo para o melhor objecto com a melhor objectiva.
Eu encostei-me a uma rocha e fiquei por ali um bocado a ver a agitação. A do mar e a das pessoas.
Acendi um cigarro. Com dificuldade. O vento já era muito. Mas eu tinha um Zippo.
Os carros continuavam a insistir a ir até ao Forte. Era uma fila compacta. Num pára-arranca mais parada que a andar. Já não havia lugares vagos nas bermas. Já não havia lugares vazios em lado nenhum. Mesmo para as selfies os auto-fotografados tinham que fazer palhaçadas para se destacarem dos demais. Estava tudo ao monte. Gente, gente, gente. Tudo à espera da Beatriz.
Mas a Beatriz não chegou. Pelo menos não enquanto eu lá estive. E eu estive lá algum tempo. Até ao acidente.
O acidente aconteceu enquanto eu estava sentado na rocha a fumar um cigarro. Outro cigarro. Não o primeiro.
Uma miúda estava a tentar tirar uma selfie com o mar de fundo. À frente dela, um rapaz que estava a tentar tirar uma fotografia da miúda a fotografar-se. Eram estrangeiros de um estrangeiro que não reconheci mas cuja língua arranhava bastante, mas não aquele arranhar alemão ou holandês. Talvez fossem nórdicos. Ou eslavos. Não percebi nada do que arranhavam um para o outro.
A miúda ia procurando o melhor fundo, o melhor ângulo, a melhor luz, quando passou uma rajada de vento forte, ela escorregou no lodo da rocha onde estava, desequilibrou-se à beira do penhasco, e caiu no vazio. Eu não estava a olhar para ela no momento. Mas senti-a fugir pelo canto do olho. E ouvi o grito do rapaz.
Virei-me. Vi o rapaz chegar-se à beira do penhasco e olhar lá para baixo, aos berros. Eu também olhei lá para baixo. Só vi as ondas a baterem nas rochas. A baterem com violência nas rochas.
As pessoas começaram a aproximar-se do rapaz. A aproximar-se do penhasco. A aproximar-se do vazio. Todos queriam ver. Quase todos tiravam fotografias do rapaz em pânico. Alguém do Forte, acho que um segurança, foi ver o que se passava. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Acumulou-se lá tanta gente à volta que já era difícil passar. Mas havia gente a rir. Gente a conversar aos berros. Gente a fotografar. Gente a filmar. Gente e espreitar do penhasco para baixo. Para ver as ondas a baterem nas rochas.
Saltei do sítio onde estava e fui abrindo passagem à bruta entre todos aqueles mirones em festa. Furava literalmente entre câmaras e telemóveis. Fiz cair dois ou três. Alguém gritou para mim mas nem me virei. Segui em frente.
Sentia-os a aproximarem-se demasiado da beira do precipício. Queriam selfies com o sítio onde a miúda caíra.
Tinha de sair dali. Tinha mesmo de me ir embora. Demasiada gente junta. Demasiada gente junta à beira de um precipício. E com vontade de conseguirem fotografias extremas, radicais, populares. Gente louca.
Eu já vinha cá em cima quando ouvi um bruá. Vários gritos histéricos. Desesperados. Provavelmente tinha caído mais alguém ao mar.
Já estava a chegar ao Sítio quando passou por mim a ambulância e um carro da polícia. As luzes ligadas, a girar, a girar. As sirenes a apitar.
Cheguei ao carro. Arranquei para casa e maldizer a Beatriz e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera que prometem muito e não acontece nada. Ou acontece, mas outras coisas. Outras coisas terríveis.
E a única depressão que apareceu por lá acabou por ser a minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/10]

A Conversadeira de Eduardo Souto de Moura

Porto de Mós.
Sexta-feira. Fim-de-tarde.
Sento-me na Conversadeira de Eduardo Souto de Moura. A Conversadeira é uma poltrona dupla com assentos em oposição, feito em Mármore Rosa com Veios Verdes, e com 1220 x 650 x 850 mm de dimensões. Visto de cima forma um S.
Sento-me num dos lados e olho. Vejo um prédio. Um prédio sem nada de particular que o distinga dos outros prédios à volta.
Estando Porto de Mós rodeado de montanhas, esperava poder ver uma montanha, umas árvores, até o castelo apalaçado de estilo francês que domina a vila. Mas não. Nada. Um cruzamento. Estou num cruzamento.
Levanto-me e vou sentar-me do outro lado. Espero outra vista. Mas, porra. Um prédio. Outro prédio.
A Conversadeira de Souto de Moura está num cruzamento rodeado de prédios na vila de Porto de Mós.
Sinto-me desiludido.
Olho em frente. Um fila de carros. Um tractor. O cheiro a gasolina. Buzinas. Uma motorizada que ultrapassa a fila e entra na estrada com a facilidade da mobilidade. No passeio que circunda o prédio, uma rapariga empurra um carrinho de bebé. Ela pára. Olha para mim. Leva a mão à boca.
Eu ouço. Ouço atrás de mim uma sinfonia urbana. Travagem. Apitos. Buzinas. Derrapagem. Gritos. Chapa. Trambolhões. Explosões. Mais gritos. Choro.
A cara da rapariga vai mudando. Eu vou vendo o que se passa atrás de mim reflectido nas expressões da rapariga e nos sons que me vão chegando.
Acendo um cigarro e recosto-me na Conversadeira.
Percebo, na cara da rapariga. O tractor que passa no cruzamento e entra na outra estrada. Um carro que trava. Um polícia que apita. Um outro carro que buzina enquanto derrapa no asfalto. Uma mulher que grita. A motorizada que bate no carro que derrapa. O rapaz da motorizada que é projectado, passa por cima do tractor e vai aos trambolhões estrada fora. O motor de um carro que rebenta. Gente que grita. Em vários tons. Em vários momentos. Desencontrados. Uma criança que chora.
A rapariga leva agora as duas mãos à cara. Está assustada. Assustadíssima. Com medo. O carrinho começa a deslizar pelo passeio. Eu continuo na Conversadeira a ver tudo na cara da rapariga. A ouvir tudo atrás de mim.
Vêm mais carros que se enfaixam uns nos outros. Ouço a chapa a bater. O polícia é atropelado por um dos carros. O tractor passa por cima do corpo do rapaz da motorizada que está caído no chão. Chega um camião TIR, e eu ouço o barulho dos travões pneumáticos, aquilo parece que sopra, sopra chateado, e o camião leva tudo de arrasto até ao rio. Um dos carros cai.
O carrinho de bebé chega ao fim do passeio e começa a cair para a estrada. Eu levanto-me rápido da Conversadeira, corro, atravesso a estrada num ápice e agarro o carrinho de bebé antes dele cair do passeio. Levo o carrinho à rapariga que está em estado de choque a olhar para a confusão no cruzamento. Não liga nenhuma para o carrinho que tento entregar-lhe.
Ouço o barulho de uma ambulância a chegar e, finalmente, olho para trás. Para tudo aquilo. Mas tudo o que vejo é a Conversadeira do Eduardo Souto de Moura.
Porque é que se chama Conversadeira se naquele cruzamento ninguém ouve os próprios pensamentos?
Porque é que está ali, naquele cruzamento, rodeado de prédios banais?
É já noite.
O que é feito do meu cigarro?
Que raio faço eu em Porto de Mós?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/07]

Natal em Julho

Muito da minha vida ao longo dos anos tem sido feito à espera dos elevadores ou dentro deles.
Hoje voltou a ser assim. A minha vida numa roda-viva, para cima e para baixo à velocidade de Schindler, os que existem no prédio onde vivo.
Hoje estava no meu andar à espera do elevador. Estava a demorar. Mas lá acabou por chegar. Abriram-se as portas. Entrei.
Já lá estava um casal. Ela estava grávida. Gravidíssima. Com uma barriga enorme.
Disse Boa-tarde!. Responderam-me Hello!, os dois, mas não se sobrepuseram. Primeiro um, depois o outro. Hello!
Íamos a descer os andares. Cada um na sua vida. Eles os dois em conjunto. E depois, um esticão. O elevador parou. Entre dois andares.
Manteve-se a luz no interior do elevador.
Tocámos à campainha.
Insistimos.
Nada. Nada de nada.
Expliquei-lhes, em inglês, que não era normal. Era normal um dos elevadores estar avariado, mas não era normal avariar assim, a meio de uma descida, a meio do trabalho, com gente lá dentro. Os elevadores ali avariavam mas com razoabilidade.
Eles disseram, na verdade ele disse, que estavam habituados. Eram palestinianos. Na cidade onde viviam era normal não haver elevadores. Quando havia não funcionavam. Mas o normal era não haver. E quando funcionavam, a maior parte das pessoas preferia ir a pé.
Emigrantes? Não, não eram emigrantes. Ele era marceneiro. Fazia móveis de madeira. Com as mãos, dizia ele orgulhoso, enquanto me mostrava os calos. Estavam ali porque a mulher era engenheira Biotecnológica e estava ali em Leiria para assistir a um simpósio internacional no IPL
Só consegui emitir um Ah! de admiração e sem saber que mais dizer, quando a mulher começou a falar muito rápido, assustada e com as mãos agarradas à barriga. Tinha água a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Uma poça de água aos pés.
Contracções.
Ficámos todos nervosos. Eu fiquei muito nervoso.
A campainha tocava mas ninguém aparecia.
O meu telemóvel sem bateria. Os deles sem rede.
Ela deitou-se.
Ia dar à luz ali. Naquele elevador sem graça nenhuma. Avariado. Com uma luz fraquinha e a tremeluzir. À minha frente.
Entrou em trabalho de parto quase de imediato.
O marido tomou a situação nas mãos. Literalmente. Pediu a minha ajuda.
Amedrontado, ofereci-me.
Não me recordo de muito.
Lembro-me de gritos. De palavrões em inglês e outras coisas que não identifiquei. De sangue. Do homem retirar a camisa. De pedir a minha t-shirt. De um bebé a sair de dentro da mãe. De choro. De muito choro. E riso. Uma confusão de berros de choro e gargalhadas de alegria.
O homem virou-se para mim, ainda com a criança nas mãos e disse-me Jesus!, e depois colocou a criança sobre o corpo da mãe e tapou-a com a minha t-shirt. A mãe abraçou-a, cansada mas alegre e muito feliz.
O elevador deu um estalo e recomeçou a funcionar. A andar para baixo. Para o rés-do-chão.
Chegamos lá abaixo e eu fui a correr à rua, para pedir ajuda à cervejaria frente ao prédio. Chamei a ambulância que chegou em menos que nada.
Eles foram-se embora na ambulância. Agradeceram-me. Despediram-se de mim e repetiram os dois Jesus!, de sorriso rasgado.
Ao fundo, na rua, vi passar um cigano com um burro pela mão.
Nem sei o que pensar.
Eu acabei por ficar aqui na cervejaria. Estou ao balcão. Já bebi sete imperiais e continuo com sede. Preciso de um cigarro mas não consigo sair do balcão. E não sei o que pensar.
Não sei mesmo o que pensar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/28]