O Dente e o Berbigão

Fui cimentar um dente. Um dente que andava a chatear-me. Doía-me com o frio. Doía-me com o calor. Três sessões de tratamento de um total de quatro. A Pandemia meteu-se pelo meio e não cheguei à última sessão. Fiquei com um protecção provisória que está a tornar-se definitiva se não se desintegrar entretanto. Não sei em que estado está o dente, nem quero saber. Recuso-me a olhar para ele. Não me dói e chega-me. Mas às vezes penso se não terei de voltar ao ponto zero e repetir as outras sessões já feitas e, entretanto, e provavelmente, destruídas, como quase tudo durante este período de trevas que só tem enriquecido os do costume, especialmente as grandes superfícies, afinal não podem fechar, não é? as pessoas precisam de comer mesmo quando estão a morrer de outra coisa qualquer que não seja de fome. Mas há muita gente a morrer de fome, também, e a Segurança Social, um Estado dentro do Estado, que devia estar a tentar estancar os danos sociais está a contribuir para os agravar. Às vezes penso que a Segurança Social funciona com inteligência artificial e não com pessoas. A emoção e a empatia não entram naqueles gabinetes. É tudo frio. Gélido. Lá não nasce nada. Tudo mirra.
Penso sempre no meu dente quando como. Especialmente quando como pão de véspera, que é mais duro, e penso sempre que, um dia, talvez um dia, um bocado de pão duro possa dar cabo do que me resta do dente. Mas depois, acabo de comer, não aconteceu nada ao dente e eu esqueço-me dele.
Lembrei-me hoje do dente porque a vizinha da casa lá de baixo, a casa ao fundo da estrada, antes do cruzamento, veio vá trazer uma terrina com berbigão. Fiquei muito agradecido. Abri uma garrafa de Porca de Murça, que me leva de volta ao final da adolescência e às bebedeiras com Porca de Murça nas adegas das Cortes, e que agora voltei a encontrar no minimercado aqui da aldeia e um bocado de pão caseiro feito no Zé dos Frangos. Estava a meio do segundo prato de berbigão, e já lá ia mais de metade da garrafa, quando senti areia na boca. Os dentes a trincar areia. E o barulho crunch crunch. Pensei que a minha vizinha não tinha lavado o berbigão como devia ser. E foi então que também pensei se não seria o dente a desfazer-se. Senti um arrepio nas costas, logo seguido de uma certa angústia. Levantei-me da mesa e fui até o alpendre fumar um cigarro. Enquanto fumava, pensei isto tudo que está escrito aqui em cima. No fim do cigarro pensei que, dente ou não dente, não ia desperdiçar o resto do berbigão que estava feito à espanhola, muito saboroso, e que estava a saber-me muito bem. Pensei que a Segurança Social podia querer matar-me um dia destes e o melhor era aproveitar enquanto podia. E voltei para a mesa da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/12]

A Porta Fechada ao Cimo da Escadaria de Pedra

Desperto com o bater da porta. Alguém saiu de casa. Quem é que saiu de casa? Ela saiu de casa?
Abro os olhos e percebo que não estou em casa. Estou sentado numa escadaria de pedra. À minha frente passam carros. Estou na cidade. Viro-me para trás e vejo, no alto da escadaria, um homem a fechar as portas e penso São quatro da tarde.
Levo a mão ao bolso das calças e agarro o telemóvel. Olho e vejo escrito em numerário dezasseis horas. São pontuais.
Cai-me um pingo na mão. Um pingo vermelho. Sangue. Estou a deitar sangue do nariz. Apanhei muito sol. Levanto a cabeça para trás. Guardo o telemóvel e procuro um lenço de papel no outro bolso. Só tenho um lenço sujo. Um lenço já usado. Coloco-o no nariz e aguardo assim, com a cabeça lançada para trás. Ponho-me a pensar se esta é a melhor maneira de colocar a cabeça. De repente chega-me a dúvida e penso se não devia ter a cabeça virada para baixo. Deixo-me estar como estou. E estou assim durante algum tempo. Vejo o lenço de papel. Vejo o sangue no lenço de papel. Volto a dobrá-lo e a colocá-lo no nariz. Repito esta operação até deixar de ver sangue no lenço.
Levanto-me do degrau de pedra, do degrau daquela escadaria que leva, lá no cimo, a uma porta que já está fechada. Já passa das quatro da tarde.
O que é que vou fazer?
Acendo um cigarro. Sinto perder as forças nas pernas e volto a sentar-me no degrau de pedra. Fico ali sentado a fumar o cigarro. De vez em quando, a porta lá de cima abre-se para sair alguém. Eu não saio porque não cheguei a entrar.
Abro a boca. Abro muito a boca mas não estou a bocejar. Abro a boca como se quisesse abocanhar o mundo. Abro muito a boca como se quisesse gritar. Mas não grito. Estou no meio da cidade. Há muita gente a passar. Não quero que me achem maluco. Já basta o que basta.
Acabo o cigarro e deixo-o cair no degrau abaixo de mim. Vejo a ponta incandescente a consumir-se devagar.
Levanto-me. Sacudo as calças no cu que esteve sentado no degrau de pedra. Entro no circuito de gente que caminha para algum sítio. Eu não sei para onde deva ir. Não tenho para onde ir. Sinto-me no limbo. Viro-me para trás e vejo a porta ao cimo dos degraus de pedra, fechada. Não sei o que fazer nem para onde ir.
Caminho à sorte pelas ruas da cidade. Ruas barulhentas. Ruas mal-cheirosas. Ruas sujas. Descubro-me junto ao rio. Sento-me num muro que marca uma das margens nesta passagem do rio pela cidade. Olho para a água estagnada e suja. O leito deve estar bloqueado lá mais à frente e o rio está parado. Há uns patos a passearem-se lá no meio.
Sinto um arrepio nas costas e não será do frio. Tenho uma tontura. Sinto-me fraco. Aos meus pés o rio. O mundo parece girar em torno de mim. Sinto o estômago às voltas. Sinto a cabeça às voltas. Eu estou às voltas. Os patos parecem nadar no céu. Uma vertigem parece que me puxa. E eu deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/11]

Perante a Impossibilidade

Estamos a meio de uma Pandemia. Prestes a entrar numa situação de Contingência, seja lá isso o que for. O normal já não é normal. As pessoas adaptam-se. As pessoas tentam sobreviver. Alguns não conseguem. Há sempre alguns que não conseguem. Não porque sejam piores, menos capazes, insuficientes. Não conseguem porque não conseguem.
A maior frustração de um homem é estar a tentar contar uma história (a história, a sua história, afinal, a sua razão) a alguém que tem os ouvidos fechados e, como resposta só lhe sai São as regras. E as regras são invioláveis. Mesmo quando mudam. Porque às vezes têm de mudar. Porque o mundo muda. Tudo muda. Até, fartaram-se de me zurzir aos ouvidos, já não existem empregos para a vida. Tudo muda. A máquina burocrática não. É posta a funcionar por alguém. Ninguém sabe quem. Mas quando começa a trabalhar já não pára até finalizar o que tem para finalizar. O coitado do novo Josef K. será enviado de balcão para balcão, de um departamento para outro, guichet atrás de guichet, a preencher formulários cujas perguntas não entende, a dar a mesma informação que já deu tantas vezes, todas as vezes, que já não as consegue enumerar porque não tem dedos e dentes suficientes para as contar, as mesmas informações que constam do seu processo, dos seus processos, porque ele é sempre o mesmo, com as mesmas informações de sempre, para lhe darem a mesma resposta em balcões diferentes, em departamentos diferentes, por gente diferente de postos e guichets diferentes Não é aqui, e não sei onde possa ser. Talvez indo…
Em Peniche há uma espécie de promontório, de rochas bem escarpadas que entra pelo mar. Assusta caminhar lá por cima. Às vezes há pequenos buracos que levam directamente ao mar. Alguns são pequenos, o pé dentro de uma sapatilha atravessa-os, como uma ponte, de lado a lado. Sentimos a fúria do mar lá dentro, lá debaixo, mas há outros que são grandes o suficiente para nos provocarem a queda e, mesmo que não nos levem ao mar, nos levam a outro lado donde talvez não se consiga sair. Quando se caminha por estas rochas pontiagudas, escarpadas, sente-se o medo da violência do mar. A minha mãe dizia-me sempre de todas as vezes que eu ia mergulhar Com o mar não se brinca. E ali percebe-se o que ela queria dizer. Há dias em que as ondas batem nessas rochas e explodem em todo o seu esplendor e fazem cair sobre quem se aventura por ali, uma forte chuvada de água salgada que nos pode fazer escorregar, tropeçar, fazer cair nas escarpas e levar até à fúria da maré.
Às vezes quando estou perante a impossibilidade de passar para além da porta, do segurança que protege a passagem através dessa porta, uma porta que devia ser nossa mas que se porta cada vez mais como a porta de ninguém, sinto que estou a caminhar sobre as escarpas dessa espécie de promontório em Peniche, e que o rebentamento de uma onda caída sobre mim me vai fazer tombar num mar violento de onde não vou conseguir sair.
É onde eu estou agora. É como eu me sinto agora. E tomba-me em cima um desespero que me faz gritar e ouço ao lado o cochichar de pessoas que ainda não se transformaram em K. mas hão-de transformar-se, porque este momento K. calha a todos, a dizer Mais um maluco. Eles acabam todos aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/10]

Segurança Social

Estou parado em frente à porta da Segurança Social. Conseguirei entrar? Olho em volta e vejo gente com ar desesperado, a abanar folhas de papel, parecem envelopes, a tentar fabricar alguma aragem, paradas debaixo do sol impiedoso. Devem estar à espera de entrar. Devem estar à espera de serem atendidos. Um papel avisa-me que só se atende mediante marcação. Há um número. Marco o número. Interrompido.
Mais longe, à sombra de uns arbustos, umas mulheres sentadas no chão, na relva, no lancil do passeio, com ar exausto. Também estão à espera da vez. Espera tudo vez.
Volto a marcar o número. Atende uma voz gravada a avisar-me que, Devido às solicitações, o tempo de espera é grande. Desligo.
Como é que se faz com as urgências?
E é urgente?
Para mim é, sim. Para mim é mesmo muito urgente.
Como é que se desconstrói o poder da burocracia? Como é que se pára uma máquina que já está em funcionamento e cuja ignição foi feita automaticamente? Haverá alguém para parar a máquina em andamento ou as alternativas são só as pré-gravadas e, portanto, não há alternativas?
Como é que se sobrevive à Segurança Social? Um Estado dentro do Estado?
Conseguirei eu entrar lá dentro? Conseguirei ser atendido?
O sol bate-me com força na cabeça. Sinto os pingos de transpiração a deslizarem por mim abaixo. Sinto uma tontura. Tenho a cabeça quente. Tenho a boca seca. Acho que começo a ter um ataque de bronquite. Tenho as mãos transpiradas. Sinto os sovacos inundados. Cheira-me mal. Devo ser eu. Deve cheirar mal.
As pernas tremem-me. Sinto-me angustiada. A Segurança Social angustia-me. Dá-me medo.
Meto um Valium na língua mas não consigo que desça pela garganta seca. Desfaz-se na boca e fico ainda com mais sede.
Olho para o segurança à porta e penso se devo ir lá falar com ele.
Conseguirei passar pelo segurança?
Alguma vez vou conseguir resolver o meu problema ou vale mais a pena cortar já os pulsos?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/09]

Bang Bang, parte 03 e última

[continuação de ontem]

O dia estava a cair. Havia gente a ir embora da praia. Ela continuava deitada na cama de borracha a ondular ao sabor da maré. Eu, farto de mergulhar naquele mar chão, saí da água e fui sentar-me na esplanada de uma casa de pasto espetada no meio da praia. Pedi Una cerveza e calamares. E assim foi. Veio uma imperial e uma caixinha de latão com calamares.
Ela levantou a cabeça à minha procura. Eu acenei-lhe da praia, da esplanada da praia. Ela viu-me e sossegou. E deixou-se estar a baloiçar naquelas águas quase paradas.
Eu fiquei ali a apreciar o que parecia o paraíso. Tínhamos dinheiro. Estávamos apaixonados. Fazia bom tempo. A água do mar estava quente. A cerveja fria e os calamares eram saborosos. Precisava de guardar aquele tempo o máximo que me fosse possível. Sorvi tudo gulosamente como se o fim do mundo estivesse a espreitar. Os bons tempos estavam prestes a terminar. Eu sentia-o.
Naquela noite haveríamos de alugar um quarto de hotel com varanda e vista sobre o mar. Aquele mar. Faríamos amor na varanda. Faríamos amor a olhar a Lua reflectida no mar. Depois ainda fumaríamos uns cigarros e haveríamos de ter uma grande conversa. Uma conversa onde falaríamos de tudo. De nós e do nosso futuro. Haveríamos de falar do nosso futuro, do nosso fabuloso futuro, um futuro partilhado a dois, com filhos, dois, talvez três, duas raparigas e um rapaz, talvez ao contrário, mas antes iríamos conhecer a Europa, conhecer o Mundo, abrir os olhos e a mente, olhar para além dos horizontes e perceber que não éramos as únicas pessoas neste planeta, um planeta espectacular à espera de coisas espectaculares feitas por pessoas como eu e ela, pessoas espectaculares.
No dia seguinte iríamos passear por Torremolinos, os dois, os dois de mãos dadas, felizes com o que a vida nos estava a proporcionar, e ela haveria de sofrer um acidente. Seria atropelada numa passadeira por um grupo de miúdos ingleses, bêbados, a conduzir um carocha cor-de-rosa, que não conseguiam perceber o conceito de conduzir à direita. Ela iria morrer antes mesmo de chegar ao hospital para onde seria levada e eu acabaria por andar perdido pela Costa del Sol, solitário, de calções e chinelos nos pés, sem tomar banho nem lavar os dentes, à procura dela, à procura de uma ideia dela, a tentar perceber a minha vida sem ela.
Haveria uma pergunta que me iria acompanhar nesses dias que se aproximavam: O que é que irei fazer sem ela? O quê?
Acabaria por voltar para casa. Pegaria no Peugeot que o meu pai me tinha dado e regressaria a Leiria, mas ainda demoraria algum tempo. Iria fazer toda a costa sul. Entraria por Vila Real de Santo António e iria fazer o Algarve e depois começaria a subir o litoral alentejano e demoraria dois meses a chegar a casa, dois meses que demoraria o meu luto por ela e durante todo esse tempo iria deitar-me com todas as miúdas que se quiseram deitar comigo, sem escolha, aberto a tudo e a todas, e choraria no regaço de muitas delas, que me tratariam sempre bem, com carinho, dar-me-iam colo, e muito amor, até que finalmente haveria de chegar a Leiria, fechar-me-ia em casa e começaria a escrever, a escrever muito, a escrever estórias que tinha vivido, ou não, já não sabia o que era verdade ou mentira, o que tinha realmente vivido ou imaginado, mas escreveria tudo, tudo o que me lembrasse, tudo o que pensasse que era vagamente verdade, e depois iria depositar tudo numa gaveta e iria esquecer tudo outra vez, até que pudesse nascer de novo e ser outra vez uma pessoa, alguém completo a quem as estórias já não magoariam, o que me iria trazer até aos dias de hoje.
Mas então, naquele tempo, iria procurar trabalho e o primeiro trabalho que encontraria seria o primeiro trabalho que aceitaria, iria trabalhar por turnos numa fábrica de rações na periferia da cidade, fábrica onde ainda hoje trabalho, trabalho que me embruteceu a alma e as mãos, ásperas, grossas, grosseiras, mãos que nunca mais tocaram a seda de uma pele como a dela, mas que me foi aguentando a vontade de estar vivo e o poder pagar o preço desta vida que já não é querida, só suportada.
Ainda hoje trabalho na mesma fábrica de rações a fazer as mesmas coisas que comecei a fazer há quarenta anos. O meu olfacto não detecta mais nada que o cheiro daquelas rações para alimentar animais. Quando chego a casa escrevo estórias que ninguém me paga. Escrevo histórias que ninguém lê. Escrevo estórias que aconteceram ou não mas, escrevo estórias que são o legado da minha passagem por cá. Publico estas estórias nos redes sociais, não à espera de reconhecimento, mas à espera que fiquem aqui para sempre e que, de qualquer forma, me deem a imortalidade que não consegui de outra maneira. E evitaram o Bang Bang.
Mas isso ainda não aconteceu. Ainda está para acontecer. E neste momento, estou com uma imperial nas mãos e alguns calamares à espera para serem comido por mim. E ali ao fundo, no mar, no mar onde a noite já começa a cair, está o amor da minha vida com quem irei fazer amor esta noite. A nossa última noite. Mas eu ainda não sei disso e, por isso, deixem-me ser feliz mais umas horas, se fazem favor.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/08]

Bang Bang, parte 02

[continuação de ontem]

Parámos o carro à saída da estrada, num carreiro que levava ao alto da colina. Eu levava uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço. Ela levava o revólver numa mochila que carregava às costas. Para todos os efeitos éramos turistas portugueses a apreciar as belas paisagens crepitantes da Andaluzia.
Vimos a casa ao longe. Caminhámos. Fotografei duas águias, que podiam ser milhafres. Fotografei umas árvores solitárias que pareciam mortas. Fotografei a casa. A casa era habitada. Parecia deserta, no momento. Mas era uma casa habitada. Não havia sinais de pessoas. Não havia sinais de cães. Aproximámo-nos da casa. Parecia não haver câmaras. Nem alarme. Mas podíamos não estar a ver bem.
Contornámos a casa e saltámos o muro do outro lado. Havia sinais de haver lá um cão, ou dois. Mas não o víamos. Havia uma piscina de plástico pequena. Daquelas mesmo para crianças. A água estava suja. Também havia um baloiço feito com um pneu de camião pendurado numa árvore.
Demos a volta à casa dentro do quintal à procura de um ponto de entrada. As janelas estavam fechadas. As portas das varandas também. Parti um pequeno vidro da porta das traseiras e abri-a. Parámos à entrada, à escuta. E não escutámos nada. Só a cantoria das cigarras na rua. Entrámos. Entrámos pela cozinha. Havia louça lavada, já seca, no escorredor do lava-louças. Olhámos em volta. Abrimos e fechámos gavetas e portas dos armários. Percorremos o corredor. Ao fundo uma sala. Televisão. Gira-discos. A capa de um álbum de Julio Iglesias sobre o gira-discos. Um recreio para bebé com alguns brinquedos em plástico. Olhámos em volta. Ela viu uma garrafa de Ballantine’s e colocou-a na mochila. Voltámos atrás, no corredor, e subimos ao primeiro andar. Entrámos no primeiro quarto. Quarto de casal. Abrimos as gavetas das mesas-de-cabeceiras, do tocador, de um pequeno móvel. Ela abriu a primeira gaveta de um pequeno móvel. A gaveta tinha roupa íntima de senhora. Cuecas de algodão. Alguma lingerie. Sutiãs. Encostado à lateral da gaveta, um envelope. Ela abriu o envelope e deu um pequeno grito. Um grito histérico. O meu coração quase que me saiu pela boca. Olhei para ela como se lhe perguntasse O que foi? e ela mostrou-me o envelope. Fui ter com ela. Agarrei no envelope. Abri-o. Estava cheio de notas. Contei-as rapidamente. Quarenta mil pesetas. Quem é que tinha quarenta mil pesetas guardadas em casa juntamente com as cuecas?
Pus o envelope no bolso das calças e disse-lhe Vamos embora.
Já nem vimos mais nada da casa.
Descemos ao rés-do-chão. Virámos para a cozinha. Ela agarrou em duas bananas e saímos para o quintal. Saltámos o muro, contornámos a casa e regressámos ao carro em passo de corrida, muito excitados com tudo aquilo, o termos entrado numa casa desconhecida e termos encontrado o envelope cheio de dinheiro.
Chegámos ao carro. Ela deu um berro de alegria e abraçou-me, enfiou a língua na minha orelha e disse Come-me agora aqui, foda-se! E eu afastei-a e disse Não! Temos de ir embora. Liguei o carro e voltámos à estrada.
Já estávamos na estrada quando ela disse Olha! e eu olhei e vi uma nuvem de pó a subir a estrada de macadame em direcção à casa. Gritei. Gritei alto. Bati com as mãos no volante de excitação. Libertei toda a adrenalina. Ela pulava no banco ao lado. Abria o envelope e dizia Estamos ricos! Estamos ricos!
Não, não estávamos ricos. Mas tínhamos algum dinheiro para os próximos tempos e podíamos pagar um quarto de hotel em Torremolinos. E sorri. Ela perguntou-me O que foi? e eu disse Vamos para Torremolinos.
Ela descascou uma banana e deu-ma a comer. Depois descascou a outra e comeu-a ela.
Fizemos o resto da estrada até Torremolinos com o rádio do carro em silêncio, só com o barulho do vento a entrar pelas janelas abertas do Peugeot. Fizemos algumas paragens em Estações de Serviço para ela mijar. Comemos uns bocadillos com lomo. Bebemos uns tintos de verano. Fumámos um maço de cigarros.
Quando chegámos a Torremolinos, ela disse Vamos dar um mergulho. E antes de ir arranjar um quarto de hotel, parámos o carro. Vestimos os fatos de banho. Ela entrou num quiosque para comprar uma cama de borracha e fomos para o mar que parecia um rio. Calmo. Suave. Simpático. E morno. Eu mergulhei. Ela deitou-se em cima da cama de borracha e deixou-se andar ao sabor das ondas. Eu mergulhava à volta dela.
Olhei para a praia e reparei nas pessoas que arrumavam as coisas para ir embora. Era fim de dia. Apontei o dedo, como uma pistola, e disparei sobre uma dessas pessoas, Bang Bang. Depois reparei na areia escura da praia e pensei Esta areia é de alfarroba?

[continua amanhã]

Bang Bang, parte 01

Naqueles dias, as coisas eram mesmo assim. Olhámos um para o outro e percebemos o que é que iríamos fazer sem precisar de o dizer. Eu estava sem trabalho. Ela ligou para o dela e disse Meto uma licença sem vencimento por… digamos, um ano. Desligou o telefone, riu-se e abraçou-me.
Saímos de casa nessa mesma noite.
Íamos de janelas abertas, cigarros ao canto da boca a ouvir uma mixtape com as músicas que tínhamos escolhido para a viagem. Naquele tempo não tinha problemas de visão. Conduzia bem durante a noite. As luzes dos outros carros não me faziam impressão. E não precisávamos de um quarto de hotel para passar a noite.
Parámos à borda da estrada, um pouco dentro de um pequeno bosque, com algumas árvores raquíticas, em nenhures, já na Andaluzia, em Espanha. O luar de uma Lua envergonhada e a ausência de som de carros a deslocarem-se por aqueles lados àquelas horas. Ela sentou-se em cima de mim, com o volante a forçar-lhe as costas e fizemos amor ali mesmo, assim, ela sentada em cima de mim e eu sentado ao volante da carrinha Peugeot que o meu pai me tinha dado. A carrinha era grande. Mais tarde haveríamos de dormir nas traseiras da carrinha onde, baixando o bando traseiro, conseguíamos dormir esticados. Mas naquela primeira noite dormimos nos bancos da frente, sentados, depois de eu me vir dentro dela.
Saí do carro para mijar. Ela também. Eu mijei contra a leve aragem que se tinha levantado, a tentar fugir dos pingos, ela abaixou-se e mijou junto à porta do carro a fazer-lhe de biombo. Mas não havia carros a passar.
Eu acendi um cigarro. Ela juntou-se a mim. Abraçamo-nos e olhámos as estrelas. Eu disse O Mediterrâneo é lá para baixo. Ela apertou-me e disse Quero mergulhar em Torremolinos.
Adormecemos sentados no carro. Acordámos da mesma maneira. Eu acordei. Acordei com o sol a bater-me nos olhos. Ainda era muito cedo. Ela ainda dormia. Arranquei com o carro em direcção à Costa del Sol. Queria levá-la a mergulhar em Torremolinos.
Quando ela acordou, já rodávamos no meio de uma planície desértica e muito quente. Ela tirou a camisola e ficou só com a parte de cima do biquíni. Chegou-se a mim, deu-me um beijo e disse Tenho fome. E preciso de lavar os dentes.
Acendeu um cigarro e passou-mo. Acendeu outro para ela. Ao fundo uma Estação de Serviço. Ao lado uma tasca. Parei. Saímos do carro. Ela foi à casa-de-banho. Pedi duas tostadas com tomate e dois americanos. Ela regressou e fui eu à casa-de-banho. Matámos a fome. Lavámos os dentes. Voltámos ao carro.
Ela perguntou Qual é a próxima paragem? e eu respondi-lhe Torremolinos, não? Ela sorriu um sorriso rasgado mas depois disse Temos pouco dinheiro.
Eu pensei. Devia ter pensado antes, voltei a pensar. E depois disse-lhe Fazemos um desvio.
Ao acabar de dizer o que disse, guinei o carro e saí da estrada principal que nos estava a levar até Torremolinos. Até lá havia muita casa perdida naquelas planícies e nas pequenas colinas que se avistavam ao longe.
E eu pensei que, até Torremolinos, podíamos encher a carteira. E disse-lhe Até Torremolinos, podemos encher a carteira. Ela sorriu para mim, aproximou-se, virou a minha cara para ela, com as suas mãos pequenas e suaves e deu-me um beijo de língua. Eu deixei de ver a estrada, mas não tive medo. Já estava no céu.
Ela depois abriu o porta-luvas e agarrou no revólver. Apontou-o para a frente dela, para o pára-brisas, para a estrada, e disse Bang Bang. E eu respondi My baby shoot me down. Ah! não, foda-se! e rimo-nos os dois que nem parvos. Depois parei o carro na berma da estrada e ela saltou para cima de mim. E fizemos amor ali mesmo, outra vez, à borda da estrada, perdidos algures nas planícies da Andaluzia, e ela com um revólver nas mãos, enquanto gritava o seu prazer ao vento que não se fazia sentir naquela terra seca e árida.
Depois voltámos à estrada e fomos andando até avistarmos, ao cimo de uma colina, uma casa solitária.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/09/06]

Saio Cada Vez Menos de Casa

Saio cada vez menos de casa. As pessoas andam radicalizadas. Sem paciência. Explodem por qualquer coisa. Refilam por tudo e por nada. Optam por posições extremadas. Estão sempre uns contra os outros. Já não aceitam que os outros também possam ter razão. Ou que há mais verdades para além da verdade de cada um. Eu também. Eu também expludo com facilidade. Não é um acaso. Os últimos capítulos da minha vida, encaminharam-me para aí. Acho que as coisas estão a ser feitas para isso. Estamos a ser canalizado. Alguém quer pôr o mundo a arder. Eu sei que isto parece mais uma teoria da conspiração, mas a verdade é que há cada vez mais lógica na ilógica de tudo isto. É por isso que fico cada vez mais por casa. Para não fazer merda. Para não me meter por caminhos de onde não consiga sair. Para não ter de me arrepender. Para não ter de me arrepender tarde demais.
Hoje saí.
Fui à Nazaré beber café. Acabei a beber duas imperiais porque estava calor e fiquei cheio de sede. Sentei-me numa esplanada. Numa esplanada onde não havia espaço para as distâncias de segurança. As pessoas estavam ao monte. Fui também para o monte. Sentei-me. Percebi que tinha de ir ao balcão buscar o que queria. Não havia serviço de mesas, o que não deixa de ser uma contradição nos dias que correm. Entrei no café e percebi que só havia uma pessoa a trabalhar. É essa pessoa que atende os pedidos. Que coloca os pedidos em pequenas bandejas. Recebe o pagamento. Mais tarde também percebi que era essa mesma pessoa que depois ia levantar a louça usada que se acumulava nas mesas da esplanada e disparava um spray, provavelmente desinfectante, sobre as mesas e passava, rápido, um pano sobre as mesas desinfectadas e depressa regressava ao interior para atender mais gente. Há gente a ser despedida nestes dias. Há gente em lay-off nestes dias. E há gente a fazer um trabalho de cão, muitas vezes pelo preço de um salário mínimo. Há muita gente a sofrer nestes dias. Mas também há muita gente a aproveitar estes tempos para encher os bolsos à custa dos outros. A riqueza é criada quase sempre à custa dos outros.
Acho que é ver este tipo de situações que me deixa da maneira que ando.
As pessoas estão egoístas. Gananciosas. Más. As pessoas são filhas-da-puta e se se apanham com um bocado de poder, por mais pequeno que seja, são filhas-da-puta em todo o seu esplendor.
Estava já na segunda imperial quando me apercebi de um burburinho no outro lado da esplanada. Várias pessoas estavam em pé a olhar para o alto. Para o cimo do prédio onde ficava o café. Para as varandas estendidas sobre a esplanada.
Também olhei. Mas não vi nada. Só gente agitada. Vi pessoas a sacudirem-se. O bruá das vozes em crescendo. Alguém erguia um punho fechado, ameaçador, lá para cima. Depois, aos poucos, apanhando uma conversa aqui e outra ali, lá percebi. Alguém lá de cima despejou lixívia sobre as pessoas na esplanada. Havia gente a tirar as camisolas. Miúdos a chorar. Mulheres a gritar. Homens indignados. Eu próprio acabei por ver camisolas com pintas descoloridas. E depois, ouvi a pessoa que estava a trabalhar sozinha, parada à entrada do café a dizer, Já não é a primeira vez.
Um homem, um homem forte, com tatuagens a cobrir os braços e uma barba enorme que saía para fora da máscara social, disse Aí não? e levantou a cadeira de madeira onde estava sentado, mandou-a contra o chão, partiu-a em vários pedaços, pôs-se a escolher um pedaço e acabou por se decidir por uma perna, comprida e forte, arrancou em direcção à entrada do prédio, deu um pontapé na porta de vidro que se estilhaçou em mil-e-um pedaços e desapareceu dentro do prédio.
Na esplanada, e à minha volta, caiu um manto de silêncio. Sentia-se a ansiedade a bater nos corações de muitas daquelas pessoas. Outras continuavam a conversar como se não fosse nada com elas. Eu queria ir-me embora. Regressar ao sossego de casa. Mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo queria saber como é que aquilo iria terminar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/05]

Desespero

Isto já se deu há muito tempo. Há mais de trinta anos. O pai de uma amigo, um amigo próximo, matou-se. Enfiou os canos de uma caçadeira na boca e disparou. Dizem, quem viu ou, pelo menos, quem ouviu dizer, que rebentou com a cabeça.
Na altura lembro-me de pensar Como é que um tipo se suicida com uma caçadeira? É que não deve ser fácil. Fisicamente, não é? Agarrar na arma. Naquela arma específica. Numa arma grande. Grande e comprida. E disparar o gatilho. Como é que se chega ao gatilho?
Lembro-me de ter recebido a notícia com alguma frieza. Talvez, desdém. Lembro-me de ficar condoído pelo meu amigo. Lembro-me de estar lá para ele. Não muito, na verdade. Acho que foi mais as palavras da praxe. Estou aqui, Se precisares de alguma coisa, Ânimo, esse tipo de frases feitas compradas numa coleccionável da D. Quixote para oferecer em alturas de Natal e Páscoa a pensar nos infortúnios anuais.
Os anos foram passando e passaram por entre mim e esse meu amigo e levou-nos para vidas diferentes e, provavelmente, longínquas. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Pode até já ter morrido, não sei. Sei que nada sei dele.
No entanto, de tempos a tempos recordo a morte do pai dele. Recordo a morte do pai, não pela morte do pai em si, mas pela minha indiferença à morte dele. Não sei se pelo suicídio, se pelo facto de ir embora e deixar cá o filho (mais uma filha e a mulher), se por outra razão qualquer que ainda não me tenha ocorrido. Mas ao longo dos anos tenho, quando me lembro desta história, ficado cada vez mais zangado comigo.
Desta vez chorei. Finamente chorei pelo meu amigo e, mais importante, pela morte do pai do meu amigo. Acho que este choro me libertou de alguma angústia aprisionada cá dentro por mais de trinta anos. Pelo menos foi o que me pareceu.
Finalmente percebi o desespero e a coragem que ele deve ter tido para fazer o que fez. Não é algo que se faça de ânimo leve. Não é algo que se decida fazer porque sim. Não é, como alguns querem fazer crer, uma saída fácil. E é preciso haver um enquadramento. Uma razão. Um motivo. E é preciso muita coragem. Uma coragem extrema.
Não vou falar sobre os motivos. Não os conheço. Nunca virei a conhecê-los, provavelmente. Quem se lembra da morte de alguém ao fim de tantos anos? Neste caso, talvez os órfãos e a viúva, se ainda forem vivos, e eu.
Hoje percebo que os motivos devem ter sido muito fortes. Só o peso de um drama sem saída empurra alguém para aquele desfecho. Alguém decidir deixar cá, sós, os filhos, a família, é porque o caminho das respostas está vedado – e está-o tantas vezes! bem mais do que nós sabemos, ou julgamos saber. Sim porque nós julgamos saber sempre da vida alheia e até temos a mania que sabemos as respostas e temos as soluções, como se elas viessem em saquetas de brinde nas caixas do Juá.
Mas posso falar sobre a coragem. Aquela coragem que muitos acham que é corbardia, medo, que é fuga. A coragem de decidir pôr um fim a tudo. E conseguir dar todos os passos. É que cada passo pesa toneladas. Cada passo tem o peso de uma vida. De várias vidas. Cada passo é uma ida sem regresso. Cada passo é mais um acelerador das batidas do coração. Cada passo é uma batalha entre todas as dúvidas e certezas que uma pessoa tem. E então imagino aquele homem, homem ainda novo, mais novo do que eu sou hoje, com filhos pequenos, a pegar numa arma, a carregar essa arma, a apontar essa arma a si próprio, lutar contra todas as conversas que lhe hão-de estar a consumir a cabeça, a dizer para o fazer, a dizer para não o fazer, manter a força da mão, do braço, do braço que suporta essa arma, pensar em tudo o que vai perder, pensar que tudo vai acabar, pensar que já não vai mais haver aniversários, nem Natal, nem cabrito assado, nem jogos do Benfica, nem netos, nem beijos, nem amor, nada, nada, nada, não vai haver mesmo mais nada e ainda assim ter força suficiente para mexer o dedo que está sobre o gatilho e disparar e, naquela fracção de fracção, naqueles nano-segundos entre o disparar o gatilho e o cartucho, a bala, sair disparado, disparada, pelo cano até atingir o alvo, pensar num possível arrependimento e saber que já é tarde, tarde demais, e depois já não é mais nada, nem o vazio, é apenas só uma ausência, o mundo acaba, desfaz-se, desaparece, e só continua para quem fica por cá, às vezes em que condições.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/04]

À Procura de um Sentido

Não preguei olho toda a noite. Vi as horas passarem por mim e eu acordado. Não costumo ter insónias. No geral durmo bem. Durmo profundamente. Nem sonho. Não perco tempo a sonhar. Durmo um sono descansado nos tempos que tenho marcados para dormir. Não esta noite. Não sei o que aconteceu. Talvez a caneca de café da avó que bebi às dez da noite. Talvez o papo-seco com uma fatia de queijo flamengo que comi a acompanhar o café. Talvez os cinco cigarros que fumei depois do café.
Talvez seja uma coisa da idade.
Deitei-me era meia-noite. À uma voltei a acender a luz da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Fiquei ali sentado a olhar para a parede em frente. Uma parece vazia. Pintada de branco-ovo. Sem quadro. Sem móvel. Sem janela. Um pedaço vazio de parede. Estava completamente desperto. Com a sensação de ter os olhos muito abertos. Esbugalhados. Estava assim desde que me tinha deitado. Fiquei assim a tentar que a escuridão da noite, do quarto, da cama, os fizesse fechar.
Levantei-me à uma da manhã e fiquei ali sentado na cama a pensar o que fazer para me entreter, fazer passar o tempo e chamar o sono.
Enquanto pensava, as horas passavam. Uma. Duas. Três. E eu continuava ali sentado na cama, muito direito sentado na cama, sem me decidir em agarrar o iPad, ligar a rádio, a televisão ou pegar num livro da pilha que todos os dias aumenta na mesa-de-cabeceira sem que eu lhe dê andamento. Quatro. Cinco. Seis. E começou a doer-me as costas. O rabo. A cabeça. Tomei um Ben-U-Ron. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Sentia-me cambalear. Estava cansado. Precisava de dormir. Sentei-me na sanita e esqueci-me do que tinha lá ido fazer. Lavei os dentes, mas perguntei-me se não os tinha lavado antes de me deitar.
Dei duas voltas à casa a confirmar que tinha as janelas todas fechadas.
Sentei-me na cozinha a fumar um cigarro. Soube-me mal e acabei por só dar duas passas. Pensei em lavar os dentes outra vez. Não o fiz. Voltei para a cama. Eram sete da manhã. Apaguei a luz e deitei-me no escuro possível com a luz do dia a tentar furar por todo o lado.
Eram oito da manhã e acordei com o telemóvel a tocar. Era a minha mãe. Atendi. Estás bem? perguntou-me ela. Estás bem? Estava melhor quando estava a dormir, respondi.
E ela disse Estavas aqui comigo mas não falavas. Tinhas uma coisa nas mãos que não percebi o que era. Tinhas um olhar triste. Eu falava para ti e não me respondias. Estás bem? Sim, mãe, estou bem! Eu falava para ti e tu nem olhavas para mim e depois viraste costas e foste-te embora. Eu ainda corri atrás de ti mas deixei de te ver.
Eu tive uma visão da minha mãe a correr e sorri. E garanti-lhe Estou bem, mãe. Estou mesmo bem. Deve ter sido um sonho. Não, não era. Eu vi-te. E falei contigo. Estás mesmo bem? Sim, mãe. Fica descansada.
Ela desligou o telemóvel. Mas não estava completamente convencida. Eu disse-lhe para passaria em casa dela mais tarde. Eram oito e dez e eu tinha de me levantar.
Sentia-me cansado.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/03]