O Meu Primeiro Dia de Liberdade

Preciso de beber. Preciso de me embebedar. Preciso de me embebedar ao balcão de um bar.
Estou farto de livros de filmes de séries, estou farto de notícias e das frases bonitas com que os jornalistas da SIC se despendem todas as noites, estou farto que utilizem o Mário Viegas como se fosse o Cristiano Ronaldo (vão buscar o Cristiano Ronaldo, caralho!), estou farto das estatísticas e dos gráficos e dos números da DGS que esqueço assim que os ouço, estou farto de me aturar, de me ouvir cuspir palavras amargas todos os dias, farto de me ver engordar dia após dia no espelho da casa-de-banho, já não vejo a pila, as calças de ganga não me servem, tenho os cabelos compridos como um headbanger num concerto dos Judas Priest e a barba mal cortada e cheia de peladas, e os pêlos do nariz e das orelhas parecem bigodes, e estou farto desta solidão triste e melancólica que me arrasta através dos chinelos rotos que não tiro dos pés vai para mais de um mês.
No dia primeiro da minha liberdade vou sair de casa. Abrir a porta da rua e dar um passo, pousar o pé do lado de fora da porta. Depois de tomar um banho quente e lavar o cabelo com champô anti-caspa, vestir uma roupa casual e uns ténis porque os meus pés não aguentarão mais que isso, irei sair de casa e caminhar os mil novecentos e sessenta e seis passos que me separam deste meu quarto andar em prédio citadino ao snack-bar que fica um pouco mais acima na mesma rua e que eu frequentava diariamente antes de me fechar em casa para sobreviver à peste e que irei voltar a frequentar porque sou um gajo de rotinas. Irei caminhar todos esses passos durante os quais irei fumar um cigarro ao longo da rua, enquanto relembro o cheiro a monóxido de carbono das viaturas que irão recuperar as artérias da cidade e irei entrar no snack-bar onde já me conhecem de anos e irei sentar-me ao balcão sujo onde irei colocar um cotovelo enquanto pedirei ao empregado um copo de bagaço que irei despejar de um gole, assim como o segundo e o terceiro, e irei pedir um quarto que irei beber devagar para não vomitar logo tudo, e irei pedir um pires de tremoços e ele irá dizer que é só para acompanhar as imperiais e eu irei então pedir uma imperial para poder trincar os tremoços, e trincarei os tremoços e beberei a imperial no intervalo dos bagaços e irei lamentar-me que não hajam pevides, e ao meu lado irá lá estar a mesma puta de todos os dias, a mesma puta que está sempre sentada no mesmo banco ao balcão desde o princípio dos tempos do snack-bar e ela irá cravar-me um cigarro e eu irei dizer que lhe darei um cigarro se foder comigo na casa-de-banho, dir-lhe-ei que estou necessitado sem um pingo de carinho há muitas semanas, e ela irá anuir sem falar e iremos para a casa-de-banho foder sem preservativo, quem é que irá pensar em preservativos nessa altura?, e será uma coisa assim tão rápida e desenxabida que nem vou perceber que acabei de dar a primeira foda depois da quarentena, e irei regressar ao balcão, beber um quinto bagaço, pagar outro à mulher que está sempre no mesmo banco ao balcão e que me acompanhou à casa-de-banho, e oferecer-lhe-ei um cigarro, irei fumar um com ela e o empregado do snack-bar irá refilar connosco como refila sempre, mas eu irei cagar para o que o empregado irá dizer e depois do sétimo bagaço, irei virar-me para a mulher que está lá sentada desde sempre no mesmo banco e irei vomitar-lhe no colo, irei vomitar tudo o que tenho acumulado dentro de mim até sair a bílis verde quando já não houver mais nada para sair e o empregado irá agarrar em mim e levar-me-á de rojo pelo snack-bar fora até me lançar para a rua, e irei cair no passeio de calçada portuguesa e irei bater com o queixo no chão, abrir um lenho e partir dois dentes e deixar-me lá estar caído até que a mulher vomitada irá lá ter comigo e ajudar-me-á a levantar e será o meu apoio para fazer os mil novecentos e sessenta e seis passos de regresso a casa, durante os quais voltarei a cair e numa dessas quedas quebrar a cabeça, e o sangue irá escorrer-me pela face e a mulher irá dizer que será melhor ir ao hospital e eu dir-lhe-ei, com um sorriso na cara, Estamos livres, mulher! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/09]

A Última Super Lua

Escureceu. A noite caiu antes de tempo. O dia estava farto e abalou. Amanhã há mais, disse.
Mas o amanhã não chegou a chegar. Ficámos todos pela noite, mesmo. Era uma noite de super Lua. Estão em promoção. Quase todos os meses há uma super Lua. Ficam muito em conta. Mas desta vez correu mal.
Fartos de estarem em casa uns com os outros, a comerem que nem umas bestas, a aturarem-se mutuamente, a aguentarem as birras dos filhos, a lutarem pela posse do comando da televisão, a guerrearem-se para ver quem levava o cão e o gato a passear pelas ruas da cidade deserta, fartos das filas civilizadas e silenciosas como velórios para entrar nos supermercados, onde alguns compravam só uma coisa de cada vez para terem a desculpa de estarem sempre a voltar, de manhã, à tarde e não já à noite porque agora os supermercados estão fechados à noite e assim até poupam nas horas extras, as pessoas aproveitaram esta super Lua, a primeira da quarentena (acho que havia já outra para o mês que vêm), para saírem todos em romaria a cantar canções de embalar e gritar juras de amor em altos berros e mau hálito por perca dos rituais normais de higiene e limpeza pessoal.
Saíram de casa em fatos-de-treino com garrafas de vinho e licores, bebidas brancas e cerveja, charros, coca e mdma e tudo o mais que fosse festivo, e martelos de São João e manjericos de Santo António, realejos e harmónicas, adufes e guitarras e fizeram um enorme happening.
Juntaram-se todos debaixo da super Lua não muito grande mas branca, branca e luminosa como um sol nocturno, como gatos com o cio, abraçaram-se numa enorme corrente humana a cantar o We Are the World e a chorar e acabaram a pegar-se uns-aos-outros o coronavírus que gosta destas correntes humanas de solidariedade dos corpos para se transmitir em alegre passeata.
Não foi preciso muito tempo. Nem as máscaras, nem luvas, nem álcool-gel os salvaria do destino a que se propuseram ao participarem no evento. Não seriam necessários, como não foram, os ventiladores. Tudo seria já tarde demais. E só não foi tarde porque já não havia ninguém para o dizer. Ninguém pôde afirmar É tarde! Nem eu.
Começou primeiro a falta de ar. As gargantas apertaram-se. O ar deixou de chegar aos pulmões e ser irrigado para o resto do corpo. De repente toda a gente sofria de asma. Sofria mesmo. Quem já estava habituado, como eu, já não ligava muito. Já estavam preparados. A preparação de uma vida. E então, começaram a cair. A cair que nem tordos. Toda a gente acabou por morrer. Até eu.
Esta história? Uma simples liberdade artística privilégio dos dotados. Mesmo morto continuo a criar.
Quando o dia regressou, não regressou para ninguém. Nem para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/08]

O Poço

Há lá fora, no quintal, um poço que está tapado por uma tampa redonda de madeira forte e pesada mas que eu conseguiria abrir se se desse o caso de o querer abrir. Às vezes tenho vontade de lá colocar a cabeça para arrefecer, esquecer ou a fazer adormecer.
Estes tempos não têm sido propícios às minhas divagações mentais. Ponho-me a pensar no que a vida nos está a fazer e, quando dou por mim, estou no quintal a caminho do poço. Sento-me sobre a tampa, cruzo as pernas e acendo um cigarro. Às vezes penso que queria que a tampa cedesse ao meu peso.
Nestes últimos dias em que o tempo tem andado numa roda-viva, de manhã Verão e à tarde Inverno, sem que nunca, em momento algum, haja um cheirinho, por suave que seja, a uma pequena Primavera ou um pequeno Outono, os saltos são assim de gigante como se jogasse à Mamã Dá Licença? com o universo, sinto a asma ganhar dimensão dentro de mim, o corpo verga-se ao peso da respiração pesada e forçada, só estou bem em pé, e conto os minutos até conseguir voltar a fumar um cigarro e limpar a cabeça.
Em dias como os de hoje sinto crescer uma certa melancolia que, nestes últimos tempos me faz vir até ao poço. Tem piada que o poço já cá estava quando para cá vim morar, já estava tapado, até tinha uns vasos com plantas lá por cima, mas eu nunca lhe liguei nenhuma.
Surgiu assim, como num estalar de dedos, estava eu no sofá a ver a contabilização do número de mortos no mundo por causa do Covid-19, quando vi projectado na minha cabeça a imagem do poço e senti formar-se em mim a consciencialização do poço, um poço fundo, não sabia de quantos metros de profundidade, nem se tinha água ou não e se a água era boa para beber. Senti-me atraído pelo poço. Foi essa a primeira vez que fui ao poço. Levantei-me do sofá. Deixei a televisão ligada. Saí de casa. Estava aquele lusco-fusco cinzentão e já tinha chovido durante a tarde. Fui até ao poço. Olhei-o. Senti-o a olhar para mim. Senti-o a convidar-me para me sentar lá em cima, em cima dele. E eu sentei-me. Sentei-me em cima dele. Senti logo o rabo molhado que a tampa do poço estava ainda molhada da chuva da tarde. Cruzei as pernas. Respirei fundo. Depois acendi um cigarro e fiquei ali, em cima do poço a fumar o cigarro.
Enquanto fumava o cigarro pensava que o poço era um portal, uma porta dimensional, que bastava eu deixar-me cair lá dentro e viajava para o passado, viajava para o futuro, viajava para o outro lado do mundo, entrava numa outra dimensão em que havia mais cores do que alguma vez tinha imaginado. E quando acabava o cigarro, como que despertava de um sonho e regressava à minha vida de todos os dias, uma vida tridimensional, cheia de dramas, problemas e, agora, também morte.
Ultimamente tenho-me sentido impelido muitas vezes a ir sentar-me em cima da tampa do poço. Sinto-me convidado a fumar um cigarro. E parece-me que estou a ser levado pela atracção do fundo do poço. Não são poucas as vezes em que imagino cair lá dentro. E vejo-me nessa queda bizarra, em que as paredes do poço passam por mim em câmara lenta e como se fossem um filme preto como o da Marguerite Duras ou colorido como a queda de Alice pelo Walt Disney, mas sem nunca chegar ao fundo.
Agora, neste momento, vim até ao poço para me sentar em cima da tampa e fumar um cigarro e descobri que já retirei a tampa. Não me lembro de o ter feito, mas fi-lo. Descobri uma farpa num dedo e não consigo tirá-la. Olho para o fundo do poço. Meto a cabeça lá dentro e olho. Não vejo nada. Acendo um cigarro. Encosto-me à beira do poço. E volto a meter a cabeça. Olho lá para dentro e desejo que o poço me adormeça.
Sinto-me fascinado e, ao mesmo tempo, um pouco melancólico.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/07]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

A Árvore em Chamas

O cão devia estar na casota. Eu não o via, mas ele devia lá estar. Metido para o fundo. Com o que estava a chover, os salpicos que batiam na laje frente à entrada da casota disparavam para todos os lados. O cão devia estar dentro da casota bem metido lá para o fundo para fugir à chuva.
Eu via a casota da janela do quarto. Tinha ido fechar a janela porque a água da chuva estava a entrar dentro do quarto. Tive de andar com uma esfregona a limpar o chão. O soalho é flutuante. Esperava que a madeira não enfolasse com a água da chuva.
Foi quando andava a limpar a água da chuva do chão do quarto que vi a casota e pensei no cão. Ainda não lhe tinha dado comida nenhuma. Mas também não ia sair com aquele tempo.
Os gatos nem os via. Mas esses, às vezes, andam por aí a passear debaixo de chuva. Às vezes vão brincar com o gato da vizinha. Mas mal ouvem a porta da cozinha a abrir, há sempre um, pelo menos, a vir a correr para o alpendre e roçar-se nas minhas pernas.
O cão não o via mas devia estar lá dentro, bem fundo na casota. Se continuasse a chover não ia comer. Ele não ia sair lá de dentro e eu não ia colocar comida que ia ficar toda molhada. Não, ele não ia comer.
Depois de ter arrumado a esfregona, olhei em volta, em volta de mim, em volta de mim dentro de casa a pensar que raio iria fazer sem me apetecer fazer nada com o tempo chuvoso que estava; pensei em acender a lareira mas não estava frio nem eu tinha lenha para queimar; pensei comer um bolo daqueles estúpidos de pão-de-ló e iogurte que a minha mãe costumava fazer e lhe chamava o Bolo das Cerimónias mas a minha mãe já não estava ali para fazer o bolo e eu não sabia fazer bolos, na verdade nem gostava de bolos, estranhamente estava a apetecer-me uma fatia, e quem dizia uma fatia podia dizer duas ou três fatias de bolo e ficar ali em pé, no meio da cozinha a olhar para a chuva a cair lá fora na rua, dali não via a casota do cão, e pensava se este meu desejo por qualquer coisa doce não denotava alguma carência, nomeadamente afectiva já que me encontrava recluso em casa ia já para uma série de semanas, semanas essas sem contactos com quase ninguém e fisicamente com ninguém mesmo até que resolvi ir até à casa do vizinho pedir uma garrafa de vinho, ou talvez duas ou três.
O vizinho era na verdade uma vizinha, uma vizinha com quem já tinha tido um pequeno caso amoroso, bom, na verdade mais sexual que amoroso, que terminara mal e por isso já não nos falávamos. Mas precisava de um doce e, à falta de melhor, olhar para a cara da minha vizinha, mesmo que a dois ou três metros de distância, e quem diz cara diz o resto do corpo, era bastante tentador.
Peguei no chapéu de chuva e saí de casa. Ainda não tinha descido as escadas do alpendre quando apareceu um dos gatos a miar e a circular entre as minhas pernas. Já venho, pá! disse-lhe e o gato até pareceu ter entendido e sentou-se no chão do alpendre a ver-me descer as escadas.
Foi nessa altura que começou a chover mais ainda, uma chuva violenta, torrencial. Começou a trovejar. Vi uns relâmpagos a riscarem o céu para os lados das montanhas.
E, depois, ainda não tinha chegado ao portão de saída quando um raio caiu sobre uma das laranjeiras do quintal que, como uma acendalha, desatou em fogo imediato.
Fiquei parado a olhar a árvore a arder. Precisei de alguns segundos para perceber o que tinha acontecido. Estava fascinado. Nunca tinha visto nada assim. Voltei para trás. Voltei para o alpendre. Larguei o chapéu. Os gatos apareceram todos de todo o lado e ficaram a olhar para a árvore a arder. O cão não apareceu. Acendi um cigarro. Encostei-me à ombreira da porta da cozinha a olhar, com um certo prazer, para a laranjeira a arder. E pensei para comigo É melhor não ir a casa dela. É melhor ficar por aqui. E enquanto via o incêndio, perguntava-me se ainda me restava um bocadinho de gin. Ou de vodka.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/05]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

O Homem Invisível

Estou há três semanas sem trabalho.
Estou há três semanas sem receber salário.
Não tenho um emprego certo. Horário normal. Salário ao final do mês.
Vivo de expedientes. Vivia.
Agora estou em casa há três semanas sem ganhar dinheiro e a gastar o pouco que tenho. Que tinha. O pouco que tinha e já não tenho.
Não há apoios para gente como eu.
Somos invisíveis.
Fazemos o que mais ninguém faz. O que mais ninguém quer fazer. Agora já não fazemos.
Estou em casa há três semanas. Saí três vezes para comprar algumas coisas para comer. Agora já não tenho mais nada para comer. Agora já não tenho dinheiro para comprar mais nada.
A última vez que comi, foi um resto de pão duro a rapar o óleo de uma lata de sardinhas. Tenho bebido água. Água não me falta. Pelo menos até me cortarem a água. Ouvi dizer que a água não iria ser cortada por falta de pagamento nos próximos três meses.
Estou há três semanas confinado a este T0 com kitchenette. Uma janela para a rua onde agora não passa ninguém. Olho pela janela e só há o vazio da rua. No prédio em frente, prédio de T0s e T1s como o meu, há muita gente igual a mim. Gente que vive de expedientes. Que faz biscates. Gente que ninguém vê. Só o trabalho que aparece feito. As pessoas só vêm o trabalho feito e nem se perguntam quem o fez.
Estou há três semanas fechado em casa. Fui três vezes à rua. Passo os dias e as noites a olhar para estas quatro paredes. Paredes branco-sujo. Tenho um poster da Playboy numa das paredes. Já estou farto de o olhar. Já conheço cada curva da miúda. Ia à janela fumar um cigarro e olhar para caras iguais à minha que iam à janela delas fumar um cigarro como eu, olhar a minha cara e pensar como a minha cara é tão parecida com a deles. Caras de gente sem futuro. Já não tenho cigarros. Já não quero ver mais as caras iguais à minha. Já não aguento olhar para o poster da coelhinha. Não tenho televisão. Não tenho computador. Tenho telemóvel. Há uma semana que estou sem internet no telemóvel.
Estou há três semanas aqui por casa e, nos últimos dias tenho passado o tempo a jogar uma espécie de Tetris que não é bem Tetris, é um puzzle para encaixar peças parecidas com as do Tetris. Já achatei os polegares de tanto carregar no ecrã. Já me zanguei com o jogo. Já mandei com o telemóvel contra a parede. Não partiu.
Estou sentado em cima da cama. Há três semanas que saio da cama para ir até à janela e regresso. Já não sei mais o que fazer. Estou aqui fechado há três semanas. Sem trabalho. Sem dinheiro. Agora sem comer. Quanto tempo posso aguentar sem comer? Estou cansado de estar em casa. De não ver ninguém. De não ouvir ninguém. Precisava de um cigarro. De um pão com manteiga. De um copo de vinho. De um toque de uma mão que não a minha.
Tenho de sair. Tenho de ir à rua. O vírus de se foda. Tenho de trabalhar. Trabalhar numa coisa qualquer. Preciso de um salário. Preciso de dinheiro. Preciso de matar esta fome que começa a minar-me para continuar esta minha vida miserável. Uma vida invisível. Ninguém me vê. Mas estou aqui. Sou invisível mas estou aqui, porra!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/03]