Eu Sou um Artista

Eu sou um artista.

Eu sou um artista com uma enorme necessidade de criar. Não crio para ser o melhor nem o maior artista do mundo. Eu crio porque sinto necessidade. Não é para afagar o ego. Não é para as palminhas nas costas. Não é para sentir as mãos alheias a passarem-me pelo pêlo. Eu crio porque preciso de criar da mesma forma que preciso de respirar.
Eu conto estórias. Sou um contador de estórias.
Desenho. Pinto. Escrevo. Realizo. Fotografo. Estórias.
Desenho estórias. Pinto estórias. Escrevo estórias. Realizo estórias. Fotografo estórias. Este é o meu contributo, o contributo da minha arte para o mundo, as minhas estórias nas suas mais diversas formas.
Eu sou um artista.
Não faço arte para agradar a terceiros. Faço arte para mim. Faço arte para me satisfazer a mim. Claro que gosto que me apreciem, me vejam, me leiam, me saboreiem, gosto que entrem no meu mundo e o devorem. Mas não é esse o meu interesse último. Não é o meu interesse último ser adorado pela multidão. A multidão dá-me medo.
Produzo alguma arte que é efémera. Arte que morre ao nascer. Que desaparece ao ver a luz. Arte que só existe na criação e pelo momento de criação. Que deixa de ser quando cumpre a sua função.
Também produzo arte para ficar e ser apreciada quando for apreciada. Quando passarem de moda as modas. Quando não houver medo nem fraqueza para apreciar o arroto, o choro, o berro, a ejaculação.
A minha arte não precisa de ser filha do seu tempo e medida pela medida desse tempo. A minha arte não é devedora dos corredores do poder. Não precisa de obedecer às mesmas regras nem às mesmas leis que a minha vida. Mas não é uma arte ignorante. A minha arte não é de natureza espontânea. Mas é repentista. Há estudo. Conhecimento. Procura.
Gosto de consumir arte. De procurar arte. Arte que me satisfaça. Não me contento com o que me querem dar. Não me contento com o que me querem oferecer. Não me contento com o que me querem impingir. Não me contento com arte normalizada, certinha, bonitinha, escanhoada. Embrulhada em papel colorido cheio de purpurinas e odores hipnotizantes. Eu procuro a arte que me provoca, que me magoa, que me incomoda, que me irrita, que me faz gritar e desejar morrer. Eu procuro arte que me dê vertigem e me faça vomitar.
Eu sou um artista. Um artista que gosta de arte. De arte suja, imperfeita, inacabada, triste, maldita, gorda, seca, desdentada e esfomeada, bêbada, afilhada, malcastrada, mas cheia de tesão para entrar por nós dentro e nos fazer tremer as pernas como o primeiro beijo, a primeira noite, a primeira vez.
Corro sozinho, mas corro pelos caminhos que quero. Não sou obediente. Não lambo-cus. Escrevo o que me apraz, sem rede, mal escrito, mal digerido, mas furioso, rápido, urgente. Capaz.
Sou um artista que não troca a sua arte por uma montra. Sou um artista descalço. Descamisado. Esquecido. Ignorado, mas não ignorante. Sou um artista faminto que prefere a rua ao ar condicionado. Sem trela nem açaime. Sou um artista que morde. Que rasga. Sou um artista que incomoda. Que chateia.
Eu sou um artista e sou indomável. Não cabo em salões nem em festivais. Cuspo na ordem e no respeitinho.
Eu sou um artista. Um artista que corre livre como um cavalo sem freio num campo de girassóis.
Eu sou um artista, e um tolo, também. Mas sou um artista. Sem cheta, mas um artista.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/03]

Acordar com o Cão a Ladrar

Acordei com ela a abanar-me. Estava a dormir e fui acordado com os abanões que ela me dava. E dizia Acorda! Acorda! O cão está a ladrar. Anda aí gente.
E eu despertei. Levantei-me rápido da cama e mantive-me assim por momentos, quieto e em silêncio, a tentar filtrar o som da rua de todos os ruídos da casa. Ouvia realmente o cão a ladrar. Aquele ladrar quando quer chamar a atenção para algo que não devia estar onde está.
Tentei apurar melhor a audição. Ouvir para além do ladrar do cão. Ouvi algumas lajes a ceder a peso. Mas podiam ser os gatos. Podia mesmo ser o cão. Talvez algum sardão. Ou um coelho. Nesta altura há muitos coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal.
Fiquei mais um pouco à escuta. Depois ouvi o que me pareceu o corpo de uma pessoa a estalar. Como quando nos espreguiçamos e esticamos o corpo e os ossos cedem e estalam e parece que nos estamos a partir. Era o que me parecia.
Levantei-me da cama. Estava nu. Estou sempre nu. Mas, se realmente andava por ali alguém, era melhor não ir nu. Vesti os boxers que estavam caídos na poltrona. Saí do quarto. Fiz o corredor até à cozinha. Fui à despensa e agarrei num cabo de vassoura, sem vassoura, que guardei para um momento como este. Cheguei-me às janelas da cozinha e olhei lá para fora. Não via nada de anormal. Estava escuro. O luar iluminava um pouco. Dava para ver alguma coisa, mas não dava para ver muito. O quintal tinha muitas zonas na penumbra. A penumbra podia esconder muita coisa. Pessoas.
O cão continuava a ladrar. Mas não via o cão. Não via ninguém.
Ela chegou à cozinha. Colocou a mão sobre o meu corpo nu e senti um calafrio. Ela perguntou Então?
E eu olhei para ela. Olhei para ela e percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. E disse Espera aí! Eu vivo sozinho.
Despertei. Despertei na cama. Despertei a ouvir o cão a ladrar. Levantei-me e sentei-me. Olhei para o outro lado da cama e estava vazio. Fiquei ali quieto e em silêncio a ouvir o cão a ladrar. A tentar ouvir para além do cão a ladrar. Devia andar por lá gente. Ou algum animal.
Ouvi as lajes a cederem ao peso de alguma coisa. Mas podiam ser os gatos. Ou até mesmo o cão. Se calhar algum sardão. Talvez um coelho selvagem que eles andam agora por aí que nem doidos.
Apurei a audição. Tentei esquecer o ladrar do cão. Pareceu-me ouvir o corpo de uma pessoa a espreguiçar-se.
Levantei-me da cama. Estava nu e descalço. Vesti os boxers. Fiz o corredor às escuras até à cozinha. Fui à despensa buscar o cabo de uma vassoura e cheguei-me a uma das janelas. Olhei lá para fora. Nada. Havia um pouco de luar, não muito forte, mas o suficiente para ver o exterior. Nada. Fui para a outra janela. O mesmo. Havia zonas na penumbra que não conseguia ver. Tentei aguçar o olhar. Mas continuava igual. Não via nada. Nem via o cão que continuava a ladrar. Nem via os gatos. Onde é que andariam os gatos? Fui à última janela. A piscina estava vazia. O pouco luar permitia-me ver a água da piscina a ondular com a pequena aragem que se fazia sentir. Mas não estava ninguém na piscina nem à volta dela.
E então lembrei-me Eu não tenho piscina! Foda-se! Eu não tenho piscina!
Despertei. Despertei na cama. Despertei com o cabrão do cão a ladrar lá fora, no quintal.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/02]

Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

O Nojo

Para ir de braço no ar não precisa de ir de braço no ar. O braço no ar é uma figura de estilo. Não precisa de estar representada fisicamente por um braço levantado no ar. Pode-se decepar o braço e ele continua levantado, na linguagem, na ideia, no discurso.
Eu via o tipo a descer a avenida e via-o de braço no ar. Ele não estava efectivamente de braço no ar, não como eles, os que levantam o braço no ar, costumam levantar, mas estava, figurativamente, de braço no ar.
Na mentira. No cálculo. Na raiva. No ódio. Aquele ódio que saía em espuma no discurso cuspido.
Estava a ver as imagens na televisão quando senti qualquer coisa a mexer pelo canto do olho, no canto do enquadramento. Virei para lá a cara, os olhos. Agucei a visão. Desfocado. Coloquei os óculos. Pior. São para ver ao perto. Levantei-me da cadeira, desci as escadas do alpendre e desci ao quintal. Fui até onde me pareceu ver qualquer coisa a mexer. E estava qualquer coisa a mexer. Um comboio de coisas a mexer. Aproximei-me e vi-as. Umas a seguir às outras. A cabeça de uma no rabo da outra. As processionárias. Que raio estavam ali a fazer? Ainda não era a época delas. Mas estavam ali. Tinham descido do pinheiro e faziam comboio, sei lá para onde. Tinha de as matar antes que o cão ou os gatos as vissem. São tóxicas. Fazem-lhes mal.
Voltei a casa para ir buscar álcool e lume.
Ao passar pelo alpendre ouvi a voz do repórter e a manifestação de uma coisa que era outra. Lembrei-me do braço no ar que não estava no ar.
As pessoas do braço no ar não têm nada a propor. Só a força. As pessoas de braço no ar contestam as outras. São contestatárias. Mas não têm nada de novo ou interessante para dizer, para propor e que sirva a todos, a todos sem excepção. São cortadores sociais. Fora estes e aqueles e aqueloutros. Contra. Contra. Contra. Contra negros. Contra chineses. Contra comunistas. Contra a esquerda. Contra emigrantes. Contra ciganos. Contra homossexuais. Contra os diferentes. Contra.
Agarrei numa garrafinha de álcool e numa caixa de fósforos.
Voltei para o quintal, para as lagartas do pinheiro.
Eles pregam a moralidade. A moralidade dos outros, não a deles. A corrupção dos outros, não a deles.
O que mais se percebe do que vou ouvindo da televisão é o ódio. O ódio a tudo o que não são eles. O ódio a tudo o que é diferente.
Aproximo-me das processionárias. Esguicho o frasco de álcool sobre elas. Depois acendo o fósforo e lanço-o, em chamas, sobre elas, sobre o álcool e vejo a chama a formar-se rápida e vejo as processionárias a arder e esguicho mais álcool para elas se queimarem, queimarem todas e ficarem petrificadas.
O cão aparece ao fundo do quintal e enxoto-o. Bato as palmas e digo Xô! Xô! Põe-te a andar! e ele vai embora.
Eu vou à arrecadação buscar uma pá e uma vassoura e apanho os restos queimados das processionárias. Despejo a pá num saco de plástico e fecho o saco com um nó. Depois desço a alameda, saio o portão da rua e vou pela estrada fora até à ilha dos caixotes de lixo e largo o saco no caixote do rsu.
Regresso. E penso na manifestação.
A malta que está sentada no café a refilar não tem nada a propor. Só o ódio. O ódio e a contestação.
A manifestação é uma demonstração de força da pobreza de espírito, do vazio, do nada. Ali não há nada a discutir. Não há nada a propor. Há ódio e a supremacia do músculo.
Cheguei ao alpendre e os gatos já andavam outra vez por lá. Um deles sentou-se na minha cadeira. Mandei-o sair Vá, sai daí!, mas ele não saiu. Tive de o tirar à mão e coloquei-o no chão. Ele miou, a refilar.
Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro. Já não se falava na manifestação. Então fazia-se a actualização dos números do Covid-19. E não podiam ter-se infectado todos enquanto iam todos de braço no ar sem levar efectivamente o braço no ar?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/28]

Crianças Birrentas

O velho andava lá no carreiro com a serra eléctrica a cortar os ramos das árvores e a desbastar o mato do terreno. Ele tinha lá umas oliveiras que davam umas azeitonas muito azedas, mas todos os anos as ia lá apanhar. Às vezes dava-me algumas. Azedas. Nem na sopa as conseguia comer.
Chegava a esta altura e punha-se a desbastar o terreno para evitar as cobras e fazer uma pequena limpeza.
Mas as aparas da árvores do outro lado do muro, mandava-as de volta para lá. Cortava os ramos das árvores que passavam o muro para o lado dele e depois mandava o que cortava para o outro lado. Devolvia à procedência.
Eu estava em pé no alpendre a fumar um cigarro e a apreciar. Sentado não conseguia ver o homem a desbastar o terreno. E já imaginava o que lá vinha. O vizinho, o sujeito do outro lado do muro, que até é cunhado do velho, há-de mandar as braças de volta cá para este lado. Eles não se dão bem e estão sempre em guerra um com o outro. Mas o velho é mesmo o diabo em pessoa.
O ano passado, resolveu queimar os ramos das árvores podadas numa enorme fogueira numa altura em que as fogueiras estavam proibidas. Mas ele é daqueles que acha que sabe e só faz o que acha que deve fazer e a ele ninguém dá ordens. Do piorio. A guarda foi lá ao terreno e levou-o preso. Esteve dois dias numa cela. Para aclarar as ideias, disseram os guardas. Mas não serviu de nada. O velho é teimoso como o diabo.
Há uns anos, o muro que separa os dois terrenos caiu ali numa zona mais acima e tombou para o lado de cá. O velho mandou os tijolos de burro tombados para o terreno do vizinho e levantou outro muro aproveitando para entrar alguns centímetros dentro do terreno do outro. O cunhado, quando se apercebeu, deitou o muro abaixo, levantou outro entrando meio-metro dentro do terreno do velho, deixou-lhe os tijolos velhos no terreno e esperou-o com a pressão-de-ar. Quando o velho chegou, disparou sobre ele. O velho também foi buscar a pressão-de-ar e passaram ali umas horas aos tiros um ao outro até que a guarda chegou e levou os dois. Estiveram uma semana na cadeia. Não lhes serviu de nada.
Por mais estranho que pareça, as mulheres deles dão-se bem uma com a outra, são amigas, sócias no mini-mercado da aldeia e às vezes até vão juntas à cidade para ver um concerto do Tony Carreira.
Amanhã o cunhado há-de chegar ao terreno, há-de ver os ramos largados lá do seu lado, há-de mandá-los de volta para o terreno do velho e há-de esperá-lo com a pressão-de-ar carregada. Hão-de andar aos tiros um ao outro e com um pouco de sorte não se irão atingir porque têm os dois uma pontaria de merda.
Larguei o velho na sua tarefa de cortar o mato e mandar os ramos para o outro lado do muro e fui-me sentar.
Gosto de me sentar no alpendre e olhar as montanhas lá em frente, sempre lá em frente, imutáveis, serenas, a garantirem-me que a vida é assim, sempre assim, por mais que pensemos que não.
E então ouvi um tiro. Outro. E novamente.
Percebi que tudo se precipitou. O cunhado veio mais cedo e apanhou o velho em flagrante.
Levantei-me da cadeira e cheguei-me à frente no alpendre. E vi pequenos focos de incêndio no terreno do velho. O cunhado lançava cocktails molotov que incendiavam os montes de ramos secos cortados. O velho é que trazia a pressão-de-ar nas mãos e tentava disparar sobre o cunhado.
E eu disse Oh, que caralho.
Peguei no telemóvel e telefonei para a guarda. E fiquei ali a vê-los guerrear. Como duas crianças birrentas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/27]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

Juá

No meu tempo de miúdo havia um detergente para lavar a roupa, lavar a roupa à mão naqueles tanques que não eram de guerra mas de cimento, que quase só as mulheres utilizavam, e que já eram um upgrade dos lavadouros públicos onde as mulheres se juntavam para distribuir notícias enquanto lavavam as roupas da família e das famílias de bem da cidade (como muito bem descrevia Chianca de Garcia na sua popular Aldeia da Roupa Branca), chamado Juá, que era, também, um verdadeiro Bazar das Novidades, e que me perdoe o verdadeiro Bazar das Novidades que, na rua D. Dinis, em Leiria, alimentava os meus sonhos de criança, mas este bazar que era o Juá fez-me brincar de mil-e-uma maneira e hoje ainda me serve como impropério para gritar à cara das pessoas que fazem asneiras grosseiras, com irem a conduzir um carro a vinte quilómetros por hora em plena auto-estrada A1, ou simplesmente porque me chateiam Ouve lá! Tiraste a carta no Juá, foi?
O Juá oferecia vários brindes, quase todos eles destinados às crianças, aos filhos das mulheres que, afinal, iriam utilizar o detergente na lavagem da roupa da casa, talvez, quem sabe, para entreter a criançada enquanto as mães trabalhavam à volta do tanque, a esfregar, esfregar, esfregar, e depois pendurar ao sol para secar, mas não durante muito tempo directamente ao sol para não queimar a roupa e o branco não ficar amarelo e o preto não ficar castanho, enquanto os pais, coitados, ganhavam a vida lá fora, longe desta azáfama.
Os brindes do Juá eram feitos numa fábrica em Leiria (está bem, era no Juncal, mas é a mesma coisa, não é?), da mesma forma que as famosas e resistentes cassetes Sonovox, com que fazíamos as mixtapes apaixonadas, também eram feitas em Leiria (era na Marinha Grande, que é também a mesma coisa, não é?).
O Juá ofereceu jogos do Galo, bonecos militares, cowboys e índios, que davam para fazer exércitos e conquistar o mundo ou, pelo menos, o quarto à irmã (às vezes a cama, que um quarto dava para dois filhos, às vezes mais), pequenas molduras para fotografias rasgadas da Crónica Feminina, copos de plástico coloridos, bolas, bonecos para as pontas dos lápis e lapiseiras, canecas para o leite com Ovomaltine matinal e uma colecção de sinais de trânsito para estarmos familiarizados com as regras quando chegasse a nossa vez de tirar a carta, mas que então também servia para brincarmos às cidades com os carrinhos da Matchbox em estradas desenhadas no chão de terra batida atrás das garagens, terrenos públicos ou privados que todos usufruíamos nas brincadeiras.
Às vezes também vinham brindes para as mães. Para as mães porque os pais não queriam saber disso para nada, mas as mães queriam porque compravam o detergente e usavam os brindes para poupar nas despesas da casa: copos de vidro que iam à mesa do jantar, colheres de esparguete que a minha mãe nunca utilizou porque teimava sempre em partir o esparguete antes de o cozer, para caber no tacho e as famosas molas de roupa, em plástico, coloridas, que vinham destronar as eternas molas de madeira que as equipas de cinema nunca deixaram morrer porque dá sempre jeito à secção de iluminação.
Também havia fervedores de leite (dantes o leite não era pasteurizado e tinha de ser fervido, não era?) e conjuntos de chá.
Também houve uma época em que o Juá oferecia carros e motos por sorteio, mas nunca saiu cá em casa nem em casa de nenhum dos meus amigos de infância cujas mães também usavam Juá para esfregar a roupa nos tanques de cimento enquanto os filhos se entretinham com os brindes grátis que as embalagens traziam.
Aqui tenho de fazer um pequeno aparte para referir o meu brinde preferido da Juá, que era uma régua com dois buracos de tamanho diferente e ranhuras onde iam encaixar várias rodas de vários tamanhos que giravam nesses buracos, arrastados por lápis ou canetas, e faziam lindos desenhos artísticos e muito gráficos.
E só me lembrei do Juá porque quando estava a ultrapassar o carro que seguia à minha frente todo chegado à esquerda até eu ter de apitar várias vezes a pedir passagem, me virei para ele, para o condutor do outro carro, e gritei do sítio onde estava Saiu-te a carta no Juá, foi, meu cabrão?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/25]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]