Do que É que Estou à Espera?

Do que é que estou à espera?
Estou vestido. De banho tomado e roupa interior lavada. As calças bem vincadas e a camisa engomada. Os sapatos engraxados. Estreei uma gravata. Tenho os botões de punho do meu pai. O relógio Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que também era dele. O telemóvel no bolso das calças. A carteira também. A carteira dos documentos que também é a carteira onde levo o dinheiro. As moedas vão numa outra carteira, pequenina, de pele, com fecho, que também está no bolso das calças. Um maço de cigarros novo no bolso do casaco. O isqueiro é um Zippo e também vai no bolso das calças. Tenho de ter cuidado com esta mania de acender o isqueiro dentro do bolso das calças. Limpei os óculos de sol, que estão em cima da mesa da cozinha à minha espera, e os de ler que estão numa caixa de transporte no bolso do casaco. Com tantas coisas espalhadas pelos bolsos das calças e do casaco, já percebo a moda das malinhas para transportar tanta tralha. E ainda me faltam as chaves de casa, ainda penduradas na porta de saída e as chaves do carro que estão na mesa da cozinha ao lado dos óculos de sol.
E então, do que é que estou à espera?
Lá fora está sol. Há um bocado estava encoberto. Durante a noite choveu. Mais tarde há-de chover de novo. Há ameaça de ventos fortes mas, por agora, o seu está azul, o sol brilha e está calor. Estou arrependido de ter posto gel no cabelo. Não tarda começa a escorre-me pela testa abaixo. Vou ficar com a testa brilhante, gordurosa. Vou ser o ponto de luz para quem toda a gente vai olhar. Serei o alvo de todas as atenções e não será pela melhor das razões.
Tenho um dente a latejar. Tomo já um Clonix para arrepiar caminho. As mãos estão a dar-me comichão. Já sei o que lá vem. É melhor juntar-lhe um Zyrtec. E uma bombada de Ventilan que já sinto a pieira. É dos nervos. Os nervos despertam-me a bronquite. Quando estou nervoso, fico logo cheio de pieira e logo de seguida começa a falta de ar.
Devia sair de casa. Estou em cima da hora.
Suspiro.
Tiro o maço de cigarros novo do casaco e retiro-lhe o celofane. Bato o maço nas mãos. Retiro um bocado de prata e puxo um cigarro. Acendo o Zippo e dou-me lume. Tusso. Tusso umas poucas de vezes. Não é o primeiro cigarro do dia, mas tusso umas poucas de vezes. Depois acalmo.
Sento-me à mesa da cozinha a fumar o cigarro. Na cabeça, uma música Lá-lá-lá-lá-lá lá-lá-lá lá-lá-lá-lá-lá-lá…
Tenho vergonha de estar com esta música na cabeça. Ainda bem que ninguém ouve, que ninguém sabe.
Devia ir-me embora. Do que é que estou à espera?
Estou com calor. Desaperto o nó da gravata. Tiro o casaco e penduro-o nas costas da cadeira. Sinto os pés apertados. Descalço-me. Levanto-me e sirvo-me de um copo de vinho tinto. Bebo o copo de um gole. Volto a servir-me. Dispo as calças. Puxo a gravata. Tiro os botões de punho. Dispo a camisa. Tiro a camisola interior de alças os boxers e as meias. Estou nu. Estou nu com o Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que era do meu pai no pulso esquerdo e já não vou a lado nenhum. Não. Vou. Vou até ao alpendre. Acendo um novo cigarro no resto do primeiro, agarro no copo de vinho tinto e vou nu sentar-me no alpendre. Os gatos correm para o pé de mim. O cão também, mas mais devagar. Ao fundo, as montanhas estão encobertas. Chove lá em cima. Acho que vou ficar aqui por casa. Não quero ir a lado nenhum. Quero ficar sozinho. Sossegado. Quero ficar aqui, exactamente aqui, onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

(Des)Concentração

Não consigo concentrar-me.
Descubro-me frente ao computador a olhar para um formulário, a tentar ler o que lá está escrito, a tentar perceber o que me é pedido, e parece que estou a olhar para uma página escrita nalguma linguagem desconhecida. Pronuncio as palavras alto para as ouvir e entender, mas não dá resultado. Esqueço-me do que acabei de falar. Esqueço-me do que acabei de ouvir.
Baixo a tampa do computador. Levanto-me e acendo um cigarro. Olho em volta. Noto que estou na cozinha. Trabalho muito na cozinha, digo em silêncio para mim.
Coço o rabo. Suspiro.
Abro a porta da rua, do alpendre. Os gatos vêm logo ter comigo a miar. Olho para as tigelas deles e vejo que têm comida e água. São uns pedinchões, vocês, ralho-lhes. Vejo o cão ao fundo, no quintal, parado a olhar para mim. Ela não vem ter comigo. Dá o espaço aos gatos.
Disparo a beata do cigarro para longe com um golpe do dedo médio como uma mola. Como se estivesse a jogar com berlindes nas traseiras do pavilhão de ginástica do colégio, quando ainda tinha idade para andar no colégio e jogar ao berlinde e ainda não tinha medo do futuro. Este futuro.
Entro em casa. Vou até à sala. Sento-me no sofá. A televisão desligada. A janela aberta. As persianas e os vidros. Gosto da aragem que entra em casa e me afaga. Sinto um certo conforto. Ao meu lado, pousado no sofá, um livro de banda-desenhada. Os Vampiros do Filipe Melo e Juan Cavia. Pego-lhe. Tem uma marca. Retomo a leitura na marca. Não sei o que estou a ler. Recuo duas páginas. Quatro páginas. Seis páginas. Não recordo aqueles desenhos. As pranchas parecem-me desconhecidas. Não me lembro daquela estória. Tento ler mas não consigo. A cabeça foge para outros lados. Não consigo concentrar-me.
A cabeça começa a doer-me.
Levanto-me e regresso à cozinha. Olho a mesa e o computador em cima da mesa. Penso que há qualquer coisa no computador que requer a minha atenção. Não consigo lembrar-me do quê.
O coração começa a bater muito rápido. Cai-me uma enorme angústia em cima. O que é que se passa? O meu corpo começa a contorcer-se. Quer chorar. Mas antes que comece a chorar, o chão começa a tremer. Sinto a casa a abanar. A portas dos móveis abrem-se e fecham-se com fortes pancadas sonoras. Ouço, vindo lá de dentro, talvez da sala, o som do que me parece uma garrafa a cair no chão e a estilhaçar-se.
Não sei quanto tempo está o mundo a abanar, mas parece uma eternidade. Devia estar com medo. Não estou. Sinto mesmo um certo alívio. O tremor-de-terra é a minha trepanação. Liberto a pressão.
Sopro. Deito fora o ar que me enche os pulmões. Acendo outro cigarro. O chão ainda treme. Uns pratos escorregam no lava-loiças e caem para dentro da pia. Acho que não se partiram. Coloco a mão na mesa.
Suspiro. De repente deixo de sentir o chão a tremer. Acabou sem eu dar por isso.
Olho para o computador fechado em cima da mesa da cozinha. Deixo-o assim. Não o vou abrir. Não consigo. Não consigo ler. Não consigo perceber.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Não vejo os gatos nem o cão. Devem estar com medo. Sento-me no alpendre. Os gatos aparecem de onde estavam e vêm para cima de mim. O cão vem atrás deles e deita-se aos meus pés.
Estamos todos juntos. Juntos e vivos.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/15]

O Dente e o Berbigão

Fui cimentar um dente. Um dente que andava a chatear-me. Doía-me com o frio. Doía-me com o calor. Três sessões de tratamento de um total de quatro. A Pandemia meteu-se pelo meio e não cheguei à última sessão. Fiquei com um protecção provisória que está a tornar-se definitiva se não se desintegrar entretanto. Não sei em que estado está o dente, nem quero saber. Recuso-me a olhar para ele. Não me dói e chega-me. Mas às vezes penso se não terei de voltar ao ponto zero e repetir as outras sessões já feitas e, entretanto, e provavelmente, destruídas, como quase tudo durante este período de trevas que só tem enriquecido os do costume, especialmente as grandes superfícies, afinal não podem fechar, não é? as pessoas precisam de comer mesmo quando estão a morrer de outra coisa qualquer que não seja de fome. Mas há muita gente a morrer de fome, também, e a Segurança Social, um Estado dentro do Estado, que devia estar a tentar estancar os danos sociais está a contribuir para os agravar. Às vezes penso que a Segurança Social funciona com inteligência artificial e não com pessoas. A emoção e a empatia não entram naqueles gabinetes. É tudo frio. Gélido. Lá não nasce nada. Tudo mirra.
Penso sempre no meu dente quando como. Especialmente quando como pão de véspera, que é mais duro, e penso sempre que, um dia, talvez um dia, um bocado de pão duro possa dar cabo do que me resta do dente. Mas depois, acabo de comer, não aconteceu nada ao dente e eu esqueço-me dele.
Lembrei-me hoje do dente porque a vizinha da casa lá de baixo, a casa ao fundo da estrada, antes do cruzamento, veio vá trazer uma terrina com berbigão. Fiquei muito agradecido. Abri uma garrafa de Porca de Murça, que me leva de volta ao final da adolescência e às bebedeiras com Porca de Murça nas adegas das Cortes, e que agora voltei a encontrar no minimercado aqui da aldeia e um bocado de pão caseiro feito no Zé dos Frangos. Estava a meio do segundo prato de berbigão, e já lá ia mais de metade da garrafa, quando senti areia na boca. Os dentes a trincar areia. E o barulho crunch crunch. Pensei que a minha vizinha não tinha lavado o berbigão como devia ser. E foi então que também pensei se não seria o dente a desfazer-se. Senti um arrepio nas costas, logo seguido de uma certa angústia. Levantei-me da mesa e fui até o alpendre fumar um cigarro. Enquanto fumava, pensei isto tudo que está escrito aqui em cima. No fim do cigarro pensei que, dente ou não dente, não ia desperdiçar o resto do berbigão que estava feito à espanhola, muito saboroso, e que estava a saber-me muito bem. Pensei que a Segurança Social podia querer matar-me um dia destes e o melhor era aproveitar enquanto podia. E voltei para a mesa da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/12]

A Minha Casa Tem um Buraco por Onde Me Foge Tudo

Às vezes penso que há um buraco temporal em minha casa.
Há coisas a desaparecerem.
Por vezes vou à procura de um livro que sei que tenho e dou com o sítio mas não com o livro. Percorro todas as prateleiras à procura dele, como se fosse possível eu colocá-lo fora de ordem. Procuro nas pilhas de livros a aguardarem vez de leitura ou vez para serem armazenados por ordem alfabética nas prateleiras. Procuro onde não devem estar. Mesmo na casa-de-banho. Mesmo no frigorífico. Já procurei no congelador. Em vão.
Não vem ninguém a minha casa. Há muitos anos que ninguém franqueia as portas de entrada. Agora nem mesmo a senhora que me vinha fazer a limpeza da casa. Mandei-a não vir mais que não tinha dinheiro para lhe pagar. Passei eu a aspirar a casa uma vez por semana. Uma vez por semana mudo os lençóis da cama e as toalhas da casa-de-banho e faço duas máquinas de roupa. De mês a mês sacudo os tapetes. No início da Primavera, lavo os tapetes no quintal, mando-lhes com uma mangueirada para cima, despejo-lhes um bocado de detergente e esfrego-os com uma escova. Todos os dias arejo a casa. Abro as janelas. Pus mosquiteiros para evitar a entrada de moscas e outras bichezas. Mas não impede a entrada do pó. Às vezes quando caminho descalço por casa, vejo o pó que se me agarra à planta dos pés. Fico com os pés pretos. É então que dou uso ao bidé. Cá em casa serve para lavar os pés.
A casa não é rota.
Por onde fogem os livros?
No outro dia andei à procura de uma tostadeira. Queria fazer uma tosta. Uma tosta-mista. Não encontrei a tostadeira em lado nenhum. Só a torradeira que está em cima da bancada da cozinha e ligada com o cabo de alimentação à ficha de electricidade. Mas eu juro que tenho uma tostadeira. Ou tinha. Pelo menos, acho que tinha. Já começo a pôr tudo em dúvida. Vejo-me a fazer uma tosta-mista, com aquela tostadeira, aqui, na cozinha cá de casa. E se é tudo mentira? Uma efabulação? E se fui eu que criei essa memória para justificar ter uma tostadeira que, afinal, nunca tive?
E os livros? Poderá ser o mesmo princípio? Será que nunca tive os livros que penso ter? Que tinha? Que até os via ali, arrumados nas prateleiras das estantes, uns ao lado dos outros?
Tive uma namorada. Acho que aqui já nesta casa. Ela também desapareceu.
Posso estar enganado e afinal a namorada não ser minha e estar a confundir tudo com algum filme francês visto nas noites da RTP2, mas acho que não. Acho que era mesmo minha namorada. Tenho uma vaga ideia de a ver caminhar descalça aqui pela cozinha, abrir a porta do alpendre e ir fumar um cigarro lá para fora. E eu estar aqui na cozinha, sentado nesta mesa, nesta mesma mesa onde estou agora, frente ao computador, e olhá-la em contraluz, no alpendre, com as montanhas lá ao fundo, a fumar um cigarro. Mas também posso estar enganado.
É provável que exista um buraco do tempo aqui em casa. Um buraco que me rouba livros, dinheiro e, pelo menos, uma namorada. E posso estar a esquecer-me de outras coisas, que já me baralho muito.
Por vezes ouço a voz de uma rapariga, vou corredor fora à procura dela e não a encontro. Talvez haja no meu corredor um portal para outras dimensões. A minha casa pode estar num meio de coordenadas cabalísticas. Ou o que o valha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/24]

Uma Abelha Picou-me na Pila

Às vezes gosto disto. De abrir a porta da cozinha e sair nu e descalço para o quintal. Para levar comida aos gatos e ao cão. Para lhes dar água. Para regar as plantas quando o tempo está assim quente como tem estado. Gosto de pegar num cigarro e ir fumá-lo nu para o quintal. Mesmo sabendo que não tenho vizinhos próximo, e que o quintal se vê muito mal lá de baixo da estrada, imagino sempre a possibilidade de um mirone ao longe, de binóculos, a ver as minhas partes pendentes. Não que eu saiba porque raio haveria alguém de querer ir não sei para onde com uns binóculos para me ver nu no quintal a fumar um cigarro. Mas essa possibilidade e o facto de andar assim, assim como estou agora, a passear na rua, no quintal, debaixo do sol quente e a ouvir o som das cigarras em festival da canção desvairado, entusiasma-me.
Largo o cigarro no chão e espreguiço-me. Estico os braços, afasto as pernas e levanto a cabeça para o céu. Um avião cruza o céu azul e deixa um rasto, uma linha branca feita a giz. Imagino a queda de um cagalhão congelado largado da casa-de-banho do avião em pleno voo a cair aqui, no quintal, ao meu lado, em cima de mim. Tenho um breve arrepio. Entro em casa. Preparo um gin tónico e vou para o alpendre.
Olho as montanhas lá ao fundo. Coço os tomates enquanto vejo uma nuvem de fumo lá longe, longe ao longo das montanhas. Há um incêndio na serra ou perto da serra, mas do outro lado. Se for na encosta, pode chegar a este lado. Não consigo ver o incêndio, nem as chamas, mas vejo o fumo. E ainda é uma grande coluna de fumo negro o que vejo subir aos céus do outro lado da serra. De manhã ouvi as sirenes dos bombeiros a passarem nas estradas lá mais ao fundo. Não nesta aqui, ao fundo da alameda. Nas estradas ao fundo. As estradas nacionais que me separam da serra.
Viver sozinho tem destas coisas. Faço o que quero quando quero e ninguém me diz se o devo ou não fazer. Ninguém se incomoda com a minha nudez. Não reprimo a flatulência nem o arroto. Às vezes esqueço a higiene. Bebo leite pelo pacote. A Coca-Cola também vai pelo gargalo. Depois dou um valente arroto.
Mas às vezes…
Viro-me para o lado e dou comigo a falar alto comigo mesmo como se houvesse outro ali sentado ao lado, no alpendre, a trocar cigarros e copos de gin tónico e uns tremoços comprados à velha que os vende ao Domingo frente ao adro da igreja. A discutir os assuntos da semana. As notícias do dia. E afinal, sou só eu a falar alto. Para me ouvir. Às vezes pergunto-me se estou a ficar maluquinho. Mas se estivesse a ficar maluquinho não me colocava a questão.
Às vezes as formigas mordem-me o rabo nu. As sardaniscas passeiam-se por cima dos meus pés descalços. Uma vez uma abelha picou-me a pila.
Não é verdade. Nunca uma abelha me picou na pila. Mas já pensei nessa possibilidade. Eu penso sempre nas possibilidades. É uma maneira de me entreter.
Preciso de outro gin.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/13]

Tempo Bipolar

Tempo bipolar, este.
Acordei com a chuva a bater-me na janela do quarto. E os gatos a miar. Tive de me levantar e levar-lhes comida. O dia estava escuro. Voltei para a cama e tapei-me com o edredão.
Voltei a acordar, agora com calor. Estava transpirado. Os raios de sol entravam sem pedir licença pelo quarto, pela casa. Levantei-me e tomei um duche rápido. Depois fui ao alpendre fumar um cigarro.
Gosto de estar ali assim, no alpendre, nu, de pila ao léu, lavado, bem cheiroso, a fumar um cigarro, o primeiro cigarro do dia.
Vi as horas e percebi que já tinha perdido o pequeno-almoço e o almoço. Depois ri-me. Na verdade não tinha perdido nada. Tinha aprendido com os últimos anos de vida da minha mãe. Tens alguém à tua espera? Então come quando tiveres fome. E tinha fome? Mais ou menos. A verdade é que sou difícil de perceber. Por via das dúvidas resolvi fazer uma sandes.
Abri o frigorífico e olhei. Não vi nada. Nada que se comesse assim, de uma forma simples sem ter de cozinhar. Acabei por abrir uma lata de atum. Desfiz o atum numa tigela. Miguei um pouco de cebola. Misturei duas colheres de maionese. Abri uma carcaça e enfiei lá o que coube. Guardei o resto no frigorífico. Tapei a tigela com película aderente. Enchi um copo com vinho tinto. Voltei para o alpendre. Continuava nu. Sentei-me na cadeira e comi. E bebi. E arrotei um pequeno arroto.
Pensei E agora? O que é que vou fazer agora?
Fiquei por ali sentado a pensar e esqueci-me do que estava a fazer ou do que queria ou devia fazer.
Deixei-me adormecer.
Acordei picado por umas formigas.
O sol tinha regressado outra vez lá para trás de um céu cinzento, tão cinzento que nem se viam nuvens, era só cinzento, cinzento escuro. Não estava a chover nem parecia estar a ameaçar chover. Mas já não havia sol nem estava calor. Senti um arrepio e disse Ainda estou nu!
Entrei em casa. Vesti uns calções. Uma camisola. Fui fumar outro cigarro para a porta da cozinha, encostado à ombreira. Não se viam as montanhas lá à frente.
Tocou o telemóvel. Até me assustei. Não estou habituado a que o telefone toque. Atendi. Queriam vender-me um pacote. Eu disse que já tinha e desliguei. Senti o coração a bater mais depressa. Irritam-me estas chamadas telefónicas das operadoras. São uma chatice. Não dizem nada de novo. Não oferecem nada a ninguém. Incomodam. Deixam-me o coração a bater demasiado depressa.
Lancei fora o resto do cigarro, zangado. Não muito zangado. Mas irritado. Sim, irritado. E pensei que, um dia destes, terei de apanhar as beatas que vou lançando para o quintal. Um dia destes, sim.
Voltei para o interior de casa. Fechei a porta. Sentei-me à mesa da cozinha e abri o computador. Tinha um texto para escrever para o jornal.
Já passaram duas horas e ainda aqui estou. A página do word em branco. A garrafa de tinto vazia. O cinzeiro cheio de cinzas e beatas.
O tempo está bipolar e eu sem imaginação. E, finalmente, lá comecei:
Tempo bipolar, este.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/29]

Quarenta Graus à Sombra

Quarenta graus à sombra. Aqui onde estou. Sentado no alpendre de casa a olhar as montanhas, a única constante na minha vida.
Quarenta graus à sombra. Pelo menos é o que me informa o telemóvel, um smartphone daqueles todos chiques mas a que basta faltar a bateria para ficarem sem serventia.
Quarenta graus à sombra e eu estou de boxers sentado no alpendre. Sinto a transpiração escorrer pelas costas abaixo. Agarro no copo de gin e bebo mais um gole. Um grande gole. Não posso bebericar. Tenho de o esvaziar rápido. O gelo já quase que derreteu com o calor.
Quarenta graus à sombra. Tenho os pés descalços sobre a tijoleira. Está quente e, ao mesmo tempo, está fresco. Sinto a transpiração escorrer entre os dedos dos pés.
Acendo um cigarro. Fico admirado como consigo fumar com todo este calor. Mas é uma maneira de me tranquilizar. Quando o fumo do cigarro entra por mim dentro, sinto-me relaxar.
Ouço os gritos dos miúdos das casas vizinhas. Imagino-os nas piscinas. O pai a grelhar uns hambúrgueres. A mãe a fazer uma salada. Bebem um copo de vinho branco. Os miúdos entram e saem da piscina. Mergulham. Correm à volta da piscina. Caem. Partem a cabeça. Fazem um bocado de sangue. Mas nada que estrague o dia da família. Com um pouco de sorte e o cansaço dos miúdos, ainda poderá haver festa logo à noite.
Não aqui. Eu estou sozinho. Sozinho, cansado e cheio de calor.
Alguém toca a campainha lá em baixo, no portão lá de baixo. Não faço tenção de ir abrir. Pego nos binóculos, e vejo quem está ao portão. Duas senhoras. Duas senhoras demasiado vestidas para o calor que está. Devem ser Testemunhas de Jeová. Ao mesmo tempo admiro-lhes a persistência. Dia-após-dia em busca de fiéis. Faça frio ou calor, chova ou faça sol. Nada os pára. Nada os demove. E lá estão elas outras vez. Voltam a tocar à campainha. Lá de baixo não me conseguem ver. Vão-se embora.
Apago o cigarro.
Recosto-me na cadeira. Sinto os olhos a fecharem-se e não resisto. Este é o meu presente. Não quero fazer nada. Só estar aqui. Deixar-me embalar pelo calor que já não é reconfortante mas que me mói. Não adormeço. Fico só assim, na fronteira. A ver e a ouvir as coisas ao longe, como numa outra dimensão.
Quarenta graus à sombra e há gente que trabalha debaixo deste sol.
Desperto. Acabo o copo de gin. Penso que deveria ir fazer outro, mas não consigo levantar-me. Estou colado à cadeira. Demasiado inerte. Eu e ela somos só um. Volto a acender outro cigarro na vã esperança que o fumo seco do cigarro me faça levantar e ir fazer mais um copo de gin. Mas acho que tal não vai acontecer. Tenho muitas dificuldades para me obedecer.
A campainha do portão lá de baixo volta a tocar. Agarro outra vez nos binóculos. Agora são dois bombeiros. Trazem um caderninho nas mãos. Devem andar a vender rifas. Já só falta os organizadores da festa de Agosto virem pedir para o andor.
Anda toda a gente a pedir. Ninguém a oferecer. E depois há eu. E eu só estou.
Quarenta graus à sombra. Se eu tivesse aqui a caçadeira, podia experimentar a pontaria. Ora bolas, os bombeiros já vão embora.
Tenho a cabeça a tombar sobre o peito. Acho que é desta. Acho que é agora vou mesmo fechar os olhos e adormecer…

[escrito directamente no facebook em 2020/07/11]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

O Nojo

Para ir de braço no ar não precisa de ir de braço no ar. O braço no ar é uma figura de estilo. Não precisa de estar representada fisicamente por um braço levantado no ar. Pode-se decepar o braço e ele continua levantado, na linguagem, na ideia, no discurso.
Eu via o tipo a descer a avenida e via-o de braço no ar. Ele não estava efectivamente de braço no ar, não como eles, os que levantam o braço no ar, costumam levantar, mas estava, figurativamente, de braço no ar.
Na mentira. No cálculo. Na raiva. No ódio. Aquele ódio que saía em espuma no discurso cuspido.
Estava a ver as imagens na televisão quando senti qualquer coisa a mexer pelo canto do olho, no canto do enquadramento. Virei para lá a cara, os olhos. Agucei a visão. Desfocado. Coloquei os óculos. Pior. São para ver ao perto. Levantei-me da cadeira, desci as escadas do alpendre e desci ao quintal. Fui até onde me pareceu ver qualquer coisa a mexer. E estava qualquer coisa a mexer. Um comboio de coisas a mexer. Aproximei-me e vi-as. Umas a seguir às outras. A cabeça de uma no rabo da outra. As processionárias. Que raio estavam ali a fazer? Ainda não era a época delas. Mas estavam ali. Tinham descido do pinheiro e faziam comboio, sei lá para onde. Tinha de as matar antes que o cão ou os gatos as vissem. São tóxicas. Fazem-lhes mal.
Voltei a casa para ir buscar álcool e lume.
Ao passar pelo alpendre ouvi a voz do repórter e a manifestação de uma coisa que era outra. Lembrei-me do braço no ar que não estava no ar.
As pessoas do braço no ar não têm nada a propor. Só a força. As pessoas de braço no ar contestam as outras. São contestatárias. Mas não têm nada de novo ou interessante para dizer, para propor e que sirva a todos, a todos sem excepção. São cortadores sociais. Fora estes e aqueles e aqueloutros. Contra. Contra. Contra. Contra negros. Contra chineses. Contra comunistas. Contra a esquerda. Contra emigrantes. Contra ciganos. Contra homossexuais. Contra os diferentes. Contra.
Agarrei numa garrafinha de álcool e numa caixa de fósforos.
Voltei para o quintal, para as lagartas do pinheiro.
Eles pregam a moralidade. A moralidade dos outros, não a deles. A corrupção dos outros, não a deles.
O que mais se percebe do que vou ouvindo da televisão é o ódio. O ódio a tudo o que não são eles. O ódio a tudo o que é diferente.
Aproximo-me das processionárias. Esguicho o frasco de álcool sobre elas. Depois acendo o fósforo e lanço-o, em chamas, sobre elas, sobre o álcool e vejo a chama a formar-se rápida e vejo as processionárias a arder e esguicho mais álcool para elas se queimarem, queimarem todas e ficarem petrificadas.
O cão aparece ao fundo do quintal e enxoto-o. Bato as palmas e digo Xô! Xô! Põe-te a andar! e ele vai embora.
Eu vou à arrecadação buscar uma pá e uma vassoura e apanho os restos queimados das processionárias. Despejo a pá num saco de plástico e fecho o saco com um nó. Depois desço a alameda, saio o portão da rua e vou pela estrada fora até à ilha dos caixotes de lixo e largo o saco no caixote do rsu.
Regresso. E penso na manifestação.
A malta que está sentada no café a refilar não tem nada a propor. Só o ódio. O ódio e a contestação.
A manifestação é uma demonstração de força da pobreza de espírito, do vazio, do nada. Ali não há nada a discutir. Não há nada a propor. Há ódio e a supremacia do músculo.
Cheguei ao alpendre e os gatos já andavam outra vez por lá. Um deles sentou-se na minha cadeira. Mandei-o sair Vá, sai daí!, mas ele não saiu. Tive de o tirar à mão e coloquei-o no chão. Ele miou, a refilar.
Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro. Já não se falava na manifestação. Então fazia-se a actualização dos números do Covid-19. E não podiam ter-se infectado todos enquanto iam todos de braço no ar sem levar efectivamente o braço no ar?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/28]

Crianças Birrentas

O velho andava lá no carreiro com a serra eléctrica a cortar os ramos das árvores e a desbastar o mato do terreno. Ele tinha lá umas oliveiras que davam umas azeitonas muito azedas, mas todos os anos as ia lá apanhar. Às vezes dava-me algumas. Azedas. Nem na sopa as conseguia comer.
Chegava a esta altura e punha-se a desbastar o terreno para evitar as cobras e fazer uma pequena limpeza.
Mas as aparas da árvores do outro lado do muro, mandava-as de volta para lá. Cortava os ramos das árvores que passavam o muro para o lado dele e depois mandava o que cortava para o outro lado. Devolvia à procedência.
Eu estava em pé no alpendre a fumar um cigarro e a apreciar. Sentado não conseguia ver o homem a desbastar o terreno. E já imaginava o que lá vinha. O vizinho, o sujeito do outro lado do muro, que até é cunhado do velho, há-de mandar as braças de volta cá para este lado. Eles não se dão bem e estão sempre em guerra um com o outro. Mas o velho é mesmo o diabo em pessoa.
O ano passado, resolveu queimar os ramos das árvores podadas numa enorme fogueira numa altura em que as fogueiras estavam proibidas. Mas ele é daqueles que acha que sabe e só faz o que acha que deve fazer e a ele ninguém dá ordens. Do piorio. A guarda foi lá ao terreno e levou-o preso. Esteve dois dias numa cela. Para aclarar as ideias, disseram os guardas. Mas não serviu de nada. O velho é teimoso como o diabo.
Há uns anos, o muro que separa os dois terrenos caiu ali numa zona mais acima e tombou para o lado de cá. O velho mandou os tijolos de burro tombados para o terreno do vizinho e levantou outro muro aproveitando para entrar alguns centímetros dentro do terreno do outro. O cunhado, quando se apercebeu, deitou o muro abaixo, levantou outro entrando meio-metro dentro do terreno do velho, deixou-lhe os tijolos velhos no terreno e esperou-o com a pressão-de-ar. Quando o velho chegou, disparou sobre ele. O velho também foi buscar a pressão-de-ar e passaram ali umas horas aos tiros um ao outro até que a guarda chegou e levou os dois. Estiveram uma semana na cadeia. Não lhes serviu de nada.
Por mais estranho que pareça, as mulheres deles dão-se bem uma com a outra, são amigas, sócias no mini-mercado da aldeia e às vezes até vão juntas à cidade para ver um concerto do Tony Carreira.
Amanhã o cunhado há-de chegar ao terreno, há-de ver os ramos largados lá do seu lado, há-de mandá-los de volta para o terreno do velho e há-de esperá-lo com a pressão-de-ar carregada. Hão-de andar aos tiros um ao outro e com um pouco de sorte não se irão atingir porque têm os dois uma pontaria de merda.
Larguei o velho na sua tarefa de cortar o mato e mandar os ramos para o outro lado do muro e fui-me sentar.
Gosto de me sentar no alpendre e olhar as montanhas lá em frente, sempre lá em frente, imutáveis, serenas, a garantirem-me que a vida é assim, sempre assim, por mais que pensemos que não.
E então ouvi um tiro. Outro. E novamente.
Percebi que tudo se precipitou. O cunhado veio mais cedo e apanhou o velho em flagrante.
Levantei-me da cadeira e cheguei-me à frente no alpendre. E vi pequenos focos de incêndio no terreno do velho. O cunhado lançava cocktails molotov que incendiavam os montes de ramos secos cortados. O velho é que trazia a pressão-de-ar nas mãos e tentava disparar sobre o cunhado.
E eu disse Oh, que caralho.
Peguei no telemóvel e telefonei para a guarda. E fiquei ali a vê-los guerrear. Como duas crianças birrentas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/27]