A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

Tempo Bipolar

Tempo bipolar, este.
Acordei com a chuva a bater-me na janela do quarto. E os gatos a miar. Tive de me levantar e levar-lhes comida. O dia estava escuro. Voltei para a cama e tapei-me com o edredão.
Voltei a acordar, agora com calor. Estava transpirado. Os raios de sol entravam sem pedir licença pelo quarto, pela casa. Levantei-me e tomei um duche rápido. Depois fui ao alpendre fumar um cigarro.
Gosto de estar ali assim, no alpendre, nu, de pila ao léu, lavado, bem cheiroso, a fumar um cigarro, o primeiro cigarro do dia.
Vi as horas e percebi que já tinha perdido o pequeno-almoço e o almoço. Depois ri-me. Na verdade não tinha perdido nada. Tinha aprendido com os últimos anos de vida da minha mãe. Tens alguém à tua espera? Então come quando tiveres fome. E tinha fome? Mais ou menos. A verdade é que sou difícil de perceber. Por via das dúvidas resolvi fazer uma sandes.
Abri o frigorífico e olhei. Não vi nada. Nada que se comesse assim, de uma forma simples sem ter de cozinhar. Acabei por abrir uma lata de atum. Desfiz o atum numa tigela. Miguei um pouco de cebola. Misturei duas colheres de maionese. Abri uma carcaça e enfiei lá o que coube. Guardei o resto no frigorífico. Tapei a tigela com película aderente. Enchi um copo com vinho tinto. Voltei para o alpendre. Continuava nu. Sentei-me na cadeira e comi. E bebi. E arrotei um pequeno arroto.
Pensei E agora? O que é que vou fazer agora?
Fiquei por ali sentado a pensar e esqueci-me do que estava a fazer ou do que queria ou devia fazer.
Deixei-me adormecer.
Acordei picado por umas formigas.
O sol tinha regressado outra vez lá para trás de um céu cinzento, tão cinzento que nem se viam nuvens, era só cinzento, cinzento escuro. Não estava a chover nem parecia estar a ameaçar chover. Mas já não havia sol nem estava calor. Senti um arrepio e disse Ainda estou nu!
Entrei em casa. Vesti uns calções. Uma camisola. Fui fumar outro cigarro para a porta da cozinha, encostado à ombreira. Não se viam as montanhas lá à frente.
Tocou o telemóvel. Até me assustei. Não estou habituado a que o telefone toque. Atendi. Queriam vender-me um pacote. Eu disse que já tinha e desliguei. Senti o coração a bater mais depressa. Irritam-me estas chamadas telefónicas das operadoras. São uma chatice. Não dizem nada de novo. Não oferecem nada a ninguém. Incomodam. Deixam-me o coração a bater demasiado depressa.
Lancei fora o resto do cigarro, zangado. Não muito zangado. Mas irritado. Sim, irritado. E pensei que, um dia destes, terei de apanhar as beatas que vou lançando para o quintal. Um dia destes, sim.
Voltei para o interior de casa. Fechei a porta. Sentei-me à mesa da cozinha e abri o computador. Tinha um texto para escrever para o jornal.
Já passaram duas horas e ainda aqui estou. A página do word em branco. A garrafa de tinto vazia. O cinzeiro cheio de cinzas e beatas.
O tempo está bipolar e eu sem imaginação. E, finalmente, lá comecei:
Tempo bipolar, este.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/29]

O Cheiro do Papo-Seco Fresco

Naqueles tempos eu acordava cedo. Bastante cedo. Muito mais cedo do que alguma vez viria a acordar mais tarde, mesmo quando o trabalho assim o exigia. Acordava cedo para aproveitar o dia. E, naquele mês de praia, para aproveitar a baixa-mar e andar a brincar na água até ter os dedos das mãos todos engelhados, saltava da cama aos primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta para que o dia me acordasse com ele.
Levantava-me da cama. Lavava a cara. Vestia uns calções e uma camisola, enfiava os pés nos chinelos de borracha, pegava na saca do pão, uma saca de pano com uns desenhos bordados pela minha avó e que, segundo constava, era enxoval da minha mãe, agarrava as moedas que estavam ao pé da saca e saía de casa em silêncio para ir à abertura da padaria. Ainda hoje me lembro daquele cheiro a pão que nunca mais vim a reconhecer em lado nenhum. Ainda cruzava eu a praça deserta, às vezes com gente ainda dos restos das noites que me estavam proibidas, gente que dormia caída à entrada das portas, com poças de vomitado ao lado e restos de garrafas de cerveja tombada pela calçada portuguesa, e já sentia no ar aquele cheiro ao pão acabado de fazer. Às vezes ainda tinha de aguardar alguns minutos pela abertura da porta e, quando abria, era eu o primeiro cliente, levava pão fresco, papo-secos ainda quentes e às vezes uma arrufada que não chegava inteira a entrar em casa. Depois, sentado sozinho na mesa da cozinha, a ler um livro qualquer de quadradinhos, o Major Alvega, a Revista do Tintim ou o Jornal do Cuto, bebia um copo e leite frio e comia um papo-seco com manteiga, rasgado aos pedaços, que enfiava na boca sem tirar os olhos das páginas cheias de desenhos fantásticos e estórias do arco-da-velha.
Depois ia para o sofá da sala esperar que o resto da casa se levantasse. O resto da casa era a minha mãe e a minha irmã. Às vezes o meu pai. Mas o meu pai nunca ia para a praia connosco. Dava-se mal com o calor. Ficava com o corpo cheio de borbulhinhas que lhe davam muita comichão. Eu herdei essa alergia ao calor, mas acabei a contornar esse problema com o Zyrtec.
A minha mãe levantava-se. Acordava o resto da família. Arranjava as coisas. Comia. Dava de comer. E depois íamos.
Eu levava a minha toalha sobre o pescoço e uma sacola com dois ou três livros de quadradinhos para ler nessa manhã na praia.
Quando lá chegávamos eu ia logo ao mar molhar os pés e ver como é que seria o resto do dia. Depois voltava para a barraca, estendia a toalha, fazia um montinho para a cabeça, agarrava num dos livros de quadradinhos e evadia-me.
Regressava quando a minha irmã me chamava para ir com ela ao banho. E então íamos ao banho e ficávamos por lá até a minha mãe nos chamar, depois de estar a chamar-nos durante algum, bastante, tempo. E de nós fingirmos que não a ouvíamos.
Voltávamos para a barraca. Eu estendia-me ao sol. A minha mãe dava-me um pão com manteiga que eu devorava em três dentadas e ficava ali um bocado, de barriga para baixo, as costas para o sol, a imaginar-me nas aventuras com o agente Ene 3, o Buffalo Bill ou o Tarzan, o rei da selva.
Mais tarde haveria de voltar a casa para almoçar, que a minha mãe fazia sempre almoço para nós e para o meu pai, quando o meu pai estava. Iria dormir a sesta. Lancharia. E ainda iria para a praia lá mais para o fim da tarde. Nessa altura dava um passeio até às rochas e depois voltava a ir para o mar, nadar, mergulhar, brincar. Voltaria à toalha. Estender-me-ia ao sol. A minha mãe dar-me-ia um pequeno Tupperware com pedaços de fruta que eu devoraria e, quando o sol começasse a desaparecer no horizonte, voltaríamos para casa onde a minha mãe iria preparar o jantar enquanto eu e a minha irmã tomávamos um banho de chuveiro, rápido. Iria queixar-me das queimaduras nos ombros. A minha mãe iria dizer Eu bem te avisei, enquanto me iria passar um creme hidratante, provavelmente Nivea, nos ombros e, depois de jantar, iríamos dar um passeio pela marginal, regressaríamos a casa e, antes de dormir, eu iria ler mais um livros de quadradinhos.
No dia seguinte tudo se repetiria. Da mesma maneira. Exactamente da mesma maneira. Pelo menos é assim que o recordo. E aquele cheiro ao pão fresco, acabado de cozer. Que vontade tenho agora de voltar no tempo por um daqueles papo-secos acabados de sair do forno.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/14]

Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

Às Vezes, Vomito

Almocei pataniscas de bacalhau e fiquei maldisposto. Já vomitei. Lavei os dentes e saí de casa. Fui ao café da aldeia. Ainda não está a funcionar a cem por cento mas, lá vai servindo uns copos e a malta fica lá por fora, sentada no lancil do passeio, a beber e a conversar.
Pedi uma aguardente para me compor o estômago. Acendi um cigarro e encostei-me à montra do café. O lancil estava quase todo ocupado e ao sol. Estava demasiado calor para me sentar ao sol. Fiquei em pé encostado à montra do café. O dono devia lavar o vidro da montra. Aliás, o café todo devia levar uma barrela. Agora é que se nota. Quando metemos a cabeça no interior para fazer o pedido, cheira ao chão do Lagoa dos anos setenta depois de uma vitória da União de Leiria.
Encostado à montra suja do café, de cigarro numa mão e uma aguardente noutra, ouço a conversa alheia.
E alguém diz O Ventura tem razão, os ciganos têm a mania que isto é tudo deles.
E outro alguém responde Tu também tens a mania que isto é tudo teu.
E o primeiro alguém remata Mas eu não sou cigano.
E o segundo alguém pontua Pois!
Ao lado vejo os sorrisos dos outros que não se meteram na conversa. Sorrisos que variavam entre o cínico e o condescendente. Alguns abanavam a cabeça. Concordavam. Mas concordavam com o quê? Com quem?
Eu empinei o copo de aguardente. Larguei-o no beiral da montra e, antes de sair dali disse Vocês vão mas é para o caralho!, conas de merda!
Passei em frente aos tipos sentados no lancil e ainda ouvi alguém perguntar Então, pá? e outro acentuar Xó?!, mas ninguém me disse mais nada. Enquanto ia indo embora, a descer a rua para sair do centro da aldeia, não voltei a ouvir a voz de nenhum deles. Devem ter lá ficado ensimesmados com a explosão de um gajo que normalmente entra mudo e sai calado e não mete conversa com quase ninguém e só o ouvem gritar Golo! quando se dá o caso de assistir por lá a algum jogo do Benfica, coisa que não tem acontecido vai para dois meses.
No caminho para casa senti-me irritado. Não devia ter dito o que disse. Não me devia ter metido numa conversa que não era comigo. Esta mania que eu tenho!
A mão onde levava o cigarro começou a tremer. O cigarro caiu. Enfiei a mão dentro do bolso das calças e desejei que a mão não estivesse a tremer e que tivesse sido só um espasmo muscular. Mas não voltei a tirar a mão do bolso para não ter de me confrontar com a evidência do que não queria.
Ainda antes de chegar a casa voltei a ter de vomitar. Encostei-me a uma árvore e vomitei o pouco que ainda tinha em mim. Eram quase só espasmos. Já não havia quase nada para deitar fora.
E foi então que percebi: As pessoas enjoam-me e fazem-me vomitar. Tenho de começar a vomitar em cima delas. Talvez isso me alivie mais depressa.
O sol batia-me na cabeça. Ergui-me e voltei à estrada. A caminho de casa. E ainda pensei Tenho de lavar os dentes. Odeio o sabor a vomitado na boca.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/07]

Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]

Matar Saudades

Passeio de braço dado com a minha mãe. Ou melhor, eu levo as mãos dentro dos bolsos das calças de ganga coçadas e ela tem a mão dela agarrada ao meu braço, e como que é puxada por mim, mas não a puxo, deixo-a ir à velocidade dela, devagar, muito devagar, com a bengala a servir de apoio, depois pára, cumprimenta alguém, há sempre alguém para cumprimentar, mas à distância, sempre à distância, levanta o braço, Olá! Boa tarde!, como se já não visse os seus conhecidos há uma eternidade. E é! Na sua contagem, é uma eternidade o tempo que tem estado em casa, a ver a vida a fugir-lhe, o tempo a encurtar, conta os anos, os aniversários que faz, almoçamos juntos no dia de anos e diz Que para o ano aqui possamos estar outra vez! E vamos estando, mal ou bem vamos estando por aqui e talvez consigamos chegar a outro aniversário. Já não falta muito! Pois não, mãe, já não falta muito.
Passeamos ali à volta da casa dela. Olha as montras. Conta-me histórias. Histórias que já ouvi tantas vezes. Outras são novas. Não sei se são histórias reais ou se as inventa. Mas ouço-a. Às vezes respondo-lhe. Mas eu estou ali para a ouvir falar, não para comentar. Passeamos pela cidade. Eu à velocidade dela, pela cidade quase-deserta e sinto-lhe uma certa tristeza no olhar. O vazio incomoda-a. Gosta de ver gente. De ver gente nova a andar sempre atrasada pelas ruas da cidade.
Recordo quando era ela que me levava. Mãos-dadas. O meu braço esticado. Puxado pela sua velocidade. Naquele tempo era ela que andava depressa. Às vezes tinha de correr. Correr para acompanhar o passo decidido da minha mãe.
Recordo um dia na praça da Nazaré, eu e a minha mãe de mãos-dadas a caminho da praia. Eu estava chocho. Estás a chocar alguma, dizia-me a minha mãe. Parávamos no quiosque a meio da praça e eu escolhia umas bandas-desenhadas. Na altura eram só histórias aos quadradinhos. O Fantasma. O Mandrake. O Buffalo Bill. Histórias do FBI. Histórias do Faroeste. E naquele dia estava chocho e acabámos por regressar a casa. Eu fui-me deitar na cama. Veio o médico. Estava doente. E fiquei de cama durante muito tempo. Mas as revistas foram sempre chegando. Já não era eu que as escolhia, era a minha mãe. Talvez o meu pai. Devorava-as todas. Mais que uma vez. Fiquei muito tempo em casa naquela altura. Lembro-me da saturação. O estar farto, mesmo com tantas histórias aos quadradinhos para ler. Mas já não saía com a minha mãe. Já não andava na rua de mãos-dadas com a minha mãe. Já não corria. Já não via pessoas. Já não ouvia o barulho ensurdecedor da cidade a pulsar.
Percebo como a minha mãe está saturada de estar em casa. Sozinha em casa. E os cuidados que lhe estou sempre a recomendar. Mas acho que tenho de alargar o cordão sanitário à sua volta.
Vamos passear, mãe. Vamos à rua. Vamos passear pela cidade. Ver as montras. Ver pessoas. Dizer olá às pessoas conhecidas. Contares-me as mesmas histórias de sempre. Ou outras que te lembres. Ainda te levo à padaria para comprar pão. Talvez uma broa de milho. Ao talho para comprares umas iscas de vaca de que tens saudades. Talvez à peixaria para ver se compras uns jaquinzinhos, não é mãe? Ou umas petingas. Temos de matar saudades de tudo o que temos saudade, não é mãe?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/24]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]