Ida à Praia

Hoje peguei no carro e saí de casa. Nem tomei banho nem me vesti. Fui com as calças de fato-de-treino que enfiei pelas pernas quando me levantei e uma sweat de algodão. Nem fiz café nem torradas nem comi nada. Nem fumei sequer o primeiro cigarro do dia. Calcei logo as sapatilhas e saí da casa.
Estava a dar em doido assim fechado. A espreitar pela janela. A ver o vazio nas ruas. As caras à janela. As caras mirradas como a minha nas janelas. A fumar cigarros. Uns atrás dos outros. Enquanto uns enfiaram sacos familiares de papel-higiénico nos carrinhos de supermercado, eu aviei-me de volumes de cigarros e vários pacotes de tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Falta-me a paciência. Não me falta tabaco.
Saí de casa e entrei no carro. Saí pela cidade. Pela cidade vazia. Quase vazia, afinal. Fui-me cruzando com algumas pessoas a caminhar pela cidade. Uns com cães. Outros sem cães mas solitários. Uns caminhavam decididos. Outros apalpavam terreno. Vi um velho de mãos atrás das costas à beira de uma passadeira a ver quem poderia passar. Passei eu. Levantou-me a mão num cumprimento cúmplice. Respondi também com o levantar da mão. Acho que o velho estava a dizer-me que éramos os corajosos, nós os que estávamos na rua. E eu só queria que ele percebesse que eu não era nenhum herói mas que precisava de ver o mar. Precisava mesmo de ver o mar. Não precisava de ir à praia, de mergulhar, de nadar, nada dessas coisas tão veraneantes como o tempo que parece estar, mas ver, só ver. Era só o que eu precisava. Uma espécie de Xanax da alma. Ver o mar.
Cruzei a cidade. Havia mais gente na rua que imaginava. Talvez bem menos que aquilo que tenho visto noutros lugares através da televisão e das redes sociais. Somos um povo de rua. Gostamos de estar na rua. É por isso que não entendo as poucas esplanadas na cidade, no país. Um país de bom tempo e poucas esplanadas. E as poucas esplanadas que existem estão cobertas. Nem todas, claro.
Cruzei a cidade, passei os subúrbios e deixei-me ir estrada fora até à praia.
Passei pelo pinhal ainda morto, com alguns focos de vida teimosa a brotar entre os cadáveres das árvores carbonizadas. Muito verde e violeta e amarelo a pintalgar o chão de onde ainda se erguiam árvores mortas, ainda não cortadas depois de todo este tempo em que o Pinhal do Rei ficou reduzido a pouco mais de vinte por cento da sua área original, anterior ao grande incêndio. Vê-se, aqui e ali, algumas tentativas de replantação. Mas está tudo ainda muito no início. Há ainda enormes pilhas de troncos de madeira que era suposto terem sido vendidas. Para as celuloses. Para lenha. Mas estão aqui. A apodrecer. Esquecidos.
Chego ao Vale Furado. O pequeno parque em terra batida frente ao Mad, fechado, está vazio. Não há ninguém. O dia está claro. Faz sol. Está calor. Saio do carro e aproximo-me da arriba. Sento-me em cima do varandim de madeira a olhar o mar lá em baixo. Não há ninguém na praia. Só o mar a rebentar as suas ondas e a espraiá-las pelo areal. Consigo ver a costa até à Praia do Norte e o Forte da Nazaré. Não dá para ver se há surfistas ou não na água. Estou demasiado longe para o perceber. Também vejo as Berlengas. Daqui de cima parece tudo muito calmo e tranquilo. Eu respiro. Respiro fundo e com calma.
Acendo um cigarro e deixo-me ali estar por um bom bocado, a apanhar os raios de sol, a maresia que espero que chegue cá acima, e a ver a melodia das ondas, acima abaixo, que me relaxam.
Depois, algum tempo depois, alguns cigarros depois, percebo que retemperei baterias. Fazia-me falta esta comunhão com o mar.
Vi chegar um outro carro com um casal. Voltei para dentro do meu carro e regressei a casa. Enquanto conduzia de regresso percebi que estava com vontade de reler o Knausgard. Tempos de excepção precisam de literatura de excepção. Era tempo de voltar à Morte do Pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/29]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Não Tenho Medo de Morrer

Não tenho medo de morrer.
Tenho medo da doença, da deficiência, da incapacidade. Tenho medo da consciência da morte. Tenho medo de ficar ainda mais dependente, do que já sou, dos outros.
Não tenho medo de morrer.
Tenho medo do medo das pessoas que me são queridas. Tenho medo de filho e de pai. Tenho medo de amante e de amado. Tenho medo de amigos, alguns, os que trago aqui no peito, os que não são sangue mas são alma.
Mas não tenho medo de morrer.
A minha vida já vai longa. Acho que vivi uma boa vida. Pode não ter sido a melhor das vidas, mas foi a vida que consegui viver da forma que quis e me foi possível. E tenho gostado da vida que fui vivendo. Se pudesse voltar atrás acho que poderia repetir quase tudo. Quase tudo. E quase tudo diz muito sobre a vida que vivi.
Por isso não tenho medo de morrer.
O que se está a passar agora no mundo assusta-me, mas não me faz temer a morte. Faz-me ter medo pelos outros, os que ainda têm tanto para viver, os que ainda não puderam viver o que eu já vivi. Os que ainda acalentam planos para o futuro e têm esperança.
Eu não tenho medo de morrer.
Tenho mais medo dos caminhos que escolhemos e que nos trouxeram até aqui. Não todos os caminhos, mas muitos deles. Alguns caminhos que fomos percorrendo nestes últimos tempos são caminhos de cabras em direcção a sítio nenhum que não o lucro pessoal de meia-dúzia de gente egoísta.
Temo pela falta de memória e desconhecimento da História. Temo pela verdade escondida e pela mentira gritada alto para se fazer ouvir como a única verdade. Temo pela mentirosa falta de alternativas. Temo pela falta de líderes capazes e pela glorificação de bestas inúteis e mesquinhas. Temo pela ignorância geral. Pela falta de lucidez. Pelo não querer saber. Pelo fechar de olhos.
Eu não tenho medo de morrer.
Acho que está na hora de mudarmos de vida. Chegámos do nada a isto. Ainda temos de ir de isto ao futuro. A História não chegou ao fim e este neo-liberalismo canibal não pode ser, não é, o único caminho. O Homem tem de ser o centro da vida, como o está, parece, a ser agora. Ou quase.
O que a vida me ensinou é que há sempre alternativa. Há sempre outro caminho. Mesmo quando achamos que não. Mesmo quando todos nos gritam que não existe. Porque existe. E a História tem demonstrado que há sempre outra escolha.
Eu vejo-os já a fazer contas. E estarão certas as contas, com toda a certeza. Eles são economistas, gestores, matemáticos, professores. As contas estão certas. Nem ponho em causa os seus resultados. Os elementos da equação é que talvez sejam os errados. Os elementos da equação é que talvez sejam outros. Talvez devam ser outros.
Penso sempre numa prova de 100m, cujo recorde está constantemente a ser quebrado nos Jogos Olímpicos ou em cada novo campeonato do mundo. É a superação pessoal e humana de corrida para corrida. E imagino que mantendo esta progressão de quebra de recordes, chegaria o dia em que o atleta cruzaria a meta no momento da partida. Ora, isso não é possível. Há um espaço a percorrer que não admite a ausência do tempo. O mesmo se passa com o capitalismo como o conhecemos. É uma bizarria pensar que haverá sempre um crescimento constante. Há-de chegar uma altura em que o crescimento não é mais possível porque se chegou ao limite do espaço-tempo como na prova de 100m.
Para que se encontrem novos caminhos é necessário mudar os elementos da equação. Se calhar o Homem, e não o dinheiro ou o trabalho, tem de passar a estar no centro da economia. Um Homem vale muito mais que todo o trabalho físico que conseguir produzir. Porque um Homem também é muito mais que os braços e as pernas e os turnos numa fábrica a fazer rolhas. Contar estórias ajuda a prevenir o caos, a afastar a loucura. Olhem à volta. Olhem o que está a acontecer. Reparem na importância das coisas. Vejam o valor de uma simples carcaça feita nestas condições, por quem a faz, e o que é necessário ultrapassar para a adquirir. Reparem na importância da música, do cinema, da literatura, nestes dias que correm mais devagar. Reparem na importância que, neste momento, se descobriu na calma, no lazer, no tempo. Reparem na relevância de médicos, enfermeiros, cientistas, motoristas, padeiros, merceeiros… Qual a contabilização destes factores numa equação?
Ao ver o que se passa hoje no mundo, tenho esperança que as coisas mudem. Porque no meio do caos e do terror que estamos a viver, há um humanismo e uma civilidade de que duvidava.
Claro que há bolsas de gente má, gente malformada, gente mesquinha e gananciosa, gente boçal que continua a querer colocar o pé em cima da cabeça alheia para chegar mais alto que os outros. Mas os bons, os de coração puro, os bem-intencionados e amigos dos amigos e de gente que nunca viu em lado nenhum estão em franca maioria. Não sei se é o medo da morte. Não sei se é o medo da perda de um modo de vida. Mas há vida nestes dias e nestas gentes.
Eu não tenho medo de morrer.
E estou num grupo de risco. Tenho problemas respiratórios e já estou a entrar na idade da velhice. Se for infectado pelo Covid-19, há fortes possibilidades de não conseguir sobreviver. Mas não tenho medo de morrer. Tenho pena de deixar a ausência aos meus amores. Tenho pena de deixar a solidão a quem me ama. Mas fico descansado porque acho que, talvez, talvez alguém tenha aprendido alguma coisa com estes dias e a nossa civilização possa arrepiar caminho e criar um novo paradigma mais de acordo com as esperanças da maioria. Talvez.
Eu não tenho medo de morrer. E se tal acontecer, vou de coração cheio pelo que tenho visto nos últimos dias. Dias de morte, mas também dias de enorme coragem e humanismo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/19]

A Queda, parte 03 e final

Acabou-se-me o cigarro. Morreu entre os meus dedos. A incandescência queimou-me as peles soltas nos cantos, junto às unhas, onde a pele está amarelada, um amarelo-hepatite que é, afinal, dos cigarros.
Estou sentado no chão da varanda, encostado à parede. Preso na minha incapacidade de reacção.
Reajo. Tento reagir. Mas não me mexo. Sinto um fio de baba a cair-me do canto da boca e levanto, a custo, a manga da camisola. E limpo-me.
Cruzo as pernas nelas próprias. Endireito as costas. Ergo os braços como numa prece. Junto polegar e dedo do meio. Fecho os olhos. Expiro todo o ar que tenho nos pulmões. Esvazio-me.
Sinto-me desacelerar. Sinto as batidas do coração espaçarem-se. Espaçarem-se cada vez mais. Cada vez um bater mais distante. Cada vez um bater mais silencioso. Até deixar de bater. Até deixar de o ouvir bater. Até parar.
Tudo pára.
Rebobino o filme.
Faço a estória regressar atrás. Não ao início, ao princípio de tudo onde tudo era o verbo e o início do livro. Mas ao início do último capítulo. Este capítulo onde ainda estou. Regresso.
Refaço.
Recomeço.
Chego ao Vale Furado, paro o carro na arriba e deixo-me ficar sentado no interior. Bebo uns goles de vodka. Fumo um cigarro. Sinto o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embala-me. Penso no trabalho que acabara de mandar à merda, como já tinha mandado a minha mulher, os meus filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspiro. Sinto-me adormecer a pensar que o dia de amanhã nunca será a véspera de hoje.
E então, vejo-a. Desperto.
Os raios de sol brilhantes a baterem-lhe no cabelo. O fumo que se desprende do cigarro que, imagino, está a fumar, corre em espiral para o céu e desfaz-se antes de lá chegar. Ela está sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas.
Ela está sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fuma um cigarro. Adivinho-lhe o cigarro entre os dedos da mão que leva à boca. O fumo dissipa-se logo acima do cabelo dela brilhante pelo sol. E penso A miúda é gira. E é. É bem gira. E ainda penso O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorrio e penso O mesmo que eu. E dou uma gargalhada. Uma gargalhada tonta.
E, de repente, sinto uma vontade louca de sair do carro, dirigir-me a ela e convidá-la para beber uma cerveja na esplanada do Mad. E é o que faço. Saio do carro. E nesse mesmo momento, ela levanta-se da cerca. Eu chamo-a. Ela vira-se para mim. Eu aproximo-me. Encosto-me à cerca. Peço-lhe lume. Ela diz que tenho o cigarro acesso. E tenho. Tenho o cigarro a fumegar entre os dedos da mão. Sinto-me corar de vergonha. Ela sorri. Eu também. Encho o peito de ar. A alma de coragem. Convido-a para beber uma cerveja na esplanada do Mad. Ela pára de sorrir. Hesita. Olha para o penhasco. Olha para o mar ao fundo do penhasco. Olha para longe, para longe no mar, talvez para as Berlengas. Olha de novo para mim. Volta a sorrir. Aceita.
Eu estendo-lhe a mão para a ajudar a passar a cerca para o lado da cá onde eu estou. Ela agarra-me na mão. Sinto-lhe a palma da mão transpirada. Sinto-a nervosa. Ajudo-a a passar a cerca. Quando passa próximo de mim vejo umas gotas de suor a escorrerem pelas frontes. Cheiro-a. Cheiro-lhe o medo. Não de mim. Mas medo. Sinto-a com medo. Aperto-lhe a mão com segurança. Ela quase tomba ao passar uma das pernas por cima da cerca mas eu agarro-a. Estou aqui, afirmo sem falar.
Caminhamos em silêncio até à esplanada do Mad. Bebemos umas cervejas. Depois, e com ajuda do álcool, começamos a falar. A conversar. Na verdade ela fala. Eu ouço. E que prazer é ouvi-la. As conversas dela são música. E o tempo passa. E chega a noite. A esplanada fecha. Passamos para o interior. E o interior fecha. E saímos para a rua. O céu está estrelado. Não está frio. Apetece-me ir ao banho. Apetece-me ir nu a um banho nocturno no Vale Furado. Mas não digo nada. Não lhe revelo as minhas vontades. Ofereço-lhe boleia para Leiria. E ela aceita.
E depois… E depois é uma outra estória que não cabe aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/06]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

A Criança

O velho apontou para uma pequena tenda rasgada. Uma pequena tenda rasgada ao pé de outras pequenas tendas rasgadas, montadas umas ao pé das outras mas cada uma à sua maneira e virada para seu sítio. Juntas mas separadas. E depois disse É aquela, e eu vi a boca do homem sem dentes. A língua a chicotear suavemente o céu da boca à procura da fonética para que eu entendesse o que dizia à falta dos dentes a ajudar. É que nem um para amostra. E questionei-me como é que o homem comia. Como é que rasgava a comida? Como é que a mastigava? E percebi que aquele homem, aqueles homens ali, aqueles homens e mulheres que viviam ali naquelas pequenas tendas já não deviam comer há muito tempo. Talvez uns goles de vinho, que escorre garganta abaixo e ajuda a esquecer a miséria onde vivem, e uns bocados de pão duro amolecido com água da chuva. Não são precisos dentes para engolir pão amolecido pela água da chuva. É uma sorte ter chovido, mesmo assim. E depois vi os rasgos nas tendas onde este homem e os outros vivem e arrependi-me de ter pensado o que pensei. Há gente que não precisa de chuva.
Acenei um agradecimento ao velho e avancei até à tenda que ele indicou. Olhei para a tenda. E pensei E agora? O que é que se faz frente a uma tenda? Não se pode bater à porta. Bato palmas? Chamo por alguém? Olhe, se faz favor! Não. Não sei.
Agachei-me frente à entrada da tenda. Estava aberta. Não tinha fecho. Mas o tecido de nylon da porta estava caído sobre a entrada. Aproximei-me. Estiquei a mão e levantei-o. Olhei lá para dentro. Senti o odor azedo que saía de lá. Vi um corpo deitado, enrolado em folhas de papel de jornal. Vi uma mancha a meio. Uma mancha que saía debaixo do corpo. Uma mancha escura. Ao sentir-me, o corpo mexeu-se. Vi uns olhos escondidos em buracos profundos olharem para mim sem grande interesse. Era uma mulher. Talvez uma rapariga. Era difícil de dizer a idade. A cara estava suja. Cheia de rugas. O corpo estava escondido debaixo das folhas de jornal. E perguntei-me Como é que alguém pode viver assim?
Os meus olhos cruzaram-se, num dado momento, com aqueles olhos mortos. Aquela mulher estava morta. Não morta de corpo frio e sem respirar. Morta no coração. Morta na alma. Morta nas esperanças de vida que qualquer pessoa devia poder ter. Aqueles olhos não tinham esperança. Não tinham vida. Aqueles olhos eram os olhos de alguém que a vida já matou.
Como é que chegámos aqui? Como é que podemos lutar pela vida, combater o aborto, proibir a eutanásia, prevenir o suicídio, se depois não damos condições de vida digna a estas pessoas? É muito simples cuspir É a economia! e depois? O que é que dizemos a estas pessoas? O que é que dizemos a nós próprios quando nos vamos deitar numa cama quentinha de lençóis esticados e sem vincos e um edredão confortável?
Não me apetecia estar ali. Gostava que o caso tivesse sido atribuído a outra pessoa. Convivo mal com esta miséria. A vida torna-se triste. A minha vida torna-se triste. Choro. Não consigo superar a dor que me consome.
Antes de vir, antes de me ser atribuído este caso, ao olhar as redes sociais, li coisas horríveis sobre esta mulher. Não esta mulher que está aqui à minha frente, mas esta mulher que fez o que fez. As pessoas são cruéis. As pessoas são más. As pessoas são carrascos sempre prontas a baixar o machado da degola.
Respirei fundo.
O olhar morto deixou o meu, perdeu o interesse que nunca teve, e o corpo voltou a ficar quieto debaixo das folhas de jornal. E então eu disse Encontrámos a sua criança no caixote do lixo. Preciso que venha comigo. E custou-me ouvir dizer o que disse.
Silêncio. Depois ouvi um pequeno choro. A mulher chorava baixinho. Quase em silêncio. E eu sabia que não era por ela, por ter sido encontrada, a criminosa. Era pela criança. Por ter sido salva. No fundo era o que ela queria. Mas não sabia como havia de fazer. Onde é que nós falhámos? Nós todos?
O corpo começou a levantar-se. As folhas de jornal caíram para os lados. Vi que a mancha era uma mancha de sangue. Uma mancha de sangue que a mulher, que acho que era uma rapariga, talvez uma miúda, uma criança com certeza, estava também com uma mancha de sangue na calças de fato de treino que envergava. Ela ergueu-se com os braços juntos e os pulsos oferecidos a mim. Oferecia-se às algemas. Eu levantei-me e afastei-me para trás. Dei-lhe espaço para sair da pequena tenda.
Ela saiu. Senti o cheiro que saiu com ela. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte. Vi duas cabeças à entrada de duas tendas vizinhas. A dar fé do que estava a acontecer.
Senti vontade de vomitar. Mas aguentei.
Quando ela se ergueu, na rua, fora da tenda, vi-a. Pela primeira vez vi-lhe a cara. A cara de uma criança. E saiu-me O que é que nós te fizemos?

[escrito directamente no facebook em 2019/11/08]

As Congressistas

A miúda, mulher, preta, somali, congressista, defendia-se dos ataques torpes do presidente norte-americano atacando-o pela sua misoginia, racismo, sexismo, falsidade e mentira.
Eu estava a comer umas sardinhas em lata, picantes, com umas fatias de pão de Mafra, e umas azeitonas mistas, pretas e castanhas, e empurrava tudo com um copo de Courelas de Pias (o resto de uma garrafa já aberta), que se transformou em dois copos para terminar a garrafa e deitá-la fora para o depósito verde para o qual tenho de andar dois quilómetros a subir (no regresso é a descer), enquanto me ia escandalizando com a liberdade boçal de tal personagem, o presidente, na reprodução do discurso nojento de ataque à dignidade das congressistas representantes dos eleitores norte-americanos.
Tinha o televisor a preto e branco da cozinha a debitar o Telejornal. Aquilo irritava-me. Aquela personagem andava a dar-me cabo dos nervos e não consegui perceber, nem consigo ainda hoje perceber, que continue a passar incólume às mentiras que propaga e à sua presidência errática feita através da rede social Twitter, massacrando pessoas a torto-e-a-direito e gritando queixinhas quando atacado.
Acabei as sardinhas. Duas fatias de pão. Uma mão cheia de azeitonas. Os dois copos de vinho tinto e a garrafa vazia no lixo verde com o qual teria de subir dois quilómetros (mais dois a descer no regresso). Acendi um cigarro. Fiz um tacho de café de chicória e continuei a ouvir o discurso das outras congressista atacadas. Achei uns belos e potentes discursos de gente sem-medo. Mas achei que os americanos eram uns tontos que correm atrás de um fanfarrão que grita que é bom, espectacular e excelente negociador, tudo coisas por provar, quando a única coisa certa e provada é a gravação da sua auto-glorificação por colocar as mãos nas vaginas das mulheres, independentemente de elas o desejarem ou não.
O Telejornal voltou a mostrar outro discurso do presidente em que volta a atacar as quatro congressistas norte-americanas dizendo-lhes que regressem aos países falhados de onde provêm.
Apaguei o cigarro no prato com as espinhas das sardinhas em lata, picantes, e fui ao quarto, ao armário do quarto, buscar a caçadeira que fora do meu pai, e que nunca utilizei. Enfiei-lhe dois cartuchos e disparei sobre a televisão a preto e branco da cozinha onde estava a imagem do presidente a espumar o seu ódio. A televisão explodiu.
E eu disse, alto, alto como se fosse para ele ouvir Este é o mesmo tipo que exigiu o comprovativo de nacionalidade ao presidente anterior. Este é o mesmo tipo que separa pais e filhos e coloca crianças em jaulas como se fossem animais. E voltei a disparar. O que restava do televisor desintegrou-se.
Larguei a caçadeira. Acendi outro cigarro e pensei Disparei os tiros porque estava a defender a minha casa. A minha sanidade na minha casa. E tenho o direito de a defender. De me defender.
Fui até ao alpendre e olhei para as montanhas lá à frente, ao fundo, e deixei que o frio deste final de dia de Julho me entrasse pelos pulmões e me lavasse a alma.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/16]

Tenho a Vontade, mas Já Não Tenho a Idade

Sou muito bom a saltar à corda. Quando era miúdo, as miúdas invejavam-me o jeito para saltar à corda. Saltava com duas cordas movimentadas em sentido contrário uma da outra. Era raro perder. Quase nunca era a minha vez de dar à corda. Eu saltava. Se houvesse um campeonato de saltar à corda, eu ganhava. Não ganhei porque não havia. Mas ganhei duas medalhas em futebol de salão (na altura não havia futsal, isto foi num outro tempo, um tempo antigo e de expressões diferentes para falar do mesmo). A piada das medalhas é que as ganhei como guarda-redes da equipa que venceu, em dois anos consecutivos, o campeonato do colégio. Eu, guarda-redes! Até a mim me custa a engolir, mas foi verdade. É verdade. Na rua, nunca joguei à baliza. Ninguém da Malta da Rua conheceu esta minha faceta. Na rua, eu era um nove. Um descendente de Nené. Nunca sujava os calções. Não corria muito. Andava por ali à mama, como se dizia. Mas estava sempre no sítio certo para colocar o pé e marcar golo. Golos. E dar vitória às minhas equipas. Às minhas equipas construídas na rua. Dois gajos saltavam para a frente um do outro e depois iam andando, um pé de cada vez, um pé à frente do outro, e o tipo que pisasse o pé do adversário era o primeiro a escolher os jogadores para a sua equipa, um de cada vez em escolhas alternadas. Primeiro um, depois o outro. E repetia-se até se acabarem os jogadores disponíveis. Às vezes colocava-se o pé atravessado, como se fosse só metade, para lixar o adversário. Isso não vale, diziam uns. Vale, vale! Sempre valeu, ora!, diziam outros.
Agora, num tentativa estúpida de parar o tempo, tento regressar ao passado através da repetição de coisas em que era bom. Ao Stop. Ao King. À corda. Agarro numa corda que tenho aqui por casa e vou para a rua saltar. Imaginava a glória. Os meus treze anos. Os quinze. As miúdas à volta a gritar por mim. E eu, aos saltos entre as voltas de uma corda, a correr para a glória. E então faço a corda passar por cima da minha cabeça, dou um ligeiro pulo, insuficiente, a corda entrelaça-se nos pés, desequilibra-me, tropeço e caio atabalhoadamente no chão de brita. Coloco as mãos à frente para me aparar a queda e magoo os pulsos. Deslizo na brita e esfacelo os joelhos e os cotovelos. Rasgo as calças. Tenho sangue no corpo. Caiu-me uma das lentes para o chão. Bati com os lábios. Já incharam. Estou cheio de pó. Dói-me a anca. Espero que não me tenha acontecido nada na anca.
Deixo a corda lá, onde está caída. Não quero saber dela. Sacudo-me. Perco a esperança de encontrar a lente. Entro em casa. Penso que os tempos de glória já se foram. E a idade passa por mim a galope.
Entro na casa-de-banho. Dispo-me. Tomo banho. Limpo com cuidado as feridas. Dói-me a alma. Faço uns curativos. Visto um fato-de-treino.
Sento-me no sofá. Estou macambúzio. Acendo um cigarro. Ligo o iPad e acedo ao link para ver o jogo entre a União Desportiva Vilafranquense e a União Desportiva de Leiria para decidir quem sobe à Segunda Liga.
Este é o jogo que jogo melhor. Sentado no sofá. Um cigarro nos dedos. E um copo de vinho na mão. Porra! Falta-me o vinho. Levanto-me e vou buscar um copo.
Empate a uma bola no final da partida. Empate a uma bola no final do prolongamento. O Vilafranquense vence nas grandes penalidades. Foda-se! Despejo o vinho de um gole. Acabo o cigarro. Dói-me o corpo. Dói-me a alma.

Eu Sou o Filho, Eu Sou o Pai

Dia do Pai.
Onde está o meu? Onde estou eu?
Dia do Pai e estou aqui. Estou sentado. Estou sentado a um balcão. Tenho um espelho à minha frente. Um espelho meio tapado pelas garrafas. Um espelho meio despelhado pela queda do metal ou da prata que quebra o vidro e o faz, faria! reflectir.
Vejo-me mal. Uma curvas. Uma silhueta. Sou mesmo eu? Reconheço-me no meio da desfaçatez de um espelho velho e gasto?
Esse sou eu! Talvez.
Não sei onde está o meu Pai. Já o procurei entre as estrelas e não o encontro. Uso óculos. Preciso de lentes mais fortes. Lentes de fundo de garrafa de vinho tinto forjado no terroir alentejano. Lentes que desbravem o cosmos. A alma. A vida e a morte.
Não sei onde estou eu próprio. Eu fugido. Eu Pai.
Estou aqui, sentado ao balcão a tentar descobrir-me num espelho que já não espelha. Tenho um copo vazio à minha frente. Cheio. De novo vazio. Cheio outra vez. Vazio de novo.
Isto é um jogo.
A Cabra-Cega que não vê. A Apanhada que não agarra. As Escondidas que finge que não encontra. Mas sabe. Sabe onde está. Mas não diz. Não vê. Não quer saber.
Mas quer. Quer saber. Mas não sabe como.
Onde está o meu Pai? Onde estou eu?
Porque fugi? Não foi dele. Deles. Foi de mim. Mas não sei porquê. Ou sei. Sei mas não quero saber.
O copo continua cheio. E vazio. E de novo cheio.
Vejo-me ao espelho. Mas não me vejo.
É um jogo.
Tiro o revólver do cós das calças e coloco-o em cima do balcão.
É o dia do Pai.
Onde está o meu?
Onde estou eu?
Bebo do copo cheio. Fica vazio.
Estou ao balcão. Não sei quanto tempo vou ficar aqui. Não sei se quero ficar aqui. Nem sei se quero ir embora. Não sei nada. Não quero saber nada.
Só queria não ser nada. Não ser Pai. Nem ser Filho. Nem Irmão. Nem ser Eu.
Pego no revólver. Pego no revólver e faço girar o tambor. Tem balas, o revólver?
Olho o revólver na minha mão. O tambor a girar. E penso que tenho na minha mão a minha vida; E penso que tenho na minha mão o disco dos Beatles.
Tomorrow Never Knows. E é isto. Amanhã logo se vê. Porque não agora?
E o tambor do revólver gira. Gira no revólver. Não sei se o tambor tem balas. Não sei já o que tenho na mão. Se a minha vida. O amanhã. Todo o lado.
Onde é que está o meu Pai?
Onde é que estou eu?
E tu? E vocês?
Pode isto acabar bem?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/19]