Bang Bang, parte 03 e última

[continuação de ontem]

O dia estava a cair. Havia gente a ir embora da praia. Ela continuava deitada na cama de borracha a ondular ao sabor da maré. Eu, farto de mergulhar naquele mar chão, saí da água e fui sentar-me na esplanada de uma casa de pasto espetada no meio da praia. Pedi Una cerveza e calamares. E assim foi. Veio uma imperial e uma caixinha de latão com calamares.
Ela levantou a cabeça à minha procura. Eu acenei-lhe da praia, da esplanada da praia. Ela viu-me e sossegou. E deixou-se estar a baloiçar naquelas águas quase paradas.
Eu fiquei ali a apreciar o que parecia o paraíso. Tínhamos dinheiro. Estávamos apaixonados. Fazia bom tempo. A água do mar estava quente. A cerveja fria e os calamares eram saborosos. Precisava de guardar aquele tempo o máximo que me fosse possível. Sorvi tudo gulosamente como se o fim do mundo estivesse a espreitar. Os bons tempos estavam prestes a terminar. Eu sentia-o.
Naquela noite haveríamos de alugar um quarto de hotel com varanda e vista sobre o mar. Aquele mar. Faríamos amor na varanda. Faríamos amor a olhar a Lua reflectida no mar. Depois ainda fumaríamos uns cigarros e haveríamos de ter uma grande conversa. Uma conversa onde falaríamos de tudo. De nós e do nosso futuro. Haveríamos de falar do nosso futuro, do nosso fabuloso futuro, um futuro partilhado a dois, com filhos, dois, talvez três, duas raparigas e um rapaz, talvez ao contrário, mas antes iríamos conhecer a Europa, conhecer o Mundo, abrir os olhos e a mente, olhar para além dos horizontes e perceber que não éramos as únicas pessoas neste planeta, um planeta espectacular à espera de coisas espectaculares feitas por pessoas como eu e ela, pessoas espectaculares.
No dia seguinte iríamos passear por Torremolinos, os dois, os dois de mãos dadas, felizes com o que a vida nos estava a proporcionar, e ela haveria de sofrer um acidente. Seria atropelada numa passadeira por um grupo de miúdos ingleses, bêbados, a conduzir um carocha cor-de-rosa, que não conseguiam perceber o conceito de conduzir à direita. Ela iria morrer antes mesmo de chegar ao hospital para onde seria levada e eu acabaria por andar perdido pela Costa del Sol, solitário, de calções e chinelos nos pés, sem tomar banho nem lavar os dentes, à procura dela, à procura de uma ideia dela, a tentar perceber a minha vida sem ela.
Haveria uma pergunta que me iria acompanhar nesses dias que se aproximavam: O que é que irei fazer sem ela? O quê?
Acabaria por voltar para casa. Pegaria no Peugeot que o meu pai me tinha dado e regressaria a Leiria, mas ainda demoraria algum tempo. Iria fazer toda a costa sul. Entraria por Vila Real de Santo António e iria fazer o Algarve e depois começaria a subir o litoral alentejano e demoraria dois meses a chegar a casa, dois meses que demoraria o meu luto por ela e durante todo esse tempo iria deitar-me com todas as miúdas que se quiseram deitar comigo, sem escolha, aberto a tudo e a todas, e choraria no regaço de muitas delas, que me tratariam sempre bem, com carinho, dar-me-iam colo, e muito amor, até que finalmente haveria de chegar a Leiria, fechar-me-ia em casa e começaria a escrever, a escrever muito, a escrever estórias que tinha vivido, ou não, já não sabia o que era verdade ou mentira, o que tinha realmente vivido ou imaginado, mas escreveria tudo, tudo o que me lembrasse, tudo o que pensasse que era vagamente verdade, e depois iria depositar tudo numa gaveta e iria esquecer tudo outra vez, até que pudesse nascer de novo e ser outra vez uma pessoa, alguém completo a quem as estórias já não magoariam, o que me iria trazer até aos dias de hoje.
Mas então, naquele tempo, iria procurar trabalho e o primeiro trabalho que encontraria seria o primeiro trabalho que aceitaria, iria trabalhar por turnos numa fábrica de rações na periferia da cidade, fábrica onde ainda hoje trabalho, trabalho que me embruteceu a alma e as mãos, ásperas, grossas, grosseiras, mãos que nunca mais tocaram a seda de uma pele como a dela, mas que me foi aguentando a vontade de estar vivo e o poder pagar o preço desta vida que já não é querida, só suportada.
Ainda hoje trabalho na mesma fábrica de rações a fazer as mesmas coisas que comecei a fazer há quarenta anos. O meu olfacto não detecta mais nada que o cheiro daquelas rações para alimentar animais. Quando chego a casa escrevo estórias que ninguém me paga. Escrevo histórias que ninguém lê. Escrevo estórias que aconteceram ou não mas, escrevo estórias que são o legado da minha passagem por cá. Publico estas estórias nos redes sociais, não à espera de reconhecimento, mas à espera que fiquem aqui para sempre e que, de qualquer forma, me deem a imortalidade que não consegui de outra maneira. E evitaram o Bang Bang.
Mas isso ainda não aconteceu. Ainda está para acontecer. E neste momento, estou com uma imperial nas mãos e alguns calamares à espera para serem comido por mim. E ali ao fundo, no mar, no mar onde a noite já começa a cair, está o amor da minha vida com quem irei fazer amor esta noite. A nossa última noite. Mas eu ainda não sei disso e, por isso, deixem-me ser feliz mais umas horas, se fazem favor.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/08]

A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

Para Sul

Saí cedo de casa. Saí de carro e apanhei a EN1. Fui pela EN1 até Aveiras.
Passei a noite em claro. Estava ansioso. Estou ansioso. Ainda estou ansioso. Não consegui pregar olho a noite inteira. Mas nem sei porquê. Levantei-me várias vezes para beber água. Fumei vários cigarros. Cheguei a beber um copo de vinho. Nada funcionou. Devia ter tomado um Zolpidem, mas já não tinha nenhum.
Sou como as crianças. Mal despertaram os primeiros raios de luz, levantei-me, tomei banho, vesti-me, entrei dentro do carro e saí sem destino. Fui andar de carro. Até sentir-me cansado. Até ter vontade de dormir.
Cheguei a Aveiras e perguntei-me como como é que consegui chegar até ali. Os responsáveis pelas estradas de Portugal (deve haver responsáveis, não?), não devem sair dos corredores acondicionados do poder. Esta EN1 está abandonada. Sem manutenção. Enormes quantidades de buracos. Autênticas crateras. Ausência de asfalto. Bermas sujas. Bermas cheias de mato. Restos de pneus de camião ao longo da estrada. As mesmas placas brancas por onde passava, nos anos 80, quando ia estudar para Lisboa e a auto-estrada começava precisamente ali, em Aveiras, depois de uma sandes de panado e uma média Sagres no Pôr do Sol 2. Se calhar é para obrigar os viajantes a utilizarem as auto-estradas exploradas por entidades privadas. Mas haviam de ver a quantidade de gente que se movimenta pela Nacional. Não há dinheiro para pagar todas aquelas portagens. Não com os salários que se praticam. E os cafés de merda, a preço gourmet, nas estações de serviço?
Entrei na auto-estrada e segui até Lisboa. Apanhei o eixo Norte-Sul e decidi continuar em frente. Para baixo. Para baixo todos os Santos ajudam, costumava dizer a minha mãe. E foi para baixo que decidi ir. Fiz o o eixo Norte-Sul, meti-me pela ponte 25 de Abril, cruzei o Tejo, não havia muito trânsito e continuei. Pensei Vou até ao Algarve.
Tinha acabado de passar a saída para Sesimbra e mudei de ideias. Vou até Setúbal. Comer choco frito.
Cheguei a Setúbal e estacionei na Luísa Todi. Havia bastantes lugares. O parquímetro só recebia até às treze. Depois era gratuito. Andei às voltas a fazer horas e depois fui até ao porto. Não reconhecia nada daquilo. Não reconhecia nenhum daqueles restaurantes. Era meio-dia e, um deles, estava já cheio de gente. Decidi que era ali, precisamente ali, que ia almoçar. E almocei. Choco frito. Duas imperiais. Paguei. Fumei um cigarro a olhar as traineiras. Mandei a beata ao mar, e voltei a arrancar de carro. Para sul. Sempre para sul. Ainda não tinha sono.
Fui dar a volta ao estuário do Sado. Depois voltei para trás, quase até à Comporta. Fui ultrapassado por inúmeros Mercedes, BMWs, dois Maseratis e dois Tesla. Antes de chegar à Comporta, virei para Melides. A Comporta não é para mim. Tem muitos mosquitos.
Passei por Melides, fiz Sines, ainda espreitei para São Torpes (à pinha) e continuei para Porto Covo. Nunca gostei de Rui Veloso nem nunca quis ir à ilha do Pessegueiro. Mas estava cheio de gente. Muita gente na praia (imagino), muita gente nas ruas. Assusto-me com muita gente. Continuei.
Em Vila Nova de Milfontes, uma praia da minha juventude, onde enterrei muitas lágrimas e amores na areia, estava igual. Muita gente. Assustador. E eu sem sono. Continuei.
Cheguei à Zambujeira do Mar. Estava nos antípodas. As ruas desertas. Com um ar triste e desolado. Quase ao abandono. O facto de não haver quase ninguém, era uma benção, um convite a sentar-me por ali e beber uma cerveja e fumar um cigarro. Esperar o sono. Mas não consegui. Tinha histórias bonitas vividas ali. Não conseguia estragar tudo com aquela desolação. Continuei.
Enquanto ia andando para sul, pus-me a pensar na últimas notícias. Toda a gente se queixava da falta de clientes, de turistas, de gente que pusesse a vida económica a funcionar depois destes meses de confinamento. Mas o que eu via ali, o que eu via ali com excepção da Zambujeira do Mar, era Portugal a fazer a economia mexer. Havia muita gente. Muita gente a consumir. Muita gente de férias. Muita gente a utilizar o trabalho dos outros, a pagar o trabalho dos outros. Alguns de máscara. Mas nem parecia estarmos a meio de uma pandemia sem vacina. Portugal parece ter saído todo para férias em Agosto.
Do que se queixa esta gente? Esta especificamente. Porque há gente, realmente a passar mal. Há gente que não tem mesmo dinheiro para comer. Mas esses não são estes. Esses já estão habituados à míngua e a nunca serem ouvidos.
Quando dei por mim, fui andando tanto para sul que descobri-me na ponta de Sagres.
Ainda não tinha sono nem estava cansado. Talvez com um pouco de sede. E uma vontade de fumar um cigarro.
E agora? pensei
Pus o pé no acelerador e acelerei.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/08]

Assaltos

Naqueles anos andava com ela, de carro, a percorrer o país de lés-a-lés, a fazer pequenos assaltos para podermos comer e ficarmos a dormir em pensões. Às vezes ficávamos a dormir no carro. Na rua. Queríamos conhecer o país. Nós que não conhecíamos mais que a nossa pequena cidade, de repente percebemos que o país era muito maior e bem mais interessante que a casa, a rua, a cidade pequena e aquelas pessoas todas iguais, pequenas e sem mistério.
Aqueles anos foram anos de muita confusão. Confusão no país e nas pessoas. Não se sabia muito bem para onde é que o país caminhava. Que país era aquele que estava à nossa espera. E nós não quisemos ficar à espera das decisões finais tomadas pela força popular ou pelas jogadas de bastidores nos gabinetes do poder. Eu e ela.
Peguei no carro do meu pai, um Morris Mini azul bebé, e fomos embora da cidade.
Primeiro fomos para o norte. Assaltámos algumas bombas de gasolina. Chegámos a dormir dentro do carro, cheios de frio, no alto das montanhas. Dormimos na praia, em Moledo. À beira da Portela do Homem, no Gerês. Numa casa de passe, na raia. Chegámos a trabalhar como empregados de bar numa dessas casas de meninas na zona de fronteira, sem saber em que país estávamos, afinal. Quando andámos por São Pedro do Sul foi um pouco assustador, um país deserto, escuro, víamos fantasmas em todo o lado, mas, ao mesmo tempo, foi uma zona que nos deu liberdade para andarmos a correr nus pelos pinhais e mergulhar nos riachos de águas geladas e fazermos banquetes com os frutos que íamos apanhar às árvores. Fazíamos amor ao ar livre. Musgo por cama, as estrelas por tecto. Às vezes era mesmo em cima do Morris, do capot do Morris e, quando vi o filme do António-Pedro Vasconcelos, fartei-me de rir. Tivemos de deixar São Pedro do Sul porque não havia nada para assaltar. Numa terra desértica, não há onde ir buscar dinheiro. Foi então que acabámos por ir para o sul.
Ficámos algum tempo em Tróia. Tróia parecia um oásis na confusão do país. Havia dinheiro a circular. Nem parecia o mesmo país que estava caído na depressão revolucionária. Havia gente em férias. Havia oferta para gente em férias. Aquele oásis não iria durar muito tempo mas, enquanto durou, pareceu qualquer coisa bem diferente do que estávamos habituados a ver, talvez só parecido nalguns, poucos sítios, e que nós ainda não conhecíamos, no Algarve.
Ao fim de dois meses em Tróia, com idas a Setúbal para comer choco frito, arrancámos para o Algarve.
Aquele quase ano inteiro que levámos a andar de um lado para o outro no Algarve foram as melhores férias da minha vida. Deixámos escritos pelas portas das casas-de-banho de todos os cafés do Algarve.
Foi no Algarve que nos aventurámos a assaltar bancos pela primeira vez. Chegámos a ser quase apanhados. Não fomos. Eu tive de disparar a pistola várias vezes. Ela nunca. E nunca disparei sobre ninguém. Nunca matei ninguém. Eram tiros de aviso. Para impressionar. Para pressionar. E dava resultado.
No Algarve chegámos a alugar uma pequena quinta na zona da serra por seis meses. Acho que foi o melhor período daquela aventura. Durante aqueles seis meses não precisámos de fazer nenhum assalto porque tínhamos dinheiro suficiente para vivermos. Mas começamos a dar nas vistas porque não trabalhávamos, tínhamos dinheiro e éramos boémios e ociosos. Chegaram a chamar-nos fascistas! Fascistas! A nós!
Ela começou a assustar-se com o rumo das coisas. Entretanto o país parecia estar a endireitar-se. Ela decidiu voltar para casa. Voltar para a escola. Tirar medicina. Decidiu sem mim. E foi. Voltou para casa. Foi estudar medicina. Tornou-se médica oncológica. Ainda trabalha no hospital Santa Maria.
Eu?
Eu fiquei pelo Algarve. Comprei uma barraca na praia. Fiz um bar. Ganhei uma concessão de praia que ainda mantenho. Não casei. Não tive filhos. Gastei tudo o que ganhei.
Agora descobri que tenho cancro no duodeno.
Ironia, não é?
Nunca mais falei com ela e também não é agora que vou falar. Já decidi que não vou fazer tratamento. O cancro no duodeno é fatal. Fatal e rápido. Vi o meu pai morrer assim, com um cancro no duodeno. Não quero fazer tratamento.
Enquanto conseguir, vou escrever estas memórias dos mais belos anos da minha vida.
E depois… E depois há-de-ser como Deus quiser.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/07]

Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]

O Homem Insignificante

Se eu fosse escritor e escrevesse um romance, contaria a história de um homem banal. Um homem banal como eu. Um homem cuja ausência de uma história é já de si motivo de ser de uma história.
Seria então a história de um sujeito banal. Na casa dos quarenta, casado, pai de dois filhos, amante, casa nos subúrbios de uma cidade de média dimensão, um cão, um gato, festas sexuais com a vizinhança aos fins-de-semana, sócio do Benfica, votante ora no PS ora no PSD, quando vota, algumas das vezes não vota porque prefere a praia com a mulher ou a amante, um trabalho insignificante mas de onde consegue retirar um salário confortável ou pelo menos o suficiente para ter um carro de cinco portas, de preferência francês mas a ambicionar um alemão, um SUV para a mulher, quinze dias de férias em Julho no Algarve numa casa alugada no interior a ver o mar lá ao fundo e a desejar ir até Varadero, jogging ao fim do dia porque é mais barato que o ginásio e assinante da Netflix que acaba por nunca ver porque nunca tem tempo para nada que não seja o trabalho e a amante, mas os filhos agradecem.
Este homem teria um passado sem história. Aluno mediano, algumas namoradas mas nada muito sério, alguns amigos dos tempos de infância, tão insignificantes quanto ele, frequentara o ensino superior num curso sem grandes saídas profissionais e que o chutou para um trabalho indiferente, nunca foi muito de ler, nem jornais, só A Bola e quase só à Segunda-feira, quando jovem ainda jogara andebol, futebol na rua com os amigos e tardes de King nas férias e aos fins-de-semana na adolescência.
Sem passado e sem presente digno de nota, tudo apontaria para um futuro igualmente anódino.
Mas é aqui, a caminho do futuro, que este homem sem história ganharia uma. Num acaso do destino.
Este homem de repente descobriria que tinha uma voz. Uma voz que seria ouvida. Tudo começaria nuns posts zangados no Facebook. Uns posts a destilar fel que teriam repercussões. Algumas respostas. Aplausos. O homem descobrir-se-ia igual a muitos outros homens iguais a ele. Homens insignificantes. Muitos homens insignificantes, cansados de o serem e de serem tratados como tal. A sua voz começaria a ser reproduzida por todo o lado. Lançar-se-ia o apelo ao homem insignificante. Seria levado em ombros. A revolta da insignificância. E, todos juntos, começariam a berrar alto, cada vez mais alto, a fazerem-se ouvir, a fazerem-se ouvir cada vez mais, e os posts do homem começariam a ganhar contornos teóricos, desejos, ideias, ensaios. De repente seria toda uma teoria política.
O homem deixaria o anonimato. Seria convidado discursar sobre as suas ideias nas suas palavras simples e certeiras. Encontraria eco por todo o lado. Afinal, são muitos os homens insignificantes que se reveriam nele. Seria convidado a ir a eleições defender as suas ideias. E ganharia essas eleições. Todos os homens insignificantes juntos descobririam ser muitos homens. E todos eles juntos chegariam ao poder.
Então, o homem insignificante, sem nenhuma história digna de se contar num romance, chegaria ao poder e iniciaria, assim, aquela que seria a sua história. A história de um romance.
Essa história seria para contar num segundo romance. Isto se eu fosse escritor e escrevesse este primeiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/13]

A Resposta

Desde que fiquei sem trabalho tenho vindo até à Nazaré.
Gosto de caminhar ao longo da marginal. É o calçadão do Oeste.
Caminho debaixo da chuva e do sol. Em dias de frio e de calor. Cheiro a maresia. Encho o peito e os meus dias.
Às vezes vou até à beira-mar. Às vezes molhos os pés. Às vezes caminho ao longo da rebentação. Vou a ouvir aquele rebentar das ondas ao meu lado, quase hipnótico, sedativo. O mar atrai-me. Gosto dele. Tenho-lhe medo.
Às vezes saio lá de baixo encharcado dos pingos das ondas furiosas. Às vezes é só mesmo da água da chuva que ignoro e esqueço que cai.
Às vezes fico ali parado na marginal, perto da antiga lota que hoje é uma outra coisa qualquer cultural, acho que nunca lá entrei dentro, fico ali a olhar para os barcos parados como um museu vivo. Ali vejo as cascas de noz com que os homens corajosos da Nazaré se lançavam ao mar, onde muitos deles morreram e por quem muitas mulheres, mães, filhos gritaram as dores da ausência. Agora são uma memória.
Às vezes, quando tenho algum dinheiro, compro uns carapaus secos nas peixeiras de rua para turista. Mas os carapaus são bons na mesma. Trago-os para casa. Junto-lhes azeite e alho e acompanho com um copo de vinho tinto. Às vezes também os vou comendo assim, simples, enquanto caminho pela marginal, e vou cuspindo as espinhas para o chão.
Às vezes sento-me na calçada, com as pernas caídas para a areia, e fico ali a olhar o mar lá ao fundo, às vezes ali perto de mim que, em dias furiosos o mar ainda chega à estrada e assusta os comerciantes e os turistas que fogem da morte que o Atlântico promete.
Às vezes também fico por ali a escrever. Às vezes vendo contos no calçadão da Nazaré. Escrevo estórias a pedido. Pequenas estórias que cabem numa folha A4. Pergunto por um facto ou outro, uma pessoa ou duas e invento ali uma estória qualquer, geralmente triste, geralmente sem esperança, em troca de algumas moedas que me pagam uma sardinha na nova Batel ou um gelado na Conchanata. Mas é raro ir à praça. Não gosto de ir à praça. É talvez o único local que não gosto na Nazaré. As marquises invadiram a calçada. Já não há praça. Há uma ideia de praça comida pelo acrílico e o alumínio das barracas que servem de esplanadas fechadas como prisões que afastam as pessoas do ar fresco da praia.
Às vezes cruzo a praça em passo acelerado e passeio-me pela zona velha ali ao lado, debaixo das enormes pedras do Sítio. Gosto daquelas ruas pequenas e esconsas. Ruas onde quase que me perco no seu labirinto. Gosto dos cheiros dos restaurantes que nasceram por lá. Gosto de ver as pessoas que andam à cata da fotografia certa para o Instagram. Gosto de me sentir longe da praça, embora tão perto.
Regresso à marginal. Recomeço a andar no calçadão do Oeste.
Às vezes conheço pessoas.
Ontem conheci uma.
Ela estava sentada na marginal a vender bijuteria que ela própria fazia. Fazia lá mesmo em directo, à frente das pessoas. Anéis, pulseiras, colares, brincos, tudo em ligas metálicas que ela manobrava, dobrava, soldava, construía.
Eu sentei-me ao pé dela. A vê-la trabalhar com as mãos. Depois pus-me a escrever contos. Ainda vendi alguns. Ainda escrevi alguns ali em directo. Perto dela.
Acabámos por ir beber uns copos.
Subimos a pé ao Sítio.
Eu cheguei lá acima de rastos. Ela estava pronta para outra. É mais nova que eu.
Fomos até ao forte.
Comprámos tremoços e pevides e estivemos a ver alguns surfistas a cavalgar as ondas. Não havia muitos surfistas. Nem havia grandes ondas. Mas deu para passarmos um bocado.
Afastei-me para ir mijar numa arriba e contei o dinheiro que tinha. O dia não tinha sido mau para mim. Os contos renderam algum dinheiro.
Voltei para ao pé dela. Convidei-a para jantar uma caldeirada. Aceitou.
Descemos de novo à Nazaré.
Fomos jantar uma caldeirada num pequeno restaurante que esqueci o nome. Bebemos vinho de jarro. Passeámos pela marginal à noite. Ficou frio. Ela levou-me para o quarto que tinha alugado numa pensão perto da praia.
A meio da noite convidou-me para ir com ela para o Algarve. Com passagem pela costa alentejana.
Passou a noite. Já vejo a luz do dia a entrar pelas frinchas das portadas da janela. Ainda não lhe respondi. Acho que ela está acordada. Acho que está acordada à espera da minha resposta.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/28]

A Feira de Maio e o Futuro Tecnológico

Há uns anos fui ver um filme pornográfico ao Animatógrafo do Rossio. A alegria espontânea de quem se divertia com as façanhas sexuais alheias que via expostas no ecrã só era comparável à inveja com que se ouvia ranger a porta da casa-de-banho, a abrir e fechar, de cada vez que alguém, já excitado com a estória projectada no ecrã cumpria a sua função de aliviar o desejo acumulado. Havia também quem não precisasse. Havia também quem não conseguisse. Havia/Há sempre gente para tudo. É como na farmácia, dizia-se. É como nas feiras, diz-se.
Cá por Leiria também temos uma feira. Chama-se Feira de Maio e, para algumas pessoas, também é uma montra onde alguns tentam vender e outros tentam comprar o que querem, gostam e precisam. O presidente da câmara, ou algum representante seu (se calhar algum vereador) também abre a feira e profere algumas palavras de circunstância. Não consta que alguma vez tenha tido de pedir desculpas. Aliás, desculpa não é algo que abunde nas edilidades.
Não nego o valor e a importância de uma montra/feira como a Web Summit. Mas gostava de conhecer o real valor desta feira para o país e para os núcleos portugueses que se dedicam à tecnologia. O que é que sobra deste evento? O que é que fica cá? O que é que a própria feira motiva no país durante o resto do ano que medeia duas feiras?
A notícia mais falada foi a venda da camisola igual à do promotor a 700€ a unidade. E que esgotou.
Neste país o Salário Mínimo, que é auferido por 1/4 da população activa, fica à distância de 100€ dessa camisola. Obviamente, a questão não está no valor da camisola.
Poderiam pensar, os tantos empreendedores deste país, que maiores salários talvez equivalesse a um maior consumo. Quantas mais camisolas poderiam então ter sido vendidas? Parece-me que o capitalismo tem uma ideia muito limitada de produtividade e de lucro. Talvez essa ambição do capitalismo, o crescimento infinito, pudesse passar a ser um objectivo menos utópico. Mais pessoas com mais dinheiro nos bolsos dá um maior consumo. (o que fazer depois a todo o lixo aumentado é uma história para outra análise) Mas a verdade é que uma grande parte do patronato é um miserável ganancioso capaz de matar a galinha dos ovos de ouro. Não é por acaso que tem de haver um Salário Mínimo que sirva de base aos salários praticados no país porque uma grande parte do patronato continua a querer pagar o mínimo que puder para poder capitalizar o máximo. Claro que há desvios. Claro que há patrões que pagam acima do Mínimo e até do Médio. Seja porque podem, seja porque dão, à força de trabalho, um outro valor, mais próximo do real.
Mas é de reparar: se o Salário Mínimo se aproxima do Salário Médio, o que é que diz deste país em termos salariais?
Já há professores a desistir de colocações em escolas onde não podem pagar uma renda de casa. Há queixas da indústria hoteleira, principalmente em zonas como o Algarve, por não conseguirem trabalhadores. Porque é impossível pagar casa, e todas as despesas inerentes, com os salários oferecidos. Mas o estúpido é o trabalhador que não quer trabalhar!
Regresso à Web Summit. Parece que a grande ambição do capitalista é conseguir não precisar de trabalhadores e automatizar tudo. Esquece-se, o capitalista, que quando não houver trabalhadores e, portanto, não houver salários, também não haverá consumidores. E sem consumidores não haverá capitalismo.
Não me interpretem mal. Eu sou a favor do capitalismo. Acho, no entanto, que o Estado tem de ser um regulador interventivo. Porque o Homem é ganancioso. Faz parte dele. De nós. Não de todos. Mas de alguns. E na maior parte dos casos, o capitalista, não pensa no amanhã nem nas consequências dos seus actos hoje.
Claro que, economistas encartados poderão vir justificar determinados comportamentos devido a… e a… e que eu não sei que… por causa de… e o investimento… e o custo da produtividade é…
Mas nessas justificações falta sempre a variável da dignidade humana. Um homem devia poder viver em dignidade. Ter um tecto para se abrigar. Comida para saciar a sua fome. Cultura para apaziguar os seus fantasmas.
Afinal, quando morremos, e esse é, para já, o nosso destino, vamos todos da mesma maneira. Sem nada. Parece que nem as memórias nos restam. Já as lembranças que deixamos por cá, podem atormentar, aí sim, aquilo que poderia ser o nosso legado.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/07]

No Silêncio de uma Tarde de Domingo em Agosto

Estou no quarto, sentado na cama, com o iPad nas mãos. Estou farto das mesmas notícias. Farto dos incêndios no Brasil e na Sibéria. Farto do degelo no Árctico e na Gronelândia. Farto das birras de um idiota. Farto da estupidez do outro idiota. Farto das palhaçadas de mais um idiota. Farto do autoritarismo do mesmo idiota de sempre. Farto de Hong Kong. Da greve. Do mar frio no Algarve e quente na Nazaré. Farto da derrota do Benfica. E das petições no Facebook. Fecho o iPad e saio do quarto.
Passo na casa-de-banho e desligo o rádio. A hi-fi na sala. A televisão na cozinha, que está a transmitir para o boneco. Abro a porta para a rua e deixo-me envolver por aquele bafo quente que vem lá de fora.
Respiro fundo e saio para o alpendre. Desço as escadas e vou à pereira. Apanho uma pêra da árvore. Está madura. Rija mas madura. Limpo-a à camisola. Trinco-a. Volto para o alpendre.
Sento-me na cadeira a olhar lá para longe, para as montanhas.
É Domingo.
A casa está agora no silêncio. Ou quase. Ainda ouço o barulho do frigorífico a trabalhar. Ouço a minha boca a triturar a pêra.
Apuro os ouvidos para os sons que me cercam.
Ouço as galinhas nas traseiras da casa. Anda o cocó a querer saltar-lhes para cima. Por isso é que as ouço. Estão a fugir dele. Toda a gente foge do cocó. Até eu. O cocó só quer foder as galinhas.
Ao fundo, vindo de uma quinta lá de baixo, o latido de um cão. Algum estranho que passa do outro lado da vedação.
As cigarras em coro.
Não ouço os gatos. Um deles está deitado aqui ao meu lado. Nem lhe ouço a respiração. Não vejo o cão. Não responde ao outro que ainda ouço a latir.
Agora, percebo o moinho de vento do vizinho. Tac-tac-tac-tac. O moinho de vento no alto da chaminé.
Acabo de comer a pêra. Lanço o caroço para o meio do jardim. Acendo um cigarro.
Hoje não há morteiros. Se calhar não há festas. Já acabaram as festas de Agosto?
Há uns anos eram os anos do Sasha Summer Fest. O que lhe terá acontecido?
Hoje também há umas festas de Verão, mas diferentes. São festas de fim-de-dia, do lusco-fusco, disto e daquilo. Felizmente, longe daqui. Aqui não ouço essas músicas lúdicas à procura de criar um ambiente zen.
Será que acabaram as festas de Agosto?
Passa um carro lá em baixo, na estrada. É o primeiro carro que ouço passar em muito tempo. Está calor. As pessoas devem estar na praia. Debaixo de alguma árvore a piquenicar. A dormir a sesta. A fumar uma ganza. Gosto de árvores. Gosto da minha pereira.
E, então, ela chega. Traz uma pequena bandeja com uma tigela de fisális, uma garrafa de Alvarinho e dois copos de vidro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/25]

Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]