Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

As Pessoas São Estúpidas

As pessoas são estúpidas.
Não uma pessoa em particular. As pessoas em geral. São estúpidas. E quanto maior o grupo, maior a tendência para aguçar essa estupidez. A estupidez é algo que vai bem em grupo. Um estúpido sente-se bem rodeado de outros estúpidos. Imagina que, assim, faz parte do grupo dos espertos. Mas os espertos são também, muitas vezes, estúpidos.
As pessoas elegem gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro para lhes indicar o caminho. As pessoas aclamam gente como Hitler, Mussolini e Salazar, mesmo que depois venham a dizer que não. Quem tem cu, tem medo. Passou-se o mesmo com a França colaboracionista. Trabalharam para os alemães. Depois eram todos resistentes e foram, provavelmente, os mais aguerridos a cortar o cabelos às mulheres que se deitaram com o invasor, coitadas, elas que se limitaram a sobreviver.
As pessoas são estúpidas e têm dificuldade em perdoar. Ou algumas pessoas têm dificuldade em perdoar. Se calhar são as mesmas que colaboram. Não tenho certeza. Mas é o que parece. Às vezes há quem perdoe. Pode ser difícil, mas por vezes é o melhor que se pode fazer. Foi assim em Espanha. Foi assim na Argentina e no Uruguai. Mas em Espanha parece que esqueceram de tudo. Principalmente do que perdoaram, mas que não era para esquecer. Em Espanha parece que se esqueceram dos tempos do Caudilho. As pessoas tendem a esquecer. Tendem a não ter memória. Repito: As pessoas são estúpidas.
Dois anos depois da tragédia de Pedrogão Grande e da destruição do Pinhal do Rei, tudo está na mesma. E quando está na mesma está pior. Porque não se aprendeu nada. As pessoas são mesmo estúpidas. Aumenta a área de eucalipto porque quem tem terrenos precisa de os fazer render. E nada rende mais que o eucalipto. Percebe-se. Devia haver políticas de apoio a uma floresta diversificada. Mas não há. É cada um por si. E o Estado impõe regras que ele próprio não cumpre. Há que limpar os terrenos, mesmo que sejam no interior do país, naquele país onde não há gente, e a que há é velha, como é que vão limpar os terrenos? Com que gente? Com que dinheiro? E os terrenos do Estado, esses continuam como estavam, ao abandono.
As pessoas são estúpidas.
Um homem ameaça a mulher com uma moto-serra. Dorme na cama com a mulher e a moto-serra. Quase que sinto o cheiro a gasóleo. Quase que sinto o barulho da moto-serra ávida de cortar carne. O juiz manda o homem para casa com pena suspensa por quatro anos e meio. O que hei-de dizer?
Estou furioso.
As pessoas são estúpidas e não querem aprender.
Há uma cultura do ódio. Todos queremos alguém para odiar. Seja pelo futebol. Pela política. Por motivos passionais. Porque sim.
As redes sociais são um caminho minado de ódio. Sinto-o destilar em gente sentada no seu sofá, enquanto trinca uma fatia de pizza e bebe uma cerveja.
Há gente com vontade de iniciar uma guerra. Alguns por causa de negócios – desde miúdo que ouço dizer que a guerra é boa para a economia. Outros porque são fanfarrões. Falam alto e querem ser chefes. Outros ainda porque não sabem fazer outras coisas. Brinquem com as pilinhas, porra!
Sentado no seu gabinete de crise, Donald Trump mandou atacar o Irão. Até lhe imagino a salivar de tesão ao ver, à distância de meio-mundo, um drone atacar, matar gente e destruir uma qualquer peça de civilização do outro lado do mundo.
As pessoas são estúpidas.
Ontem vi uma fotografia do presidente brasileiro com uma T-shirt que dizia Marcha para Jesus, e a fazer aquele sinal idiota de pistola com os dedos, a metralhar alguém ou alguma coisa. As pessoas são estúpidas e correm atrás de estúpidos para não se sentirem sozinhas. Querem ser dirigidas por estúpidos para sentirem que têm razão. Razão em odiar os outros. Razão em odiar os diferentes. Razão em odiar quem pensa de maneira diferente.
Como é que os evangélicos podem pregar a palavra de Deus e, ao mesmo tempo, disparar tanto ódio?
Como é que as pessoas não vêm as incongruências?
Enfio o cano do revólver na boca. Estou a transpirar. Tremo. Estou com medo.
Eu também sou estúpido. Podia tentar fazer algo para combater o estado das coisas, mas quero é saltar fora, a meio do caminho.
Deixei-me contaminar.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/21]