Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

As Brancas Montanhas da Morte

Está mau tempo.
Chove muito, uma chuva tocada a vento. Entra por todo o lado onde exista uma nesga aberta. Fumo em casa com as janelas fechadas. Acendi uma vela por causa do cheiro, mas só tinha uma vela de baunilha que alguém me tinha oferecido e agora estou enjoado.
O vento é muito forte. Ouço-o através das janelas de vidros duplos. As portas e as janelas abanam. Ouço também a chuva a bater contra as persianas. É um barulho violento e um pouco assustador.
O céu está cinzento, o dia escuro e ainda são duas da tarde. Não se vêm nuvens. É uma massa uniforme.
Da janela da cozinha olho para as montanhas mas não as vejo. Talvez estejam tapadas pelo nevoeiro.
Onde é que estão as montanhas?
As notícias dão conta já de dois mortos e vários desaparecidos.
Há cidades inteiras inundadas. Cidades erguidas em leito de cheia. Cidades com os canais pluviais entupidos e esgotos cheios. Cidades de cimento sem escoamento para as águas da chuva.
As barragens abriram as comportas. Há notícias de cidades quase submersas no norte do país. Só morreram duas pessoas até agora. Nenhuma delas nestas cidades quase submersas. Mas há pessoas desaparecidas.
Olho a chuva a tombar sobre as casas batida pelo vento e a ausência das montanhas.
Onde raio é que se meteram as montanhas?
Não está frio. É inverno, está temporal mas não está frio. Estou de t-shirt e descalço na cozinha. Olho para o tempo cinzento e penso que não está frio nenhum.
Apago o cigarro num cinzeiro da Cinzano. Tenho uma grande colecção de cinzeiros em porcelana que eram dos meus pais. Eles não fumavam. Eu fumo.
Outras notícias falam dos meios de transporte públicos que estão parados em todo o lado sem se saber quando poderão retomar a actividade normal. Os aviões não levantam voo. Os comboios dormem na estação. Os barcos baloiçam no cais. Os autocarros não saíram dos terminais. Há inundações um pouco por todo o lado. Há árvores caídas. Abriram-se buracos no asfalto de algumas cidades. Em Lisboa, uma carrinha escolar enfiou-se num buraco na estrada e caiu sobre os carros de um parque de estacionamento subterrâneo. Ninguém morreu. Ninguém ficou ferido. Já há quem fale em milagre. O milagre de Natal. Mas há quem se queixe das avultadas perdas financeiras. As seguradores já vieram explicar que estão a analisar todas as queixas mas esclarecem que a maior parte das pessoas não têm seguro contra intempéries.
Será que as montanhas desapareceram? E tinham seguro?
Uma notícia de última hora diz que a pala do MAAT voou para o Tejo e o museu vai ficar fechado até meados do próximo ano. Já há turistas a desmarcar férias. Há agentes turísticos a quererem indemnizações mas não sabem bem a quem fazer o pedido.
Calço as botas. Visto uma camisola e o casaco e saio de casa.
À saída de casa percebo que a chuva continua a sua queda imparável, tocada a vento. Puxo o capuz do casaco sobre a cabeça, as mãos nos bolsos do casaco, saio para a rua e vou em frente. Vou à procura das montanhas.
As montanhas têm de estar lá.
É difícil cruzar a cidade. Muito trânsito. Muitos carros. Alguns parados em enormes poças de água. Lá mais à frente percebo que o rio galgou as margens e a ponte está submersa. Tenho de seguir pela direita e tentar passar mais à frente.
Há guindastes caídos um pouco por todo o lado. Andaimes tombados. Varandas quebradas. Muitos vasos que fugiram das varandas ventosas.
Há muito barulho na cidade. A chuva o vento os carros as buzinas as motorizadas as pessoas os gritos das pessoas ouve-se música vinda não sei de onde…
Vem-me à memória Jeremiah Johnson, As Brancas Montanhas da Morte de Sydney Pollack. Uma espécie de western que é mais uma lição de vida sobre o confronto do homem com a natureza e a sua luta pela sobrevivência.
Já cruzei a ponte mas nem me apercebi.
Estou distraído. Desconcentrado. Divago. Divago muito.
Vejo postes de alta-tensão vergados ao peso da tempestade. É incrível como estes postes de alta-tensão passam tão perto das cidades, passam por cima de vilas e aldeias.
A estrada começa a subir. Aproximo-me das montanhas. Não vejo nada. Está tudo cinzento. Há um blur cinzento à minha volta. Acho que já não chove. Mas não tenho a certeza. Não vejo nada. Não vejo nada de nada. Não vejo a ponta do meu nariz.
Não ouço nenhum barulho.
Onde estão as montanhas?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/20]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

O Autocarro que Já Não Fazia Carreiras

Era um autocarro. Um autocarro daqueles da carreira. Um autocarro daqueles que faziam a ligação da cidade com os seus lugares e aldeias.
Era um autocarro parado em fim de vida e começo de outra. Em cima, no tejadilho, uma calha curva, em rebordo, como um algeroz. As rodas, agora sem pneus, estavam cravadas na terra como se não quisessem mais sair dali para lugar nenhum. As janelas enormes, em todo o redor, estavam agora fechadas com uns cortinados coloridos, manta de retalhos como um puzzle gigante feito à dimensão do homem. Também ele fazia parte da composição? Do puzzle?
Ao lado, um pau esticava uma corda onde estava pendurada roupa a secar ao sol, batida pelo vento.
Era um autocarro parado e a única porta aberta era a porta que antigamente franqueava a entrada aos passageiros. O autocarro parava. Ouvia-se o bufar do sistema hidráulico de travagem. A porta abria-se. Como um fole. Os passageiros entravam. Uns tinham Passe Social. Outros bilhete que tinham de validar na máquina à entrada, que a cobrança já era feita pelo motorista tendo dispensado o cobrador, um operário a menos que o capitalismo tinha de pagar. Outros pediam um bilhete ao motorista. Estendiam uma nota. O motorista refilava quando não havia trocos. O passageiro era um terrorista pronto a foder a vida ao motorista. Raio de vida. E agora?, o que é que faço agora? Agora não tenho troco! Agora já não havia motorista. Nem passageiro. Agora já não havia motorista para conduzir o autocarro para lado nenhum. Agora já não havia passageiro para querer ir para algum lugar. Agora o autocarro estava ali parado e dali não fazia tenção de sair. Talvez para o ferro-velho. Talvez um dia. Talvez. Vendido à peça. Desmembrado. Como a vítima de um assassino. Peça-a-peça. Membro-a-membro.
O autocarro tinha a porta aberta mas um homem flanqueava a entrada. O homem, de barrete de lã roto na cabeça, barba comprida e desgrenhada, camisola grande, grande demais para ele já de si enorme, todo ele a ocupar a passagem da porta aberta em fole, calças mijadas à frente das misérias e chinelos enfiados nos pés, de unhas sujas, olhava-me. Com desdém. Quem és tu?, percebia eu.
Eu estava com a câmara apontada ao autocarro. À entrada. Ao homem. Eu a querer apertar o botão sensível ao toque para registar aquele momento do homem na sua propriedade. Eu senti aquele olhar que me entrou pela objectiva dentro e vi-o de fato e casaco atrás de uma grande janela. Uma janela tão grande que era maior que ele. Uma janela sobre os telhados da cidade. Perto das nuvens. E vi quando o homem despiu o casaco e as calças de alfaiate fino. Quando descalçou os sapatos de corte italiano. Largou o relógio analógico. Os óculos de sol. As chaves do carro. E da casa. Tudo no chão da sua sala sobre a cidade, e saltou, nu, sobre ela.
Eu vi tudo o que vi naquele olhar que o homem me lançou através da objectiva com que eu o olhava. O meu dedo não pressionou o botão. Baixei a câmara. O homem continuou à entrada do autocarro que já fizera carreiras. E agora estava ali. E o homem puxou de um cigarro e acendeu-o. E ficou ali parado a fumar. Coçou os testículos por cima das calças mijadas. E eu arrumei a câmara e fui-me embora. E enquanto ia, virei a cabeça duas ou três vezes para trás. E o homem continuava lá. À entrada do autocarro. A fumar. À entrada de um autocarro que já não fazia carreiras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/08]

Um Lobo na Montanha

Estou na montanha. Vim tirar fotografias à montanha e perdi a noção das horas. A noite começou a cair e eu fui apanhado de surpresa. Ainda há quinze minutos havia sol. Ainda há quinze minutos estava a tirar uma fotografia a uma ventoinha eólica, daquelas que inundaram o horizonte das Serras d’Aire e dos Candeeiros, em contraluz e, agora, já quase não vejo onde ponho os pés.
A Lua já nasceu, mas está sem grande brilho. Não me parece haver nevoeiro, mas não vejo estrelas no céu. A Lua parece baça. Não é das lentes. Estou sem óculos. Só uso óculos para ler. Quando tiro fotografias não uso óculos. Não me deixa aproximar do visor da câmara. Já me magoei várias vezes no nariz por me esquecer que estava com óculos e aproximava o visor da cara e batia com os óculos na câmara e no nariz. Deixei de usar óculos a fotografar.
Vejo as luzes das aldeias lá em baixo a tremer. Lá ao fundo deve ser Porto de Mós. Há muitas luzes. É o sítio onde há mais luz. Deve ser mesmo Porto de Mós. É para ali que devo ir. Tenho de tomar cuidado. Para não me perder. Para não cair nalguma ribanceira. Nalgum buraco. Para não tropeçar.
Tenho as pernas cansadas. Trouxe botas para a montanha. Por causa das pedras. Da bicharada. Se chovesse. Não choveu. Mas agora custa-me caminhar com o peso das botas nos pés. Mas é a descer. E a descer, todos os santos ajudam.
Ouço um barulho. Um pequeno barulho. O que será?
Páro. Suspendo a respiração. Não faço nenhum barulho. Dedico toda a atenção ao som que, acho, estou a ouvir.
Sinto o coração a bater muito depressa. Estou ansioso. Pode ser um animal.
Aproximo-me de um declive. Parece um grito. Talvez um choro. Vem lá de baixo. Deixo-me deslizar devagar. As botas não deslizam bem. Acabo por ir aos tropeções. Tenho a câmara nas mãos. Mas não caio.
Ouço um grito. Mais parece um gritinho. O som é muito baixo. Mas vem dali. Parece um arbusto. Ao fundo, as luzes de uma pequena aldeia. Não sei que terra é essa. Lá mais ao fundo é Porto de Mós, com certeza.
Espera!… O que é aquilo?…
Um lobo! Parece um lobo. Parece um lobo, ao lado do arbusto. O lobo arreganha-me os dentes. Mas afasta-se. Afasta-se lentamente do arbusto.
Quero fugir!
Tento começar a andar para trás. Subir o pequeno declive. Mas ouço. Ouço nitidamente. Há um choro. Um choro pequenino e abafado, vindo do arbusto. Estou indeciso. Olho para o lobo. Disparo o flash da câmara. O lobo encandeia-se. Ladra. Ladra-me. Mas afasta-se. Arreganha-me os dentes. Rosna. Mas afasta-se. Como se quisesse que eu fosse ao arbusto.
E eu vou.
Aproximo-me devagar. Estou a tremer de medo. Tenho frio. Estou a transpirar. Não deixo de olhar para o lobo. Afasto uns ramos. E vejo. Um bebé. Um bebé a mexer os braços e as pernas. Está uma mantinha aberta à volta do bebé. Deve estar com frio. Agarro no bebé. Na mantinha. Dei as costas ao lobo. Esqueci-me dele. Quando me viro, com o bebé ao colo e enrolado na mantinha, descubro-o. Páro. Ele já não rosna. Já não me mostra os dentes. Tem o rabo entre as pernas e afasta-se de mim. Vai olhando para trás à medida em que se afasta.
Eu tenho o bebé ao colo. E a câmara na mão. Subo o declive. Devagar. Vejo as luzes de Porto de Mós lá em baixo. E começo a dirigir-me para lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/03]

Não Havia Dinheiro

Não havia dinheiro. Era o que se dizia Não há dinheiro.
Qual é a parte da frase ‘Não há dinheiro’ que não entendem? começaram por dizer. E depois foi sempre a eito. Não havia dinheiro. Não havia dinheiro para nada. Quer dizer, haver devia haver, nós não sabíamos era onde. Onde é que havia. Onde é que ele estava. Quem é que o tinha. Porque nos diziam que não havia dinheiro, mas depois ele aparecia para as coisas muito muito importantes.
Salvaram-se Bancos. Instituições Financeiras. As rendas nas grandes empresas de energia nunca pararam. As Parcerias Público-Privadas também não. Nem as Subvenções Vitalícias dos Deputados que legislaram em causa própria.
Não havia dinheiro, mas havia.
Havia dinheiro para coisas muito muito importantes.
Em casa deixou de haver luz eléctrica. Já não havia dinheiro para a pagar. Mas a companhia continuava a receber as rendas.
Em casa deixou de haver água. Já não havia dinheiro para a pagar. Mas as empresas de águas e saneamento, municipais, continuaram de vento-em-popa.
Em casa deixou de haver carne de vaca. E peixe.
O pão circulava entre amigos. Quem ainda tinha gás fazia pão no forno. As banheiras foram invadidas pelas hortas. Os quintais passaram a ter árvores de fruto e guardadas com um homem armado. Os livros eram lidos e relidos e passados de mão-e-mão. As livrarias morreram e os poucos livros que existiam, eróticos e de auto-ajuda, eram vendidos nos supermercados onde ainda ia quem podia ir.
Mas tudo ia bem.
Às Sextas, Sábados, Domingos e Segundas havia sempre futebol da Liga. Ou da Taça. Da Taça da Liga. Ou da Taça de Portugal. Às Terças e Quartas havia Liga dos Campeões. Às Quintas a Liga Europa. De vez em quando o Fernando Pimenta e o Nelson Évora. E o Salvador Sobral. As mamas da Rita Pereira e os bíceps do Diogo Morgado. Os gritos da Cristina Ferreira e da Júlia Pinheiro. Os fatos do Manuel Luís Goucha. A simpatia da Fátima Lopes. As acusações do Hernâni Carvalho. Havia também qualquer coisa da Rita Ferro Rodrigues mas já não me lembro o que era.
Ainda tinha uma televisão a pilhas. Pequenina. Para poder ver alguma coisa do que se passava para lá das minhas limitações. Para entreter o tempo. A fome. E a miséria em que a vida se tornou.
O tempo descontrolou-se. Chovia e fazia muito calor ao mesmo tempo. Chovia muito e muito depressa. As barragens e os rios inundavam os terrenos. As cidades. As aldeias. Mas depois havia seca. Os produtos morriam antes de chegar a crescer.
Sempre que arranjava um cigarro, era uma festa. Fumava-o aos poucos. Duas ou três baforadas por dia.
Deixei de cheirar café. Deixei de beber cerveja. Nunca mais vi vinho tinto.
Chegámos a um ponto em que a vida perdeu sabor. Já não sabemos o que andamos aqui a fazer. Mas também não nos sentimos com vontade de saber.
Eu pelo menos não me sinto. Não me sinto com vontade de saber nem de fazer o que quer que seja. Nem forças tenho para cortar as veias. Olho a faca e nem a consigo agarrar. Está ferrugenta.
Vou andando. Vou andando até parar de andar.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/03]