Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Para um Diário da Quarentena (Primeiro Andamento)

No segundo dia de quarentena e não noto diferença no ritmo da minha vida. Continuo fechado em casa, com vários passeios pelo quintal a olhar as montanhas ao fundo, a beber copos de vinho tinto e a fumar cigarros no alpendre. Nada que já não faça nos outros dias da minha vida desde que resolvi virar costas à cidade que me estava a tratar mal.
Normalmente dou uns passeios pela aldeia. Bebo um café e um bagaço no café central, ao lado da igreja, e abasteço-me de pequenos produtos alimentares, frescos e pão, na mercearia. Ontem e hoje não saí daqui. Amanhã talvez vá comprar pão fresco. Se a mercearia estiver aberta.
Hoje o dia começou com sol. Não estava frio mas estava vento. Fumei um cigarro no alpendre, em pé, com um dos gatos a roçar-se nas pernas despidas. Depois voltei para casa e por cá tenho ficado.
Devia ir levar comida ao cão e aos gatos, mas estou com preguiça. Hoje não comem ração. Talvez cacem um rato ou um coelho. Os gatos costumam caçar coelhos e partilham-nos com o cão. Dão-se bem e não estão muito dependentes de mim. Mas eu prefiro dar-lhes ração para não andarem para ai restos de animais mortos e bolas de pêlos a voar. Sou alérgico aos pêlos dos animais.
Hoje não tomei banho. Já não lavo o cabelo há três dias. E está muito grande. Devia cortá-lo, mas não há-de ser agora. Não irei à cidade durante os próximos tempos.
Desde que me levantei que tenho andado nu cá por casa. A casa é quente e confortável. Tenho andado indeciso sobre o que fazer e ainda não vesti nada porque estou sempre a ponderar voltar para a cama e ir dormir.
Hoje não me apetece trabalhar. Comecei a ver uma série nova, The Outsider, e estava com vontade de terminar a temporada de uma vez mas, deu-me a fome e acabei por parar no terceiro episódio para ir grelhar um hambúrguer. Comi-o dentro de um pão da avó que torrei. Juntei-lhe uma fatia de queijo Limiano e um pouco de ketchup Heinz. Acompanhei com um resto de uma garrafa de vinho sobrevivente. Já tinha um pouco de pé. Ainda bem que o acabei. Amanhã tenho mesmo de ir à mercearia. Ou procurar alguém que tenha uns garrafões para vender.
Enquanto estava a comer o hambúrguer apanhei o Primeiro-Ministro na televisão a explicar as novas medidas de emergência. Não consegui concentrar-me no que ele disse. Sinto-me um pouco tonto. Tenho vertigens quando me falam de coisas que não quero ouvir. Mas acabo por perceber o geral da conversa. E percebi. Vou continuar fechado cá por casa. Nada a que não esteja habituado. Vou continuar a trabalhar em casa. O que já faço. Não vou a concentrações de pessoas. E não vou mesmo. Mesmo quando posso. Ou podia.
Passo na casa-de-banho para mijar. Lavo os dentes depois de ter comido o hambúrguer.
Páro no corredor. Sinto falta dos jogos de futebol. Tento perceber o que vou fazer. Tento perceber o que é que me apetece fazer. E percebo que não me apetece fazer nada. Acabo por rumar à cama. Deito-me. Tapo-me com o edredão por cima da cabeça.
Espero que os dias passem todos muito depressa, eu envelheça e mude de opinião. Às vezes gostava de voltar ao convívio das outras pessoas. Depois passa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/15]

Interrompido

Tinha agarrado nas quatrocentas páginas de O Amor nos Tempos de Cólera e ido para o alpendre, sentado numa cadeira, um copo de gin na pequena mesa de apoio ao lado e um cigarro aceso nos dedos quando o telefone tocou. Era ela. Atendi.
Olá!, disse. Ela ficou em silêncio depois do meu cumprimento e demorou a dizer Olá!
Ela é que tinha telefonado, mas eu é que fiz a conversa. Percebi que estava nervosa. Talvez arrependida de ter ficado em casa sozinha. Talvez arrependida de não ter aceite o meu convite. E eu disse-lhe Estou no alpendre. De papo para o ar a adormecer esta solidão. Podias estar aqui. Podíamos estar a jogar Monopólio.
Ela deu uma pequena gargalhada. Talvez a primeira desde…
Tossicou um pouco e disse Estou à janela a olhar para a rua. Não passa ninguém.
Aqui também não passa ninguém, respondi-lhe, solidário. Mas era verdade. Desde manhã que não via ninguém a passar na estrada lá ao fundo. Nem a pé nem de carro. Nem as motorizadas de motor estridente que se ouvem normalmente a passar na aldeia se ouviam. Mas ouvia vozes ao longe. Devia haver gente no campo, a tratar das hortas, dos pomares, do gado.
Olhei para o fundo do quintal. Tentei focar o olhar.
Pousei o livro na mesa ao lado do copo de gin e levantei-me da cadeira. O olhar ao fundo. Ao fundo do quintal.
Ela disse Já contei os mosaicos da casa-de-banho. São bastantes. Mas já esqueci quantos eram. Eu respondi Cá em casa não há mosaicos na casa-de-banho, como sabes. Só azulejos. São maiores. Serão menos, de certeza. Falava com ela enquanto descia as escadas do alpendre de olhos postos ao fundo do quintal.
Não sabia do cão e dos gatos. Deviam andar a passear alheios a toda esta situação de emergência. E ela disse Tenho comprimidos suficientes para um mês. Ainda bem!, saiu-me. Mas sim, ainda bem. Ainda bem por ela. Sabia como precisava dos comprimidos. Sabia como ficava sem os comprimidos.
Eu aproximava-me do fundo do quintal.
Ela disse Não tenho conseguido cozinhar. Tenho comido latas de conserva. Havia só dois dias que tínhamos ficado confinados em casa e ela já estava cansada. Esperava que conseguisse aguentar o tempo que fosse preciso. E vinha aí muito tempo. Muito tempo fechados em casa. Mesmo que ela quisesse agora aceitar o meu convite, eu não podia lá ir buscá-la. Ouvia as notícias que contavam das autoridades a patrulhar as áreas com mais densidade populacional para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Já havia relatos de prisões. Já tinha lido no Facebook que tinham sido disparados tiros que tinham atingido algumas pessoas que teriam furado a quarentena. Para irem para a praia, dizia-se. Mas não sabia se era verdade ou não. Por aqui não se via polícias, guardas ou militares. É verdade que não tinha visto ninguém a passar aqui ao fundo. Mas ouvia vozes. Barulhos. Devia haver gente nos campos. A tratar das hortas. Dos pomares. Do gado. As pessoas aqui estão isoladas do mundo e aproveitam para furar o bloqueio. Devem andar de casa em casa. Eu estou por aqui. Sozinho.
Abri uma lata de atum com feijão frade. Nunca pensei gostar. Não é mau.
Cheguei ao fundo do quintal. Mandei fora a beata do cigarro. Baixei-me. Era um pássaro morto. Não estava ferido. Não via nenhum golpe. Não havia sangue. Estava morto mas estava intacto.
Está? ouvi lá do outro lado ela a sentir-se ignorada. Desculpa! disse, e continuei Descobri um pássaro morto aqui no quintal.
E depois senti o som seco de uma pancada um pouco mais ao lado, dentro do quintal. Fui até lá. Era outro pássaro que tinha acabado de cair. Igualmente intacto. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Olhei para o céu e não vi nada. Olhei para a estrada e descobri mais dois pássaro caídos no asfalto.
Senti-me engolir em seco. Lembrei-me do copo de gin que tinha deixado na mesa lá em cima no alpendre. Tentei salivar para humedecer a garganta, mas não consegui. E disse-lhe para o telefone Tenho de desligar, e desliguei.
Comecei a andar mais depressa para o alpendre enquanto tentava ligar para o cento e doze. Interrompido. Para a polícia. Interrompido. Cheguei ao alpendre e bebi um grande gole de gin. Refresquei a garganta. Tentei ligar para a guarda. Interrompido. Acendi um cigarro. Vi cair mais dois pássaros no quintal. Tentei ligar para a linha de saúde, para o jornal da cidade, para a câmara municipal… Tudo interrompido!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/14]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]