Uma Vida Simples

Simplicidade. É ao que reduzi a minha vida. À simplicidade.
Mudei de casa. Aluguei um T1. Um quarto, uma sala com uma kitchenette e uma casa-de-banho com polibã. Duas janelas para a rua com vista desafogada. Vejo, ao fundo, a cidade.
Vendi todos os móveis. Os que não consegui vender, ofereci à Remar. Fiquei com o colchão da cama e um estrado com pernas. Dois conjuntos de lençóis. Um edredão e uma manta. Uma mesa e duas cadeira. Uma panela. Dois pratos. Duas tigelas para sopa. Dois conjuntos de talheres. Uma colher-de-pau. Uma faca de serrilha para cortar o pão. Uma faca de corte. Uma tábua de plástico para cortar coisas. Uma saca de pano. A kitchenette já tem um pequeno fogão de placa de indução. Um frigorífico pequeno, com uma gaveta pequena para congelar. Há também um esquentador inteligente mas que só espero usar no Inverno.
Vendi toda a minha roupa. O que não consegui vender, ofereci à Cruz Vermelha. Fiquei com dois pares de calças. Duas t-shirts. Duas sweat-shirts. Uma camisola. Quatro pares de meias. Quatro cuecas. Um casaco de meia-estação e um grande, de Inverno, quente. Fiquei com um par de sapatilhas, umas botas e uns chinelos de borracha, de enfiar entre os dedos.
Fiz um contrato com uma cabeleireira da cidade. Vendo-lhe o meu cabelo, quando o corto, uma vez por ano.
Vendi o carro. A mota. A bicicleta. O skate. A televisão. A alta-fidelidade. A máquina fotográfica. A Lomo. A câmara de filmar. Vendi os livros. Todos os livros, com excepção dos livros do Philip Roth e do Alberto Pimenta que esses vou querer reler para o resto da minha vida. Vendi os discos de vinil. Os CDs. Os DVDs. As bandas-desenhadas. Fiquei só com A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt. Vendi tudo o que não pudesse transportar comigo se tivesse que partir, rápido, com uma mochila às costas.
Deixei de fumar. E se me custou! Deixei de beber álcool. Qualquer tipo de álcool. Mesmo o vinho tinto. O que me custou! Deixei de comer fritos. Passei a comer sopa. Muita sopa. Um frango assado de vez em quando. Pão com manteiga é a minha dieta. E fruta. E legumes.
Fiquei com o computador e o telemóvel.
Deixei de ver futebol. Mesmo os jogos do Benfica. E foi, talvez, o mais difícil de fazer, largar assim os jogos do Benfica. Tenho medo da ressaca.
Deixei de ir ao cinema. Ao teatro. A concertos. Deixei de comprar livros. Discos. Filmes. Descarrego música e filmes ilegalmente em torrents da internet para não morrer estúpido e porque o que quero ver nunca aparece cá pela cidade. A cidade só nos dá aquilo que acha que nós queremos ver, não aquilo que nós queremos realmente ver. Muito menos se forem poucas pessoas a quererem ver. Larguei a televisão. Não vejo mais os telejornais. De nenhuma estação. Nem os comentários do Luís Marques Mendes.
Passeio a pé pela cidade. Procuro os poucos jardins ainda existentes. Tento entrar nas redes sociais mas o sinal de wi-fi da rede pública é miserável.
Deixei de frequentar os centro comerciais. Mesmo os da cidade. Não entro nas lojas dos chineses nem das de 1€. Vou às lojas de rua. Compro o que necessito nas mercearias resistentes. É chato porque é um pouco mais caro. Mas a fruta sabe-me a fruta. E as senhoras que me atendem sabem o meu nome.
Faço todos os trajectos a pé. Só quando tenho de sair da cidade é que vou de autocarro, carreira, camioneta. Tudo isto porque não há comboios na minha cidade. E quem disser o contrário, estará a mentir.
Fui entregar os gatos e os cães ao canil municipal. Não sei se fiz bem ou mal. Se calhar fiz mal. Mas não tinha outra opção.
Agora levo uma vida simples. Tão simples que já me perguntei Que raio é que faço aqui? Mas vou aguentando.
Em dias de chuva ou de sol, chego-me à janela a apreciar as mudanças na cidade visto aqui de cima. E nessa altura sinto falta do cigarro entre os dedos e um copo de vinho tinto nas mãos. Mas resisto. Vou resistindo.
Escolhi o meu caminho. A simplicidade.
Larguei a família os amigos e as amantes para me livrar dos vícios e das necessidades que o contacto com os outros obriga. Agora estou só comigo. Levo uma vida simples. Não sei para o que é que me servirá, mas deverá servir para alguma coisa.
Para já estou mais magro. Já tive de mandar fazer mais dois furos no cinto. Não sei exactamente que peso tenho porque não tenho balança em casa e, quando vou à cidade, não vou propriamente à procura de uma farmácia para me pesar. Na verdade vou à procura de uma banco à sombra de uma árvore para ler umas páginas soltas do Bestiário Lusitano do Alberto Pimenta. E aguentar a passagem do tempo. Um dia a seguir ao outro. E ainda aqui estou. Na terceira rocha a contar do sol.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/11]

Chicote

Saí do bar com ela. Cruzámos-nos ao balcão. Eu na cerveja. Ela no gin. E ficámos por lá até nos porem na rua. Ela falou-me dela. Eu falei pouco de mim. Ouvi-a. Mas não percebi que podia ser tudo mentira. Acredito nas pessoas. No melhor das pessoas. Que o maquiavelismo só nas novelas ou nas folhas de O Príncipe. Na verdade não a estava a ouvir. Estava a fingir dar-lhe atenção para que se sentisse atraída por mim e pela atenção que lhe dava. Que mais é que eu tinha para lhe dar para além da minha atenção e de um cirrose galopante?
Estávamos ao balcão a beber. A conversar. De dez em dez minutos vínhamos à rua fumar um cigarro. Ninguém nos roubava os lugares. Estava pouca gente. Eu e ela e mais uns poucos de bêbados caídos sobre as mesas.
Ela nem sequer era interessante. Fisicamente, digo. Porque a conversa, não a ouvi. Ela era um pouco vulgar. O cabelo despenteado. Um ligeiro buço aloirado. Já um pouco flácida. Quer dizer, eu também. Também ando sempre despenteado. Às vezes não lavo o cabelo durante dois ou três dias e fico com a testa brilhante. E também tenho o corpo flácido. A barriga tombada sobre a cintura. Os músculo descaídos pelo braços, pelas pernas, pelo peito abaixo.
Na verdade somos como somos e, quando saio à noite, não sou esquisito. Sei o que também sou. O álcool ajuda. E potencia. E como se costuma dizer, à noite todos os gatos são pardos. E sob as luzes coloridas das psicadélicas todos somos desejáveis. E à luz-negra todos os dentes são brancos. E com o strobe todos sabemos fazer o moonwalk.
Ela deu-me conversa. E eu fui na conversa dela. Sou fácil, é verdade. Ainda estávamos no início da nossa noite, ainda nenhum de nós estava bêbado, já eu me imaginava a apalpar-lhe as mamas. Eram grandes, as mamas. Pelo menos pareciam à luz suave e embriagada do bar quase vazio.
E então continuámos por ali fora. Fingimos interesses comuns. Bebemos. Acabámos os dois a ir para o whiskey à espera que batesse mais e mais depressa. Acho que precisávamos de uma desculpa para sair dali. E nunca chegou, durante toda a noite, a desculpa. E ela continuou a falar e eu continuei a ouvir.
O clique só se deu quando o bar fechou. Quando nos despejaram na rua. E agora? perguntei eu já com uma incontrolável vontade de a agarrar. Agora vamos para minha casa, disse ela, assim em jeito de afirmação.
E fomos. Fomos a pé que a casa dela não era longe. Também não era perto. Ainda tivemos de caminhar durante algum tempo. Pelo menos o tempo de fumar três cigarros. Até que chegámos a casa dela.
Abriu a porta. Fez-me entrar em casa. Levou-me para a sala e disse Senta-te! indicando uma poltrona. E eu sentei-me. Gostei daquela versão mandona. Ela manda e eu obedeço.
Ela saiu. E voltou. Trazia dois copos. Whiskey, disse. Tchin-tchin disse eu. Batemos os copos. Vi-a sorrir. Um sorriso cínico, parece-me agora. Na altura foi só um sorriso e o início de uma noite de sexo. Bebemos. Eu bebi. Queria despachar a parte da bebida.
Ela sentou-se no braço da poltrona. Abraçou-me. Beijou-me o pescoço. Senti um calafrio pela espinha. Bom. E depois… Depois comecei a ver tudo desfocado, como se precisasse dos meus óculos de ler para a ver. Para a ver a ela, que estava ali à minha frente. E, de repente, ela já não estava ali ao pé de mim, mas afastava-se como que o espaço entre nós dilatasse. Senti-me enjoado. A cabeça a andar à roda. Senti-me a desmaiar.
Ainda tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. A língua parecia maior que a boca e não se movia. O lábios também não. E estavam secos. Os olhos pareciam querer fugir de órbita. A cabeça rodopiou e eu senti-me ir.
E devo ter ido.
Não me lembro do que se passou a seguir.
Acordei aqui. Aqui que não sei onde é. Está tudo escuro. Acho que estou deitado numa cama. Mas não estou em cima de um colchão. Pareço estar em cima de uma cama de grades. Ouço algum barulho metálico quando me mexo. E sinto uns vergões no corpo. A fazer pressão. Tenho as mãos e os pés atados. Tenho as pernas afastadas. E os braços esticados. Sinto-me exposto. Mas não me vejo. Não vejo nada. Está tudo escuro. Estou nu. Tenho a boca seca. As mãos húmidas. Sinto medo.
E então abre-se uma porta. Entra um feixe de luz quente. Alguém está à entrada da porta, em contra-luz. Tento focar mas isto é o melhor que consigo. E não consigo perceber quem é. Talvez seja ela. Tem uma coisa na mão. Lança essa coisa que tem na mão e ouço o barulho que faz ao estalar no chão. É um chicote.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/18]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

O Hotel

Não o conhecia de lado nenhum. Mas, aparentemente, o homem conhecia-me. Pelo menos conhecia as coisas que eu escrevo. E tanto conhecia que me convidou para passar uma semana no seu hotel, à conta da minha escrita, para depois, ou durante a estadia, escrever uma pequena estória que lá se passasse.
Ele era dono de um hotel à beira-mar. Um bom hotel, diga-se. Hotel sobre o Atlântico, zona centro, a subir para norte. Mar agitado, portanto. O convite era para uma semana, dormida, comida, bebida, mini-bar cheio e utilização de todos os espaços do hotel (que ainda tem piscina, ginásio e SPA) à borla e, no fim, só tinha de escrever uma pequena estória localizada no hotel. Nem pensei muito. Claro que aceitei.
Mudei-me logo no dia seguinte ao convite. Um quarto grande, espaçoso. Num dos últimos andares. Uma vista deslumbrante sobre o mar. A casa-de-banho, enorme, com banheira de hidromassagem, chinelos e roupão de turco.
Os primeiros dois dias deixei-os ir ao sabor da maré, a apreciar os luxos que me tinham destinado. Refeições à la carte como se fossem buffet livre. Massagens com final feliz. Cocktails de todas as cores do arco-íris. Braçadas na piscina. Corridas na passadeira.
Experimentei de tudo o que havia para experimentar.
Observei os clientes. Os homens. As mulheres. Os filhos de algumas destas pessoas. Alguns solitários. Dois casais homossexuais. Quase todos com bastante dinheiro. Alguns, aparentemente, bastante felizes. Gente sem dramas. E, ao contrário do que estava à espera, não descortinava por ali nenhuma estória suculenta. Nem um caso de amantes a arrastar a sua traição palas salas do SPA. Nem uma filha adolescente, rebelde, ávida de atrair o desejo sexual dos velhotes agarrados à bengala mas de mente perversa. Ninguém fugido e procurado pela Interpol. Nenhum mercenário em semana de descanso. Nem um único caso de utilização de drogas pesadas ou de excesso de álcool.
Nada.
Ainda me tentei aproximar do grupo de trabalhadores para tentar vislumbrar algo pérfido. Queixas. Lutas. Mas nada.
Aquele hotel era a coisa mais tranquila do mundo, cheio de clientes calmos e empregados satisfeitos com o seu trabalho e os seus honorários.
Se estava contente pelo convite para usufruto do hotel por uma semana e pelo convite para a escrita de uma estória, por outro lado sentia-me desiludido pela vida demasiado tranquila que observava e pela minha incapacidade de sugar, dali, alguma coisa de útil.
Ao quinto dia de estadia decidi ter de tomar algumas providências. Algo teria de acontecer. Algo de estranho e bizarro teria de acontecer naquele hotel para que eu pudesse executar a segunda parte do acordo: escrever uma estória.
No dia seguinte, uma das camareiras, de origem brasileira, foi encontrada morta na sala de conferências do hotel. Estava sem roupa, tombada no chão, mesmo em frente ao quadro do Power Point. Tinha uma faca espetada na barriga, uma morte horrível, mas não havia sangue na sala. Nem a roupa da camareira. Fora morta noutro lado e levada para ali.
A minha estadia foi prolongada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/18]

Tenho Saudades da Feijoada à Transmontana da Minha Mãe

Apetecia-me comer uma feijoada à transmontana.
Não tenho os ingredientes aqui em casa. Nem há sítios, agora, a estas horas da noite, onde ir comer uma feijoada como deve ser. A feijoada, tal como o cozido à portuguesa e a dobrada, tem dias específicos para ser confeccionado nos restaurantes da cidade. Não se come feijoada quando se quer. Só quando há. Claro que se pode fazer em casa. Mas se tivessem provado a feijoada à transmontana da minha mãe, dificilmente comeriam outra feijoada qualquer feita por quem quer que fosse.
A feijoada à transmontana da minha mãe era a feijoada. Divina. E serve, servirá, de baliza para todas as outras feijoadas da minha vida.
Há alturas, contudo, em que comeria uma feijoada qualquer. À transmontana, à brasileira, de lata ou de pacote.
Nunca será a mesma coisa. Mas às vezes não importa. Às vezes não importa mesmo nada. Bastava eu ter uma lata de feijão cá por casa que a devorava. Devorava como se fosse uma feijoada. Não da minha mãe, claro.
Às vezes sabemos que as coisas não são o que queremos. E, no entanto, abrimos-nos a elas. É como mijar contra o vento. Sabemos ao que vamos. E, no entanto, lá vamos nós. Dar o peito às balas. Arriscar o couro e o cabelo. Esquecer e mergulhar.
Já fiz várias feijoadas. E não são más, as feijoadas que eu faço. Na verdade até são muito boas. Mas não são como a da minha mãe. E há muito que ela deixou de a fazer. Por isso nunca se degradou. A minha mãe deixou de a fazer, como deixou de fazer outras coisas boas que fazia, antes de conseguir deixar de fazer. Assim retenho tudo em bom na memória. Intacto. Como era. Como era quando ela fazia. E fazia sempre bem.
Lembro-me dos Domingos. Dos Domingos de ressaca. Dos Domingos em que entrava na cama de madrugada, já o galo tinha sido morto para a cabidela e o sol ia alto, na companhia de uma valente cabra, e era acordado poucas horas depois pela minha mãe a avisar que a feijoada estava na mesa. Não que o Domingo fosse o dia da feijoada. Não. A feijoada, como todas as comidas que a minha mãe fazia, era quando lhe apetecesse fazer. E aos Domingos apetecia-lhe muito fazer feijoada. Ou cozido à portuguesa. E então lá ia eu, em cuecas, sem ter tomado banho, cheio de ramelas, o cabelo desgrenhado, a boca empastelada, a cheirar a álcool, cigarros e transpiração, sentar-me à mesa, deixar-me inebriar pelo cheiro das carnes estufadas, as couves, o arroz branco que polvilhava sobre tudo aquilo e ouvir a minha mãe refilar comigo por ir para a mesa naqueles preparos. E eu dizia-lhe Oh, mãe! Mas somos só nós! e ela respondia-me Nem que fosses só tu! Isso não são maneiras! e eu pensava que mal ela sabia como era a minha vida quando ela não estava presente. A javardice que me guiava. Mas eu também não lhe dizia mais nada. A conversa sobre o estado em que ia para a mesa de Domingo comer a feijoada morria ali, porque tudo era vencido pelo prazer de estar a almoçar com o filho.
Depois que ela deixou de cozinhar estas coisas, eu tentei recuperar a sua mão. Mas nunca consegui. Uma vez até a convidei para uma feijoada feita por mim. Disse que tinha gostado muito. Mas acho que foi só por simpatia.
Mas aos Domingos, e quando durmo em casa dela, continuo a ir para a mesa saído directamente da cama. No Verão, até vou sem camisola. E ela continua a refilar comigo. Agora ainda diz Julgas que tens dezoito anos, não é? Mas não tens! Olha-me essa barriga!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/12]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]