Doce de Chila

Sentei-me na esplanada a beber um café e uma aguardente. O dia estava cinzento. Eu estava melancólico. O horizonte de prédios cinzentos não me recuperava. Descobri um pouco de verde com uma pequena árvore a fazer strip-tease e foquei-me nela. Tentei respirar-lhe o oxigénio. Abrir os pulmões.
Acendi um cigarro.
Ao meu lado, uma rapariga explicava a outra como se fazia doce de chila. A minha atenção foi deslocada do strip-tease da pequena árvore para a rapariga que dizia Agarras na abóbora chila e lavas com água. Mandas a abóbora ao chão para se partir. Se não se partir em muitos pedaços, ajudas a despedaçá-la com uma colher de pau. Depois de estar toda partida, tens de a limpar por dentro. Tirar as pevides. O ideal é usares uma faca de madeira, daquelas para se barrar manteiga em pão quente, acabado de fazer. Porque se usares facas de metal, a abóbora vai ficar preta. Se quiseres um doce de chila preto, usas a faca de metal. Mas se a queres com aquela cor dourada, brilhante, não uses metal. Depois voltas a lavar os pedaços em várias águas, até deixar de fazer espuma. Cozes num tacho, com água e sal, até a casca se separar, o mais possível, da polpa. Coas tudo. Depois, com as mãos, separas a polpa da casca. Puxas os fios da chila. A chila é muito fibrosa. Às vezes custa um bocado. Mas é esta textura que lhe dá a característica. Depois voltas a colocar outra vez a polpa da abóbora num tacho com água ao lume, juntamente com o açúcar, na mesma quantidade que a abóbora, paus de canela e cascas de limão. Isto é a gosto. Vais experimentando até que, um dia, consigas atingir o teu próprio gosto. Deixas ferver em lume brando até a preparação ficar em calda. Depois é guardar em recipientes onde possa ser preservado. Eu, normalmente, opto por frascos pequenos para que o doce não fique muito tempo aberto. Mas tu fazes como achares melhor. Tu é que sabes.
Eu já não aguentava mais aquela conversa. Até porque há várias maneiras de fazer o doce de chila. A minha avó fazia em tacho de barro e ficava três dias e três noites de molho. Mas cada um faz como achar melhor. Levantei-me, deitei fora a beata do cigarro, e fui ao interior do café. Olhei a montra. Bolas de Berlim. Pastéis de Nata. Pastéis de Tentúgal. Brisas do Liz. Duchaises. Éclairs. Nada disto. E depois vi. Uma tartelete de Chila. Um Pastel de Chila. E agora? A-na-ni-a-na-não-fi-cas-tu-e-eu-não! Olhe, se faz favor!
Voltei para a esplanada. Aguardei o meu bolo com chila. As raparigas do lado tinham-se ido embora. Despejei o resto da aguardente e esperei. Enquanto esperava ia salivando. Até que pensei Mas eu nem gosto de bolos!
Acendi outro cigarro.
Começou a chover. Molhou-me o cigarro. Deitei-o fora. Disse Foda-se!, mas baixinho. Para mim. Para a minha melancolia.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/20]

Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]

No Domingo de Ramos

Entrámos na semana da Páscoa. A Semana Santa. Hoje celebra-se a chegada de Cristo a Jerusalém. Hoje também joga o Benfica. Hoje também é o último dia do fim-de-semana. Amanhã, há regressos ao trabalho. Os miúdos ficam por casa. Não há escola. São as férias. Uma dor de cabeça para alguns pais. E para mim. Eu já não posso ir ao café. Há muita confusão. Muita miudagem. Demasiada brincadeira de miudagem à solta, para mim.
Sento-me no sofá com vontade de pensar em tudo isto. Depois lembro-me das notícias que, cada vez mais, declaram que isto, isto tudo, esta vida que vivemos, estas vidas que vemos viver, não passam de simulações.
Sento-me no sofá mas já não penso em nada. Olho para a televisão. Apanho, em directo, o Nuno Rogeiro a comentar a semana política. Arranco no zapping. Cada vez mais rápido. Estou a ficar bom nisto. Nisto de carregar com o dedo no botão a grande velocidade e ainda conseguir ver, pelo menos, um frame de cada canal. Por vezes ainda consigo ouvir uma sílaba. Um esgar. Uma onomatopeia.
Mando o comando contra a parede. Vejo-o estilhaçar-se. Ouço-o quebrar-se em milhares de pequenas peças.
A televisão fica ligada num canal qualquer. Nem sei o que é. Nem percebo o que vejo.
Levanto-me. Vou até à janela da cozinha. Penso Podia estar a chover. Mas não está. Não está a chover. Os gatos estão a dormir sobre o pequeno muro do alpendre. O cão anda lá em baixo. Levanta a perna em todas as árvores. Como é que tem mijo para tanta árvore?
Olho em volta. Vejo o maço de cigarros na mesa da cozinha. Acendo um cigarro. Saio para o alpendre. Ouço o som da televisão lá ao fundo na sala, enquanto saio. Os gatos abrem os olhos. Olham para mim. Mas ignoram-me.
Ainda não comi nenhuma fatia de folar. Nem um ovo de chocolate. Não gosto de chocolate. Devo ser a única pessoa no mundo que não gosta de chocolate. Mas gosto do folar. Sem ovo. Nunca percebi para que serve aquele ovo.
O sino na igreja começou a bater. Está a chamar para a missa. Será que vai muita gente? Se calhar, nesta altura, vai lá muita gente. É preciso reforçar os pedidos de ajuda ao altíssimo.
O cão viu-me. Corre na minha direcção. Salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Depois volta lá para baixo. Mais uma mija. Raios o partam.
Os gatos levantam a cabeça mas regressam ao sono.
Acabo o cigarro. Vou para mandar a beata ao chão e penso que depois sou eu que tenho de a apanhar. É melhor levá-la já para dentro de casa e colocá-la num cinzeiro.
Volto para dentro de casa. Penso Hoje é Domingo de Ramos. Entrámos na Semana Santa. Mas não sei o que quero dizer com isto.
Lembro-me que quebrei o comando da televisão. Penso Amanhã tenho de comprar um comando universal.
Apetecia-me beber uma aguardente, mas lembro-me que já acabou e ainda não comprei outra garrafa.
Volto para a sala. Quero sentar-me no sofá a olhar para a televisão e vou na esperança que o Nuno Rogeiro já tenha ido embora. Depois volto a lembrar-me que já não tenho comando. Vou olhar para o que estiver a dar. Ou então tenho que me levantar cada vez que queira mudar de canal. Decido que olho para um canal qualquer. Tenho a secreta esperança de conseguir adormecer no sofá, embalado por um qualquer canal televisivo que me consiga levar. Os Domingos de Ramos são bons para dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/14]

Assim-como-Assim

Ouço o vento assobiar lá fora. Vejo as árvores a dobrar. Os gatos fugiram para debaixo do carro e ainda lá estão. O carro abana. Não sei se aguenta. Não sei se os gatos estão a salvo. O cão enfiou-se dentro da casota, lá bem no fundo, e não lhe vejo focinho nem cauda.
A máquina do café parou de trabalhar. Vou buscar a chávena e volto para a janela. Acendo um cigarro. Não me atrevo a abrir a janela. O vento entrava-me cá em casa e dava cabo de mim.
Devia ir trabalhar. Sentar-me frente ao computador e escrever qualquer coisa. Nem que fosse só pela ginástica. Mental e manual. Mas não consigo largar a janela. Isto tudo fascina-me!
Estou na cozinha. Vejo o vento passear através da janela da cozinha. A mesa e as cadeiras de plástico desapareceram. O guarda-sol também. Estava fechado. Mas desapareceu. Voou. É uma arma. Tem ponta. Espeta. Espero que não aconteça nada. Nada pior do que o que está a acontecer.
Uma vez li uma estória de um gajo que viu uma vaca a voar. E depois matou a mulher. Também li que uma vez, uma vaca caiu do céu e matou um pescador no mar do Japão. Parece que é verdade. Um avião russo transportava vacas, houve um problema com a porta da carga e as vacas caíram no mar durante o voo. Uma delas caiu, por azar, na cabeça de um pobre pescador que estava em alto mar, num barco de pesca. Loustal fez uma banda-desenhada curta sobre esta pequena história. Uma preciosidade. Tenho-a para aí. Algures. Não sei onde. Talvez num caixote.
Como é que estará lá do outro lado da casa?
Saio da cozinha. Faço o corredor. Vou à janela da sala. Olho para fora. Para o alpendre. Para o quintal. Para a estrada lá ao fundo. As cadeiras do alpendre também desapareceram. As árvores perdem as folhas. Vou ter de limpar tudo. Não há um único carro a passar na estrada. Ninguém vai trabalhar, hoje. Está tudo em casa. A ver se aguenta. As famílias abraçadas. A tentar de sobreviver. A rezar. À espera de um milagre.
Tão melodramático que estou! Não tarda o vento pára. E a vida continua o seu curso normal. Mas isto também é o curso normal. Que raio de solilóquio, o meu. Não tenho mais nada que fazer? Bem, na realidade, não.
Espero. É o que tenho que fazer. Esperar.
Vou beber outro café. Fumar outro cigarro. Continuar a olhar o mundo a desfazer-se. Ver se os gatos aguentam. E o cão. Se calhar devia trazê-los cá para casa.
E a casa? Vai aguentar? E se não aguentar, o Loustal pode fazer uma banda-desenhada sobre o que acontecer a esta casa e a mim. A grafite. Com aquele traço rápido e sujo que ele usa quando trabalha a preto e branco. Como se fosse uma experimentação. Um croquis. Hum!…
Depois do café vou passar à aguardente. Assim-como-assim…

[escrito directamente no facebook em 2019/04/03]

Acordado às Quatro da Manhã

Quatro da manhã.
Parece o início de uma música do António Manuel Ribeiro. Mas não é. São mesmo quatro da manhã. E eu estou acordado.
Não consigo pregar olho. Não sei porquê.
Viro-me para um lado. Viro-me para o outro. Suspiro. Acendo a luz. Bebo água. Se calhar devia beber uma aguardente.
Volto a deitar-me.
Ouço o vento lá fora. A chuva a bater leve nos vidros da janela. Os passos dos cães no soalho. Também não conseguem dormir. Andam aí pela casa à procura do sono. Espero que o encontrem. Dêem três voltas sobre si e enrolem-se em cima de um tapete.
Ligo o telemóvel. Vejo as notícias. Ainda não começou a guerra. Espero que consigamos chegar ao Verão. Gostava de mergulhar mais uma vez no Atlântico.
Daqui a nada tenho de me levantar. O melhor é já não adormecer, garantir que me levanto e mantenho certas as obrigações.
Volto a olhar para as notícias. Ainda não começou a guerra mas as coisas estão complicadas. Vai ser muito difícil chegar ao Verão. É melhor ir amanhã à praia. Ganhar coragem e ir ao mar. Se não, pode ser tarde demais.
Acho mesmo melhor ir já.
De qualquer forma não consigo dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/04]